A Chave para a Teosofia

[Ilustração]

A CHAVE PARA A TEOSOFIA

SENDO _UMA EXPOSIÇÃO CLARA, NA FORMA DE PERGUNTA E RESPOSTA_

DA ÉTICA, CIÊNCIA E FILOSOFIA

PARA O ESTUDO DAS QUAIS A SOCIEDADE TEOSÓFICA FOI FUNDADA

POR H. P. BLAVATSKY

[Reimpresso Literalmente da Edição Original publicada pela primeira vez em 1889.]

THE UNITED LODGE OF THEOSOPHISTS
LOS ANGELES, CALIFÓRNIA

_Dedicado_

por

“_H. P. B._”

_A todos os seus Alunos_

_para que_

_Eles possam Aprender e Ensinar_
_por sua vez_

ÍNDICE

SEÇÃO I. Página
TEOSOFIA E A SOCIEDADE TEOSÓFICA:
O Significado do Nome
A Política da Sociedade Teosófica
A Religião-Sabedoria Esotérica em Todas as Eras
Teosofia não é Budismo

SEÇÃO II. TEOSOFIA EXOTÉRICA E ESOTÉRICA:
O que a Sociedade Teosófica Moderna não é
Teosofistas e Membros da “T.S.”
A Diferença entre Teosofia e Ocultismo
A Diferença entre Teosofia e Espiritualismo
Por que a Teosofia é aceita?

SEÇÃO III.

O SISTEMA DE TRABALHO DA T.S.:
Os Objetivos da Sociedade
A Origem Comum do Homem
Nossos Outros Objetivos
Sobre a Sacralidade do Compromisso

SEÇÃO IV. AS RELAÇÕES DA SOCIEDADE TEOSÓFICA COM A TEOSOFIA:
Sobre o Autoaperfeiçoamento
O Abstrato e o Concreto

SEÇÃO V. OS ENSINAMENTOS FUNDAMENTAIS DA TEOSOFIA:
Sobre Deus e a Oração
É Necessário Orar?
A Oração Mata a Autoconfiança
Sobre a Origem da Alma Humana
Os Ensinamentos Budistas sobre o Acima

SEÇÃO VI. ENSINAMENTOS TEOSÓFICOS SOBRE A NATUREZA E O HOMEM:
     A Unidade de Tudo em Tudo
     Evolução e Ilusão
     A Constituição Septenária do nosso Planeta
     A Natureza Septenária do Homem
     A Distinção entre Alma e Espírito
     Os Ensinamentos Gregos

SEÇÃO VII.

SOBRE OS VÁRIOS ESTADOS PÓS-MORTEM:
     O Homem Físico e o Homem Espiritual
     Nossa Recompensa e Castigo Eternos; e sobre o Nirvana
     Sobre os Vários “Princípios” no Homem

SEÇÃO VIII.

SOBRE A REENCARNAÇÃO OU RENASCIMENTO:
     O que é Memória segundo o Ensinamento Teosófico?
     Por que não nos Lembramos de nossas Vidas Passadas?
     Sobre Individualidade e Personalidade
     Sobre a Recompensa e o Castigo do Ego

SEÇÃO IX.
SOBRE O KAMA-LOKA E O DEVACHAN:
     Sobre o Destino dos “Princípios” Inferiores
     Por que os Teosofistas não acreditam no Retorno de “Espíritos” Puros
     Algumas Palavras sobre os Skandhas
     Sobre a Consciência Pós-Mortem e Pós-Natal
     O que realmente se quer dizer com Aniquilação
     Palavras Definidas para Coisas Definidas

SEÇÃO X.
SOBRE A NATUREZA DO NOSSO PRINCÍPIO PENSANTE:
     O Mistério do Ego
     A Natureza Complexa do Manas
     A Doutrina é Ensinada no Evangelho de São João

SEÇÃO XI.
SOBRE OS MISTÉRIOS DA REENCARNAÇÃO:
     Renascimentos Periódicos
     O que é Karma?
     Quem são Aqueles que Sabem?
     A Diferença entre Fé e Conhecimento; ou,
       Fé Cega e Racional
     Deus tem o Direito de Perdoar?

SEÇÃO XII.

O QUE É TEOSOFIA PRÁTICA?
     Dever
     As Relações da S.T. com as Reformas Políticas
     Sobre o Auto-Sacrifício
     Sobre a Caridade
     Teosofia para as Massas
     Como os Membros podem Ajudar a Sociedade
     O que um Teosofista não deve fazer

SEÇÃO XIII.

SOBRE OS EQUÍVOCOS ACERCA DA SOCIEDADE TEOSÓFICA:
     Teosofia e Ascetismo
     Teosofia e Casamento
     Teosofia e Educação
     Por que, então, há tanto Preconceito contra a S.T.?
     A Sociedade Teosófica é um Empreendimento Lucrativo?
     O Pessoal de Trabalho da S.T.

SEÇÃO XIV.

OS “MAHATMAS TEOSÓFICOS”:
     São Eles “Espíritos de Luz” ou “Duendes Malditos”?
     O Abuso de Nomes e Termos Sagrados

CONCLUSÃO.

O Futuro da Sociedade Teosófica

=PREFÁCIO=

O propósito deste livro está exatamente expresso em seu título, “A CHAVE PARA A TEOSOFIA”, e necessita apenas de poucas palavras de explicação.

Não é um livro-texto completo ou exaustivo de Teosofia, mas apenas uma chave para abrir a porta que conduz ao estudo mais profundo.

Ela traça as linhas gerais da Religião da Sabedoria e explica seus princípios fundamentais; ao mesmo tempo, respondendo às várias objeções levantadas pelo inquiridor ocidental médio, e esforçando-se por apresentar conceitos desconhecidos de forma tão simples e em linguagem tão clara quanto possível.

Esperar que ela consiga tornar a Teosofia inteligível sem esforço mental por parte do leitor seria exigir demais; mas espera-se que a obscuridade ainda restante seja do pensamento, não da linguagem; devida à profundidade, não à confusão.

Para os mentalmente preguiçosos ou obtusos, a Teosofia deve permanecer um enigma; pois no mundo mental, como no mundo espiritual, cada homem deve progredir por seus próprios esforços.

O escritor não pode pensar pelo leitor, nem este estaria em melhor situação se tal pensamento vicário fosse possível.

A necessidade de uma exposição como a presente há muito é sentida entre os interessados na Sociedade Teosófica e em seu trabalho, e espera-se que ela forneça informações, tão livres quanto possível de tecnicidades, a muitos cuja atenção foi despertada, mas que, por enquanto, estão apenas intrigados e não convencidos.

Algum cuidado foi tomado em desembaraçar parte do que é verdadeiro do que é falso nos ensinamentos espiritualistas sobre a vida pós-morte, e em mostrar a verdadeira natureza dos fenômenos espiritualistas.

Explicações anteriores de natureza semelhante atraíram muita ira sobre a devotada cabeça do escritor; os espiritualistas, como muitos outros, preferindo acreditar no que é agradável em vez do que é verdadeiro, e ficando muito zangados com qualquer um que destrua uma ilusão agradável.

Durante o último ano, a Teosofia tem sido o alvo de todas as setas envenenadas do Espiritualismo, como se os possuidores de meia verdade sentissem mais antagonismo pelos possuidores da verdade inteira do que aqueles que não tinham parte alguma para ostentar.

Muito sinceros agradecimentos são devidos pelo autor a muitos teosofistas que enviaram sugestões e perguntas, ou de outra forma contribuíram com ajuda durante a escrita deste livro.

A obra será mais útil graças à sua ajuda, e essa será a sua melhor recompensa.

=H. P. B.=

=A CHAVE PARA A TEOSOFIA.=


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=I. TEOSOFIA E A SOCIEDADE TEOSÓFICA.=
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=O SIGNIFICADO DO NOME.=

=Perguntador=

A Teosofia e suas doutrinas são frequentemente referidas como uma religião nova e extravagante. É uma religião?

=Teosofista=

Não é. Teosofia é Conhecimento Divino ou Ciência.

=Perguntador=

Qual é o verdadeiro significado do termo?

=Teosofista=

“Sabedoria Divina” (Theosophia) ou Sabedoria dos deuses, assim como (theogonia), genealogia dos deuses.

A palavra significa um deus em grego, um dos seres divinos, certamente não “Deus” no sentido atribuído ao termo em nossos dias.

Portanto, não é “Sabedoria de Deus”, como traduzem alguns, mas _Sabedoria Divina_, tal como aquela possuída pelos deuses.

O termo tem muitos milhares de anos.

=Perguntador=

Qual é a origem do nome?

=Teosofista=

Ele nos vem dos filósofos alexandrinos, chamados amantes da verdade, Filaleteus, de (phil) “amante” e (aletheia) “verdade”. O nome Teosofia data do terceiro século de nossa era, e começou com Amônio Sacas e seus discípulos,[1] que iniciaram o Sistema Teosófico Eclético.

=Perguntador=

Qual era o objetivo desse sistema?

=Teosofista=

Em primeiro lugar, inculcar certas grandes verdades morais em seus discípulos e em todos aqueles que eram “amantes da verdade”. Daí o lema adotado pela Sociedade Teosófica: “Não há religião superior à verdade”.[2] O principal objetivo dos Fundadores da Escola Teosófica Eclética era um dos três objetivos de sua sucessora moderna, a Sociedade Teosófica, a saber: reconciliar todas as religiões, seitas e nações sob um sistema comum de ética, baseado em verdades eternas.

=Perguntador=

O que você tem para mostrar que isso não é um sonho impossível; e que todas as religiões do mundo _estão_ baseadas na mesma e única verdade?

=Teosofista=

Seu estudo comparativo e análise.

A “Religião-Sabedoria” era una na antiguidade; e a identidade da filosofia religiosa primitiva nos é provada pelas doutrinas idênticas ensinadas aos Iniciados durante os MISTÉRIOS, uma instituição outrora universalmente difundida.

“Todos os antigos cultos indicam a existência de uma única Teosofia anterior a eles.

A chave que deve abrir um deve abrir todos; caso contrário, não pode ser a chave certa.” (Eclét.

Filo.)

=A POLÍTICA DA SOCIEDADE TEOSÓFICA.=

=Perguntador=

Nos dias de Amônio, havia várias grandes religiões antigas, e inúmeras eram as seitas somente no Egito e na Palestina.

Como ele poderia reconciliá-las?

=Teosofista=

Fazendo aquilo que novamente tentamos fazer agora.

Os neoplatônicos eram um grande corpo e pertenciam a diversas filosofias religiosas[3]; assim também os nossos teosofistas.

Naqueles dias, o judeu Aristóbulo afirmava que a ética de Aristóteles representava os ensinamentos _esotéricos_ da Lei de Moisés; Fílon, o Judeu, esforçava-se por reconciliar o _Pentateuco_ com a filosofia pitagórica e platônica; e Josefo provou que os essênios do Carmelo eram simplesmente os copistas e seguidores dos Terapeutas egípcios (os curadores). Assim é em nossos dias.

Podemos mostrar a linhagem de descendência de toda religião cristã, como de toda seita, por menor que seja.

Estas últimas são os pequenos ramos ou brotos que crescem nos galhos maiores; mas brotos e galhos nascem do mesmo tronco — a RELIGIÃO-SABEDORIA.

Provar isso era o objetivo de Amônio, que se esforçava por induzir gentios e cristãos, judeus e idólatras, a deixarem de lado suas contendas e disputas, lembrando apenas que todos possuíam a mesma verdade sob vários invólucros, e que todos eram filhos de uma mãe comum.[4] Este é também o objetivo da Teosofia.

=Perguntador=

Quais são vossas autoridades para afirmar isso sobre os antigos teosofistas de Alexandria?

=Teosofista=

Um número quase incontável de escritores bem conhecidos.

Mosheim, um deles, diz que:—

“Amônio ensinava que a religião da multidão caminhava de mãos dadas com a filosofia, e com ela partilhara o destino de ser, aos poucos, corrompida e obscurecida por meras concepções humanas, superstições e mentiras; que deveria, portanto, ser trazida de volta à sua pureza original, purgando-a dessa escória e expondo-a segundo princípios filosóficos; e que tudo o que Cristo tinha em vista era reinstaurar e restaurar, em sua integridade primitiva, a sabedoria dos antigos; reduzir a limites o domínio universalmente prevalecente da superstição; e, em parte, corrigir e, em parte, exterminar os vários erros que haviam encontrado caminho nas diferentes religiões populares.”

Isto, novamente, é precisamente o que os teosofistas modernos dizem.

Somente que, enquanto o grande Filalético era apoiado e ajudado na política que seguia por dois Padres da Igreja, Clemente e Atenágoras, por todos os eruditos rabinos da Sinagoga, da Academia e dos Bosques, e enquanto ensinava uma doutrina comum para todos, nós, seus seguidores na mesma linha, não recebemos reconhecimento algum, mas, ao contrário, somos difamados e perseguidos.

Pessoas de 1.500 anos atrás são, portanto, demonstradas como mais tolerantes do que são neste século _esclarecido_.

=Perguntador=

Foi ele encorajado e apoiado pela Igreja porque, apesar de suas heresias, Amônio ensinava o cristianismo e era cristão?

=Teosofista=

De modo algum.

Ele nasceu cristão, mas nunca aceitou o cristianismo da Igreja.

Como dito sobre ele pelo mesmo escritor:

“Ele tinha apenas que propor seus ensinamentos de acordo com os antigos pilares de Hermes, que Platão e Pitágoras conheceram antes, e a partir deles constituíram sua filosofia.

Encontrando o mesmo no prólogo do Evangelho segundo São João, ele muito apropriadamente supôs que o propósito de Jesus era restaurar a grande doutrina da sabedoria em sua integridade primitiva.

As narrativas da Bíblia e as histórias dos deuses ele considerava alegorias ilustrativas da verdade, ou então fábulas a serem rejeitadas.” Além disso, como diz a _Edinburgh Encyclopedia_, “ele reconhecia que Jesus Cristo era um excelente _homem_ e o ‘amigo de Deus’, mas alegava que não era seu desígnio abolir inteiramente o culto aos demônios (deuses), e que sua única intenção era purificar a religião antiga.”

=A RELIGIÃO DA SABEDORIA ESOTÉRICA EM TODAS AS ERAS.=

=Perguntador=

Já que Amônio nunca escreveu nada, como se pode ter certeza de que tais eram seus ensinamentos?

=Teosofista=

Nem Buda, Pitágoras, Confúcio, Orfeu, Sócrates, ou mesmo Jesus, deixaram quaisquer escritos.

No entanto, a maioria deles são personagens históricos, e seus ensinamentos todos sobreviveram.

Os discípulos de Amônio (entre os quais Orígenes e Herênio) escreveram tratados e explicaram sua ética.

Certamente estes últimos são tão históricos, se não mais, do que os escritos apostólicos.

Além disso, seus pupilos—Orígenes, Plotino e Longino (conselheiro da famosa rainha Zenóbia)—todos deixaram registros volumosos do Sistema Filalético—até onde, de qualquer forma, sua profissão pública de fé era conhecida, pois a escola era dividida em ensinamentos exotéricos e _esotéricos_.

=Perguntador=

Como os últimos princípios chegaram aos nossos dias, já que você sustenta que o que é propriamente chamado de RELIGIÃO DA SABEDORIA era esotérico?

=Teosofista=

A RELIGIÃO DA SABEDORIA foi sempre una e, sendo a última palavra do possível conhecimento humano, foi, portanto, cuidadosamente preservada.

Isso precedeu por longas eras os Teosofistas Alexandrinos, alcançou os modernos, e sobreviverá a toda outra religião e filosofia.

=Perguntador=

Onde e por quem foi assim preservado?

=Teosofista=

Entre Iniciados de todos os países; entre profundos buscadores da verdade—seus discípulos; e nas partes do mundo onde tais tópicos sempre foram mais valorizados e perseguidos: na Índia, Ásia Central e Pérsia.

=Perguntador=

Pode dar-me algumas provas do seu esoterismo?

=Teosofista=

A melhor prova que você pode ter do fato é que todo culto religioso antigo, ou melhor, filosófico, consistia em um ensinamento esotérico ou secreto, e um culto exotérico (público exterior).

Além disso, é um fato bem conhecido que os MISTÉRIOS dos antigos compreendiam, em cada nação, os "maiores" (secretos) e "menores" (públicos) MISTÉRIOS—_por exemplo_, nas célebres solenidades chamadas _Eleusínia_, na Grécia.

Desde os Hierofantes de Samotrácia, Egito, e os brâmanes iniciados da Índia antiga, até os rabinos hebreus posteriores, todos preservaram, por medo de profanação, suas crenças reais _bona fide_ em segredo.

Os rabinos judeus chamavam sua série religiosa secular de _Mercavah_ (o corpo exterior), "o veículo", ou, _a cobertura que contém a alma oculta_—_isto é_, seu mais alto conhecimento secreto.

Nenhuma das nações antigas jamais transmitiu através de seus sacerdotes seus verdadeiros segredos filosóficos às massas, mas concedeu a estas apenas as cascas.

O Budismo do Norte tem seu "veículo maior" e "menor", conhecidos como _Mahayana_, a escola esotérica, e _Hinayana_, a escola exotérica.

Nem você pode culpá-los por tal sigilo; pois certamente você não pensaria em alimentar seu rebanho de ovelhas com dissertações eruditas sobre botânica em vez de grama? Pitágoras chamou sua _Gnosis_ de "o conhecimento das coisas que são", ou    , e preservou esse conhecimento apenas para seus discípulos comprometidos: para aqueles que podiam digerir tal alimento mental e sentir-se satisfeitos; e ele os comprometeu ao silêncio e ao sigilo.

Alfabetos ocultos e cifras secretas são o desenvolvimento dos antigos escritos _hieráticos_ egípcios, cujo segredo era, nos dias antigos, posse apenas dos Hierogrammatistas, ou sacerdotes egípcios iniciados.

Amônio Sacas, como nos contam seus biógrafos, obrigava seus discípulos, por juramento, a não divulgar _suas doutrinas superiores_ exceto àqueles que já tivessem sido instruídos no conhecimento preliminar e que também estivessem ligados por um compromisso.

Finalmente, não encontramos o mesmo até mesmo no cristianismo primitivo, entre os gnósticos, e mesmo nos ensinamentos de Cristo? Não falava ele às multidões em parábolas que tinham um duplo sentido, explicando suas razões apenas aos seus discípulos? "A vós", diz ele, "é dado conhecer os mistérios do reino dos céus; mas àqueles que estão de fora, todas essas coisas são feitas em parábolas" (Marcos iv. 11). "Os essênios da Judeia e do Carmelo faziam distinções semelhantes, dividindo seus adeptos em neófitos, irmãos e os _perfeitos_, ou os iniciados" (Eclec. Phil.). Exemplos poderiam ser trazidos de todos os países para esse efeito.

=Perguntador=

Pode-se alcançar a "Sabedoria Secreta" simplesmente pelo estudo? As enciclopédias definem _Teosofia_ mais ou menos como o faz o Dicionário de Webster, _i.e._, como "_suposto intercâmbio com Deus e espíritos superiores, e consequente obtenção de conhecimento sobre-humano por meios físicos e processos químicos_". É assim?

=Teosofista=

Creio que não.

Tampouco há lexicógrafo capaz de explicar, seja a si mesmo ou a outros, como o conhecimento _sobre-humano_ pode ser alcançado por processos _físicos_ ou químicos.

Se Webster tivesse dito "por processos _metafísicos_ e alquímicos", a definição seria aproximadamente correta: como está, é absurda.

Os teosofistas antigos afirmavam, e os modernos também, que o infinito não pode ser conhecido pelo finito—_i.e._, sentido pelo eu finito—mas que a essência divina poderia ser comunicada ao Eu Espiritual superior em um estado de êxtase.

Essa condição dificilmente pode ser alcançada, como o _hipnotismo_, por "meios físicos e químicos".

=Perguntador=

Qual é a sua explicação para isso?

=Teosofista=

O verdadeiro êxtase foi definido por Plotino como "a libertação da mente de sua consciência finita, tornando-se una e identificada com o infinito". Essa é a condição mais elevada, diz o Prof. Wilder, mas não de duração permanente, e é alcançada apenas por muito _muito_ poucos.

É, de fato, idêntico àquele estado que é conhecido na Índia como _Samadhi_. Este é praticado pelos Yogis, que o facilitam fisicamente pela maior abstinência em comida e bebida, e mentalmente por um incessante esforço para purificar e elevar a mente.

A meditação é a oração silenciosa e _não proferida_, ou, como Platão a expressou, "a ardente conversão da alma em direção ao divino; não para pedir algum bem particular (como no significado comum de oração), mas pelo bem em si — pelo universal Bem Supremo" do qual somos uma parte na terra, e da essência do qual todos emergimos.

Portanto, acrescenta Platão, "permanece em silêncio na presença dos _seres divinos_, até que eles removam as nuvens de teus olhos e te capacitem a ver pela luz que emana deles próprios, não o que te parece bom, mas o que é intrinsecamente bom."[5]

=Perguntador=

Então, a Teosofia não é, como alguns sustentam, um esquema recentemente concebido?

=Teosofista=

Somente pessoas ignorantes podem assim se referir a ela. Ela é tão antiga quanto o mundo, em seus ensinamentos e ética, se não no nome, sendo também o sistema mais amplo e mais universal entre todos.

=Perguntador=

Como se explica, então, que a Teosofia tenha permanecido tão desconhecida para as nações do Hemisfério Ocidental? Por que haveria ela de ser um livro selado para raças reconhecidamente as mais cultas e avançadas?

=Teosofista=

Acreditamos que houve nações tão cultas nos dias antigos e certamente mais espiritualmente "avançadas" do que nós.

Mas há várias razões para essa ignorância voluntária.

Uma delas foi dada por São Paulo aos cultos atenienses — uma perda, por longos séculos, da visão espiritual real, e mesmo do interesse, devido à sua demasiada devoção às coisas dos sentidos e à sua longa escravidão à letra morta do dogma e do ritualismo.

Mas a razão mais forte para isso reside no fato de que a Teosofia real sempre foi mantida secreta.

=Perguntador=

Você apresentou provas de que tal sigilo existiu; mas qual foi a causa real para isso?

=Teosofista=

As causas para isso foram: _Primeiro_, a perversidade da natureza humana média e o seu egoísmo, sempre tendendo à gratificação dos desejos _pessoais_ em detrimento dos vizinhos e parentes próximos.

Tais pessoas nunca poderiam ser confiadas com os segredos _divinos_.

_Segundo_, a sua falta de confiabilidade em preservar o conhecimento sagrado e divino da profanação.

É este último que levou à perversão das mais sublimes verdades e símbolos, e à gradual transformação das coisas espirituais em imagens antropomórficas, concretas e grosseiras — em outras palavras, ao rebaixamento da ideia de Deus e à idolatria.

=A TEOSOFIA NÃO É O BUDISMO.=

=Perguntador=

Fala-se frequentemente de vós como “Budistas Esotéricos”. Sois então todos seguidores de Gautama Buda?

=Teosofista=

Não mais do que os músicos são todos seguidores de Wagner. Alguns de nós somos budistas por religião; no entanto, há muito mais hindus e brâmanes do que budistas entre nós, e mais europeus e americanos de nascimento cristão do que budistas _convertidos_. O erro surgiu de um mal-entendido sobre o verdadeiro significado do título da excelente obra do Sr. Sinnett, “Budismo Esotérico”, cuja última palavra deveria ter sido grafada _com um, em vez de dois, d’s_, pois então _Budismo_ teria significado o que se pretendia, meramente “Sabedoria-ismo” (Bodha, bodhi, “inteligência”, “sabedoria”) em vez de _Budismo_, a filosofia religiosa de Gautama. A Teosofia, como já foi dito, é a RELIGIÃO-SABEDORIA.

=Perguntador=

Qual é a diferença entre o Budismo, a religião fundada pelo Príncipe de Kapilavastu, e o _Budismo_, o “Sabedoria-ismo” que dizeis ser sinônimo de Teosofia?

=Teosofista=

Exatamente a mesma diferença que existe entre os ensinamentos secretos de Cristo, que são chamados “os mistérios do Reino dos Céus”, e o posterior ritualismo e teologia dogmática das Igrejas e Seitas. _Buda_ significa o “Iluminado” por _Bodha_, ou compreensão, Sabedoria. Isso passou, por completo, para os ensinamentos _esotéricos_ que Gautama transmitiu apenas aos seus _Arhats_ escolhidos.

=Perguntador=

Mas alguns orientalistas negam que Buda tenha jamais ensinado qualquer doutrina esotérica?

=Teosofista=

Bem poderiam negar que a Natureza tenha segredos ocultos para os homens de ciência. Mais adiante provarei isso pela conversa de Buda com seu discípulo Ananda. Seus ensinamentos esotéricos eram simplesmente a _Gupta Vidya_ (conhecimento secreto) dos antigos brâmanes, cuja chave seus sucessores modernos, com poucas exceções, perderam completamente. E essa _Vidya_ passou para o que hoje é conhecido como os ensinamentos _internos_ da escola _Mahayana_ do Budismo setentrional. Aqueles que o negam são simplesmente pretensiosos ignorantes do orientalismo. Aconselho-vos a ler o Rev.

O _Chinese Buddhism_ do Sr. Edkins—especialmente os capítulos sobre as escolas e ensinamentos exotéricos e _esotéricos_—e então compare o testemunho de todo o mundo antigo sobre o assunto.

=Perguntador=

Mas não são as éticas da Teosofia idênticas às ensinadas por Buda?

=Teosofista=

Certamente, porque essas éticas são a alma da Religião da Sabedoria, e foram outrora propriedade comum dos iniciados de todas as nações. Mas Buda foi o primeiro a incorporar essas éticas elevadas em seus ensinamentos públicos, e a torná-las o fundamento e a própria essência de seu sistema público. É nisto que reside a imensa diferença entre o Budismo exotérico e todas as outras religiões. Pois enquanto em outras religiões o ritualismo e o dogma ocupam o primeiro e mais importante lugar, no Budismo são as éticas que sempre foram as mais enfatizadas. Isso explica a semelhança, chegando quase à identidade, entre as éticas da Teosofia e as da religião de Buda.

=Perguntador=

Há grandes pontos de diferença?

=Teosofista=

Uma grande distinção entre a Teosofia e o Budismo _exotérico_ é que este último, representado pela Igreja do Sul, nega inteiramente (a) a existência de qualquer Divindade, e (b) qualquer vida consciente _pós-morte_, ou mesmo qualquer individualidade sobrevivente autoconsciente no homem. Tal é, pelo menos, o ensinamento da seita siamesa, agora considerada como a forma _mais pura_ do Budismo exotérico. E assim é, se nos referirmos apenas aos ensinamentos públicos de Buda; a razão para tal reticência de sua parte darei mais adiante. Mas as escolas da Igreja Budista do Norte, estabelecidas nos países para os quais seus Arhats iniciados se retiraram após a morte do Mestre, ensinam tudo o que agora é chamado de doutrinas teosóficas, porque fazem parte do conhecimento dos iniciados—provando assim como a verdade foi sacrificada à letra morta pela ortodoxia demasiado zelosa do Budismo do Sul. Mas quão mais grandioso e mais nobre, filosófico e científico, mesmo em sua letra morta, é esse ensinamento do que o de qualquer outra Igreja ou religião. Contudo, a Teosofia não é o Budismo.

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Também chamados de Analogeticistas. Como explicado pelo Prof. Alex.

Wilder, F.T.S., em sua "Filosofia Eclética", foram assim chamados por sua prática de interpretar todas as lendas e narrativas sagradas, mitos e mistérios, por uma regra ou princípio de analogia e correspondência: de modo que eventos relatados como tendo ocorrido no mundo externo eram considerados como expressando operações e experiências da alma humana.

Eles também foram denominados neoplatônicos.

Embora a Teosofia, ou o sistema teosófico eclético, seja geralmente atribuída ao terceiro século, contudo, se Diógenes Laércio for digno de crédito, sua origem é muito mais antiga, pois ele atribuiu o sistema a um sacerdote egípcio, Pot-Amun, que viveu nos primeiros dias da dinastia ptolomaica.

O mesmo autor nos diz que o nome é copta e significa alguém consagrado a Amun, o Deus da Sabedoria.

Teosofia é o equivalente de Brahma-Vidya, conhecimento divino.

[2] A Teosofia Eclética foi dividida sob três cabeças: (1) Crença em uma única Divindade absoluta, incompreensível e suprema, ou essência infinita, que é a raiz de toda a natureza e de tudo o que é, visível e invisível.

(2) Crença na natureza eterna e imortal do homem, porque, sendo uma radiação da Alma Universal, é de uma essência idêntica a ela. (3) _Teurgia_, ou "obra divina", ou _produzir uma obra de deuses_; de _theoi_, "deuses", e _ergein_, "trabalhar". O termo é muito antigo, mas, como pertence ao vocabulário dos MISTÉRIOS, não estava em uso popular.

Era uma crença mística—comprovada na prática por adeptos e sacerdotes iniciados—de que, ao tornar-se tão puro quanto os seres incorpóreos—_isto é_, retornando à pureza original da própria natureza—o homem poderia mover os deuses a lhe transmitir os Mistérios Divinos, e até fazê-los tornar-se ocasionalmente visíveis, seja subjetiva ou objetivamente.

Era o aspecto transcendental do que hoje se chama Espiritualismo; mas, tendo sido abusado e mal compreendido pelo povo, passou a ser considerado por alguns como necromancia e foi geralmente proibido.

Uma prática deturpada da teurgia de Jâmblico ainda perdura na magia cerimonial de alguns cabalistas modernos.

A Teosofia moderna evita e rejeita ambos os tipos de magia e "necromancia" por serem muito perigosos.

A verdadeira teurgia _divina_ requer uma pureza e santidade de vida quase sobre-humanas; caso contrário, degenera em mediunidade ou magia negra.

Os discípulos imediatos de Amônio Sacas, que era chamado _Theodidaktos_, "instruído por Deus"—tais como Plotino e seu seguidor Porfírio—rejeitaram a teurgia a princípio, mas foram finalmente reconciliados com ela através de Jâmblico, que escreveu uma obra nesse sentido intitulada "De Mysteriis", sob o nome de seu próprio mestre, um famoso sacerdote egípcio chamado Abammon.

Amônio Sacas era filho de pais cristãos e, tendo sido repelido desde a infância pelo cristianismo espiritualista dogmático, tornou-se neoplatônico e, como J. Boehme e outros grandes videntes e místicos, diz-se que recebeu sabedoria divina revelada em sonhos e visões.

Daí seu nome de _Theodidaktos_. Ele resolveu reconciliar todos os sistemas de religião e, demonstrando sua origem idêntica, estabelecer um credo universal baseado na ética.

Sua vida foi tão irrepreensível e pura, seu saber tão profundo e vasto, que vários Padres da Igreja foram seus discípulos secretos.

Clemente de Alexandria fala muito bem dele.

Plotino, o "São João" de Amônio, foi também um homem universalmente respeitado e estimado, e de profundo saber e integridade.

Aos trinta e nove anos de idade, acompanhou o imperador romano Gordiano e seu exército ao Oriente, para ser instruído pelos sábios da Báctria e da Índia.

Ele tinha uma Escola de Filosofia em Roma.

Porfírio, seu discípulo, cujo nome real era Malek (um judeu helenizado), reuniu todos os escritos de seu mestre.

Porfírio foi ele próprio um grande autor e deu uma interpretação alegórica a algumas partes dos escritos de Homero.

O sistema de meditação a que os Filaleteus recorriam era o êxtase, um sistema semelhante à prática do Ioga indiano.

O que se sabe da Escola Eclética deve-se a Orígenes, Longino e Plotino, os discípulos imediatos de Amônio.—(_Vide Filosofia Eclética_, de A. Wilder).

[3] Foi sob Filadelfo que o judaísmo se estabeleceu em Alexandria, e imediatamente os mestres helênicos tornaram-se os rivais perigosos do Colégio de Rabinos da Babilônia.

Como o autor de "Filosofia Eclética" observa muito pertinentemente: "Os sistemas búdico, védico e magiano foram expostos juntamente com as filosofias da Grécia naquele período."

Não era de admirar que homens ponderados supusessem que a contenda de palavras deveria cessar, e considerassem possível extrair um sistema harmonioso desses diversos ensinamentos.... Pannus, Atenágoras e Clemente eram profundamente instruídos na filosofia platônica e compreendiam sua unidade essencial com os sistemas orientais.”

[4] Diz Mosheim sobre Amônio: “Concebendo que não apenas os filósofos da Grécia, mas também todos os das diferentes nações bárbaras, estavam perfeitamente em uníssono uns com os outros em relação a todo ponto essencial, ele fez questão de expor os milhares de princípios de todas essas várias seitas de modo a mostrar que todos se originaram de uma mesma fonte e tenderam a um mesmo fim.” Se o escritor sobre Amônio na _Enciclopédia de Edimburgo_ sabe do que está falando, então ele descreve os teosofistas modernos, suas crenças e seu trabalho, pois ele diz, falando do _Theodidaktos_: “Ele adotou as doutrinas que foram recebidas no Egito (as esotéricas eram as da Índia) concernentes ao Universo e à Divindade, considerados como constituindo um grande todo; concernentes à eternidade do mundo ... e estabeleceu um sistema de disciplina moral que permitia ao povo em geral viver de acordo com as leis de seu país e os ditames da natureza, mas exigia que os sábios exaltassem sua mente pela contemplação.”

[5] Isso é o que o erudito autor de “A Filosofia Eclética”, Prof. A. Wilder, F.T.S., descreve como “_fotografia espiritual_”: “A alma é a câmera na qual fatos e eventos, futuros, passados e presentes, são igualmente fixados; e a mente se torna consciente deles. Além do nosso mundo cotidiano de limites, tudo é um dia ou estado—o passado e o futuro compreendidos no presente.” ... “A morte é o último _êxtase_ na terra. Então a alma é libertada da restrição do corpo, e sua parte mais nobre é unida à natureza superior e torna-se participante da sabedoria e presciência dos seres superiores.” A Teosofia real é, para os místicos, aquele estado que Apolônio de Tiana foi levado a descrever assim: “Posso ver o presente e o futuro como num espelho claro. O sábio não precisa esperar pelos vapores da terra e a corrupção do ar para prever eventos.... Os _theoi_, ou deuses, veem o futuro; os homens comuns, o presente; os sábios, aquilo que está prestes a acontecer.” “A Teosofia dos Sábios” da qual ele fala é bem expressa na afirmação: “O Reino de Deus está dentro de nós.”

=TEOSOFIA EXOTÉRICA E ESOTÉRICA.=

=O QUE A SOCIEDADE TEOSÓFICA MODERNA NÃO É.=

=Perguntador=

Então, as vossas doutrinas não são um renascimento do Budismo, nem são inteiramente copiadas da Teosofia Neoplatônica?

=Teosofista=

Não são.

Mas a estas perguntas não posso dar-vos melhor resposta do que citando um artigo sobre "Teosofia" lido pelo Dr. J. D. Buck, F.T.S., na última Convenção Teosófica, em Chicago, América (abril de 1889). Nenhum teosofista vivo melhor expressou e compreendeu a verdadeira essência da Teosofia do que o nosso honrado amigo Dr. Buck:—

"A Sociedade Teosófica foi organizada com o propósito de         promulgar as doutrinas teosóficas e de promover a vida         teosófica.

A presente Sociedade Teosófica         não é a primeira do seu gênero.

Tenho um volume intitulado:         'Transações Teosóficas da Sociedade Filadélfia,' publicado         em Londres em 1697; e outro com o seguinte título:         'Introdução à Teosofia, ou a Ciência do Mistério de Cristo;         isto é, da Divindade, da Natureza e da Criatura, abrangendo         a filosofia de todos os poderes atuantes da vida, mágicos e         espirituais, e formando um guia prático para a pureza         sublimíssima, santidade e perfeição evangélica; também para         a obtenção da visão divina e das santas artes angélicas,         potências e outras prerrogativas da regeneração,' publicado         em Londres em 1855. A seguinte é a         dedicatória deste volume:

'Aos estudantes das Universidades, Colégios e escolas da           Cristandade: Aos Professores de Ciência Metafísica,           Mecânica e Natural em todas as suas formas: Aos homens e           mulheres de Educação em geral, de fé ortodoxa fundamental:           Aos Deístas, Arianos, Unitários, Swedenborguianos e outras           crenças defeituosas e sem fundamento, racionalistas e           céticos de toda espécie: Aos justos e esclarecidos           Maometanos, Judeus e seguidores de religiões patriarcais           orientais: mas especialmente ao ministro e missionário do           evangelho, seja para os povos bárbaros ou intelectuais,           esta introdução à Teosofia, ou à ciência do fundamento e           mistério de todas as coisas, é mais humilde e afetuosamente           dedicada.'

No ano seguinte (1856), foi lançado outro volume, em oitavo real, de 600 páginas, em tipo diamante, de 'Miscelâneas Teosóficas'. Desta última obra, apenas 500 exemplares foram emitidos, para distribuição gratuita a Bibliotecas e Universidades.

Esses movimentos anteriores, dos quais houve muitos, originaram-se dentro da Igreja, com pessoas de grande piedade e seriedade, e de caráter ilibado; e todos esses escritos estavam em forma ortodoxa, usando as expressões cristãs e, como os escritos do eminente eclesiástico William Law, seriam distinguidos apenas pelo leitor comum por sua grande seriedade e piedade.

Eram todos, sem exceção, meras tentativas de derivar e explicar os significados mais profundos e o sentido original das Escrituras Cristãs, e de ilustrar e desdobrar a vida teosófica.

Essas obras logo foram esquecidas e hoje são geralmente desconhecidas.

Elas buscavam reformar o clero e reavivar a piedade genuína, e nunca foram bem-vindas.

Aquela única palavra, "Heresia", foi suficiente para enterrá-las no limbo de todas essas utopias.

Na época da Reforma, João Reuchlin fez uma tentativa semelhante com o mesmo resultado, embora fosse o amigo íntimo e de confiança de Lutero.

A ortodoxia nunca desejou ser informada e esclarecida.

Esses reformadores foram informados, como Paulo o foi por Festo, de que o excesso de aprendizado os havia enlouquecido, e que seria perigoso ir mais longe.

Deixando de lado a verbosidade, que era em parte um hábito e uma questão de educação desses escritores, e em parte devida à restrição religiosa por meio do poder secular, e chegando ao cerne da questão, esses escritos eram teosóficos no sentido mais estrito e dizem respeito exclusivamente ao conhecimento do homem sobre sua própria natureza e à vida superior da alma.

O presente movimento teosófico às vezes foi declarado como uma tentativa de converter a cristandade ao budismo, o que significa simplesmente que a palavra 'Heresia' perdeu seus terrores e renunciou ao seu poder.

Indivíduos em todas as épocas apreenderam, mais ou menos claramente, as doutrinas teosóficas e as teceram na trama de suas vidas.

Essas doutrinas pertencem exclusivamente a nenhuma religião e não estão confinadas a nenhuma sociedade ou época.

Eles são o direito inato de toda alma humana.

Uma coisa como ortodoxia deve ser forjada por cada indivíduo de acordo com sua natureza e suas necessidades, e de acordo com sua experiência variada.

Isso pode explicar por que aqueles que imaginaram a Teosofia como uma nova religião procuraram em vão por seu credo e seu ritual.

Seu credo é Lealdade à Verdade, e seu ritual "Honrar cada verdade pelo uso."

Quão pouco esse princípio da Fraternidade Universal é compreendido pelas massas da humanidade, quão raramente sua importância transcendente é reconhecida, pode ser visto na diversidade de opiniões e interpretações fictícias a respeito da Sociedade Teosófica.

Esta Sociedade foi organizada sobre este único princípio, a Fraternidade essencial do Homem, como aqui brevemente delineado e imperfeitamente exposto.

Ela tem sido atacada como budista e anticristã, como se pudesse ser ambas ao mesmo tempo, quando tanto o Budismo quanto o Cristianismo, conforme expostos por seus fundadores inspirados, fazem da fraternidade o único essencial da doutrina e da vida.

A Teosofia também tem sido considerada algo novo sob o sol, ou, na melhor das hipóteses, como velho misticismo mascarado sob um novo nome.

Embora seja verdade que muitas Sociedades fundadas sobre, e unidas para apoiar, os princípios do altruísmo, ou da fraternidade essencial, tenham tido vários nomes, também é verdade que muitas também foram chamadas de Teosóficas, e com princípios e objetivos como os da presente sociedade que leva esse nome.

Com essas sociedades, todas elas, a doutrina essencial tem sido a mesma, e todo o resto tem sido incidental, embora isso não elimine o fato de que muitas pessoas são atraídas pelos incidentais que negligenciam ou ignoram os essenciais."

Nenhuma resposta melhor ou mais explícita—por um homem que é um de nossos mais estimados e sinceros teosofistas—poderia ser dada às suas perguntas.

=Perguntador=

Qual sistema você prefere ou segue, nesse caso, além da ética budista?

=Teosofista=

Nenhum, e todos.

Não nos apegamos a nenhuma religião, como a nenhuma filosofia em particular: colhemos o bem que encontramos em cada uma.

Mas, aqui novamente, deve ser declarado que, como todos os outros sistemas antigos, a Teosofia é dividida em Seções Exotérica e _Esotérica_.

=Perguntador=

Qual é a diferença?

=Teosofista=

Os membros da Sociedade Teosófica em geral são livres para professar qualquer religião ou filosofia que desejarem, ou nenhuma, se assim preferirem, desde que estejam em sintonia com, e prontos a realizar, um ou mais dos três objetivos da Associação.

A Sociedade é um corpo filantrópico e científico para a propagação da ideia de fraternidade em linhas _práticas_ em vez de _teóricas_.

Os Fellows podem ser cristãos ou muçulmanos, judeus ou parses, budistas ou brâmanes, espiritualistas ou materialistas, não importa; mas todo membro deve ser ou um filantropo, ou um erudito, um pesquisador da literatura ariana e de outras literaturas antigas, ou um estudante de fenômenos psíquicos.

Em suma, ele tem de ajudar, se puder, na realização de pelo menos um dos objetivos do programa.

Caso contrário, não tem razão para se tornar um "Fellow". Tais são a maioria da Sociedade exotérica, composta de membros "filiados" e "não filiados".[6] Estes podem, ou não, tornar-se Teosofistas _de facto_. Membros eles são, em virtude de terem se juntado à Sociedade; mas esta não pode fazer um Teosofista daquele que não tem senso para a conveniência _divina_ das coisas, ou daquele que entende a Teosofia à sua própria maneira—se a expressão for permitida—_sectária_ e egotista.

"Bonito é quem bonito faz" poderia ser parafraseado neste caso e transformado em: "Teosofista é quem pratica a Teosofia."

=TEOSOFISTAS E MEMBROS DA "T.S."=

=Perguntador=

Isso se aplica aos membros leigos, conforme entendo.

E quanto àqueles que buscam o estudo esotérico da Teosofia; são eles os verdadeiros Teosofistas?

=Teosofista=

Não necessariamente, até que se provem como tais.

Eles entraram no grupo interno e se comprometeram a cumprir, tão estritamente quanto puderem, as regras do corpo oculto.

Esta é uma empreitada difícil, pois a regra primordial de todas é a renúncia total da própria personalidade—_isto é_, um membro _comprometido_ tem de se tornar um altruísta completo, nunca pensar em si mesmo, e esquecer sua própria vaidade e orgulho no pensamento do bem de seus semelhantes, além do bem de seus irmãos no círculo esotérico.

Ele tem de viver, se as instruções esotéricas lhe forem proveitosas, uma vida de abstinência em tudo, de autonegação e moralidade estrita, cumprindo seu dever para com todos os homens.

Os poucos teosofistas reais na S.T. estão entre esses membros.

Isso não implica que fora da S.T. e do círculo interno não haja teosofistas; pois há, e mais do que as pessoas sabem; certamente muito mais do que se encontram entre os membros leigos da S.T.

=Perguntador=

Então, qual é a vantagem de ingressar na chamada Sociedade Teosófica nesse caso? Onde está o incentivo?

=Teosofista=

Nenhum, exceto a vantagem de obter instruções esotéricas, as genuínas doutrinas da "Religião-Sabedoria", e, se o programa real for executado, derivar muita ajuda do auxílio mútuo e da simpatia.

União é força e harmonia, e esforços simultâneos bem regulados produzem maravilhas.

Esse tem sido o segredo de todas as associações e comunidades desde que a humanidade existe.

=Perguntador=

Mas por que um homem de mente equilibrada e propósito firme, digamos, de energia e perseverança indomáveis, não poderia se tornar um Ocultista e até mesmo um Adepto se trabalhasse sozinho?

=Teosofista=

Ele pode; mas há dez mil chances contra uma de que fracasse.

Por uma razão entre muitas outras, não existem hoje livros sobre Ocultismo ou Teurgia que revelem os segredos da alquimia ou da Teosofia medieval em linguagem clara.

Todos são simbólicos ou em parábolas; e como a chave para esses foi perdida há séculos no Ocidente, como pode um homem aprender o significado correto do que está lendo e estudando? Aí reside o maior perigo, um que leva à _magia_ negra inconsciente ou à mais impotente mediunidade.

Aquele que não tem um Iniciado como mestre faria melhor em deixar o perigoso estudo de lado.

Olhe ao seu redor e observe.

Enquanto dois terços da sociedade _civilizada_ ridicularizam a mera noção de que há algo na Teosofia, no Ocultismo, no Espiritualismo ou na Cabala, o outro terço é composto dos elementos mais heterogêneos e opostos.

Alguns creem no místico, e até no _sobrenatural_ (!), mas cada um crê à sua maneira.

Outros se lançam sozinhos ao estudo da Cabala, do Psicismo, do Mesmerismo, do Espiritualismo, ou de alguma forma ou outra de Misticismo.

Resultado: não há dois homens que pensem igual, não há dois que concordem sobre quaisquer princípios ocultos fundamentais, embora muitos sejam os que reivindicam para si a _última thule_ do conhecimento, e fariam os de fora acreditar que são adeptos completos.

Não apenas não há conhecimento científico e exato do Ocultismo acessível no Ocidente — nem mesmo da verdadeira astrologia, o único ramo do Ocultismo que, em seus ensinamentos _exotéricos_, possui leis definidas e um sistema definido — mas ninguém tem qualquer ideia do que o verdadeiro Ocultismo significa.

Alguns limitam a sabedoria antiga à _Cabala_ e ao _Zohar_ judaico, que cada um interpreta à sua maneira, segundo a letra morta dos métodos rabínicos.

Outros consideram Swedenborg ou Boehme como as expressões supremas da mais alta sabedoria; enquanto outros ainda veem no mesmerismo o grande segredo da magia antiga.

Todos aqueles que colocam sua teoria em prática estão rapidamente derivando, por ignorância, para a magia negra.

Felizes são aqueles que dela escapam, pois não têm teste nem critério pelos quais possam distinguir entre o verdadeiro e o falso.

=Perguntador=

Devemos entender que o grupo interno da S.T. afirma aprender o que aprende com verdadeiros iniciados ou mestres da sabedoria esotérica?

=Teosofista=

Não diretamente.

A presença pessoal de tais mestres não é necessária.

Basta que eles deem instruções a alguns daqueles que estudaram sob sua orientação por anos e dedicaram suas vidas inteiras ao seu serviço.

Então, por sua vez, estes podem transmitir o conhecimento assim recebido a outros que não tiveram tal oportunidade.

Uma porção das verdadeiras ciências é melhor do que uma massa de aprendizado mal digerido e mal compreendido.

Uma onça de ouro vale uma tonelada de poeira.

=Perguntador=

Mas como saber se a onça é ouro verdadeiro ou apenas uma falsificação?

=Teosofista=

Uma árvore é conhecida por seus frutos, um sistema por seus resultados.

Quando nossos oponentes forem capazes de nos provar que algum estudante solitário de Ocultismo, ao longo dos tempos, tornou-se um adepto santo como Amônio Sacas, ou mesmo um Plotino, ou um teurgo como Jâmblico, ou realizou feitos como os que se alega terem sido feitos por São Germano, sem nenhum mestre para guiá-lo, e tudo isso sem ser um médium, um psíquico iludido ou um charlatão — então confessaremos que estamos enganados.

Mas até lá, os Teosofistas preferem seguir a comprovada lei natural da tradição da Ciência Sagrada.

Existem místicos que fizeram grandes descobertas em química e ciências físicas, quase beirando a alquimia e o ocultismo; outros que, pelo só auxílio de seu gênio, redescobriram porções, senão a totalidade, dos alfabetos perdidos da "Linguagem do Mistério" e são, portanto, capazes de ler corretamente os pergaminhos hebraicos; outros ainda que, sendo videntes, captaram _vislumbres_ maravilhosos dos segredos ocultos da Natureza.

Mas todos esses são _especialistas_. Um é um inventor teórico, outro é um hebreu, _isto é_, um cabalista sectário, um terceiro é um Swedenborg dos tempos modernos, negando tudo e todos fora de sua própria ciência ou religião particular.

Nenhum deles pode se vangloriar de ter produzido um benefício universal ou mesmo nacional com isso, nem mesmo para si mesmo.

Com exceção de alguns curadores — daquela classe que o Real Colégio de Médicos e Cirurgiões chamaria de charlatães — nenhum ajudou com sua ciência a Humanidade, nem mesmo um número de homens da mesma comunidade.

Onde estão os caldeus de outrora, aqueles que realizavam curas maravilhosas, "não por encantamentos, mas por simples"? Onde está um Apolônio de Tiana, que curava os enfermos e ressuscitava os mortos sob qualquer clima e circunstância? Conhecemos alguns _especialistas_ da primeira classe na Europa, mas nenhum da última — exceto na Ásia, onde o segredo dos yogis, "viver na morte", ainda é preservado.

=Perguntador=

A produção de tais adeptos curadores é o objetivo da Teosofia?

=Teosofista=

Seus objetivos são vários; mas o mais importante de todos são aqueles que provavelmente levarão ao alívio do sofrimento humano sob qualquer ou toda forma, moral tanto quanto física.

E acreditamos que o primeiro seja muito mais importante que o último.

A Teosofia tem de inculcar a ética; tem de purificar a alma, se quiser aliviar o corpo físico, cujas enfermidades, exceto em casos de acidentes, são todas hereditárias.

Não é estudando o Ocultismo para fins egoístas, para a gratificação da ambição pessoal, orgulho ou vaidade de alguém, que se pode jamais alcançar a verdadeira meta: a de ajudar a humanidade sofredora.

Tampouco é estudando um único ramo da filosofia esotérica que um homem se torna ocultista, mas sim estudando, senão dominando, todos eles.

=Perguntador=

Então, a ajuda para alcançar esse objetivo tão importante é dada apenas àqueles que estudam as ciências esotéricas?

=Teosofista=

De modo algum.

Todo membro _leigo_ tem direito à instrução geral, se apenas a desejar; mas poucos estão dispostos a se tornarem o que se chama de "membros ativos", e a maioria prefere permanecer como os _zangões_ da Teosofia.

Fique entendido que a pesquisa privada é incentivada na S.T., desde que não ultrapasse o limite que separa o exotérico do esotérico, a magia _cega_ da _consciente_.

=A DIFERENÇA ENTRE TEOSOFIA E ESPIRITISMO.=

=Perguntador=

Você fala de Teosofia e Ocultismo; são idênticos?

=Teosofista=

De modo algum.

Um homem pode ser um teosofista muito bom, seja _dentro_ ou _fora_ da Sociedade, sem ser de forma alguma um ocultista.

Mas ninguém pode ser um verdadeiro ocultista sem ser um real teosofista; caso contrário, ele é simplesmente um mago negro, seja consciente ou inconsciente.

=Perguntador=

O que você quer dizer?

=Teosofista=

Já disse que um verdadeiro teosofista deve pôr em prática o mais elevado ideal moral, deve esforçar-se para realizar sua unidade com toda a humanidade e trabalhar incessantemente pelos outros.

Agora, se um ocultista não faz tudo isso, ele deve agir egoisticamente para seu próprio benefício pessoal; e se adquiriu mais poder prático do que outros homens comuns, torna-se imediatamente um inimigo muito mais perigoso para o mundo e para aqueles ao seu redor do que o mortal comum.

Isso é claro.

=Perguntador=

Então um ocultista é simplesmente um homem que possui mais poder do que outras pessoas?

=Teosofista=

Muito mais — se ele é um ocultista _prático_ e verdadeiramente instruído, e não apenas um de nome.

As ciências ocultas _não são_, como descritas nas enciclopédias, "aquelas _imaginárias_ ciências da Idade Média que se relacionavam com a _suposta_ ação ou influência de qualidades ocultas ou poderes sobrenaturais, como alquimia, magia, necromancia e astrologia", pois elas são reais, atuais e ciências muito perigosas.

Elas ensinam a potência secreta das coisas na Natureza, desenvolvendo e cultivando os poderes ocultos "latentes no homem", dando-lhe assim vantagens tremendas sobre mortais mais ignorantes.

O hipnotismo, agora tão comum e um assunto de séria investigação científica, é um bom exemplo nesse sentido.

Poder hipnótico foi descoberto quase por acidente, tendo o caminho sido preparado pelo mesmerismo; e agora um hábil hipnotizador pode fazer quase qualquer coisa com ele, desde forçar um homem, inconscientemente para si mesmo, a fazer papel de bobo, até levá-lo a cometer um crime — muitas vezes por procuração do hipnotizador, _e em benefício deste último_. Não é este um poder terrível se deixado nas mãos de pessoas inescrupulosas? E lembre-se de que esta é apenas um dos ramos menores do Ocultismo.

=Perguntador=

Mas não são todas estas ciências ocultas, magia e feitiçaria, consideradas pelas pessoas mais cultas e eruditas como relíquias da ignorância e superstição antigas?

=Teosofista=

Permita-me lembrar-lhe que esta observação sua tem dois gumes.

As pessoas “mais cultas e eruditas” entre vocês consideram também o Cristianismo e toda outra religião como relíquia de ignorância e superstição.

As pessoas começam a acreditar agora, de qualquer forma, no _hipnotismo_, e algumas — mesmo entre as _mais cultas_ — na Teosofia e nos fenômenos.

Mas quem entre elas, exceto pregadores e fanáticos cegos, confessará acreditar nos _milagres bíblicos_? E é aqui que surge o ponto de diferença. Há muito bons e puros Teosofistas que podem acreditar no sobrenatural, incluindo os _milagres_ divinos, mas nenhum Ocultista o fará. Pois um Ocultista pratica a Teosofia _científica_, baseada no conhecimento exato dos funcionamentos secretos da Natureza; mas um Teosofista, praticando os poderes chamados anormais, _sem_ a luz do Ocultismo, tenderá simplesmente a uma forma perigosa de mediunidade, porque, embora se apegue à Teosofia e ao seu mais elevado código concebível de ética, ele a pratica no escuro, com fé sincera mas _cega_.

Qualquer pessoa, Teosofista ou Espiritualista, que tente cultivar um dos ramos da ciência oculta — _ex.:_ Hipnotismo, Mesmerismo, ou mesmo os segredos de produzir fenômenos físicos, etc. — sem o conhecimento do _fundamento_ filosófico desses poderes, é como um barco sem leme lançado em um oceano tempestuoso.

=A DIFERENÇA ENTRE TEOSOFIA E ESPIRITISMO.=

=Perguntador=

Mas você não acredita no Espiritismo?

=Teosofista=

Se por “Espiritualismo” você entende a explicação que os Espiritualistas dão de alguns fenômenos anormais, então decididamente _nós não_. Eles sustentam que essas manifestações são todas produzidas pelos “espíritos” de mortais falecidos, geralmente seus parentes, que retornam à terra, dizem eles, para se comunicar com aqueles que amaram ou aos quais estão apegados.

Nós negamos isso categoricamente.

Afirmamos que os espíritos dos mortos não podem retornar à terra—exceto em casos raros e excepcionais, dos quais posso falar mais tarde; nem se comunicam com os homens, exceto por meios _inteiramente subjetivos_. O que aparece objetivamente é apenas o fantasma do ex-homem físico.

Mas no Espiritualismo _psíquico_ e, por assim dizer, “Espiritual”, acreditamos, mais decididamente.

=Perguntador=

Você também rejeita os fenômenos?

=Teosofista=

Certamente não—exceto nos casos de fraude consciente.

=Perguntador=

Como você os explica, então?

=Teosofista=

De muitas maneiras.

As causas de tais manifestações não são de forma alguma tão simples quanto os Espiritualistas gostariam de acreditar.

Antes de tudo, o _deus ex machinâ_ das chamadas “materializações” é geralmente o corpo astral ou “duplo” do médium ou de alguém presente.

Esse corpo _astral_ é também o produtor ou a força operante nas manifestações de escrita em lousa, manifestações tipo “Davenport”, e assim por diante.

=Perguntador=

Você diz “geralmente”; então _o que_ produz o resto?

=Teosofista=

Isso depende da natureza das manifestações.

Às vezes são os restos astrais, as “cascas” Kamalóquicas das _personalidades_ desaparecidas que foram; outras vezes, Elementais.

“Espírito” é uma palavra de significado múltiplo e amplo.

Eu realmente não sei o que os Espiritualistas querem dizer com o termo; mas o que entendemos que eles afirmam é que os fenômenos físicos são produzidos pelo _Ego_ reencarnante, a “individualidade” _Espiritual_ e imortal. E essa hipótese rejeitamos inteiramente.

A _Individualidade_ Consciente do desencarnado _não pode materializar-se_, nem pode retornar de sua própria esfera Devachânica mental ao plano da objetividade terrestre.

=Perguntador=

Mas muitas das comunicações recebidas dos “espíritos” mostram não apenas inteligência, mas também um conhecimento de fatos desconhecidos do médium, e às vezes até não presentes conscientemente na mente do investigador, ou de qualquer um dos que compõem a audiência.

=Teosofista=

Isto não prova necessariamente que a inteligência e o conhecimento de que falas pertençam a _espíritos_, ou emanem de almas _desencarnadas_.

Sabe-se que sonâmbulos compuseram música e poesia e resolveram problemas matemáticos durante seu estado de transe, sem nunca terem aprendido música ou matemática.

Outros responderam inteligentemente a perguntas que lhes foram feitas e, até mesmo, em vários casos, falaram idiomas, como hebraico e latim, dos quais eram totalmente ignorantes quando acordados — tudo isso em estado de sono profundo.

Sustentarás, então, que isso foi causado por "espíritos"?

=Perguntador=

Mas como o explicarias?

=Teosofista=

Afirmamos que a centelha divina no homem, sendo una e idêntica em sua essência ao Espírito Universal, nosso "Self espiritual" é praticamente onisciente, mas não pode manifestar seu conhecimento devido aos impedimentos da matéria.

Ora, quanto mais esses impedimentos são removidos, em outras palavras, quanto mais o corpo físico é paralisado em sua própria atividade e consciência independentes, como no sono profundo ou no transe profundo, ou ainda na doença, mais plenamente o _Self_ interior pode se manifestar neste plano.

Esta é a nossa explicação para aqueles fenômenos verdadeiramente maravilhosos de ordem superior, nos quais se exibem inegável inteligência e conhecimento.

Quanto à ordem inferior de manifestações, tais como fenômenos físicos e as platitudes e conversas comuns do "espírito" geral, explicar até mesmo o mais importante dos ensinamentos que sustentamos sobre o assunto exigiria mais espaço e tempo do que se pode dedicar a isso no presente.

Não temos desejo de interferir na crença dos espiritualistas, assim como em qualquer outra crença.

O _onus probandi_ deve recair sobre os crentes em "espíritos". E no momento atual, embora ainda convencidos de que as manifestações de ordem superior ocorrem por meio de almas desencarnadas, seus líderes e os mais eruditos e inteligentes entre os espiritualistas são os primeiros a confessar que nem _todos_ os fenômenos são produzidos por espíritos.

Gradualmente, eles chegarão a reconhecer toda a verdade; mas, enquanto isso, não temos direito nem desejo de proselitizá-los para nossas visões.

Tanto menos, pois nos casos de manifestações puramente _psíquicas e espirituais_ acreditamos na intercomunicação do espírito do homem vivo com o de personalidades desencarnadas.[7]

Isto significa que vocês rejeitam a filosofia do Espiritualismo _in toto_?

=Teosofista=

Se por "filosofia" vocês se referem às suas teorias grosseiras, nós a rejeitamos. Mas eles não têm filosofia, na verdade.

Seus melhores, mais intelectuais e sinceros defensores assim o dizem. Sua verdade fundamental e única inatacável, a saber, que fenômenos ocorrem através de médiuns controlados por forças e inteligências invisíveis — ninguém, exceto um materialista cego da escola do "dedão de Huxley", negará ou _poderá_ negar.

Quanto à sua filosofia, porém, deixe-me ler para você o que o competente editor de _Light_, do qual os espiritualistas não encontrarão campeão mais sábio nem mais devotado, diz deles e de sua filosofia.

Isto é o que "M.A. Oxon", um dos pouquíssimos espiritualistas _filosóficos_, escreve a respeito de sua falta de organização e de seu cego fanatismo:—

Vale a pena olhar firmemente para este ponto, pois é de importância vital.

Temos uma experiência e um conhecimento diante dos quais todo outro conhecimento é comparativamente insignificante.

O espiritualista comum se enfurece se alguém ousa impugnar seu conhecimento assegurado do futuro e sua absoluta certeza da vida vindoura.

Onde outros homens estenderam mãos frágeis tateando no futuro escuro, ele caminha corajosamente como quem tem um mapa e conhece seu caminho.

Onde outros homens pararam em uma aspiração piedosa ou se contentaram com uma fé hereditária, é seu orgulho saber o que eles apenas acreditam, e que de seus ricos tesouros ele pode suplementar as fés que se desvanecem, construídas somente sobre a esperança.

Ele é magnífico em seu trato com as mais queridas expectativas do homem.

"Vocês esperam", parece ele dizer, "por aquilo que eu posso demonstrar.

Vocês aceitaram uma crença tradicional no que eu posso provar experimentalmente de acordo com o mais estrito método científico.

As velhas crenças estão se desvanecendo; saiam delas e sejam separados.

Elas contêm tanta falsidade quanto verdade.

Somente construindo sobre um fundamento seguro de fatos demonstrados pode sua superestrutura ser estável.

Ao seu redor, velhas fés estão desmoronando.

Evitem o colapso e saiam."

Quando se chega a lidar com essa pessoa magnífica de maneira prática, qual é o resultado? Muito curioso e muito decepcionante.

Ele está tão seguro de seu terreno que não se dá ao trabalho de verificar a interpretação que outros dão aos seus fatos.

A sabedoria dos séculos tem-se ocupado da explicação do que ele corretamente considera comprovado; mas ele não lança um olhar passageiro sobre suas pesquisas.

Ele não concorda sequer inteiramente com seu irmão espiritualista.

É a história de novo da velha senhora escocesa que, juntamente com seu marido, formava uma "igreja". Eles tinham chaves exclusivas para o Céu, ou, antes, ela as tinha, pois "não estava certa sobre o Jamie". Assim, as seitas infinitamente divididas, subdivididas e ressubdivididas dos espiritualistas balançam a cabeça e "não estão certas" umas das outras.

Novamente, a experiência coletiva da humanidade é sólida e invariável neste ponto: que a união é força, e a desunião, fonte de fraqueza e fracasso.

Ombro a ombro, treinada e disciplinada, uma multidão torna-se um exército, cada homem valendo por cem dos homens não treinados que possam ser trazidos contra ele. Organização em cada departamento do trabalho humano significa sucesso, economia de tempo e esforço, lucro e desenvolvimento.

Falta de método, falta de plano, trabalho ao acaso, energia intermitente, esforço indisciplinado — isso significa fracasso desastrado.

A voz da humanidade atesta a verdade.

Aceita o espiritualista o veredito e age com base na conclusão? Em verdade, não. Ele se recusa a organizar-se.

Ele é lei para si mesmo e uma pedra no sapato de seus vizinhos. — _Light_, 22 de junho de 1889.

=Perguntador=

Disseram-me que a Sociedade Teosófica foi originalmente fundada para esmagar o Espiritismo e a crença na sobrevivência da individualidade no homem?

=Teosofista=

Você está mal informado.

Nossas crenças são todas fundadas nessa individualidade imortal.

Mas então, como tantos outros, você confunde _personalidade_ com individualidade.

Vossos psicólogos ocidentais não parecem ter estabelecido qualquer distinção clara entre as duas.

No entanto, é precisamente essa diferença que dá a nota-chave para a compreensão da filosofia oriental, e que está na raiz da divergência entre os ensinamentos teosóficos e espiritualistas.

E embora isso possa atrair ainda mais sobre nós a hostilidade de alguns espiritualistas, devo afirmar aqui que é a Teosofia o _verdadeiro_ e puro Espiritualismo, enquanto o esquema moderno desse nome é, como agora praticado pelas massas, simplesmente materialismo transcendental.

=Perguntador=

Por favor, explique sua ideia mais claramente.

=Teosofista=

O que quero dizer é que, embora nossos ensinamentos insistam na identidade de espírito e matéria, e embora digamos que o espírito é matéria _potencial_, e a matéria simplesmente espírito cristalizado (_por exemplo_, como o gelo é vapor solidificado), contudo, como a condição original e eterna de _tudo_ não é espírito, mas _meta_-espírito, por assim dizer (a matéria visível e sólida sendo simplesmente sua manifestação periódica), sustentamos que o termo espírito só pode ser aplicado à _verdadeira_ individualidade.

=Perguntador=

Mas qual é a distinção entre essa "verdadeira individualidade" e o "eu" ou "Ego" do qual todos temos consciência?

=Teosofista=

Antes que eu possa responder, precisamos discutir o que você quer dizer com "eu" ou "Ego". Distinguimos entre o simples fato da autoconsciência, o simples sentimento de que "eu sou eu", e o pensamento complexo de que "eu sou o Sr. Smith" ou "a Sra. Brown". Como acreditamos em uma série de nascimentos para o mesmo Ego, ou reencarnação, essa distinção é o pivô fundamental de toda a ideia.

Você vê que "Sr. Smith" realmente significa uma longa série de experiências diárias unidas pelo fio da memória, formando o que o Sr. Smith chama de "si mesmo". Mas nenhuma dessas "experiências" é realmente o "eu" ou o Ego, nem dão ao "Sr. Smith" o sentimento de que ele é ele mesmo, pois ele esquece a maior parte de suas experiências diárias, e elas produzem o sentimento de _egoidade_ nele apenas enquanto duram.

Nós, teosofistas, portanto, distinguimos entre esse feixe de "experiências", que chamamos de _falsa_ (porque tão finita e evanescente) _personalidade_, e esse elemento no homem ao qual se deve o sentimento de "eu sou eu".

É esse "eu sou eu" que chamamos de _verdadeira_ individualidade; e dizemos que esse "Ego" ou individualidade representa, como um ator, muitos papéis no palco da vida.[8] Chamemos cada nova vida na terra do mesmo _Ego_ de uma _noite_ no palco de um teatro.

Uma noite o ator, ou "Ego", aparece como "Macbeth", na seguinte como "Shylock", na terceira como "Romeu", na quarta como "Hamlet" ou "Rei Lear", e assim por diante, até que tenha percorrido todo o ciclo de encarnações.

O Ego começa sua peregrinação vital como um duende, um "Ariel" ou um "Puck"; representa o papel de um _figurante_, é um soldado, um servo, um dos coristas; ascende então aos "papéis falados", desempenha _papéis_ principais, intercalados com partes insignificantes, até que finalmente se retira do palco como "Próspero", o _mago_.

=Perguntador=

Compreendo.

Dizeis, então, que esse verdadeiro _Ego_ não pode retornar à terra após a morte.

Mas certamente o ator está em liberdade, se tiver preservado o senso de sua individualidade, de retornar, se assim o desejar, à cena de suas ações passadas?

=Teosofista=

Dizemos que não, simplesmente porque tal retorno à terra seria incompatível com qualquer estado de _pura_ bem-aventurança após a morte, como estou pronto a provar.

Dizemos que o homem sofre tanta miséria imerecida durante sua vida, por culpa de outros com quem está associado, ou por causa de seu ambiente, que ele certamente tem direito a perfeito descanso e quietude, se não à bem-aventurança, antes de retomar o fardo da vida.

Contudo, podemos discutir isso em detalhe mais tarde.

=POR QUE A TEOSOFIA É ACEITA?=

=Perguntador=

Compreendo até certo ponto; mas vejo que vossos ensinamentos são muito mais complicados e metafísicos do que o Espiritualismo ou o pensamento religioso corrente.

Podeis dizer-me, então, o que fez com que esse sistema de Teosofia que sustentais despertasse tanto interesse e tanta animosidade ao mesmo tempo?

=Teosofista=

Há várias razões para isso, creio; entre outras causas que podem ser mencionadas está, _primeiramente_, a grande reação contra as teorias crassamente materialistas ora prevalecentes entre os mestres científicos.

_Segundamente_, a insatisfação geral com a teologia artificial das várias Igrejas cristãs, e o número de seitas diariamente crescentes e conflitantes.

_Terceiramente_, uma percepção cada vez maior do fato de que os credos que são tão obviamente contraditórios em si mesmos — e mutuamente — _não podem ser verdadeiros_, e que alegações não verificadas _não podem ser reais_. Essa desconfiança natural das religiões convencionais é apenas fortalecida por seu completo fracasso em preservar a moral e purificar a sociedade e as massas.

_Quartamente_, uma convicção por parte de muitos, e _conhecimento_ por parte de poucos, de que deve haver em algum lugar um sistema filosófico e religioso que seja científico e não meramente especulativo.

_Finalmente_, uma crença, talvez, de que tal sistema deva ser procurado em ensinamentos muito anteriores a qualquer fé moderna.

=Perguntador=

Mas como veio este sistema a ser apresentado justamente agora?

=Teosofista=

Justamente porque o tempo foi considerado maduro, fato que é demonstrado pelo esforço determinado de tantos estudantes sinceros para alcançar _a verdade_, a qualquer custo e onde quer que ela esteja oculta.

Vendo isso, seus guardiões permitiram que pelo menos algumas porções dessa verdade fossem proclamadas.

Se a formação da Sociedade Teosófica tivesse sido adiada por mais alguns anos, metade das nações civilizadas já teria se tornado, a esta altura, materialistas declarados, e a outra metade antropomorfistas e fenomenalistas.

=Perguntador=

Devemos considerar a Teosofia, de algum modo, como uma revelação?

=Teosofista=

De modo algum — nem mesmo no sentido de uma nova e direta comunicação de algum ser superior, sobrenatural ou, pelo menos, _sobre-humano_; mas apenas no sentido de um “desvelamento” de verdades antigas, muito antigas, para mentes até então ignorantes delas, ignorantes até mesmo da existência e preservação de tal conhecimento arcaico.[9]

=Perguntador=

Você falou de “Perseguição”. Se a verdade é como a Teosofia a representa, por que ela encontrou tanta oposição e nenhuma aceitação geral?

=Teosofista=

Por muitas e variadas razões, novamente, uma das quais é o ódio sentido pelos homens por “inovações”, como eles as chamam.

O egoísmo é essencialmente conservador e odeia ser perturbado.

Ele prefere uma _mentira_ cômoda e pouco exigente à maior verdade, se esta exigir o sacrifício do menor conforto de alguém.

O poder da inércia mental é grande em tudo o que não promete benefício e recompensa imediatos.

Nossa época é eminentemente não espiritual e pragmática.

Além disso, há o caráter incomum dos ensinamentos teosóficos; a natureza altamente abstrusa das doutrinas, algumas das quais contradizem frontalmente muitas das fantasias humanas acalentadas por sectários, que penetraram no âmago das crenças populares.

Se a isso acrescentarmos os esforços pessoais e a grande pureza de vida exigidos daqueles que se tornariam discípulos do círculo _interno_, e a classe muito limitada à qual um código inteiramente altruísta apela, será fácil perceber a razão pela qual a Teosofia está fadada a um progresso tão lento e árduo.

É essencialmente a filosofia daqueles que sofrem e perderam toda a esperança de serem ajudados a sair do atoleiro da vida por quaisquer outros meios.

Além disso, a história de qualquer sistema de crença ou moral, recentemente introduzido em solo estrangeiro, mostra que seus começos foram impedidos por todos os obstáculos que o obscurantismo e o egoísmo pudessem sugerir.

“A coroa do inovador é uma coroa de espinhos”, de fato! Nenhuma demolição de velhos edifícios carcomidos pode ser realizada sem algum perigo.

=Perguntador=

Tudo isso se refere antes à ética e à filosofia da S.T. Pode me dar uma ideia geral da própria Sociedade, seu objetivo e estatutos?

=Teosofista=

Isso nunca foi mantido em segredo.

Pergunte, e receberá respostas precisas.

=Perguntador=

Mas ouvi dizer que vocês estavam vinculados por compromissos?

=Teosofista=

Somente na Seção _Arcana_ ou “Esotérica”.

=Perguntador=

E também que alguns membros, após saírem, não se consideravam vinculados por eles.

Eles estão certos?

=Teosofista=

Isso mostra que sua ideia de honra é imperfeita.

Como podem estar certos? Como bem disse o _Path_, nosso órgão teosófico em Nova York, tratando de tal caso: “Suponha que um soldado seja julgado por violação de juramento e disciplina, e seja dispensado do serviço.

Em sua fúria contra a justiça que ele próprio invocou, e cujas penalidades lhe foram claramente advertidas, o soldado volta-se para o inimigo com informações falsas — um espião e traidor — como vingança contra seu antigo Chefe, e alega que seu castigo o liberou de seu juramento de lealdade a uma causa.” Ele está justificado, em sua opinião? Não acha que ele merece ser chamado de homem desonroso, um covarde?

=Perguntador=

Acredito que sim; mas alguns pensam de outro modo.

=Teosofista=

Tanto pior para eles.

Mas falaremos sobre esse assunto mais tarde, se você quiser.


[6] Um “membro anexado” significa aquele que se juntou a algum ramo particular da S.T. Um “não anexado” é aquele que pertence à Sociedade em geral, tem seu diploma da Sede Central (Adyar, Madras), mas não está conectado a nenhum ramo ou loja.

[7] Dizemos que em tais casos não são os _espíritos_ dos mortos que _descem_ à terra, mas os espíritos dos vivos que _ascendem_ às Almas Espirituais puras.

Na verdade, não há nem _ascensão_ nem _descida_, mas uma mudança de _estado_ ou _condição_ para o médium.

O corpo deste último tornando-se paralisado, ou “em transe”, o Ego espiritual fica livre de seus entraves e encontra-se no mesmo plano de consciência que os espíritos desencarnados.

Portanto, se houver alguma atração espiritual entre os dois, _eles podem se comunicar_, como ocorre frequentemente nos sonhos.

A diferença entre uma natureza mediúnica e uma não sensitiva é esta: o espírito libertado de um médium tem a oportunidade e a facilidade de influenciar os órgãos passivos de seu corpo físico entrançado, fazendo-os agir, falar e escrever à sua vontade.

O Ego pode fazê-lo repetir, como um eco, e na linguagem humana, os pensamentos e ideias da entidade desencarnada, bem como os seus próprios.

Mas o organismo _não receptivo_ ou não sensitivo de alguém que é muito positivo não pode ser assim influenciado.

Portanto, embora dificilmente haja um ser humano cujo Ego não mantenha livre intercâmbio, durante o sono de seu corpo, com aqueles que amou e perdeu, ainda assim, devido à positividade e não receptividade de seu invólucro físico e cérebro, nenhuma lembrança, ou uma recordação muito vaga, semelhante a um sonho, permanece na memória da pessoa uma vez desperta.

[8] _Vide infra_, “Sobre Individualidade e Personalidade.”

[9] Tornou-se “moda”, especialmente ultimamente, ridicularizar a noção de que houve, nos _mistérios_ de grandes e civilizados povos, tais como os egípcios, gregos ou romanos, qualquer coisa além de impostura sacerdotal.

Até mesmo os Rosacruzes não passavam de meio lunáticos, meio velhacos.

Numerosos livros foram escritos sobre eles; e novatos, que mal tinham ouvido o nome alguns anos antes, saíam como críticos profundos e gnósticos no assunto da alquimia, dos filósofos do fogo e do misticismo em geral.

No entanto, uma longa série de Hierofantes do Egito, Índia, Caldeia e Arábia é conhecida, juntamente com os maiores filósofos e sábios da Grécia e do Ocidente, por terem incluído sob a designação de sabedoria e ciência divina todo o conhecimento, pois consideravam a base e a origem de toda arte e ciência como _essencialmente_ divinas.

Platão considerava os _mistérios_ como os mais sagrados, e Clemente Alexandrino, que fora ele próprio iniciado nos mistérios de Elêusis, declarou “que as doutrinas ali ensinadas continham em si o fim de todo o conhecimento humano”. Foram Platão e Clemente dois velhacos ou dois tolos, perguntamos nós, ou—ambos?

III.

=O SISTEMA DE TRABALHO DA S.T.[10]=

=OS OBJETIVOS DA SOCIEDADE.=

=Perguntador=

Quais são os objetivos da “Sociedade Teosófica”?

=Teosofista=

São três, e assim têm sido desde o início.

(1). Formar o núcleo de uma Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, cor ou credo.

(2). Promover o estudo das Escrituras Arianas e de outras, das religiões e ciências do mundo, e defender a importância da antiga literatura asiática, a saber, das filosofias bramânica, budista e zoroastriana.

(3). Investigar os mistérios ocultos da Natureza sob todos os aspectos possíveis, e os poderes psíquicos e espirituais latentes no homem especialmente.

Estes são, em linhas gerais, os três principais objetivos da Sociedade Teosófica.

=Perguntador=

Podeis dar-me informações mais detalhadas sobre eles?

=Teosofista=

Podemos dividir cada um dos três objetivos em tantas cláusulas explicativas quantas forem necessárias.

=Perguntador=

Então comecemos pelo primeiro. Que meios empregaríeis para promover tal sentimento de fraternidade entre raças conhecidas por terem as mais diversificadas religiões, costumes, crenças e modos de pensamento?

=Teosofista=

Permiti-me acrescentar o que pareceis relutante em expressar. É claro que sabemos que, com exceção de dois remanescentes de raças — os parses e os judeus —, toda nação está dividida, não apenas contra todas as outras nações, mas até contra si mesma. Isso se encontra de forma mais proeminente entre as chamadas nações cristãs civilizadas. Daí a vossa admiração, e a razão pela qual o nosso primeiro objetivo vos parece uma utopia. Não é assim?

=Perguntador=

Bem, sim; mas o que tendes a dizer contra isso?

=Teosofista=

Nada contra o fato; mas muito sobre a necessidade de remover as causas que tornam a Fraternidade Universal uma utopia no presente.

=Perguntador=

Quais são, em vosso ponto de vista, essas causas?

=Teosofista=

Primeiro e acima de tudo, o egoísmo natural da natureza humana. Esse egoísmo, em vez de ser erradicado, é diariamente fortalecido e estimulado a um sentimento feroz e irresistível pela presente educação religiosa, que tende não apenas a encorajá-lo, mas positivamente a justificá-lo. As ideias das pessoas sobre o certo e o errado foram inteiramente pervertidas pela aceitação literal da Bíblia judaica.

Todo o altruísmo dos ensinamentos altruístas de Jesus tornou-se meramente um assunto teórico para a oratória de púlpito; enquanto os preceitos do egoísmo prático ensinados na Bíblia Mosaica, contra os quais Cristo tão em vão pregou, tornaram-se enraizados na vida mais íntima das nações ocidentais.

"Olho por olho e dente por dente" tornou-se a primeira máxima da vossa lei.

Agora, declaro aberta e destemidamente que a perversidade dessa doutrina e de tantas outras — somente a _Teosofia_ pode erradicar.

=A ORIGEM COMUM DO HOMEM.=

=Perguntador=

Como?

=Teosofista=

Simplesmente demonstrando em bases lógicas, filosóficas, metafísicas e até científicas que:—(a) Todos os homens têm espiritual e fisicamente a mesma origem, que é o ensinamento fundamental da Teosofia.

(b) Como a humanidade é essencialmente de uma só e mesma essência, e essa essência é una — infinita, incriada e eterna, quer a chamemos de Deus ou Natureza — nada, portanto, pode afetar uma nação ou um homem sem afetar todas as outras nações e todos os outros homens.

Isso é tão certo e tão óbvio quanto o fato de que uma pedra lançada num lago, mais cedo ou mais tarde, colocará em movimento cada gota d'água ali contida.

=Perguntador=

Mas isso não é o ensinamento de Cristo, mas sim uma noção panteísta.

=Teosofista=

É aí que reside o vosso erro.

É puramente _cristão_, embora _não_ judaico, e, portanto, talvez as vossas nações bíblicas prefiram ignorá-lo.

=Perguntador=

Essa é uma acusação total e injusta.

Onde estão vossas provas para tal afirmação?

=Teosofista=

Estão à mão.

Diz-se que Cristo afirmou: "Amai-vos uns aos outros" e "Amai vossos inimigos"; pois "se amardes (apenas) os que vos amam, que recompensa (ou mérito) tendes? Não fazem o mesmo os _publicanos_[11]? E se saudardes somente vossos irmãos, que fazeis de mais do que os outros? Não fazem os publicanos também o mesmo?" Estas são as palavras de Cristo.

Mas Gênesis ix. 25, diz: "Maldito seja Canaã; servo dos servos será ele para com seus irmãos." E, portanto, o povo cristão, porém bíblico, prefere a lei de Moisés à lei de amor de Cristo.

Eles se baseiam no Antigo Testamento, que condescende com todas as suas paixões, suas leis de conquista, anexação e tirania sobre raças que chamam de _inferiores_. Que crimes foram cometidos com base nessa passagem infernal (se tomada em sua letra morta) do Gênesis, somente a história nos dá uma ideia, por mais inadequada que seja.[12]

=Perguntador=

Ouvi-o dizer que a identidade de nossa origem física é provada pela ciência, e a de nossa origem espiritual, pela Religião da Sabedoria.

No entanto, não vemos os darwinistas exibindo grande afeto fraternal.

=Teosofista=

Exatamente. É isso que mostra a deficiência dos sistemas materialistas e prova que nós, teosofistas, estamos certos.

A identidade de nossa origem física não apela aos nossos sentimentos mais elevados e profundos.

A matéria, privada de sua alma e espírito, ou de sua essência divina, não pode falar ao coração humano.

Mas a identidade da alma e do espírito, do homem real e imortal, como a Teosofia nos ensina, uma vez provada e enraizada em nossos corações, conduzir-nos-ia muito longe no caminho da caridade real e da boa vontade fraternal.

=Perguntador=

Mas como a Teosofia explica a origem comum do homem?

=Teosofista=

Ensinando que a _raiz_ de toda a natureza, objetiva e subjetiva, e de tudo o mais no universo, visível e invisível, _é_, _foi_ e _sempre será_ uma essência absoluta, da qual tudo parte e para a qual tudo retorna.

Esta é a filosofia ariana, plenamente representada apenas pelos vedantinos e pelo sistema budista.

Com esse objetivo em vista, é dever de todos os teosofistas promover, de todas as maneiras práticas e em todos os países, a difusão da educação _não sectária_.

=Perguntador=

O que os estatutos escritos de sua Sociedade aconselham seus membros a fazer além disso? No plano físico, quero dizer?

=Teosofista=

Para despertar o sentimento fraternal entre as nações, temos de auxiliar no intercâmbio internacional de artes e produtos úteis, por meio de conselhos, informações e cooperação com todos os indivíduos e associações dignos (desde que, acrescentam os estatutos, "nenhum benefício ou percentagem seja cobrado pela Sociedade ou pelos 'Membros' por seus serviços corporativos"). Por exemplo, para dar uma ilustração prática.

A organização da Sociedade, descrita por Edward Bellamy, em sua magnífica obra "Looking Backwards", representa admiravelmente a ideia teosófica do que deveria ser o primeiro grande passo rumo à plena realização da fraternidade universal.

O estado de coisas que ele descreve fica aquém da perfeição, porque o egoísmo ainda existe e opera nos corações dos homens.

Mas, no geral, o egoísmo e o individualismo foram superados pelo sentimento de solidariedade e mútua fraternidade; e o esquema de vida ali descrito reduz ao mínimo as causas que tendem a criar e fomentar o egoísmo.

=Perguntador=

Então, como teosofista, você participará de um esforço para realizar tal ideal?

=Teosofista=

Certamente; e provamos isso por meio de ações.

Não ouviu falar dos clubes nacionalistas e do partido que surgiram na América desde a publicação do livro de Bellamy? Eles agora estão vindo à tona de forma proeminente, e o farão cada vez mais com o passar do tempo. Pois bem, esses clubes e esse partido foram iniciados em primeira instância por teosofistas.

Um dos primeiros, o Clube Nacionalista de Boston, Massachusetts, tem teosofistas como Presidente e Secretário, e a maioria de seus executivos pertence à S.T. Na constituição de todos os seus clubes, e do partido que estão formando, a influência da Teosofia e da Sociedade é evidente, pois todos tomam como base, seu primeiro e fundamental princípio, a Fraternidade da Humanidade, conforme ensinada pela Teosofia.

Em sua declaração de Princípios, afirmam:—"O princípio da Fraternidade da Humanidade é uma das verdades eternas que governam o progresso do mundo em linhas que distinguem a natureza humana da natureza bruta." O que pode ser mais teosófico do que isso? Mas não é suficiente.

O que também é necessário é impressionar os homens com a ideia de que, se a raiz da humanidade é _una_, então deve haver também uma única verdade que se expressa em todas as diversas religiões—exceto na judaica, pois você não a encontra _expressa_ nem mesmo na Cabala.

=Perguntador=

Isso se refere à origem comum das religiões, e você pode estar certo nisso.

Mas como isso se aplica à fraternidade prática no plano físico?

=Teosofista=

Primeiro, porque o que é verdadeiro no plano metafísico deve ser também verdadeiro no físico.

Em segundo lugar, porque não há fonte mais fértil de ódio e discórdia do que as diferenças religiosas.

Quando uma parte ou outra se julga a única possuidora da verdade absoluta, torna-se natural que pense que o seu próximo está absolutamente nas garras do Erro ou do Diabo.

Mas, uma vez que se faça um homem ver que nenhum deles tem a _totalidade_ da verdade, mas que são mutuamente complementares, que a verdade completa só pode ser encontrada nas visões combinadas de todos, depois de o que há de falso em cada uma delas ter sido separado — então a verdadeira fraternidade na religião será estabelecida.

O mesmo se aplica ao mundo físico.

=Perguntador=

Por favor, explique melhor.

=Teosofista=

Tome um exemplo.

Uma planta consiste em uma raiz, um caule e muitos brotos e folhas.

Assim como a humanidade, como um todo, é o caule que cresce da raiz espiritual, assim o caule é a unidade da planta.

Fira o caule e é óbvio que todos os brotos e folhas sofrerão.

Assim é com a humanidade.

=Perguntador=

Sim, mas se você ferir uma folha ou um broto, não fere a planta inteira.

=Teosofista=

E portanto você pensa que, ferindo _um_ homem, não fere a humanidade? Mas como _você_ sabe? Está ciente de que até a ciência materialista ensina que qualquer dano, por mais leve que seja, a uma planta afetará todo o curso do seu futuro crescimento e desenvolvimento? Portanto, você está enganado, e a analogia é perfeita.

Se, no entanto, você ignora o fato de que um corte no dedo pode muitas vezes fazer todo o corpo sofrer e repercutir em todo o sistema nervoso, devo ainda mais lembrá-lo de que pode muito bem haver outras leis espirituais, operando sobre plantas e animais, bem como sobre a humanidade, embora, como você não reconhece sua ação sobre plantas e animais, possa negar sua existência.

=Perguntador=

Que leis você quer dizer?

=Teosofista=

Nós as chamamos de leis cármicas; mas você não compreenderá o pleno significado do termo a menos que estude Ocultismo.

No entanto, meu argumento não se baseou na suposição dessas leis, mas realmente na analogia da planta.

Expanda a ideia, leve-a a uma aplicação universal, e logo descobrirá que, na verdadeira filosofia, toda ação física tem seu efeito moral e eterno.

Fira um homem causando-lhe dano corporal; você pode pensar que sua dor e sofrimento não podem, por nenhum meio, espalhar-se para seus vizinhos, muito menos para homens de outras nações.

Afirmamos _que isso acontecerá, no devido tempo_. Portanto, dizemos que, a menos que cada homem seja levado a compreender e aceitar _como uma verdade axiomática_ que, ao prejudicar um homem, prejudicamos não apenas a nós mesmos, mas toda a humanidade em última instância, nenhum sentimento fraternal, como o pregado por todos os grandes Reformadores, preeminentemente por Buda e Jesus, é possível na Terra.

=NOSSOS OUTROS OBJETIVOS.=

=Perguntador=

Explicareis agora os métodos pelos quais propõe-se realizar o segundo objetivo?

=Teosofista=

Coletar para a biblioteca de nossa sede em Adyar, Madras, (e pelos Membros de suas Filiais para suas bibliotecas locais) todas as boas obras sobre as religiões do mundo que pudermos.

Colocar por escrito informações corretas sobre as diversas filosofias, tradições e lendas antigas, e disseminá-las de maneiras tão práticas quanto a tradução e publicação de obras originais de valor, e extratos e comentários sobre as mesmas, ou as instruções orais de pessoas eruditas em seus respectivos departamentos.

=Perguntador=

E quanto ao terceiro objetivo, desenvolver no homem seus poderes espirituais ou psíquicos latentes?

=Teosofista=

Isso também deve ser alcançado por meio de publicações, nos lugares onde não são possíveis palestras e ensinamentos pessoais.

Nosso dever é manter viva no homem sua intuição espiritual.

Opor e neutralizar — após devida investigação e prova de sua natureza irracional — o fanatismo em todas as formas, religioso, científico ou social, e a _hipocrisia_ acima de tudo, seja como sectarismo religioso ou como crença em milagres ou em qualquer coisa sobrenatural.

O que temos de fazer é buscar obter _conhecimento_ de todas as leis da natureza e difundi-lo. Incentivar o estudo daquelas leis menos compreendidas pelos povos modernos, as chamadas Ciências Ocultas, _baseadas no verdadeiro conhecimento da natureza_, em vez de, como atualmente, em _crenças supersticiosas baseadas na fé cega e na autoridade_. O folclore e as tradições populares, por mais fantasiosos que às vezes sejam, quando peneirados podem levar à descoberta de segredos da natureza há muito perdidos, mas importantes.

A Sociedade, portanto, visa seguir essa linha de investigação, na esperança de ampliar o campo da observação científica e filosófica.

=SOBRE A SANTIDADE DO COMPROMISSO.=

=Perguntador=

Tendes algum sistema ético que executeis na Sociedade?

=Teosofista=

A ética está aí, pronta e clara o suficiente para quem quer que a siga.

Ela é a essência e a nata da ética mundial, reunida a partir dos ensinamentos de todos os grandes reformadores do mundo.

Portanto, você encontrará representados nela Confúcio e Zoroastro, Lao-Tsé e o Bhagavad-Gita, os preceitos de Gautama Buda e de Jesus de Nazaré, de Hilel e sua escola, bem como de Pitágoras, Sócrates, Platão e suas escolas.

=Perguntador=

Os membros de sua Sociedade cumprem esses preceitos? Ouvi falar de grandes dissensões e disputas entre eles.

=Teosofista=

Muito naturalmente, pois embora a reforma (em sua forma atual) possa ser chamada de nova, os homens e mulheres a serem reformados são as mesmas naturezas humanas, pecadoras, de outrora.

Como já foi dito, os membros sinceros e _atuantes_ são poucos; mas muitos são os indivíduos sinceros e bem-intencionados que fazem o melhor que podem para viver à altura dos ideais da Sociedade e dos seus próprios.

Nosso dever é encorajar e auxiliar os companheiros individualmente em seu autoaperfeiçoamento, intelectual, moral e espiritual; não culpar ou condenar aqueles que falham.

Estritamente falando, não temos o direito de recusar admissão a ninguém — especialmente na _Seção Esotérica_ da Sociedade, na qual "aquele que entra é como um recém-nascido". Mas se algum membro, não obstante seus sagrados compromissos, em sua palavra de honra e em seu imortal _Self_, escolher continuar, após esse "novo nascimento", com o novo homem, os vícios ou defeitos de sua vida antiga, e ainda se entregar a eles na Sociedade, então, é claro, é muito provável que lhe seja pedido que renuncie e se retire; ou, em caso de recusa, que seja expulso.

Temos regras rigorosíssimas para tais emergências.

=Perguntador=

Algumas delas podem ser mencionadas?

=Teosofista=

Podem.

Para começar, nenhum Membro da Sociedade, seja exotérico ou esotérico, tem o direito de impor suas opiniões pessoais a outro Membro.

"Não é lícito a _qualquer oficial da Sociedade Mãe_ expressar em público, por palavra ou ato, qualquer hostilidade ou preferência por uma seção,[13] religiosa ou filosófica, mais do que por outra.

Todos têm igual direito de que as características essenciais de sua crença religiosa sejam apresentadas ao tribunal de um mundo imparcial."

E nenhum oficial da Sociedade, em sua capacidade de oficial, tem o direito de pregar suas próprias visões e crenças sectárias aos membros reunidos, exceto quando a reunião consiste em seus correligionários.

Após devido aviso, a violação desta regra será punida com suspensão ou expulsão.” Esta é uma das ofensas na Sociedade em geral.

No que diz respeito à seção interna, agora chamada de _Esotérica_, as seguintes regras foram estabelecidas e adotadas, já em 1880. “Nenhum Membro deverá usar para seu proveito egoísta qualquer conhecimento comunicado a ele por qualquer membro da primeira seção (agora um ‘grau’ superior); a violação da regra sendo punida com expulsão.” Agora, porém, antes que tal conhecimento possa ser transmitido, o candidato deve se comprometer por um juramento solene a não usá-lo para fins egoístas, nem revelar qualquer coisa dita, exceto com permissão.

=Perguntador=

Mas um homem expulso, ou que se demite da seção, está livre para revelar qualquer coisa que possa ter aprendido, ou para quebrar qualquer cláusula do compromisso que assumiu?

=Teosofista=

Certamente que não.

Sua expulsão ou demissão apenas o libera da obrigação de obediência ao mestre, e da de participar ativamente do trabalho da Sociedade, mas certamente não do sagrado compromisso de sigilo.

=Perguntador=

Mas isso é razoável e justo?

=Teosofista=

Com toda a certeza.

Para qualquer homem ou mulher com o mais leve sentimento de honra, um compromisso de sigilo assumido mesmo sob _palavra de honra_, muito mais para o seu Eu Superior—o Deus interior—é vinculativo até a morte.

E embora possa deixar a Seção e a Sociedade, nenhum homem ou mulher de honra pensará em atacar ou prejudicar um corpo ao qual ele ou ela tenha feito tal compromisso.

=Perguntador=

Mas isso não está indo um pouco longe demais?

=Teosofista=

Talvez sim, de acordo com o baixo padrão do tempo presente e da moralidade.

Mas, se não vincula até esse ponto, de que serve um _compromisso_? Como alguém pode esperar receber ensinamentos secretos, se lhe é permitido libertar-se de todas as obrigações que assumiu, sempre que lhe aprouver? Que segurança, confiança ou fé existiria entre eles, se compromissos como esse não tivessem força realmente vinculante alguma? Creia-me, a lei da retribuição (Karma) muito em breve alcançaria aquele que assim quebrasse seu compromisso, e talvez tão cedo quanto o desprezo de todo homem honrado o faria, mesmo neste plano físico.

Como bem expresso no "Path" de N. Y., já citado sobre este assunto, "_Um compromisso uma vez assumido, vincula para sempre, tanto no mundo moral quanto no oculto._ Se o quebramos uma vez e somos punidos, isso não nos justifica a quebrá-lo novamente, e enquanto o fizermos, por tanto tempo o poderoso braço da Lei (do Karma) reagirá sobre nós." (The _Path_, julho de 1889.) [10] _Vide_ (no final) as regras oficiais da S.T., Apêndice A. _Nota bene_, "S.T." é uma abreviatura para "Sociedade Teosófica".


[11] Publicanos — considerados naqueles dias como tantos ladrões e batedores de carteiras.

Entre os judeus, o nome e a profissão de um publicano eram a coisa mais odiosa do mundo.

Não lhes era permitido entrar no Templo, e Mateus (xviii.

17) fala de um pagão e de um publicano como idênticos.

No entanto, eles eram apenas cobradores de impostos romanos, ocupando a mesma posição que os oficiais britânicos na Índia e em outros países conquistados.

[12] "No final da Idade Média, a escravidão, sob o poder das forças morais, havia em grande parte desaparecido da Europa; mas dois eventos momentosos ocorreram que sobrepujaram o poder moral que operava na sociedade europeia e soltaram uma torrente de maldições sobre a terra, como a humanidade dificilmente conhecera.

Um desses eventos foi a primeira viagem a uma costa povoada e bárbara, onde os seres humanos eram um artigo familiar de comércio; e o outro, a descoberta de um novo mundo, onde minas de riqueza reluzente estavam abertas, desde que se pudesse importar trabalho para operá-las."

Durante quatrocentos anos, homens, mulheres e crianças foram arrancados de todos os que conheciam e amavam, e vendidos na costa da África a comerciantes estrangeiros; foram acorrentados nos porões — os mortos muitas vezes junto com os vivos — durante a horrível "travessia intermediária", e, segundo Bancroft, um historiador imparcial, duzentos e cinquenta mil de três milhões e duzentos e cinquenta mil foram lançados ao mar nessa passagem fatal, enquanto os restantes foram condenados a miséria sem nome nas minas, ou sob o chicote nos campos de cana e arroz.

A culpa desse grande crime recai sobre a Igreja Cristã.

"Em nome da Santíssima Trindade", o Governo espanhol (Católico Romano) concluiu mais de dez tratados autorizando a venda de quinhentos mil seres humanos; em 1562, Sir John Hawkins navegou em sua diabólica missão de comprar escravos na África e vendê-los nas Índias Ocidentais em um navio que ostentava o sagrado nome de Jesus; enquanto Elizabeth, a Rainha Protestante, recompensou-o por seu sucesso nessa primeira aventura de ingleses nesse tráfico desumano, permitindo-lhe usar como brasão "um meio-mouro em sua cor natural, amarrado com uma corda, ou, em outras palavras, um escravo negro acorrentado." — _Conquistas da Cruz_ (citado do _Agnostic Journal_).

[13] Um "ramo", ou loja, composto exclusivamente de correligionários, ou um ramo _in partibus_, como agora são chamados de maneira um tanto bombástica.


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=IV. AS RELAÇÕES DA SOCIEDADE TEOSÓFICA COM A TEOSOFIA.=
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=SOBRE O AUTOAPERFEIÇOAMENTO.=

=Perguntador=

Então a elevação moral é a principal coisa defendida em sua Sociedade?

=Teosofista=

Sem dúvida! Aquele que quiser ser um verdadeiro Teosofista deve levar-se a viver como tal.

=Perguntador=

Se assim é, então, como observei antes, o comportamento de alguns membros contradiz estranhamente essa regra fundamental.

=Teosofista=

De fato contradiz.

Mas isso não pode ser evitado entre nós, mais do que entre aqueles que se chamam cristãos e agem como demônios.

Isso não é culpa de nossos estatutos e regras, mas da natureza humana.

Mesmo em alguns ramos exotéricos públicos, os membros comprometem-se, por seu "Eu Superior", a viver _a_ vida prescrita pela Teosofia.

Eles têm de trazer seu _Self Divino_ para guiar cada pensamento e ação, todos os dias e a cada momento de suas vidas.

Um verdadeiro Teosofista deve "agir com justiça e caminhar humildemente".

=Perguntador=

O que você quer dizer com isso?

=Teosofista=

Simplesmente isto: o eu único deve esquecer-se de si mesmo pelos muitos eus.

Deixe-me responder-lhe com as palavras de um verdadeiro filaleteano, um F.T.S., que o expressou belamente no _Theosophist_: "O que todo homem precisa primeiro é encontrar a si mesmo, e então fazer um inventário honesto de suas posses subjetivas, e, por mais ruim ou falido que seja, não está além da redenção se nos dedicarmos a isso com seriedade." Mas quantos o fazem? Todos estão dispostos a trabalhar pelo próprio desenvolvimento e progresso; muito poucos pelo dos outros.

Para citar o mesmo escritor novamente: "Os homens têm sido enganados e iludidos por tempo suficiente; eles devem quebrar seus ídolos, abandonar suas falsidades, e ir trabalhar por si mesmos—não, há uma pequena palavra a mais ou demais, pois aquele que trabalha para si mesmo faria melhor em não trabalhar; antes, que ele trabalhe para os outros, para todos.

Pois cada flor de amor e caridade que ele planta no jardim do seu próximo, uma erva daninha repugnante desaparecerá do seu próprio, e assim este jardim dos deuses—a Humanidade—florescerá como uma rosa.

Em todas as Bíblias, todas as religiões, isso está claramente exposto—mas homens interesseiros primeiro o interpretaram mal e finalmente o enfraqueceram, materializaram, embotaram.

Não requer uma nova revelação. Que cada homem seja uma revelação para si mesmo. Que uma vez o espírito imortal do homem tome posse do templo do seu corpo, expulse os cambistas e toda coisa impura, e sua própria humanidade divina o redimirá, pois quando ele está assim em unidade consigo mesmo, ele conhecerá o 'construtor do Templo.'"

=Perguntador= Isto é puro altruísmo, confesso.

=Teosofista= É. E se apenas um Membro da T.S. em cada dez o praticasse, o nosso seria um corpo de eleitos de fato.

Mas há aqueles entre os de fora que sempre se recusarão a ver a diferença essencial entre Teosofia e a Sociedade Teosófica, a ideia e sua encarnação imperfeita.

Tais pessoas atribuiriam cada pecado e deficiência do veículo, o corpo humano, ao espírito puro que derrama sobre ele sua luz divina.

Isso é apenas para...? Eles atiram pedras em uma associação que tenta trabalhar em prol de, e para a propagação de, seu ideal com as mais tremendas adversidades contra si. Alguns vilipendiam a Sociedade Teosófica apenas porque ela presume tentar fazer aquilo em que outros sistemas — o Cristianismo de Igreja e Estado, preeminentemente — falharam de forma mais flagrante; outros, porque prefeririam preservar o estado atual das coisas: fariseus e saduceus na cátedra de Moisés, e publicanos e pecadores regozijando-se nos altos cargos, como sob o Império Romano durante sua decadência.

Pessoas de mente justa, de qualquer forma, deveriam lembrar que o homem que faz tudo o que pode faz tanto quanto aquele que alcançou o máximo, neste mundo de possibilidades relativas.

Isto é uma verdade simples, um axioma apoiado, para os crentes nos Evangelhos, pela parábola dos talentos dada por seu Mestre; o servo que dobrou seus dois talentos foi recompensado tanto quanto aquele outro companheiro de serviço que recebera _cinco_. A cada homem é dado "segundo a sua própria capacidade".

=Perguntador=

Contudo, é bastante difícil traçar a linha de demarcação entre o abstrato e o concreto neste caso, pois temos apenas o último para nos guiar em nosso julgamento.

=Teosofista=

Então por que abrir uma exceção para a S.T.? A justiça, como a caridade, deveria começar em casa.

Vilipendiareis e zombareis do "Sermão da Montanha" porque vossas leis sociais, políticas e até mesmo religiosas, até agora, não apenas falharam em cumprir seus preceitos em seu espírito, mas até mesmo em sua letra morta? Aboli o juramento nos Tribunais, no Parlamento, no Exército e em toda parte, e fazei como os quacres, se _vos_ chamais de cristãos.

Aboli os próprios Tribunais, pois se quiserdes seguir os Mandamentos de Cristo, tendes que dar vosso manto àquele que vos priva da vossa capa, e voltar a face esquerda ao agressor que vos fere na direita.

“Não resistais ao mal, amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam”, pois “qualquer que violar um destes mandamentos, ainda que dos menores, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no Reino dos Céus”, e “qualquer que disser: ‘Tolo’, estará sujeito ao inferno de fogo”. E por que julgaríeis, se não quereis ser julgados por vossa vez? Insisti que entre a Teosofia e a Sociedade Teosófica não há diferença, e imediatamente exporeis o sistema do Cristianismo e sua própria essência às mesmas acusações, apenas de forma mais séria.

=Perguntador=

Por que _mais_ séria?

=Teosofista=

Porque, enquanto os líderes do movimento teosófico, reconhecendo plenamente suas deficiências, tentam tudo o que podem para corrigir seus caminhos e erradicar o mal existente na Sociedade; e enquanto suas regras e estatutos são formulados no espírito da Teosofia, os Legisladores e as Igrejas das nações e países que se chamam cristãos fazem o contrário.

Nossos membros, mesmo os piores entre eles, não são piores do que o cristão médio.

Além disso, se os Teosofistas ocidentais experimentam tanta dificuldade em levar a verdadeira vida teosófica, é porque são todos filhos de sua geração.

Cada um deles era cristão, criado e educado na sofisticação de sua Igreja, em seus costumes sociais, e até mesmo em suas leis paradoxais.

Ele era isso antes de se tornar teosofista, ou melhor, membro da Sociedade desse nome, pois não se pode repetir com demasiada frequência que entre o ideal abstrato e seu veículo há uma diferença importantíssima.

=O ABSTRATO E O CONCRETO.=

=Perguntador=

Por favor, elucide um pouco mais essa diferença.

=Teosofista=

A Sociedade é um grande corpo de homens e mulheres, composto dos elementos mais heterogêneos.

A Teosofia, em seu significado abstrato, é a Sabedoria Divina, ou o agregado do conhecimento e da sabedoria que subjazem ao Universo—a homogeneidade do BEM eterno; e em seu sentido concreto é a soma total do mesmo, conforme atribuída ao homem pela natureza, nesta terra, e nada mais.

Alguns membros se esforçam sinceramente para realizar e, por assim dizer, objetivar a Teosofia em suas vidas; enquanto outros desejam apenas conhecê-la, não praticá-la; e outros ainda podem ter se filiado à Sociedade meramente por curiosidade, ou por um interesse passageiro, ou talvez, novamente, porque alguns de seus amigos pertencem a ela. Como, então, pode o sistema ser julgado pelo padrão daqueles que assumiriam o nome sem qualquer direito a ele? A poesia ou sua musa deve ser medida apenas por esses pretensos poetas que afligem nossos ouvidos? A Sociedade pode ser considerada a encarnação da Teosofia apenas em seus motivos abstratos; nunca pode presumir chamar a si mesma de seu veículo concreto enquanto as imperfeições e fraquezas humanas estiverem todas representadas em seu corpo; caso contrário, a Sociedade estaria apenas repetindo o grande erro e os sacrilégios transbordantes das assim chamadas Igrejas de Cristo.

Se comparações orientais forem permitidas, a Teosofia é o oceano sem margens da verdade, do amor e da sabedoria universais, refletindo seu esplendor sobre a terra, enquanto a Sociedade Teosófica é apenas uma bolha visível nesse reflexo.

A Teosofia é a natureza divina, visível e invisível, e sua Sociedade é a natureza humana tentando ascender ao seu divino progenitor.

A Teosofia, finalmente, é o sol eterno e fixo, e sua Sociedade é o cometa evanescente tentando se estabelecer em uma órbita para se tornar um planeta, girando sempre dentro da atração do sol da verdade.

Foi formada para auxiliar a mostrar aos homens que tal coisa como a Teosofia existe, e para ajudá-los a ascender em direção a ela, estudando e assimilando suas verdades eternas.

=Perguntador=

Pensei que você tivesse dito que não tinha tenentes ou doutrinas próprias?

=Teosofista=

Não temos mesmo.

A Sociedade não tem sabedoria própria para sustentar ou ensinar.

É simplesmente o depósito de todas as verdades proferidas pelos grandes videntes, iniciados e profetas das eras históricas e até pré-históricas; pelo menos, tantas quantas puder obter.

Portanto, é meramente o canal através do qual mais ou menos verdade, encontrada nas declarações acumuladas dos grandes mestres da humanidade, é derramada no mundo.

=Perguntador=

Mas tal verdade é inalcançável fora da Sociedade? Não reivindica cada Igreja o mesmo?

=Teosofista=

De modo algum.

A existência inegável de grandes iniciados—verdadeiros “Filhos de Deus”—mostra que tal sabedoria foi frequentemente alcançada por indivíduos isolados, nunca, porém, sem a orientação de um mestre a princípio.

Mas a maioria dos seguidores de tais mestres, quando se tornaram mestres por sua vez, reduziram o universalismo desses ensinamentos ao estreito sulco de seus próprios dogmas sectários.

Os mandamentos de _um_ mestre escolhido foram então adotados e seguidos, com exclusão de todos os outros—se é que foram seguidos, note-se bem, como no caso do Sermão da Montanha.

Cada religião é assim um fragmento da verdade divina, feito para focalizar um vasto panorama de fantasia humana que pretendia representar e substituir essa verdade.

=Perguntador=

Mas a Teosofia, dizeis, não é uma religião?

=Teosofista=

Certamente não é, pois é a essência de toda religião e da verdade absoluta, uma gota da qual apenas subjaz a cada credo.

Para recorrer mais uma vez à metáfora.

A Teosofia, na Terra, é como o raio branco do espectro, e cada religião é apenas uma das sete cores prismáticas.

Ignorando todas as outras, e amaldiçoando-as como falsas, cada raio colorido especial reivindica não apenas prioridade, mas ser _aquele raio branco_ em si mesmo, e anatematiza até mesmo seus próprios matizes, do claro ao escuro, como heresias.

Contudo, à medida que o sol da verdade se eleva cada vez mais alto no horizonte da percepção humana, e cada raio colorido gradualmente se desvanece até ser finalmente reabsorvido por sua vez, a humanidade não será mais amaldiçoada com polarizações artificiais, mas se encontrará banhando-se na pura luz solar incolor da verdade eterna.

E isso será _Teosofia_.

=Perguntador=

Vossa afirmação é, então, que todas as grandes religiões derivam da Teosofia, e que é assimilando-a que o mundo será finalmente salvo da maldição de suas grandes ilusões e erros?

=Teosofista=

Precisamente. E acrescentamos que nossa Sociedade Teosófica é a humilde semente que, se regada e deixada viver, finalmente produzirá a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, que está enxertada na Árvore da Vida Eterna.

Pois é somente estudando as várias grandes religiões e filosofias da humanidade, comparando-as com imparcialidade e com mente desprovida de preconceitos, que os homens podem esperar chegar à verdade.

É especialmente ao descobrir e observar seus vários pontos de concordância que podemos alcançar esse resultado.

Pois tão logo chegamos—seja pelo estudo, seja por sermos ensinados por alguém que sabe—ao seu significado interno, descobrimos, quase em todos os casos, que ele expressa alguma grande verdade da Natureza.

=Perguntador=

Ouvimos falar de uma Era de Ouro que existiu, e o que você descreve seria uma Era de Ouro a ser realizada em algum dia futuro. Quando será?

=Teosofista=

Não antes que a humanidade, como um todo, sinta a necessidade dela. Uma máxima do persa "Javidan Khirad" diz: "A verdade é de dois tipos—uma manifesta e evidente por si mesma; a outra exigindo incessantemente novas demonstrações e provas." É somente quando este último tipo de verdade se torna tão universalmente óbvio quanto agora é obscuro, e portanto sujeito a ser distorcido pela sofística e pela casuística; é somente quando os dois tipos se tornarem novamente um só, que todas as pessoas serão levadas a ver da mesma forma.

=Perguntador=

Mas certamente aqueles poucos que sentiram a necessidade de tais verdades devem ter decidido acreditar em algo definido? Você me diz que, não tendo a Sociedade doutrinas próprias, cada membro pode crer como escolher e aceitar o que lhe aprouver. Isso parece indicar que a Sociedade Teosófica está empenhada em reviver a confusão de línguas e crenças da Torre de Babel de outrora. Não tendes crenças em comum?

=Teosofista=

O que se quer dizer com a Sociedade não ter princípios ou doutrinas próprios é que nenhuma doutrina ou crença especial é _obrigatória_ para seus membros; mas, naturalmente, isso se aplica apenas ao corpo como um todo. A Sociedade, como lhe foi dito, está dividida em um corpo externo e um interno. Aqueles que pertencem a este último têm, evidentemente, uma filosofia—ou, se preferir—um sistema religioso próprio.

=Perguntador=

Podemos saber qual é?

=Teosofista=

Não fazemos segredo disso. Foi delineado há alguns anos no _Theosophist_ e no "Budismo Esotérico", e pode ser encontrado ainda mais elaborado na "Doutrina Secreta". Baseia-se na mais antiga filosofia do mundo, chamada de Religião da Sabedoria ou Doutrina Arcaica. Se quiser, pode fazer perguntas e tê-las explicadas.


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=V. OS ENSINAMENTOS FUNDAMENTAIS DA TEOSOFIA.=
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=SOBRE DEUS E A ORAÇÃO.=

=Perguntador=

Você acredita em Deus?

=Teosofista=

Isso depende do que você quer dizer com o termo.

=Perguntador=

Quero dizer o Deus dos cristãos, o Pai de Jesus, e o Criador: o Deus bíblico de Moisés, em suma.

=Teosofista=

Em tal Deus, não acreditamos.

Rejeitamos a ideia de um Deus pessoal, ou extra-cósmico e antropomórfico, que é apenas a sombra gigantesca do _homem_, e nem mesmo do homem em seu melhor estado.

O Deus da teologia, dizemos — e provamos — é um feixe de contradições e uma impossibilidade lógica.

Portanto, não queremos nada com ele.

=Perguntador=

Apresente suas razões, por favor.

=Teosofista=

São muitas, e não podem receber todas atenção.

Mas aqui estão algumas.

Este Deus é chamado por seus devotos de infinito e absoluto, não é?

=Perguntador=

Creio que sim.

=Teosofista=

Então, se infinito — _i.e._, ilimitado — e especialmente se absoluto, como pode ele ter uma forma e ser criador de qualquer coisa? Forma implica limitação, e um começo assim como um fim; e, para criar, um Ser deve pensar e planejar.

Como pode o ABSOLUTO ser suposto pensar — _i.e._, ter qualquer relação com aquilo que é limitado, finito e condicionado? Isso é um absurdo filosófico e lógico.

Até a Cabala hebraica rejeita tal ideia, e portanto faz do uno e absoluto Princípio Divino uma Unidade infinita chamada Ain Soph.[14] Para criar, o Criador tem de se tornar ativo; e como isso é impossível para a ABSOLUTIDADE, o princípio infinito teve de ser mostrado tornando-se a causa da evolução (não da criação) de uma maneira indireta — _i.e._, através da emanação de si mesmo (outro absurdo, desta vez devido aos tradutores da Cabala)[15] dos Sephiroth.

=Perguntador=

E quanto àqueles cabalistas que, sendo tais, ainda creem em Jeová, ou no _Tetragrammaton_?

=Teosofista=

Eles estão à vontade para crer no que lhes aprouver, pois sua crença ou descrença dificilmente pode afetar um fato evidente por si mesmo.

Os jesuítas nos dizem que dois e dois nem sempre são quatro com certeza, pois depende da vontade de Deus fazer 2 x 2 = 5. Devemos aceitar sua sofismaria apesar disso?

=Perguntador=

Então vocês são ateus?

=Teosofista=

Não que saibamos, e não a menos que o epíteto de "ateu" seja aplicado àqueles que descreem em um Deus antropomórfico.

Cremos em um Princípio Divino Universal, a raiz de TUDO, do qual tudo procede, e dentro do qual tudo será absorvido ao final do grande ciclo do Ser.

=Perguntador=

Essa é a velha, velha alegação do panteísmo.

Se vocês são panteístas, não podem ser deístas; e se não são deístas, então têm de responder ao nome de ateus.

=Teosofista=

Não necessariamente. O termo "Panteísmo" é, novamente, uma das muitas palavras abusadas, cujo significado real e primitivo foi distorcido por preconceito cego e por uma visão unilateral. Se você aceitar a etimologia cristã dessa palavra composta, formando-a de , "tudo", e , "deus", e então imaginar e ensinar que isso significa que cada pedra e cada árvore na Natureza é um Deus ou o ÚNICO Deus, então, é claro, você estará certo, e fará dos panteístas adoradores de fetiches, além de seu nome legítimo.

Mas você dificilmente terá tanto sucesso se etimologizar a palavra Panteísmo esotericamente, e como nós fazemos.

=Perguntador=

Qual é, então, a sua definição dela?

=Teosofista=

Deixe-me fazer-lhe uma pergunta, por minha vez.

O que você entende por Pan ou Natureza?

=Perguntador=

Natureza é, suponho, a soma total das coisas existentes ao nosso redor; o agregado de causas e efeitos no mundo da matéria, a criação ou universo.

=Teosofista=

Portanto, a soma personificada e a ordem das causas e efeitos conhecidos; o total de todas as agências e forças finitas, como totalmente desconectado de um Criador ou Criadores inteligentes, e talvez "concebido como uma força única e separada"—como em suas enciclopédias?

=Perguntador=

Sim, creio que sim.

=Teosofista=

Bem, nós não levamos em consideração essa natureza objetiva e material, que chamamos de ilusão evanescente, nem queremos dizer com Natureza, no sentido de sua derivação aceita do latim _Natura_ (tornar-se, de _nasci_, nascer). Quando falamos da Divindade e a tornamos idêntica, portanto coeterna, à Natureza, a natureza eterna e incriada é o que se quer dizer, e não o seu agregado de sombras fugazes e irrealidades finitas.

Deixamos aos compositores de hinos chamar o céu ou firmamento visível de Trono de Deus, e a nossa terra de barro, Seu escabelo.

Nossa DIVINDADE não está nem em um paraíso, nem em uma árvore, edifício ou montanha particular; está em toda parte, em cada átomo do Cosmos visível como do invisível, em, sobre e ao redor de cada átomo invisível e molécula divisível; pois É o misterioso poder de evolução e involução, a potencialidade criativa onipresente, onipotente e até onisciente.

=Perguntador=

Pare! Onisciência é prerrogativa de algo que pensa, e você nega à sua Absolutidade o poder do pensamento.

=Teosofista=

Nós o negamos ao ABSOLUTO, pois o pensamento é algo limitado e condicionado.

Mas você evidentemente esquece que, em filosofia, a inconsciência absoluta é também consciência absoluta, caso contrário não seria _absoluta_.

=Perguntador=

Então o seu Absoluto pensa?

=Teosofista=

Não, ELE não pensa; pela simples razão de que é o próprio _Pensamento Absoluto_.

Tampouco existe, pela mesma razão, pois é existência absoluta e _Ser-essência_, não um Ser.

Leia o soberbo poema cabalístico de Salomão Ben Jehudá Gabirol, no Kether-Malchut, e compreenderá:—"Tu és um, a raiz de todos os números, mas não como um elemento de numeração; pois a unidade não admite multiplicação, mudança ou forma.

Tu és um, e no segredo da Tua unidade os mais sábios dos homens se perdem, porque não a conhecem.

Tu és um, e a Tua unidade nunca é diminuída, nunca estendida, e não pode ser mudada.

Tu és um, e nenhum pensamento meu pode fixar para Ti um limite, ou definir-Te.

Tu ÉS, mas não como um existente, pois o entendimento e a visão dos mortais não podem alcançar a Tua existência, nem determinar para Ti o onde, o como e o porquê," etc., etc.

Em suma, a nossa Divindade é o construtor eterno, incessantemente _evoluindo_, não _criando_, do universo; _esse próprio universo desdobrando-se_ de sua própria essência, não sendo _feito_. É uma esfera, sem circunferência, em seu simbolismo, que tem apenas um atributo sempre atuante, abrangendo todos os outros atributos existentes ou pensáveis—ELA MESMA.

É a lei única, que dá o impulso às leis manifestadas, eternas e imutáveis, dentro dessa LEI absoluta que nunca se manifesta, _porque_ absoluta, a qual, em seus períodos manifestadores, é _O eterno Devir_.

=Perguntador=

Uma vez ouvi um de seus membros comentar que a Divindade Universal, estando em toda parte, estava em vasos de desonra, assim como nos de honra, e, portanto, estava presente em cada átomo das cinzas do meu charuto! Isso não é uma blasfêmia grave?

=Teosofista=

Não creio que seja, pois a lógica simples dificilmente pode ser considerada blasfêmia.

Se excluíssemos o Princípio Onipresente de um único ponto matemático do universo, ou de uma partícula de matéria ocupando qualquer espaço concebível, poderíamos ainda considerá-lo infinito?

=É NECESSÁRIO ORAR?=

=Perguntador=

Você acredita em oração, e você alguma vez ora?

=Teosofista=

Não oramos.

Nós _agimos_, em vez de _falar_.

=Perguntador=

Vocês não oferecem orações nem mesmo ao Princípio Absoluto?

=Teosofista=

Por que deveríamos? Sendo pessoas bem ocupadas, dificilmente podemos nos dar ao luxo de perder tempo dirigindo orações verbais a uma pura abstração.

O Incognoscível é capaz de relações apenas em suas partes umas com as outras, mas é inexistente no que diz respeito a quaisquer relações finitas.

O universo visível depende, para sua existência e fenômenos, de suas formas mutuamente atuantes e de suas leis, não de oração ou orações.

=Perguntador=

Você não acredita de modo algum na eficácia da oração?

=Teosofista=

Não na oração ensinada em tantas palavras e repetida externamente, se por oração você quer dizer a petição externa a um Deus desconhecido como destinatário, que foi inaugurada pelos judeus e popularizada pelos fariseus.

=Perguntador=

Existe algum outro tipo de oração?

=Teosofista=

Decididamente; nós a chamamos de ORAÇÃO-VONTADE, e é antes um comando interno do que uma petição.

=Perguntador=

A quem, então, você ora quando o faz?

=Teosofista=

Ao "nosso Pai no céu" — em seu sentido esotérico.

=Perguntador=

Isso é diferente daquele que lhe é dado na teologia?

=Teosofista=

Totalmente. Um Ocultista ou Teosofista dirige sua oração ao _seu Pai que está em secreto_ (leia, e tente entender, cap. vi, v. 6, Mateus), não a um Deus extra-cósmico e, portanto, finito; e esse "Pai" está no próprio homem.

=Perguntador=

Então você faz do homem um Deus?

=Teosofista=

Por favor, diga "Deus" e não _um_ Deus.

Em nosso sentido, o homem interior é o único Deus de que podemos ter conhecimento. E como poderia ser de outro modo? Concedei-nos nosso postulado de que Deus é um princípio infinito, universalmente difundido, e como poderia o homem sozinho escapar de ser permeado _pela_ e _na_ Divindade? Chamamos nosso "Pai no céu" a essa essência déifica da qual temos consciência dentro de nós, em nosso coração e consciência espiritual, e que nada tem a ver com a concepção antropomórfica que possamos formar dela em nosso cérebro físico ou em sua fantasia: "Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o grande espírito daquele espírito do Deus (absoluto) habita em vós?"[16] Contudo, que nenhum homem antropomorfize essa essência em nós. Que nenhum Teosofista, se quiser manter a verdade divina, e não humana, diga que esse "Deus em secreto" ouve, ou é distinto, seja do homem finito, seja da essência infinita — pois todos são um.

Nem, como foi dito, que uma oração é uma petição.

É um mistério, antes; um processo oculto pelo qual pensamentos e desejos finitos e condicionados, incapazes de serem assimilados pelo espírito absoluto que é incondicionado, são traduzidos em vontades espirituais e na vontade; tal processo sendo chamado de "transmutação espiritual". A intensidade de nossas aspirações ardentes transforma a oração na "pedra filosofal", ou naquilo que transmuta chumbo em ouro puro.

A única essência homogênea, nosso "poder de vontade", torna-se a força ativa ou criativa, produzindo efeitos de acordo com nosso desejo.

=Perguntador=

Quer dizer que a oração é um processo oculto que produz resultados físicos?

=Teosofista=

Sim. O _Poder de Vontade_ torna-se um poder vivo.

Mas ai daqueles Ocultistas e Teosofistas que, em vez de esmagar os desejos do _ego_ pessoal inferior ou homem físico, e dizer, dirigindo-se ao seu _Ego_ Espiritual Superior imerso na luz Atma-Búdica, "seja feita a Tua vontade, não a minha", etc., enviam ondas de poder de vontade para propósitos egoístas ou profanos! Pois isso é magia negra, abominação e feitiçaria espiritual.

Infelizmente, tudo isso é a ocupação favorita de nossos estadistas e generais cristãos, especialmente quando estes enviam dois exércitos para se matarem mutuamente.

Ambos se entregam antes da ação a um pouco dessa feitiçaria, oferecendo respectivamente orações ao mesmo Deus dos Exércitos, cada um suplicando sua ajuda para degolar seus inimigos.

=Perguntador=

Davi orou ao Senhor dos Exércitos para ajudá-lo a ferir os filisteus e matar os sírios e os moabitas, e "o Senhor preservou Davi por onde quer que fosse". Nisso apenas seguimos o que encontramos na Bíblia.

=Teosofista=

Claro que sim. Mas, já que vocês se deleitam em se chamar cristãos, não israelitas ou judeus, até onde sabemos, por que não seguem antes o que Cristo diz? E ele vos ordena distintamente a não seguir "os antigos", ou a lei mosaica, mas manda que façais como ele vos diz, e adverte aqueles que matam pela espada que também perecerão pela espada.

Cristo vos deu uma oração da qual fizestes uma oração de lábios e um motivo de orgulho, e que ninguém exceto o _verdadeiro_ Ocultista compreende.

Em      você diz, no seu sentido morto: “Perdoa-nos as nossas dívidas,      assim como perdoamos aos nossos devedores,” o que você nunca faz. Além disso, ele vos disse a      _amar vossos inimigos_ e a _fazer o bem aos que vos odeiam_. Certamente não é o “manso profeta de Nazaré” quem vos ensinou a orar      ao vosso “Pai” para matar e dar-vos vitória sobre vossos inimigos!      É por isso que rejeitamos o que chamais de “orações.”

=Perguntador=

Mas como explicais o fato universal de que todas as nações e      povos oraram e adoraram um Deus ou Deuses? Alguns adoraram e      propiciaram _demônios_ e espíritos nocivos, mas isso apenas      prova a universalidade da crença na eficácia da oração.

=Teosofista=

Isso se explica por outro fato: a oração tem vários outros      significados além daquele que os cristãos lhe atribuem.

Não significa apenas uma súplica ou _petição_, mas significava, em tempos antigos, muito mais uma invocação e encantamento.

O _mantra_, ou a      oração ritmicamente entoada dos hindus, tem precisamente esse significado, pois os brâmanes se consideram superiores aos comuns _devas_ ou “Deuses”.      Uma oração pode ser um apelo ou uma encantação para maldição, e      uma praga (como no caso de dois exércitos orando simultaneamente pela destruição mútua) tanto quanto para bênção.

E como a grande      maioria das pessoas é intensamente egoísta, e ora apenas por si      mesma, pedindo que lhes seja _dado_ o “pão de cada dia” em vez de      trabalhar por ele, e suplicando a Deus que não as deixe “cair em      tentação”, mas que as livre (somente aos que oram) do mal, o      resultado é que a oração, como agora é entendida, é duplamente perniciosa: (_a_)      Ela mata no homem a autoconfiança; (_b_) Desenvolve nele um      egoísmo e egotismo ainda mais ferozes do que aqueles com que a      natureza já o dotou.

Repito: acreditamos na “comunhão” e na      ação simultânea em uníssono com nosso “Pai em secreto”; e      em raros momentos de êxtase beatífico, na mescla de nossa      alma superior com a essência universal, atraída como é para sua      origem e centro, um estado chamado durante a vida _Samadhi_, e      após a morte, _Nirvana_. Recusamo-nos a orar a _criados_ seres finitos—_i.e._, deuses, santos, anjos, etc., porque consideramos isso      idolatria.

Não podemos orar ao ABSOLUTO pelas razões explicadas      anteriormente; portanto, tentamos substituir a oração infrutífera e inútil      por ações meritórias e produtoras de bem.

=Perguntador=

Os cristãos chamariam isso de orgulho e blasfêmia.

Estão errados?

=Teosofista=

Totalmente. São eles, ao contrário, que demonstram orgulho satânico ao acreditar que o Absoluto ou o Infinito, mesmo que existisse tal coisa como a possibilidade de qualquer relação entre o incondicionado e o condicionado—se dignará a ouvir cada oração tola ou egoísta.

E são eles novamente que virtualmente blasfemam, ao ensinar que um Deus Onisciente e Onipotente precisa de orações proferidas para saber o que tem de fazer! Isso—entendido esotericamente—é corroborado tanto por Buda quanto por Jesus.

Um diz "não busqueis nada dos deuses impotentes—não oreis! _mas antes agi_; pois a escuridão não se iluminará.

Nada peçais ao silêncio, pois ele não pode falar nem ouvir." E o outro—Jesus—recomenda: "Tudo quanto pedirdes em meu nome (o de Christos), isso farei." Naturalmente, esta citação, se tomada em seu sentido _literal_, vai contra nosso argumento.

Mas se a aceitarmos esotericamente, com pleno conhecimento do significado do termo "Christos", que para nós representa _Atma-Buddhi-Manas_, o "SELF", isso equivale a: o único Deus que devemos reconhecer e a quem devemos orar, ou antes agir em uníssono, é aquele espírito de Deus do qual nosso corpo é o templo, e no qual ele habita.

=A ORAÇÃO MATA A AUTOCONFIANÇA.=

=Perguntador=

Mas não orou o próprio Cristo e não recomendou a oração?

=Teosofista=

Assim está registrado, mas essas "orações" são precisamente desse tipo de comunhão mencionada com o "Pai em secreto". Caso contrário, e se identificarmos Jesus com a divindade universal, haveria algo absurdamente ilógico na conclusão inevitável de que ele, o "próprio Deus", _orasse a si mesmo_, e separasse a vontade desse Deus da sua própria!

=Perguntador=

Mais um argumento; um argumento, além disso, muito usado por alguns cristãos.

Eles dizem: "Sinto que não sou capaz de conquistar nenhuma paixão ou fraqueza com minha própria força.

Mas quando oro a Jesus Cristo, sinto que ele me dá força e que em seu poder sou capaz de conquistar."

=Teosofista=

Não é de admirar.

Se “Cristo Jesus” é Deus, e um ser independente e separado daquele que ora, então, é claro, tudo é, e _deve_ ser possível a “um Deus poderoso”. Mas, então, onde está o mérito, ou mesmo a justiça, de tal conquista? Por que o pseudo-conquistador seria recompensado por algo feito que lhe custou apenas orações? Você, mesmo um simples homem mortal, pagaria ao seu trabalhador um dia inteiro de salário se fizesse a maior parte do trabalho por ele, enquanto ele ficasse sentado sob uma macieira, orando a você para que o fizesse, o tempo todo? Essa ideia de passar a vida inteira na ociosidade moral, e ter o trabalho mais árduo e o dever cumpridos por outro—seja Deus ou homem—é revoltante para nós, assim como é degradante para a dignidade humana.

=Perguntador=

Talvez seja, contudo, é a ideia de confiar em um Salvador pessoal para ajudar e fortalecer na batalha da vida, que é a ideia fundamental do cristianismo moderno.

E não há dúvida de que, subjetivamente, tal crença é eficaz, _isto é_, que aqueles que creem _de fato_ se sentem ajudados e fortalecidos.

=Teosofista=

Tampouco há dúvida de que alguns pacientes dos “Cientistas Cristãos” e “Mentais”—os grandes “_Negadores_”[17]—também são às vezes curados; nem de que o hipnotismo, e a sugestão, a psicologia, e até o mediunismo, produzirão tais resultados, com tanta frequência, se não maior.

Você leva em consideração, e enfia no fio do seu argumento, apenas os sucessos.

E que dizer de dez vezes o número de fracassos? Certamente não ousará afirmar que o fracasso é desconhecido mesmo com uma suficiência de fé cega, entre cristãos fanáticos?

=Perguntador=

Mas como você explica aqueles casos que são seguidos de pleno sucesso? Onde um teosofista busca poder para subjugar suas paixões e egoísmo?

=Teosofista=

No seu Eu Superior, o espírito divino, ou o Deus dentro dele, e no seu _Karma_. Por quanto tempo teremos de repetir, uma e outra vez, que a árvore é conhecida pelos seus frutos, a natureza da causa pelos seus efeitos? Você fala em subjugar paixões e tornar-se bom através e com a ajuda de Deus ou Cristo.

Nós perguntamos: onde você encontra pessoas mais virtuosas, inocentes, que se abstêm do pecado e do crime—na cristandade ou no budismo—em países cristãos ou em terras pagãs? As estatísticas estão aí para dar a resposta e corroborar nossas afirmações.

Segundo o último censo no Ceilão e na Índia, na tabela comparativa de crimes cometidos por cristãos, muçulmanos, hindus, eurasianos, budistas, etc., etc., sobre dois milhões de população tomados ao acaso de cada um, e abrangendo os delitos de vários anos, a proporção de crimes cometidos pelo cristão é de 15 para 4, em comparação com os cometidos pela população budista.

(Vide LUCIFER, abril de 1888, p. 147, Artigo Conferências Cristãs sobre o Budismo.) Nenhum orientalista, nenhum historiador de renome, ou viajante em terras budistas, do Bispo Bigandet e do Abade Huc a Sir William Hunter e a todo funcionário imparcial, deixará de conceder a palma da virtude aos budistas antes dos cristãos.

Contudo, os primeiros (não a verdadeira seita siamesa budista, de modo algum) não acreditam nem em Deus nem em uma recompensa futura, fora desta terra.

Eles não oram, nem sacerdotes nem leigos.

"Orar!" exclamariam eles, maravilhados, "a quem, ou a quê?"

=Perguntador=

Então eles são verdadeiramente ateus.

=Teosofista=

Incontestavelmente, mas são também os homens mais amantes da virtude e mais observadores da virtude em todo o mundo. O Budismo diz: Respeita as religiões de outros homens e permanece fiel à tua própria; mas o Cristianismo eclesiástico, denunciando todos os deuses de outras nações como demônios, condenaria todo _não_-cristão à perdição eterna.

=Perguntador=

O sacerdócio budista não faz o mesmo?

=Teosofista=

Nunca.

Eles se apegam demasiado ao sábio preceito encontrado no DHAMMAPADA para fazer isso, pois sabem que, "Se alguém, seja ele erudito ou não, se considera tão grande a ponto de desprezar outros homens, é como um cego segurando uma vela—cego ele mesmo, ilumina os outros."

=SOBRE A ORIGEM DA ALMA HUMANA.=

=Perguntador=

Como, então, você explica que o homem seja dotado de um Espírito e de uma Alma? De onde vêm estes?

=Teosofista=

Da Alma Universal.

Certamente não concedidos por um Deus _pessoal_.

De onde vem o elemento úmido na água-viva? Do Oceano que a cerca, no qual ela vive, respira e tem seu ser, e para onde retorna quando se dissolve.

=Perguntador=

Então você rejeita o ensinamento de que a Alma é dada, ou soprada no homem, por Deus?

=Teosofista=

Somos obrigados a isso. A “Alma” mencionada no cap. ii do Gênesis (v. 7) é, como ali se afirma, a “alma vivente” ou _Nephesh_ (a alma _vital_, animal) com a qual Deus (nós dizemos “natureza” e _lei imutável_) dota o homem como a todo animal, não é de modo algum a alma pensante ou a mente; menos ainda é o _Espírito imortal_.

=Perguntador=

Bem, coloquemos de outra forma: é Deus quem dota o homem com uma alma _racional_ humana e com o Espírito imortal?

=Teosofista=

Novamente, na maneira como você coloca a questão, devemos objetar. Como não acreditamos em um Deus _pessoal_, como podemos acreditar que ele dota o homem com algo? Mas concedendo, por hipótese, um Deus que assume o risco de criar uma nova alma para cada recém-nascido, tudo o que se pode dizer é que tal Deus dificilmente pode ser considerado como dotado de qualquer sabedoria ou previsão.

Certas outras dificuldades e a impossibilidade de conciliar isso com as alegações feitas em favor da misericórdia, justiça, equidade e onisciência desse Deus são tantos recifes mortais contra os quais esse dogma teológico é diária e constantemente despedaçado.

=Perguntador=

O que você quer dizer? Que dificuldades?

=Teosofista=

Estou pensando em um argumento irrespondível oferecido uma vez em minha presença por um sacerdote budista cingalês, um famoso pregador, a um missionário cristão — de modo algum ignorante ou despreparado para a discussão pública durante a qual foi apresentado.

Foi perto de Colombo, e o missionário havia desafiado o sacerdote Megattivati a dar suas razões pelas quais o Deus cristão não deveria ser aceito pelos “pagãos”. Bem, o missionário saiu dessa discussão para sempre memorável em segundo lugar, como de costume.

=Perguntador=

Eu gostaria de saber de que maneira.

=Teosofista=

Simplesmente isto: o sacerdote budista começou perguntando ao _padre_ se seu Deus havia dado mandamentos a Moisés apenas para que os homens os guardassem, mas para serem quebrados pelo próprio Deus.

O missionário negou a suposição indignado.

Bem, disse seu oponente, “você nos diz que Deus não faz exceções a essa regra, e que nenhuma alma pode nascer sem a sua vontade.

Ora, Deus proíbe o adultério, entre outras coisas, e no entanto você diz no mesmo fôlego que é ele quem cria cada bebê que nasce, e que é ele quem o dota com uma alma.

Devemos então entender que os milhões de crianças nascidas do crime e do adultério são obra do seu Deus? Que o seu Deus proíbe e pune a violação de suas leis; e que, no entanto, _ele cria diariamente e a cada hora almas para tais crianças_? Segundo a lógica mais simples, o seu Deus é cúmplice do crime; pois, não fosse sua ajuda e interferência, nenhuma criança da luxúria poderia nascer.

Onde está a justiça de punir não apenas os pais culpados, mas até o inocente bebê, por aquilo que é feito por esse mesmo Deus, a quem vocês, no entanto, isentam de qualquer culpa?” O missionário olhou para o relógio e de repente percebeu que já era tarde demais para continuar a discussão.

=Perguntador=

Você esquece que todos esses casos inexplicáveis são mistérios, e que nossa religião nos proíbe de sondar os mistérios de Deus.

=Teosofista=

Não, não esquecemos, mas simplesmente rejeitamos tais impossibilidades.

Nem queremos que você acredite como nós. Apenas respondemos às perguntas que você faz.

Temos, no entanto, outro nome para os seus "mistérios".

=OS ENSINAMENTOS BUDISTAS SOBRE O ACIMA.=

=Perguntador=

O que o Budismo ensina com relação à Alma?

=Teosofista=

Depende se você se refere ao Budismo exotérico, popular, ou aos seus ensinamentos esotéricos.

O primeiro se explica no _Catecismo Budista_ desta maneira: "A Alma, considera ela, é uma palavra usada pelos ignorantes para expressar uma ideia falsa.

Se tudo está sujeito à mudança, então o homem está incluído, e toda parte material dele deve mudar.

O que está sujeito à mudança não é permanente, portanto não pode haver sobrevivência imortal de uma coisa mutável." Isso parece claro e definitivo.

Mas quando chegamos à questão de que a nova personalidade em cada renascimento sucessivo é o agregado dos "_Skandhas_", ou atributos, da personalidade _antiga_, e perguntamos se essa nova agregação de _Skandhas_ é igualmente um _novo_ ser, no qual nada permaneceu do último, lemos que: "Em um sentido é um novo ser, em outro não é.

Durante esta vida os Skandhas estão continuamente mudando, enquanto o homem A. B. de quarenta anos é idêntico quanto à personalidade ao jovem A. B. de dezoito anos, ainda assim, pela contínua perda e reparação de seu corpo e mudança de mente e caráter, ele é um ser diferente.

No entanto, o homem, em sua velhice, colhe justamente a recompensa ou o sofrimento consequente de seus pensamentos e ações em cada estágio anterior de sua vida.

Assim, o novo ser do renascimento, sendo a _mesma individualidade de antes_ (mas não a mesma personalidade), com apenas uma forma alterada, ou nova agregação de _Skandhas_, colhe justamente as consequências de suas ações e pensamentos na existência anterior.” Isso é metafísica abstrusa e claramente não expressa _descrença_ na Alma de forma alguma.

=Perguntador=

Não é algo assim que se menciona em _Budismo Esotérico_?

=Teosofista=

É, pois esse ensinamento pertence tanto ao _Budismo_ Esotérico, ou Sabedoria Secreta, quanto ao Budismo exotérico, ou a filosofia religiosa de Gautama Buda.

=Perguntador=

Mas nos dizem distintamente que a maioria dos budistas não acredita na imortalidade da Alma?

=Teosofista=

Tampouco nós acreditamos, se por Alma você entende o _Ego pessoal_, ou a Alma vital—_Nephesh_. Mas todo budista erudito acredita no Ego individual ou _divino_. Aqueles que não acreditam erram em seu julgamento.

Eles estão tão enganados nesse ponto quanto aqueles cristãos que confundem as interpolações teológicas dos editores posteriores dos Evangelhos sobre a danação e o fogo do inferno com declarações _verbatim_ de Jesus.

Nem Buda nem “Cristo” escreveram qualquer coisa pessoalmente, mas ambos falaram em alegorias e usaram “ditos obscuros”, como todos os verdadeiros Iniciados fizeram e ainda farão por muito tempo.

Ambas as Escrituras tratam de todas essas questões metafísicas com muita cautela, e ambos os registros, budista e cristão, pecam por esse excesso de exoterismo; o sentido literal ultrapassando em muito a marca em ambos os casos.

=Perguntador=

Quer você sugerir que nem os ensinamentos de Buda nem os de Cristo foram até agora corretamente compreendidos?

=Teosofista=

O que quero dizer é exatamente o que você disse.

Ambos os Evangelhos, o budista e o cristão, foram pregados com o mesmo objetivo em vista.

Ambos os reformadores foram filantropos ardentes e _altruístas práticos—pregando inconfundivelmente o Socialismo_ do tipo mais nobre e elevado, autossacrifício até o amargo fim.

“Que os pecados do mundo inteiro caiam sobre mim para que eu alivie a miséria e o sofrimento do homem!” clama Buda; ... “Eu não deixaria ninguém chorar a quem eu pudesse salvar!” exclama o Príncipe-mendigo, vestido com os trapos de refugo dos cemitérios.

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” — é o apelo aos pobres e deserdados feito pelo “Homem de Dores”, que não tem onde reclinar a cabeça.

Os ensinamentos de ambos são amor ilimitado pela humanidade, caridade, perdão das injúrias, esquecimento de si mesmo e compaixão pelas massas iludidas; ambos mostram o mesmo desprezo pelas riquezas e não fazem diferença entre _meum_ e _tuum_. Seu desejo era, sem revelar a _todos_ os sagrados mistérios da iniciação, dar aos ignorantes e aos extraviados, cujo fardo na vida era pesado demais para eles, esperança suficiente e um vislumbre da verdade que os sustentasse em suas horas mais difíceis.

Mas o objetivo de ambos os Reformadores foi frustrado, devido ao excesso de zelo de seus seguidores posteriores.

Tendo as palavras dos Mestres sido mal compreendidas e mal interpretadas, eis as consequências!

=Perguntador=

Mas certamente Buda deve ter repudiado a imortalidade da alma, se todos os orientalistas e seus próprios sacerdotes assim o dizem!

=Teosofista=

Os Arhats começaram seguindo a política de seu Mestre, e a maioria dos sacerdotes subsequentes não foi iniciada, assim como no cristianismo; e assim, pouco a pouco, as grandes verdades esotéricas quase se perderam.

Uma prova disso é que, das duas seitas existentes no Ceilão, a siamesa acredita que a morte seja a aniquilação absoluta da individualidade e da personalidade, e a outra explica o Nirvana como nós, teosofistas, o fazemos.

=Perguntador=

Mas, nesse caso, por que o budismo e o cristianismo representam os dois polos opostos de tal crença?

=Teosofista=

Porque as condições sob as quais foram pregados não eram as mesmas.

Na Índia, os brâmanes, ciosos de seu conhecimento superior e excluindo dele toda casta exceto a sua própria, haviam levado milhões de homens à idolatria e quase ao fetichismo.

Buda teve de desferir o golpe mortal em uma exuberância de fantasia doentia e superstição fanática resultante da ignorância, como raramente se viu antes ou depois.

Melhor um ateísmo filosófico do que tal adoração ignorante para aqueles—

“Que clamam a seus deuses e não são ouvidos, Ou não são atendidos—”

e que vivem e morrem em desespero mental.

Ele teve de estancar primeiro essa torrente lamacenta de superstição, de desenraizar _erros_ antes de divulgar a verdade.

E como não podia revelar _tudo_, pela mesma boa razão que Jesus, que lembra a _seus_ discípulos que os Mistérios do Céu não são para as massas ignorantes, mas somente para os eleitos, e por isso "falava-lhes em parábolas" (Mateus xiii. 11) — assim sua cautela levou Buda _a ocultar demais_. Ele até se recusou a dizer ao monge Vacchagotta se havia, ou não, um Ego no homem. Quando pressionado a responder, "o Exaltado manteve silêncio."[18]

=Perguntador=

Isso se refere a Gautama, mas de que maneira isso toca os Evangelhos?

=Teosofista=

Leia a história e reflita sobre ela. Na época em que se alega que os eventos narrados nos Evangelhos aconteceram, havia uma fermentação intelectual semelhante ocorrendo em todo o mundo civilizado, apenas com resultados opostos no Oriente e no Ocidente. Os antigos deuses estavam morrendo. Enquanto as classes civilizadas seguiam na esteira dos incrédulos saduceus para negações materialistas e mera forma mosaica de letra morta na Palestina, e para a dissolução moral em Roma, as classes mais baixas e pobres corriam atrás de feitiçaria e deuses estranhos, ou tornavam-se hipócritas e fariseus. Mais uma vez, o tempo para uma reforma espiritual havia chegado. O Deus cruel, antropomórfico e ciumento dos judeus, com suas leis sanguinárias de "olho por olho e dente por dente", de derramamento de sangue e sacrifício animal, tinha de ser relegado a um lugar secundário e substituído pelo misericordioso "Pai em Segredo". Este último tinha de ser mostrado, não como um Deus extra-cósmico, mas como um divino Salvador do homem de carne, entronizado em seu próprio coração e alma, no pobre como no rico. Não mais aqui do que na Índia, os segredos da iniciação podiam ser divulgados, para que, dando o que é santo aos cães e lançando pérolas aos porcos, tanto o _Revelador_ quanto as coisas reveladas não fossem pisoteados. Assim, a reticência tanto de Buda quanto de Jesus — quer o último tenha vivido o período histórico que lhe foi atribuído ou não, e que igualmente se absteve de revelar claramente os Mistérios da Vida e da Morte — levou, em um caso, às negações absolutas do Budismo do Sul, e, no outro, às três formas conflitantes da Igreja Cristã e às 300 seitas somente na Inglaterra Protestante.


[14] Ain-Soph, אין סיף = Natureza, o não-existente que É, mas não é _um_ Ser.

[15] Como pode o princípio eterno não-ativo emanar ou emitir? O Parabrahm dos Vedantinos não faz nada disso; tampouco o Ain-Soph da Cabala Caldaica.

É uma lei eterna e periódica que faz emanar uma força ativa e criadora (o logos) do princípio único, sempre oculto e incompreensível, no início de cada mahâ-manvantara, ou novo ciclo de vida.

[16] Encontram-se frequentemente nos escritos teosóficos declarações conflitantes sobre o princípio do Cristo no homem.

Uns o chamam de sexto princípio (_Buddhi_), outros de sétimo (_Atman_). Se os Teosofistas cristãos desejam fazer uso de tais expressões, que as tornem filosoficamente corretas, seguindo a analogia dos antigos símbolos da Religião da Sabedoria.

Dizemos que o Cristo não é apenas um dos três princípios superiores, mas todos os três considerados como uma Trindade.

Essa Trindade representa o Espírito Santo, o Pai e o Filho, pois corresponde ao espírito abstrato, ao espírito diferenciado e ao espírito encarnado.

Krishna e Cristo são filosoficamente o mesmo princípio sob seu tríplice aspecto de manifestação.

Na _Bhagavatgita_, encontramos Krishna chamando a si mesmo indiferentemente de Atman, o Espírito abstrato, Kshetragna, o Ego Superior ou reencarnante, e o SELF Universal, todos nomes que, quando transferidos do Universo para o homem, correspondem a _Atma_, _Buddhi_ e _Manas_. A _Anugita_ está repleta da mesma doutrina.

[17] A nova seita de curadores que, ao desacreditar a existência de tudo exceto o espírito — espírito este que não pode sofrer nem adoecer —, afirma curar todas e quaisquer doenças, contanto que o paciente tenha fé de que aquilo que nega não pode ter existência.

Uma nova forma de auto-hipnose.

[18] Buda dá a Ananda, seu discípulo _iniciado_, que indaga a razão desse silêncio, uma resposta clara e inequívoca no diálogo traduzido por Oldenburg do _Samyuttaka Nikaya_: — "Se eu, Ananda, quando o monge errante Vacchagotta me perguntou: 'Existe o Ego?' tivesse respondido 'O Ego existe', então isso, Ananda, teria confirmado a doutrina dos Samanas e Bramanas, que acreditavam na permanência.

Se eu, Ananda, quando o monge errante Vacchagotta me perguntou: 'Não existe o Ego?' tivesse respondido 'O Ego não existe', então isso, Ananda, teria confirmado a doutrina daqueles que acreditavam na aniquilação.

Se eu, Ānanda, quando o monge errante Vacchagotta me perguntou: “Existe o Ego?”, tivesse respondido: “O Ego existe”, teria isso servido ao meu propósito, Ānanda, produzindo nele o conhecimento: todas as existências (dhamma) são não-ego? Mas se eu, Ānanda, tivesse respondido: “O Ego não existe”, então isso, Ānanda, apenas teria feito o monge errante Vacchagotta cair de um perplexidade em outra: “Meu Ego, não existia antes? Mas agora não existe mais!” Isso mostra, melhor do que qualquer coisa, que Gautama Buda reteve tais difíceis doutrinas metafísicas das massas para não confundi-las ainda mais.

O que ele queria dizer era a diferença entre o Ego pessoal temporário e o Eu Superior, que derrama sua luz sobre o Ego imperecível, o “Eu” espiritual do homem.


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=VI. ENSINAMENTOS TEOSÓFICOS SOBRE A NATUREZA E O HOMEM.=
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=A UNIDADE DE TUDO EM TUDO.=

=Perguntador=

Tendo-me dito o que Deus, a Alma e o Homem _não são_, em suas opiniões, pode informar-me o que _são_, de acordo com seus ensinamentos?

=Teosofista=

Em sua origem e na eternidade, os três, como o universo e tudo nele, são um com a Unidade Absoluta, a essência deífica incognoscível sobre a qual falei há algum tempo. Não acreditamos em _criação_, mas em aparecimentos periódicos e consecutivos do universo, do plano subjetivo ao objetivo do ser, em intervalos regulares de tempo, cobrindo períodos de imensa duração.

=Perguntador=

Pode detalhar o assunto?

=Teosofista=

Tome como primeira comparação e auxílio para uma concepção mais correta, o ano solar, e como segunda, as duas metades desse ano, produzindo cada uma um dia e uma noite de seis meses de duração no Polo Norte. Agora imagine, se puder, em vez de um ano solar de 365 dias, a ETERNIDADE. Deixe o sol representar o universo, e os dias e noites polares de 6 meses cada—_dias e noites durando cada um 182 trilhões e quatrilhões de anos_, em vez de 182 dias cada. Assim como o sol surge todas as manhãs em nosso horizonte _objetivo_ a partir de seu espaço (para nós) _subjetivo_ e antípoda, assim também o Universo emerge periodicamente no plano da objetividade, emanando do da subjetividade—as antípodas do primeiro.

Este é o “Ciclo da Vida”. E assim como o sol desaparece do nosso horizonte, também o Universo desaparece em períodos regulares, quando a “noite Universal” se instala. Os hindus chamam tais alternâncias de “Dias e Noites de Brahma”, ou o tempo de _Manvantara_ e o de _Pralaya_ (dissolução). Os ocidentais podem chamá-los de Dias e Noites Universais, se preferirem.

Durante estes últimos (as noites) _Tudo está em Tudo_; cada átomo é resolvido em uma única Homogeneidade.

=EVOLUÇÃO E ILUSÃO.=

=Perguntador=

Mas quem é que cria cada vez o Universo?

=Teosofista=

Ninguém o cria. A ciência chamaria o processo de evolução; os filósofos pré-cristãos e os orientalistas chamavam-no de emanação: nós, Ocultistas e Teosofistas, vemos nele a única _realidade_ universal e eterna lançando uma reflexão periódica de _si mesma_ sobre as infinitas profundezas espaciais.

Esta reflexão, que você considera como o universo _material_ objetivo, nós consideramos como uma _ilusão_ temporária e nada mais.

Somente aquilo que é eterno é _real_.

=Perguntador=

Nesse caso, você e eu também somos ilusões.

=Teosofista=

Como personalidades fugazes, hoje uma pessoa, amanhã outra — nós somos.

Você chamaria os lampejos súbitos da _Aurora boreal_, as luzes do Norte, de “realidade”, embora seja tão real quanto possível enquanto você a observa? Certamente não; é a causa que a produz, se permanente e eterna, que é a única realidade, enquanto a outra é apenas uma ilusão passageira.

=Perguntador=

Tudo isso não me explica como essa ilusão chamada universo se origina; como o _ser_ consciente procede a manifestar-se a partir da inconsciência que _é_.

=Teosofista=

É _inconsciência_ apenas para a nossa consciência finita.

Verdadeiramente podemos parafrasear o versículo v, no 1º capítulo de São João, e dizer “e a (Absoluta) luz (que é trevas) resplandece nas trevas (que são a ilusória luz material); e as trevas não a compreenderam”. Essa luz absoluta é também absoluta e imutável lei.

Seja por radiação ou emanação — não precisamos discutir sobre termos — o universo passa de sua subjetividade homogênea para o primeiro plano de manifestação, dos quais há sete planos, somos ensinados.

Com cada plano, torna-se mais denso e material até alcançar este, o nosso plano, no qual o único mundo aproximadamente conhecido e compreendido em sua composição física pela Ciência é o sistema planetário ou Solar — um _sui generis_, nos dizem.

=Perguntador=

O que você quer dizer com _sui generis_?

=Teosofista=

Quero dizer que, embora a lei fundamental e o funcionamento universal das leis da Natureza sejam uniformes, ainda assim nosso sistema Solar (como qualquer outro desses sistemas entre os milhões de outros no Cosmos) e até mesmo nossa Terra tem seu próprio programa de manifestações, que difere dos respectivos programas de todos os outros.

Falamos dos habitantes de outros planetas e imaginamos que, se são _homens_, _isto é_, entidades pensantes, devem ser como nós.

A fantasia de poetas, pintores e escultores nunca deixa de representar até mesmo os anjos como uma bela cópia do homem—_mais_ asas.

Dizemos que tudo isso é um erro e uma ilusão; porque, se somente nesta pequena Terra encontra-se tamanha diversidade em sua flora, fauna e humanidade — da alga marinha ao cedro do Líbano, da água-viva ao elefante, do bosquímano e do negro ao Apolo Belvedere — alterai as condições cósmicas e planetárias, e deve haver, como resultado, uma flora, fauna e humanidade bastante diferentes.

As mesmas leis moldarão um conjunto bastante diferente de coisas e seres, mesmo neste nosso plano, incluindo todos os nossos planetas.

Quão mais diferentes devem ser, então, a natureza _externa_ em outros sistemas solares, e quão tolo é julgar outras _estrelas_ e mundos e seres humanos pelos nossos, como faz a ciência física!

=Perguntador=

Mas quais são seus dados para essa afirmação?

=Teosofista=

O que a ciência em geral nunca aceitará como prova — o testemunho cumulativo de uma série interminável de Videntes que testemunharam esse fato.

Suas visões espirituais, explorações reais por, e através de, sentidos físicos e espirituais desimpedidos pela carne cega, foram sistematicamente verificadas e comparadas umas com as outras, e sua natureza foi peneirada.

Tudo o que não era corroborado pela experiência unânime e coletiva foi rejeitado, enquanto somente aquilo que, em várias épocas, sob diferentes climas, e através de uma inumerável série de observações incessantes, verificou-se concordar e receber constantemente maior corroboração, foi registrado como verdade estabelecida.

Os métodos usados por nossos estudiosos e alunos das ciências psicoespirituais não diferem dos usados pelos alunos das ciências naturais e físicas, como podeis ver.

Apenas nossos campos de pesquisa estão em dois planos diferentes, e nossos instrumentos não são feitos por mãos humanas, razão pela qual talvez sejam ainda mais confiáveis.

Os balões de retorta, acumuladores e microscópios do químico e do naturalista podem desregular-se; o telescópio e os instrumentos horológicos do astrônomo podem estragar-se; nossos instrumentos de registro estão além da influência do clima ou dos elementos.

=Perguntador=

E portanto tendes fé implícita neles?

=Teosofista=

Fé é uma palavra que não se encontra nos dicionários teosóficos: dizemos _conhecimento baseado em observação e experiência_. Há, contudo, esta diferença: enquanto a observação e a experiência da ciência física levam os cientistas a tantas hipóteses "de trabalho" quantas são as mentes para elaborá-las, nosso _conhecimento_ consente em acrescentar ao seu acervo apenas os fatos que se tornaram inegáveis e que estão plena e absolutamente demonstrados.

Não temos duas crenças ou hipóteses sobre o mesmo assunto.

=Perguntador=

É com base nesses dados que aceitastes as estranhas teorias que encontramos no _Budismo Esotérico_?

=Teosofista=

Exatamente. Essas teorias podem ser ligeiramente incorretas em seus detalhes menores, e até falhas em sua exposição por estudantes leigos; são, no entanto, _fatos_ da natureza, e aproximam-se mais da verdade do que qualquer hipótese científica.

=SOBRE A CONSTITUIÇÃO SETENÁRIA DO NOSSO PLANETA.=

=Perguntador=

Entendo que descreveis nossa Terra como fazendo parte de uma cadeia de terras?

=Teosofista=

Sim. Mas as outras seis "terras" ou globos não estão no mesmo plano de objetividade que a nossa Terra; portanto, não podemos vê-los.

=Perguntador=

Isso se deve à grande distância?

=Teosofista=

De modo algum, pois vemos a olho nu planetas e até estrelas a distâncias imensuravelmente maiores; mas isso se deve ao fato de esses seis globos estarem fora de nossos meios físicos de percepção, ou plano de existência.

Não é apenas que sua densidade material, peso ou estrutura sejam inteiramente diferentes dos de nossa Terra e dos outros planetas conhecidos; mas eles estão (para nós) em uma _camada_ inteiramente diferente do espaço, por assim dizer; uma camada que não pode ser percebida ou sentida por nossos sentidos físicos.

E quando digo “camada”, por favor não permita que sua imaginação sugira camadas como estratos ou leitos sobrepostos uns aos outros, pois isso apenas levaria a outro equívoco absurdo.

O que quero dizer com “camada” é aquele plano do espaço infinito que, por sua natureza, não pode cair sob nossas percepções ordinárias de vigília, sejam mentais ou físicas; mas que existe na natureza fora de nossa mentalidade ou consciência normal, fora de nosso espaço tridimensional, e fora de nossa divisão do tempo.

Cada um dos sete planos fundamentais (ou camadas) no espaço — naturalmente como um todo, como o espaço puro da definição de Locke, não como nosso espaço finito — tem sua própria objetividade e subjetividade, seu próprio espaço e tempo, sua própria consciência e conjunto de sentidos.

Mas tudo isso será dificilmente compreensível para alguém treinado nos modernos modos de pensamento.

=Perguntador=

O que você quer dizer com um conjunto diferente de sentidos? Há algo em nosso plano humano que você possa trazer como ilustração do que diz, apenas para dar uma ideia mais clara do que possa significar com essa variedade de sentidos, espaços e respectivas percepções?

=Teosofista=

Nada; exceto, talvez, aquilo que para a Ciência seria antes um cabide bem conveniente no qual pendurar um contra-argumento.

Temos um conjunto diferente de sentidos na vida onírica, não temos? Sentimos, falamos, ouvimos, vemos, provamos e funcionamos em geral num plano diferente; a mudança de estado de nossa consciência sendo evidenciada pelo fato de que uma série de atos e eventos abrangendo anos, como pensamos, passa idealmente por nossa mente num instante.

Pois bem, essa extrema rapidez de nossas operações mentais nos sonhos, e a perfeita naturalidade, naquele momento, de todas as outras funções, mostram-nos que estamos em um plano bastante diferente.

Nossa filosofia nos ensina que, assim como há sete forças fundamentais na natureza, e sete planos de ser, há também sete estados de consciência nos quais o homem pode viver, pensar, lembrar e ter seu ser.

Enumerá-los aqui é impossível, e para isso é preciso recorrer ao estudo da metafísica oriental.

Mas nesses dois estados — o de vigília e o de sonho — todo mortal comum, de um filósofo erudito até um pobre selvagem sem instrução, tem uma boa prova de que tais estados diferem.

=Perguntador=

Não aceitais, então, as explicações bem conhecidas da biologia e da fisiologia para dar conta do estado de sonho?

=Teosofista=

Não as aceitamos.

Rejeitamos até mesmo as hipóteses de vossos psicólogos, preferindo os ensinamentos da Sabedoria Oriental.

Acreditando em sete planos do ser Cósmico e estados de Consciência, no que concerne ao Universo ou ao Macrocosmo, detemo-nos no quarto plano, achando impossível ir além com qualquer grau de certeza.

Mas com respeito ao Microcosmo, ou o homem, especulamos livremente sobre seus sete estados e princípios.

=Perguntador=

Como explicais isso?

=Teosofista=

Encontramos, antes de tudo, dois seres distintos no homem; o espiritual e o físico, o homem que pensa, e o homem que registra tanto desses pensamentos quanto é capaz de assimilar.

Portanto, dividimo-lo em duas naturezas distintas; o ser superior ou espiritual, composto de três “princípios” ou _aspectos_; e o quaternário inferior ou físico, composto de _quatro_—no total _sete_.

=A NATUREZA SEPTENÁRIA DO HOMEM.=

=Perguntador=

É o que chamamos de Espírito e Alma, e o homem de carne?

=Teosofista=

Não é.

Essa é a antiga divisão platônica.

Platão era um Iniciado e, portanto, não podia entrar em detalhes proibidos; mas aquele que conhece a doutrina arcaica encontra os sete nas várias combinações de Alma e Espírito de Platão.

Ele considerava o homem como constituído de duas partes—uma eterna, formada da mesma essência que a Absolutidade, a outra mortal e corruptível, derivando suas partes constituintes dos _menores_ deuses “criados”.

O homem é composto, ele mostra, de (1) um corpo mortal, (2) um princípio imortal, e (3) uma “espécie separada de Alma mortal”. É isso que nós respectivamente chamamos de homem físico, a Alma Espiritual ou Espírito, e a Alma animal (o _Nous_ e a _psuche_). Esta é a divisão adotada por Paulo, outro Iniciado, que sustenta que há um corpo psíquico que é semeado no corruptível (alma ou corpo astral), e um corpo _espiritual_ que é erguido em substância incorruptível.

Até mesmo Tiago (iii.

15) corrobora o mesmo ao dizer que a “sabedoria” (de nossa alma inferior) não desce do alto, mas é terrena (“psíquica”, “demoníaca”, _vide_ texto grego); enquanto a outra é a sabedoria celestial.

Agora, tão claro é que Platão e até mesmo Pitágoras, embora falando apenas de três "princípios", atribuem-lhes sete funções separadas, em suas várias combinações, que se contrastarmos nossos ensinamentos isso se tornará bastante evidente.

Tomemos uma visão panorâmica desses sete aspectos elaborando duas tabelas.

=DIVISÃO TEOSÓFICA.=

----------------------------------------------------------------------      {  TERMOS EM SÂNSCRITO.

| SIGNIFICADO EXOTÉRICO.|     EXPLICATIVO.

{------------------------------------------------------------------   I  {                    |                  |   n  {(_a_) Rupa, ou    |(_a_) Corpo       |(_a_) É o veículo de   f  {    Sthula-Sarira.

|        físico.

|      todos os outros   e  {                    |                  |      "princípios" durante   r  {                    |                  |      a vida.

{(_b_) Pranâ.

|(_b_) Vida, ou    |(_b_) Necessário apenas      {                    |  princípio vital.|      para _a_, _c_, _d_, e   i  {                    |                  |      as funções do   n  {                    |                  |      _Manas_ inferior, que   f  {                    |                  |      abrangem tudo aquilo   e  {                    |                  |      limitado ao   r  {                    |                  |     cérebro (_físico_).

i  {(_c_) Linga Sharira.|(_c_) Corpo Astral.|(_c_) O _Duplo_, o   o  {                    |                  |    corpo fantasmagórico.

r  {(_d_) Kama rupa.

|(_d_) A sede dos |(_d_) Este é o centro   d  {                    |    desejos animais|      do homem animal,   a  {                    |    e paixões.

|      onde se encontra a   s  {                    |                  |      linha de demarcação      {                    |                  |      que separa o homem      {                    |                  |      mortal da      {                    |                  |      entidade imortal.

----------------------------------------------------------------------     {                  |                         |     { TERMOS EM SÂNSCRITO.

|   SIGNIFICADO EXOTÉRICO.

|       EXPLICATIVO.

{                  |                         |  T  {-------------------------------------------------------------------  H  {(_e_) _Manas_—um     |(_e_) Mente, Inteligência:|(_e_) O estado futuro  E  {    princípio dual em  |    que é a mente humana  |    e o destino cármico  U  {    suas funções.     |    superior, cuja luz,   |    do homem dependem  P  {                  |    ou radiação, liga a   |    de se Manas gravita  P  {                  |    MÔNADA, durante a    |    mais para baixo em  E  {                  |    vida, ao homem mortal.|    direção a Kama rupa,  R  {                  |                         |    a sede das paixões     {                  |                         |    animais, ou para  I  {                  |                         |    cima em direção a  M  {                  |                         |    _Buddhi_, o _Ego_  P  {                  |                         |    Espiritual. Neste  E  {                  |                         |    último caso, a  R  {                  |                         |    consciência superior  I  {                  |                         |    das aspirações  S  {                  |                         |    espirituais  H  {                  |                         |    individuais da  A  {                  |                         |    _mente_ (Manas),  B  {                  |                         |    assimilando  L  {                  |                         |    Buddhi, é absorvida  E  {                  |                         |    por ela e forma o  T  {                  |                         |    _Ego_, que entra  R  {                  |                         |    na bem-aventurança  I  {(_f_) Buddhi.

|(_f_) A Alma Espiritual.|(_f_) O veículo do  A  {                  |                         |    espírito universal  D  {                  |                         |    puro.

.  {(_g_) Atma.

|(_g_) Espírito.

|(_g_) Um com o Absoluto,     {                  |                         |    como sua radiação.

Agora, o que Platão ensina? Ele fala do homem _interior_ como constituído de duas partes—uma imutável e sempre a mesma, formada da mesma _substância_ que a Divindade, e a outra mortal e corruptível.

Estas “duas partes” encontram-se em nossa _Tríade_ superior e no _Quaternário_ inferior (_vide_ Tabela). Ele explica que quando a Alma, _psique_, “se alia ao Nous (espírito divino ou substância[20]), ela faz tudo corretamente e felizmente”; mas o caso é diferente quando ela se liga à _Anoia_ (loucura, ou a Alma animal irracional). Aqui, então, temos _Manas_ (ou a Alma em geral) em seus dois aspectos: quando se liga à _Anoia_ (nosso _Kama rupa_, ou a “Alma Animal” no “Budismo Esotérico”), ela corre para a aniquilação total, no que diz respeito ao Ego pessoal; quando se alia ao _Nous_ (Atma-Buddhi), ela se funde no Ego imortal, imperecível, e então sua consciência espiritual do pessoal que _foi_ torna-se imortal.

=A DISTINÇÃO ENTRE ALMA E ESPÍRITO.=

=Perguntador=

Vocês realmente ensinam, como alguns Espiritualistas e Spiritistas franceses vos acusam, a aniquilação de toda personalidade?

=Teosofista=

Não ensinamos.

Mas como esta questão da dualidade—a _individualidade_ do Ego Divino e a _personalidade_ do animal humano—envolve a da possibilidade do Ego imortal real aparecer em _salas de sessão_ como um “espírito materializado”, o que negamos como já explicado, nossos oponentes levantaram essa acusação absurda.

=Perguntador=

Acabais de falar de _psique_ correndo para sua aniquilação total se ela se liga à _Anoia_. O que Platão, e vós, quereis dizer com isso?

=Teosofista=

A aniquilação _total_ da consciência _pessoal_, como um caso excepcional e raro, penso eu.

A regra geral e quase invariável é a fusão do pessoal na consciência individual ou imortal do Ego, uma transformação ou uma transfiguração divina, e a aniquilação total apenas do _quaternário_ inferior. Esperaríeis que o homem de carne, ou a _personalidade temporária_, sua sombra, o “astral”, seus instintos animais e até a vida física, sobrevivessem com o “Ego espiritual” e se tornassem sempiternos? Naturalmente, tudo isso cessa de existir, ou na morte corporal, ou logo após ela.

Torna-se, com o tempo, inteiramente desintegrado e desaparece da vista, sendo aniquilado como um todo.

=Perguntador=

Então também rejeitais a _ressurreição na carne_?

=Teosofista=

Certamente! Nós o fazemos! Por que haveríamos nós, que acreditamos na arcaica filosofia esotérica dos Antigos, de aceitar as especulações não filosóficas da teologia cristã posterior, emprestadas dos sistemas exotéricos egípcio e grego dos Gnósticos?

=Perguntador=

Os egípcios reverenciavam os Espíritos da Natureza e deificavam até mesmo cebolas: os vossos hindus são _idólatras_, até hoje; os zoroastrianos adoravam, e ainda adoram, o Sol; e os melhores filósofos gregos eram ou sonhadores ou materialistas — testemunhem Platão e Demócrito.

Como podeis comparar?

=Teosofista=

Pode ser assim no vosso catecismo cristão moderno e até mesmo científico; não o é para mentes imparciais.

Os egípcios reverenciavam o "Único-Um-Único", como _Nout_; e é dessa palavra que Anaxágoras obteve sua denominação _Nous_, ou como ele a chama, , "a Mente ou Espírito Autopotente", o , o motor principal, ou _primum-mobile_ de tudo.

Para ele, o _Nous_ era Deus, e o _logos_ era o homem, sua emanação.

O _Nous_ é o espírito (seja no Kosmos ou no homem), e o _logos_, seja o Universo ou o corpo astral, a emanação do primeiro, sendo o corpo físico meramente o animal.

Nossos poderes externos percebem _fenômenos_; somente nosso _Nous_ é capaz de reconhecer seus _númenos_. É somente o logos, ou o _númeno_, que sobrevive, porque é imortal em sua própria natureza e essência, e o _logos_ no homem é o Ego Eterno, aquilo que reencarna e dura para sempre.

Mas como pode a sombra evanescente ou externa, a vestimenta temporária daquela Emanação divina que retorna à fonte de onde proveio, ser _aquilo que é ressuscitado em incorruptibilidade_?

=Perguntador=

Ainda assim, dificilmente podeis escapar da acusação de terdes inventado uma nova divisão dos constituintes espirituais e psíquicos do homem; pois nenhum filósofo fala deles, embora acrediteis que Platão o faça.

=Teosofista=

E eu sustento essa visão.

Além de Platão, há Pitágoras, que também seguiu a mesma ideia.[21] Ele descreveu a _Alma_ como uma Unidade automotriz (_mônada_) composta de três elementos, o _Nous_ (Espírito), o _phren_ (mente) e o _thumos_ (vida, sopro ou o _Nephesh_ dos Cabalistas), os quais três correspondem ao nosso "Atma-Buddhi" (Espírito-Alma superior), ao _Manas_ (O EGO) e ao _Kama-rupa_ em conjunção com o reflexo _inferior_ de Manas.

Aquilo que os filósofos gregos antigos denominaram _Alma_, em geral, chamamos de Espírito, ou Alma _Espiritual_, _Buddhi_, como veículo de _Atma_ (o _Agathon_, ou a Divindade Suprema de Platão). O fato de Pitágoras e outros afirmarem que _phren_ e _thumos_ são compartilhados por nós com os brutos, prova que neste caso se referem à _reflexão_ Manásica _inferior_ (instinto) e ao _Kama-rupa_ (paixões vivas animais).

E como Sócrates e Platão aceitaram a pista e a seguiram, se a esses cinco, a saber, _Agathon_ (Divindade ou Atma), _Psuche_ (Alma em seu sentido coletivo), _Nous_ (Espírito ou Mente), _Phren_ (mente física) e _Thumos_ (Kama-rupa ou paixões) acrescentarmos o _eidolon_ dos Mistérios, a _forma_ sombria ou o duplo humano, e o _corpo físico_, será fácil demonstrar que as ideias de Pitágoras e Platão eram idênticas às nossas.

Até mesmo os egípcios sustentavam a divisão setenária.

Em sua saída, ensinavam, a Alma (EGO) tinha que passar por suas sete câmaras, ou princípios, aqueles que deixava para trás e aqueles que levava consigo.

A única diferença é que, tendo sempre em mente a penalidade por revelar as doutrinas dos Mistérios, que era a _morte_, eles transmitiam o ensinamento em linhas gerais, enquanto nós o elaboramos e o explicamos em seus detalhes.

Mas embora entreguemos ao mundo tanto quanto é lícito, mesmo em nossa doutrina mais de um detalhe importante é retido, ao qual aqueles que estudam a filosofia esotérica e estão comprometidos com o silêncio _são os únicos que têm direito de conhecer_.

=OS ENSINAMENTOS GREGOS.=

=Perguntador=

Temos magníficos eruditos em grego e latim, sânscrito e hebraico.

Como é que não encontramos nada em suas traduções que nos dê uma pista do que você diz?

=Teosofista=

Porque seus tradutores, apesar de sua grande erudição, fizeram dos filósofos, especialmente dos gregos, escritores _nebulosos_ em vez de _místicos_.

Tome como exemplo Plutarco, e leia o que ele diz sobre "os princípios" do homem.

O que ele descreve foi aceito literalmente e atribuído a superstição metafísica e ignorância.

Aqui está a tradução do trecho para o português do Brasil:

Permitam-me dar uma ilustração a propósito: "O homem", diz Plutarco, "é composto; e estão _enganados aqueles que o consideram composto de apenas duas partes_. Pois imaginam que o entendimento (intelecto cerebral) é uma parte da alma (a Tríade superior), mas erram nisso tanto quanto aqueles que fazem da alma uma parte do corpo, _i.e._, aqueles que fazem da _Tríade_ parte do corruptível _quaternário_ mortal. Pois o entendimento (nous) excede a alma tanto quanto a alma é melhor e mais divina que o corpo.

Ora, essa composição da alma () com o entendimento () forma a razão; e com o corpo (ou thumos, a alma animal) forma a paixão; dos quais um é o começo ou princípio do prazer e da dor, e o outro da virtude e do vício.

Dessas três partes unidas e compactadas, a terra deu o corpo, a lua a alma, e o sol o entendimento para a geração do homem."

Esta última frase é puramente alegórica, e será compreendida apenas por aqueles que são versados na ciência esotérica das correspondências e sabem qual planeta está _relacionado a cada princípio_. Plutarco divide estes últimos em três grupos, e faz do corpo um composto de arcabouço físico, sombra astral e sopro, ou a tríplice parte inferior, que "da terra foi tirada e à terra retorna"; do princípio intermediário e da alma instintual, a segunda parte, derivada _da_ e _através_ e sempre influenciada pela lua[22]; e apenas da parte superior ou da _Alma Espiritual_, com os elementos Átmico e Manásico nela, ele faz uma emanação direta do Sol, que aqui representa _Agathon_, a Divindade Suprema.

Isto é comprovado pelo que ele diz adiante, como segue:

"Ora, das mortes que morremos, uma faz o homem de três, dois; e a outra, de (entre) dois, um.

A primeira ocorre na região e jurisdição de Deméter, de onde o nome dado aos Mistérios, , assemelha-se ao dado à morte, . Os atenienses também outrora chamavam os falecidos de sagrados a Deméter.

Quanto à outra morte, esta ocorre na lua ou região de Perséfone."

Aqui está a nossa doutrina, que mostra o homem como um _septenário_ durante a vida; um _quintil_ logo após a morte, no Kama-loka; e um _Ego_ tríplice, Espírito-Alma e consciência no _Devachan_. Essa separação, primeiro nos "Prados de Hades", como Plutarco chama o _Kama-loka_, e depois no Devachan, era parte integrante das cerimônias dos Sagrados Mistérios, quando os candidatos à iniciação encenavam todo o drama da morte e da ressurreição como um espírito glorificado, nome pelo qual queremos significar _Consciência_. É isso que Plutarco quer dizer quando afirma:—

"E assim como com o terrestre, também com o outro Hermes celeste habita.

Este, súbita e violentamente, arranca a alma do corpo; mas Prosérpina, suave e lentamente, desliga o entendimento da alma.[23] Por essa razão ela é chamada _Monogenes, unigênita_, ou antes _geradora do uno_; pois _a parte melhor do homem torna-se una quando por ela é separada_. Ora, tanto uma quanto a outra coisa acontecem assim segundo a natureza.

Está ordenado pelo Destino (Fatum ou Karma) que toda alma, quer com ou sem entendimento (mente), ao sair do corpo, vagueie por um tempo, embora não todas pelo mesmo, na região situada entre a terra e a lua (_Kama-loka_).[24] Pois aqueles que foram injustos e dissolutos sofrem então a punição devida às suas ofensas; mas os bons e virtuosos ali permanecem até serem purificados e terem, por expiação, expurgado de si todas as infecções que possam ter contraído do contágio do corpo, como de uma saúde impura, vivendo na parte mais suave do ar, chamada os Prados de Hades, onde devem permanecer por um certo tempo prefixado e determinado.

E então, como se retornassem de uma peregrinação errante ou de um longo exílio à sua pátria, experimentam um gosto de alegria, tal como principalmente recebem aqueles que são iniciados nos Sagrados Mistérios, misturado com perturbação, admiração e a esperança própria e peculiar de cada um."

Essa é a bem-aventurança nirvânica, e nenhum teósofo poderia descrever em linguagem mais clara, embora esotérica, as alegrias mentais do Devachan, onde cada homem tem seu paraíso ao seu redor, erigido por sua consciência.

Mas deveis precaver-vos contra o erro geral em que caem muitos, mesmo de nossos Teosofistas.

Não imagineis que, por ser o homem chamado setenário, depois _quíntuplo_ e tríade, ele seja um composto de sete, cinco ou três _entidades_; ou, como bem expressou um escritor teosófico, de peles a serem descascadas como as peles de uma cebola.

Os “princípios”, como já foi dito, exceto o corpo, a vida e o _eidolon_ astral, que se dispersam na morte, são simplesmente _aspectos_ e _estados de consciência_. Há apenas um _homem_ real, que perdura através do ciclo de vida e é imortal em essência, se não em forma, e este é _Manas_, o homem-Mente ou Consciência encarnada.

A objeção feita pelos materialistas, que negam a possibilidade de mente e consciência agirem sem matéria, é sem valor em nosso caso.

Não negamos a solidez de seu argumento; mas simplesmente perguntamos aos nossos oponentes: “Conheceis _todos os estados da matéria_, vós que até agora conhecíeis apenas três? E como sabeis se aquilo a que nos referimos como CONSCIÊNCIA ABSOLUTA ou Divindade, para sempre invisível e incognoscível, não é aquilo que, embora escape para sempre à nossa concepção humana _finita_, é ainda assim Espírito-matéria universal ou matéria-Espírito _em sua infinitude absoluta_?” É então um dos mais baixos, e em suas manifestações manvânticas _fracionados_-aspectos deste Espírito-matéria, que é o _Ego_ consciente que cria seu próprio paraíso, um paraíso de tolos, pode ser, ainda assim um estado de bem-aventurança.

=Perguntador=

Mas o que é _Devachan_?

=Teosofista=

A “terra dos deuses” literalmente; uma condição, um estado de bem-aventurança mental.

Filosoficamente, uma condição mental análoga a, mas muito mais vívida e real do que, o sonho mais vívido.

É o estado após a morte da maioria dos mortais.


[19] No “Budismo Esotérico” do Sr. Sinnett, _d_, _e_ e _f_ são respectivamente chamados de Alma Animal, Alma Humana e Alma Espiritual, o que também serve.

Embora os princípios no _Budismo Esotérico_ sejam numerados, isso é, estritamente falando, inútil.

A _Mônada_ dual sozinha (_Atma-Buddhi_) é suscetível de ser pensada como os dois números mais elevados (o 6º e o 7º). Quanto a todos os outros, uma vez que aquele “princípio” que é predominante no homem deve ser considerado como o primeiro e mais importante, nenhuma numeração é possível como regra geral.

Em alguns homens, é a Inteligência superior (Manas ou a 5ª) que domina o restante; em outros, a Alma Animal (Kama-rupa) reina suprema, exibindo os instintos mais bestiais, etc.

[20] Paulo chama o _Nous_ de Platão de "Espírito"; mas como esse espírito é "substância", então, é claro, _Buddhi_ e não _Atma_ é o que se quer dizer, pois esta última não pode filosoficamente ser chamada de "substância" sob nenhuma circunstância.

Incluímos Atma entre os "princípios" humanos para não criar confusão adicional.

Na realidade, não é um princípio "humano", mas o _absoluto_ universal, do qual Buddhi, a Alma-Espírito, é o portador.

[21] "Platão e Pitágoras", diz Plutarco, "distribuem a alma em duas partes, a racional (noética) e a irracional (agnoia); que essa parte da alma do homem que é racional é eterna; pois, embora não seja Deus, é o produto de uma divindade eterna, mas essa parte da alma que é despojada de razão (agnoia) morre." O termo moderno _Agnóstico_ vem de _Agnosis_, uma palavra cognata.

Perguntamo-nos por que o Sr. Huxley, o autor da palavra, teria conectado seu grande intelecto com "a alma despojada de razão" que morre? Seria a humildade exagerada do materialista moderno?

[22] Os cabalistas que conhecem a relação de Jeová, o doador de vida e filhos, com a Lua, e a influência desta sobre a geração, verão novamente o ponto, assim como alguns astrólogos o verão.

[23] Prosérpina, ou Perséfone, representa aqui o Karma _post mortem_, que se diz regular a separação dos "princípios" inferiores dos superiores: a _Alma_, como _Nephesh_, o sopro da vida animal, que permanece por um tempo em Kama-loka, do _Ego_ composto superior, que entra no estado de Devachan, ou bem-aventurança.

[24] Até que a separação do "princípio" espiritual superior ocorra dos inferiores, que permanecem em Kama-loka até se desintegrarem.

VII.

=SOBRE OS VÁRIOS ESTADOS POST MORTEM.=

=O HOMEM FÍSICO E O HOMEM ESPIRITUAL.=

=Perguntador=

Alegro-me em saber que você acredita na imortalidade da Alma.

=Teosofista=

Não na "Alma", mas no Espírito divino; ou melhor, na imortalidade do Ego reencarnante.

=Perguntador=

Qual é a diferença?

=Teosofista=

Uma muito grande em nossa filosofia, mas esta é uma questão abstrusa e difícil demais para ser tocada de leve.

Teremos de analisá-las separadamente, e depois em conjunto.

Podemos começar com o Espírito.

Dizemos que o Espírito (o “Pai em secreto” de Jesus), ou _Atman_, não é propriedade individual de nenhum homem, mas é a essência Divina que não tem corpo, não tem forma, que é imponderável, invisível e indivisível, aquilo que não _existe_ e, no entanto, _é_, como dizem os budistas do Nirvana.

Ele apenas ensombra o mortal; o que entra nele e permeia todo o corpo são apenas seus raios onipresentes, ou luz, irradiados através de _Buddhi_, seu veículo e emanação direta.

Este é o significado secreto das afirmações de quase todos os filósofos antigos, quando diziam que “a parte _racional_ da alma do homem”[25] nunca entrava completamente no homem, mas apenas o ensombrava mais ou menos através da Alma espiritual _irracional_ ou Buddhi.[26]

=Perguntador=

Eu tinha a impressão de que apenas a “Alma Animal” era irracional, não a Divina.

=Teosofista=

Você precisa aprender a diferença entre aquilo que é negativamente, ou _passivamente_ “irracional”, porque indiferenciado, e aquilo que é irracional porque demasiado _ativo_ e positivo.

O homem é uma correlação de poderes espirituais, bem como uma correlação de forças químicas e físicas, postas em função pelo que chamamos de “princípios”.

=Perguntador=

Li bastante sobre o assunto, e me parece que as noções dos filósofos mais antigos diferiam muito das dos cabalistas medievais, embora concordem em alguns pontos.

=Teosofista=

A diferença mais substancial entre eles e nós é esta.

Enquanto acreditamos, com os neoplatônicos e os ensinamentos orientais, que o espírito (Atma) nunca desce hipostaticamente ao homem vivo, mas apenas derrama mais ou menos sua radiação sobre o homem _interior_ (o composto psíquico e espiritual dos princípios _astrais_), os cabalistas sustentam que o Espírito humano, desprendendo-se do oceano de luz e do Espírito Universal, entra na Alma do homem, onde permanece durante toda a vida aprisionado na cápsula astral.

Todos os cabalistas cristãos ainda sustentam o mesmo, pois não conseguem se libertar completamente de suas doutrinas antropomórficas e bíblicas.

=Perguntador=

E o que vocês dizem?

=Teosofista=

Dizemos que apenas permitimos a presença da radiação do Espírito (ou Atma) na cápsula astral, e somente na medida em que essa radiância espiritual está em questão.

Dizemos que o homem e a Alma têm de conquistar sua imortalidade ascendendo em direção à unidade com a qual, se bem-sucedidos, serão finalmente ligados e na qual serão finalmente, por assim dizer, absorvidos.

A individualização do homem após a morte depende do espírito, não de sua alma e corpo.

Embora a palavra “personalidade”, no sentido em que é usualmente compreendida, seja um absurdo se aplicada literalmente à nossa essência imortal, ainda assim esta última é, como nosso Ego individual, uma entidade distinta, imortal e eterna, _per se_. _É somente no caso de magos negros ou de criminosos além da redenção, criminosos que o foram durante uma longa série de vidas_ — que o fio brilhante, que liga o espírito à alma _pessoal_ desde o momento do nascimento da criança, é violentamente rompido, e a entidade desencarnada torna-se divorciada da alma pessoal, sendo esta última aniquilada sem deixar a menor impressão de si mesma sobre a primeira.

Se essa união entre o Manas inferior, ou pessoal, e o Ego individual reencarnante não foi efetuada durante a vida, então o primeiro é deixado a compartilhar o destino dos animais inferiores, a dissolver-se gradualmente no éter, e a ter sua personalidade aniquilada.

Mas mesmo então o Ego permanece um ser distinto.

Ele (o Ego espiritual) apenas perde um estado devachânico — após aquela vida especial, e nesse caso de fato inútil — como aquela _Personalidade_ idealizada, e é reencarnado, após desfrutar por um curto tempo de sua liberdade como um espírito planetário, quase imediatamente.

=Perguntador=

Está declarado em _Ísis sem Véu_ que tais Espíritos Planetários ou Anjos, “os deuses dos Pagãos ou os Arcanjos dos Cristãos”, nunca serão homens em nosso planeta.

=Teosofista=

Perfeitamente certo.

Não “_tais_”, mas _algumas_ classes de Espíritos Planetários superiores.

Eles nunca serão homens neste planeta, porque são Espíritos libertados de um mundo anterior, mais antigo, e como tais não podem tornar-se novamente homens neste.

Contudo, todos eles viverão novamente no próximo e muito mais elevado Mahamanvantara, depois que este “Grande Era” e “Brahma _pralaya_” (um pequeno período de 16 figuras ou algo assim) terminar.

Pois deveis ter ouvido, naturalmente, que a filosofia oriental nos ensina que a humanidade consiste em tais "Espíritos" aprisionados em corpos humanos? A diferença entre animais e homens é esta: os primeiros são animados pelos "princípios" _potencialmente_, os últimos _atualmente_.[27] Compreendeis agora a diferença?

=Perguntador=

Sim; mas essa especialização tem sido em todas as épocas a pedra de tropeço dos metafísicos.

=Teosofista=

Foi.

Todo o esoterismo da filosofia búdica baseia-se nesse ensinamento misterioso, compreendido por tão poucas pessoas e tão totalmente deturpado por muitos dos mais eruditos estudiosos modernos.

Até os metafísicos são demasiado inclinados a confundir o efeito com a causa.

Um Ego que conquistou sua vida imortal como espírito permanecerá o mesmo eu interior através de todos os seus renascimentos na Terra; mas isso não implica necessariamente que ele deva permanecer o Sr. Smith ou o Sr. Brown que foi na Terra, nem perder sua individualidade.

Portanto, a alma astral e o corpo terrestre do homem podem, no obscuro além, ser absorvidos no oceano cósmico de elementos sublimados e cessar de sentir seu último Ego _pessoal_ (se este não mereceu elevar-se mais alto), e o Ego _divino_ permanecer ainda a mesma entidade inalterada, embora essa experiência terrestre de sua emanação possa ser totalmente obliterada no instante da separação do veículo indigno.

=Perguntador=

Se o "Espírito", ou a porção divina da alma, é pré-existente como um ser distinto desde toda a eternidade, como Orígenes, Sinésio e outros filósofos semicristãos e semiplatônicos ensinaram, e se ele é o mesmo, e nada mais que a alma metafisicamente objetiva, como pode ser de outro modo senão eterno? E que importa, nesse caso, se o homem leva uma vida pura ou animal, se, faça o que fizer, ele nunca pode perder sua individualidade?

=Teosofista=

Essa doutrina, como a enunciastes, é tão perniciosa em suas consequências quanto a da expiação vicária.

Se o último dogma, em companhia da falsa ideia de que somos todos imortais, tivesse sido demonstrado ao mundo sob sua verdadeira luz, a humanidade teria sido melhorada por sua propagação.

Deixai-me repetir-vos novamente.

Pitágoras, Platão, Timeu de Locros e a antiga Escola Alexandrina derivaram a _Alma_ do homem (ou seus “princípios” e atributos superiores) da Alma Universal do Mundo, sendo esta última, segundo seus ensinamentos, o _Éter_ (Pater-Zeus). Portanto, nenhum desses “princípios” pode ser essência _pura_ da Mônada pitagórica, ou nosso _Atma-Buddhi_, pois a _Anima Mundi_ é apenas o efeito, a emanação subjetiva ou antes a radiação daquela.

Tanto o _Espírito_ _humano_ (ou a individualidade), o Ego espiritual reencarnante, quanto o Buddhi, a alma espiritual, são pré-existentes.

Mas, enquanto o primeiro existe como entidade distinta, uma individualização, a alma existe como sopro pré-existente, uma porção não separada de um todo inteligente.

Ambos foram originalmente formados a partir do Eterno Oceano de luz; mas, como expressaram os Filósofos do Fogo, os teosofistas medievais, há um espírito visível bem como um invisível no fogo.

Eles faziam uma diferença entre a _anima bruta_ e a _anima divina_. Empédocles acreditava firmemente que todos os homens e animais possuem duas almas; e em Aristóteles encontramos que ele chama uma de alma racional, e a outra, de alma animal. Segundo esses filósofos, a alma racional vem de _dentro_ da alma universal, e a outra, de _fora_.

=Perguntador=

Você chamaria a Alma, _isto é_, a alma pensante humana, ou o que você chama de Ego—matéria?

=Teosofista=

Não matéria, mas substância certamente; nem a palavra “matéria”, se prefixada com o adjetivo, _primordial_, seria uma palavra a evitar.

Essa matéria, dizemos, é coeterna com o Espírito, e não é a nossa matéria visível, tangível e divisível, mas sua sublimação extrema.

O Espírito puro está a apenas um passo do _não_-Espírito, ou do _todo_ absoluto. A menos que você admita que o homem foi evoluído a partir dessa matéria-espírito primordial, e representa uma escala progressiva regular de “princípios” do _meta_-Espírito até a matéria mais grosseira, como poderemos jamais chegar a considerar o homem _interior_ como imortal, e ao mesmo tempo como uma Entidade espiritual e um homem mortal?

=Perguntador=

Então por que você não deveria acreditar em Deus como tal Entidade?

=Teosofista=

Porque aquilo que é infinito e incondicionado não pode ter forma, e não pode ser um ser, não em qualquer filosofia oriental digna do nome, de qualquer modo.

Uma “entidade” é imortal, mas o é apenas em sua essência última, não em sua forma individual.

Quando, no ponto final de seu ciclo, é absorvida em sua natureza primordial; e torna-se espírito, ao perder seu nome de Entidade.

Sua imortalidade como forma é limitada apenas ao seu ciclo de vida ou ao _Mahamanvantara_; após o qual é una e idêntica ao Espírito Universal, e não mais uma Entidade separada.

Quanto à Alma _pessoal_ — pela qual entendemos a centelha de consciência que preserva no Ego Espiritual a ideia do “eu” pessoal da última encarnação — esta dura, como uma recordação separada e distinta, apenas durante o período devachânico; após o que é adicionada à série de outras inúmeras encarnações do Ego, como a lembrança em nossa memória de um de uma série de dias, ao final de um ano.

Você amarrará a infinitude que reivindica para seu Deus a condições finitas? Somente aquilo que é indissoluvelmente cimentado por _Atma_ (isto é, Buddhi-Manas) é imortal.

A Alma do homem (isto é, da personalidade) _per se_ não é nem imortal, nem eterna, nem divina.

Diz o _Zohar_ (vol. iii, p. 616): “a alma, quando enviada a esta terra, veste uma vestimenta terrena, para preservar-se aqui; assim ela recebe acima uma vestimenta brilhante, a fim de poder olhar sem dano para o espelho, cuja luz procede do Senhor da Luz.” Além disso, o _Zohar_ ensina que a alma não pode alcançar a morada de bem-aventurança, a menos que tenha recebido o “beijo santo”, ou a reunião da alma _com a substância da qual emanou_—espírito.

Todas as almas são duais e, enquanto esta é um princípio feminino, o espírito é masculino.

Enquanto aprisionado no corpo, o homem é uma trindade, a menos que sua poluição seja tal que tenha causado seu divórcio do espírito.

“Ai da alma que prefere ao seu divino esposo (espírito) o vínculo terreno com seu corpo terrestre”, registra um texto do _Livro das Chaves_, uma obra hermética.

Ai de fato, pois nada restará dessa personalidade para ser registrado nas tábuas imperecíveis da memória do Ego.

=Perguntador=

Como pode aquilo que, se não foi soprado por Deus no homem, ainda assim é, por sua própria confissão, de uma substância idêntica ao divino, deixar de ser imortal?

=Teosofista=

Cada átomo e partícula de matéria, não apenas de substância, é _imperecível_ em sua essência, mas não em sua _consciência individual_. A imortalidade é apenas a consciência ininterrupta de alguém; e a consciência _pessoal_ dificilmente pode durar mais do que a própria personalidade, não é? E tal consciência, como já lhe disse, sobrevive apenas durante o Devachan, após o qual é reabsorvida, primeiro, na consciência _individual_, e depois na _universal_.

Melhor perguntar aos seus teólogos como é que eles confundiram tão gravemente as Escrituras Judaicas.

Leia a Bíblia, se quiser uma boa prova de que os escritores do _Pentateuco_, e especialmente do _Gênesis_, nunca consideraram _nephesh_, aquilo que Deus sopra em Adão (Gên. cap. ii.), como a alma _imortal_.

Aqui estão alguns exemplos: — “E Deus criou ... toda _nephesh_ (vida) que se move” (Gên. i. 21), referindo-se aos animais; e (Gên. ii. 7) está dito: “E o homem tornou-se uma _nephesh_” (alma vivente), o que mostra que a palavra _nephesh_ era aplicada indiferentemente ao homem _imortal_ e à besta _mortal_. “E certamente requererei o vosso sangue das vossas _nepheshim_ (vidas); da mão de todo animal o requererei, e da mão do homem” (Gên. ix. 5), “Foge para _nephesh_” (foge para a tua _vida_, é traduzido), (Gên. xix. 17). “Não o matemos”, lê-se na versão inglesa (Gên. xxxvii. 21). “Não matemos a sua _nephesh_” é o texto hebraico. “_Nephesh_ por _nephesh_”, diz Levítico (xvii. 8). “Aquele que matar qualquer homem certamente será morto”, literalmente “Aquele que ferir a _nephesh_ de um homem” (Lev. xxiv. 17); e do versículo 18 em diante lê-se: “E aquele que matar um animal (_nephesh_) o restituirá ... Animal por animal”, enquanto o texto original diz “nephesh por nephesh”. Como poderia o homem _matar_ aquilo que é imortal? E isso explica também por que os saduceus negavam a imortalidade da alma, como também oferece outra prova de que muito provavelmente os judeus mosaicos — os não iniciados, pelo menos — nunca acreditaram na sobrevivência da alma.

=SOBRE RECOMPENSA E CASTIGO ETERNOS; E SOBRE O NIRVANA.=

=Perguntador= É quase desnecessário, suponho, perguntar-lhe se você acredita nos dogmas cristãos do Paraíso e do Inferno, ou em recompensas e castigos futuros como ensinados pelas igrejas ortodoxas?

=Teosofista=

Conforme descrito em seus catecismos, nós os rejeitamos absolutamente; menos ainda aceitaríamos sua eternidade.

Mas acreditamos firmemente no que chamamos de _Lei de Retribuição_, e na justiça e sabedoria absolutas que guiam essa Lei, ou Karma.

Portanto, recusamos positivamente aceitar a crença cruel e não filosófica em recompensa eterna ou punição eterna.

Dizemos com Horácio:—

"Que regras sejam fixadas que possam conter nossa ira,           E punam faltas _com uma dor proporcionada_;           Mas não esfolie aquele que merece apenas           Uma surra pela falta que cometeu."

Esta é uma regra para todos os homens, e uma justa.

Temos de acreditar que Deus, de quem vocês fazem a personificação da sabedoria, do amor e da misericórdia, tem menos direito a esses atributos do que o homem mortal?

=Perguntador=

Têm outras razões para rejeitar esse dogma?

=Teosofista=

Nossa principal razão para isso reside no fato da reencarnação.

Como já foi dito, rejeitamos a ideia de uma nova alma criada para cada recém-nascido.

Acreditamos que todo ser humano é o portador, ou _Veículo_, de um _Ego_ coevo com todos os outros _Egos_; porque todos os _Egos_ _são da mesma essência_ e pertencem à emanação primeva de um único _Ego_ universal infinito. Platão chama este último de _logos_ (ou o segundo Deus manifestado); e nós, o princípio divino manifestado, que é uno com a mente ou alma universal, não o Deus antropomórfico, extra-cósmico e _pessoal_ em que tantos teístas acreditam.

Por favor, não confundam.

=Perguntador=

Mas onde está a dificuldade, uma vez que vocês aceitam um princípio manifestado, em acreditar que a alma de cada novo mortal é _criada_ por esse Princípio, assim como todas as almas anteriores o foram?

=Teosofista=

Porque aquilo que é _impessoal_ dificilmente pode criar, planejar e pensar, à sua própria e doce vontade e prazer.

Sendo uma _Lei_ universal, imutável em suas manifestações periódicas, aquelas de irradiar e manifestar sua própria essência no início de cada novo ciclo de vida, ELE não é suposto criar homens, apenas para se arrepender alguns anos depois de tê-los criado.

Se temos de acreditar em um princípio divino, deve ser em um que seja harmonia, lógica e justiça absolutas, tanto quanto seja amor, sabedoria e imparcialidade absolutos; e um Deus que _criasse_ cada alma para o espaço de _uma breve existência_, sem levar em conta o fato de ela ter que animar o corpo de um homem rico e feliz, ou o de um pobre infeliz sofredor, desventurado do nascimento à morte, embora nada tenha feito para merecer seu cruel destino — seria antes um _demônio_ insensato do que um Deus.

(_Vide infra_, "Sobre a Punição do Ego.") Ora, até mesmo os filósofos judeus, crentes na Bíblia Mosaica (esotericamente, é claro), jamais acalentaram tal ideia; e, além disso, acreditavam na reencarnação, como nós.

=Perguntador=

Podeis dar-me alguns exemplos como prova disso?

=Teosofista=

Decididamente, posso.

Filo Judeu diz (em "De Somniis," p. 455): "O ar está cheio delas (das almas); aquelas que estão mais próximas da terra, descendo para serem atadas a corpos mortais, _retornam a outros corpos, desejando viver neles_." No _Zohar_, a alma é apresentada pleiteando sua liberdade diante de Deus: "Senhor do Universo! Eu sou feliz neste mundo, e não desejo ir para outro mundo, onde serei uma serva, e estarei exposta a todos os tipos de poluições."[28] A doutrina da necessidade fatal, a lei imutável e eterna, é afirmada na resposta da Divindade: "Contra a tua vontade te tornas um embrião, e contra a tua vontade nasceste."[29] A luz seria incompreensível sem as trevas para manifestá-la por contraste; o bem não seria mais bem sem o mal para mostrar a natureza inestimável da dádiva; e assim a virtude pessoal não poderia reivindicar mérito algum, a menos que tivesse passado pela fornalha da tentação.

Nada é eterno e imutável, exceto a Deidade oculta.

Nada que seja finito — seja porque teve um começo, ou porque deve ter um fim — pode permanecer estacionário.

Deve progredir ou regredir; e uma alma que anseia por uma reunião com seu espírito, que sozinho lhe confere imortalidade, deve purificar-se através de transmigrações cíclicas em direção à única terra de bem-aventurança e descanso eterno, chamada no _Zohar_, "O Palácio do Amor", היבל אחכה; na religião hindu, "Moksha"; entre os gnósticos, "O Pleroma da Luz Eterna"; e pelos budistas, "Nirvana". E todos esses estados são temporários, não eternos.

=Perguntador=

No entanto, não há reencarnação mencionada em tudo isso.

=Teosofista=

Uma alma que suplica para permanecer onde está _deve ser pré-existente_, e não ter sido criada para a ocasião.

No _Zohar_ (vol.

iii., p. 61), contudo, há uma prova ainda melhor.

Falando dos _Egos_ reencarnantes (as almas _racionais_), aqueles cuja última personalidade deve desaparecer _inteiramente_, é dito: "Todas as almas que se alienaram no céu do Santo—bendito seja o Seu nome—lançaram-se a um abismo na sua própria existência, e anteciparam o tempo em que devem descer mais uma vez à terra." "O Santo" significa aqui, esotericamente, o Atman, ou _Atma-Buddhi_.

=Perguntador=

Além disso, é muito estranho encontrar _Nirvana_ falado como algo sinônimo do Reino dos Céus, ou do Paraíso, já que segundo todo orientalista de nota o Nirvana é um sinônimo de aniquilação!

=Teosofista=

Literalmente, com relação à personalidade e à matéria diferenciada, não de outra forma.

Essas ideias sobre reencarnação e a trindade do homem eram sustentadas por muitos dos primeiros Padres Cristãos.

É a confusão feita pelos tradutores do Novo Testamento e dos tratados filosóficos antigos entre alma e espírito que ocasionou os muitos mal-entendidos.

É também uma das muitas razões pelas quais Buda, Plotino, e tantos outros Iniciados são agora acusados de terem ansiado pela extinção total de suas almas: "absorção na Divindade", ou "reunião com a alma universal", significando, segundo as ideias modernas, aniquilação.

A alma pessoal deve, naturalmente, ser desintegrada em suas partículas, antes de poder ligar sua essência mais pura para sempre ao espírito imortal.

Mas os tradutores tanto dos _Atos_ quanto das _Epístolas_, que lançaram o fundamento do _Reino dos Céus_, e os comentaristas modernos do _Sutra Budista da Fundação do Reino da Retidão_, confundiram o sentido do grande apóstolo do Cristianismo, assim como o do grande reformador da Índia.

Os primeiros sufocaram a palavra de modo que nenhum leitor imagina que ela tenha qualquer relação com _alma_; e com essa confusão de _alma_ e _espírito_ juntos, os leitores da _Bíblia_ obtêm apenas um sentido pervertido de qualquer coisa sobre o assunto.

Por outro lado, os intérpretes de Buda não conseguiram compreender o significado e o objetivo dos quatro graus budistas de Dhyâna.

Perguntai aos pitagóricos: "Pode esse espírito, que dá vida e movimento e participa da natureza da luz, ser reduzido ao nada?" "Pode mesmo esse espírito sensitivo nos brutos, que exerce a memória, uma das faculdades racionais, morrer e tornar-se nada?" — observam os ocultistas.

Na filosofia budista, _aniquilação_ significa apenas uma dispersão da matéria, em qualquer forma ou _aparência_ de forma que possa ter, pois tudo o que tem forma é temporário e, portanto, é realmente uma ilusão.

Pois na eternidade os períodos mais longos de tempo são como um piscar de olhos.

Assim também com a forma.

Antes que tenhamos tempo de perceber que a vimos, ela se vai como um lampejo instantâneo de relâmpago, e passou para sempre.

Quando a _entidade_ espiritual se liberta para sempre de toda partícula de matéria, substância ou forma, e se torna novamente um sopro espiritual: somente então ela entra no eterno e imutável _Nirvana_, durando tanto quanto o ciclo de vida durou — uma eternidade, verdadeiramente.

E então esse Sopro, existindo _em Espírito_, é _nada_ porque é _tudo_; como forma, aparência, configuração, está completamente aniquilado; como Espírito absoluto, ainda é, pois tornou-se o próprio _Ser-em-si_.

A própria palavra usada, "absorvido na essência universal", quando dita sobre a "Alma" como Espírito, significa "_união com_". Nunca pode significar aniquilação, pois isso significaria separação eterna.

=Perguntador=

Não vos expondes à acusação de pregar a aniquilação pela linguagem que vós mesmos usais? Acabastes de falar da Alma do homem retornando aos seus elementos primordiais.

=Teosofista=

Mas você se esquece de que eu lhe dei as diferenças entre os vários significados da palavra “Alma” e mostrei o modo vago como o termo “Espírito” tem sido até agora traduzido.

Falamos de uma alma _animal_, uma _humana_ e uma _espiritual_, e distinguimos entre elas.

Platão, por exemplo, chama de “ALMA racional” aquilo que chamamos de _Buddhi_, acrescentando-lhe, contudo, o adjetivo “espiritual”; mas aquilo que chamamos de Ego reencarnante, _Manas_, ele chama de Espírito, _Nous_, etc., ao passo que aplicamos o termo _Espírito_, quando isolado e sem qualquer qualificação, somente a Atma.

Pitágoras repete nossa doutrina arcaica ao afirmar que o _Ego_ (_Nous_) é eterno com a Divindade; que a alma apenas passava por vários estágios para chegar à excelência divina; enquanto _thumos_ retornava à terra, e até mesmo o _phren_, o _Manas_ inferior, era eliminado.

Novamente, Platão define _Alma_ (Buddhi) como “o movimento que é capaz de mover a si mesmo”. “Alma”, acrescenta ele (Leis X), “é a mais antiga de todas as coisas e o começo do movimento”, chamando assim Atma-Buddhi de “Alma” e _Manas_ de “Espírito”, o que nós não fazemos.

“A alma foi gerada antes do corpo, e o corpo é posterior e secundário, sendo, conforme a natureza, governado pela alma que governa.” “A alma que administra todas as coisas que são movidas de toda maneira administra igualmente os céus.”

“A alma então conduz tudo no céu, e na terra, e no mar, por seus movimentos — cujos nomes são: querer, considerar, cuidar, consultar, formar opiniões verdadeiras e falsas, estar em estado de alegria, tristeza, confiança, medo, ódio, amor, juntamente com todos os movimentos primários que são aliados a esses.... Sendo ela própria uma deusa, sempre toma como aliado _Nous_, um deus, e disciplina todas as coisas correta e felizmente; mas quando com _Annoia_ — não _nous_ — realiza tudo o contrário.”

Nessa linguagem, como nos textos budistas, o negativo é tratado como existência essencial.

A _Aniquilação_ cai sob uma exegese semelhante.

O estado positivo é o ser essencial, mas nenhuma manifestação como tal.

Quando o espírito, na linguagem budista, entra no _Nirvana_, perde a existência objetiva, mas retém o ser subjetivo.

Para mentes objetivas, isso se torna “nada” absoluto; para as subjetivas, NÃO-COISA, nada a ser exibido aos sentidos.

Assim, o Nirvana deles significa a certeza da imortalidade individual _em Espírito_, não em Alma, que, embora “a mais antiga de todas as coisas”, ainda é—junto com todos os outros _Deuses_—uma emanação finita, em _formas_ e individualidade, se não em substância.

=Perguntador=

Ainda não compreendo bem a ideia, e ficaria grato se você me explicasse isso com algumas ilustrações.

=Teosofista=

Sem dúvida, é muito difícil de entender, especialmente para alguém criado nas ideias ortodoxas regulares da Igreja Cristã.

Além disso, devo lhe dizer uma coisa; e é que, a menos que você tenha estudado a fundo as funções separadas atribuídas a todos os “princípios” humanos e o estado de todos eles _após a morte_, dificilmente compreenderá nossa filosofia oriental.

=SOBRE OS VÁRIOS “PRINCÍPIOS” NO HOMEM.=

=Perguntador=

Já ouvi muito sobre essa constituição do “homem interior”, como você a chama, mas nunca consegui “entender nem o começo nem o fim” disso, como expressa Gabalis.

=Teosofista=

Claro, é muito difícil, e, como você diz, “desconcertante” compreender corretamente e distinguir entre os vários _aspectos_, chamados por nós de “princípios” do verdadeiro EGO.

É ainda mais porque existe uma diferença notável na numeração desses princípios por várias escolas orientais, embora no fundo haja o mesmo substrato idêntico de ensinamento.

=Perguntador=

Você se refere aos Vedantins, por exemplo? Eles não dividem seus sete “princípios” em apenas cinco?

=Teosofista=

Dividem; mas, embora eu não ouse contestar o ponto com um Vedantin erudito, posso ainda assim declarar como minha opinião particular que eles têm uma razão óbvia para isso. Para eles, é apenas esse agregado espiritual composto, que consiste em vários aspectos mentais, que é chamado de _Homem_ de fato, sendo o corpo físico, em sua visão, algo abaixo do desprezo e meramente uma _ilusão_. Nem é o Vedanta a única filosofia a contar dessa maneira.

Lao-Tze, em seu _Tao-te-King_, menciona apenas cinco princípios, porque ele, como os Vedantins, omite incluir dois princípios, a saber, o espírito (Atma) e o corpo físico, este último, além disso, ele chama de “o cadáver”. Há também a escola _Taraka Rajà Yogà_.

Seu ensinamento reconhece apenas três “princípios” de fato; mas então, na realidade, o seu _Sthulopadi_, ou corpo físico, em seu estado consciente de vigília, o seu _Sukshmopadhi_, o mesmo corpo em _Svapna_, ou estado de sonho, e o seu _Karanopadhi_ ou “corpo causal”, ou aquilo que passa de uma encarnação para outra, são todos duais em seus aspectos, e assim perfazem seis.

Acrescente a isso o Atma, o princípio divino impessoal ou o elemento imortal no Homem, indistinto do Espírito Universal, e você terá novamente os mesmos sete.[30] Eles são bem-vindos a manter a sua divisão; nós mantemos a nossa.

=Perguntador=

Então parece quase o mesmo que a divisão feita pelos cristãos místicos: corpo, alma e espírito?

=Teosofista=

Exatamente o mesmo.

Poderíamos facilmente fazer do corpo o veículo do “Duplo vital”; deste último o veículo da Vida ou _Pranâ_; do _Kama-rupa_, ou alma (animal), o veículo da mente _superior_ e da _inferior_, e fazer disso seis princípios, coroando o todo com o único espírito imortal.

No Ocultismo, toda mudança qualificativa no estado de nossa consciência dá ao homem um novo aspecto, e se ela prevalece e se torna parte do Ego vivo e atuante, deve ser (e é) dado um nome especial, para distinguir o homem naquele estado particular do homem que ele é quando se coloca em outro estado.

=Perguntador=

É exatamente isso que é tão difícil de entender.

=Teosofista=

Parece-me muito fácil, ao contrário, uma vez que você tenha apreendido a ideia principal, _i.e._, que o homem age neste ou naquele plano de consciência, em estrita conformidade com sua condição mental e espiritual.

Mas tal é o materialismo da época que quanto mais explicamos, menos as pessoas parecem capazes de compreender o que dizemos.

Divida o ser terrestre chamado homem em três aspectos principais, se quiser, e a menos que você faça dele um puro animal, não pode fazer menos.

Tome o seu corpo _objetivo_; o princípio pensante nele—que é apenas um pouco mais elevado que o elemento _instintivo_ no animal—ou a alma consciente vital; e aquilo que o coloca tão imensuravelmente além e acima do animal—_i.e._, sua alma _racional_ ou “espírito”. Bem, se tomarmos esses três grupos ou entidades representativas, e os subdividirmos, de acordo com o ensinamento oculto, o que obtemos?

Primeiramente, o Espírito (no sentido do Absoluto e, portanto, do TODO indivisível), ou Atma.

Como este não pode ser localizado nem limitado em filosofia, sendo simplesmente aquilo que É na Eternidade, e que não pode estar ausente nem mesmo do mais minúsculo ponto geométrico ou matemático do universo de matéria ou substância, não deveria ser chamado, na verdade, de princípio “humano” de forma alguma.

Antes, e na melhor das hipóteses, é em Metafísica aquele ponto no espaço que a Mônada humana e seu veículo, o homem, ocupam durante o período de cada vida.

Ora, esse ponto é tão imaginário quanto o próprio homem e, na realidade, é uma ilusão, uma _maya_; mas, então, para nós mesmos, como para outros Egos pessoais, somos uma realidade durante esse acesso de ilusão chamado vida, e temos de nos levar em conta, em nossa própria fantasia pelo menos, se mais ninguém o fizer.

Para torná-lo mais concebível ao intelecto humano, quando se tenta pela primeira vez o estudo do Ocultismo e se busca resolver o ABC do mistério do homem, o Ocultismo chama esse _sétimo_ princípio de síntese do sexto e lhe dá por veículo a Alma _Espiritual_, _Buddhi_. Ora, esta última oculta um mistério que nunca é dado a ninguém, exceto a _chelas_ irrevogavelmente comprometidos, ou, pelo menos, àqueles em quem se pode confiar com segurança.

Naturalmente, haveria menos confusão se isso pudesse ser revelado; mas, como está diretamente relacionado ao poder de projetar o próprio duplo conscientemente e à vontade, e como esse dom, como o “anel de Giges”, se mostraria muito fatal para o homem em geral e para o possuidor dessa faculdade em particular, é cuidadosamente guardado.

Mas prossigamos com os “princípios”. Essa alma divina, ou Buddhi, é, então, o veículo do Espírito.

Em conjunto, esses dois são um, impessoais e sem quaisquer atributos (neste plano, naturalmente), e constituem dois princípios espirituais. Se passarmos à Alma _Humana_, _Manas_ ou _mens_, todos concordarão que a inteligência do homem é _dual_, para dizer o mínimo: _por exemplo_, o homem de mente elevada dificilmente pode tornar-se de mente baixa; o homem muito intelectual e espiritualizado está separado por um abismo do homem obtuso, estúpido e material, se não animalizado.

=Perguntador=

Mas por que o homem não deveria ser representado por dois “princípios” ou dois aspectos, antes?

=Teosofista=

Todo homem tem esses dois princípios em si, um mais ativo que o outro, e em casos raros, um deles é inteiramente atrofiado em seu crescimento, por assim dizer, ou paralisado pela força e predominância do outro _aspecto_, em qualquer direção.

Estes, então, são o que chamamos de dois princípios ou aspectos do _Manas_, o superior e o inferior; o primeiro, o Manas superior, ou o EGO pensante e consciente, gravitando em direção à Alma espiritual (Buddhi); e o último, ou seu princípio instintual, atraído para _Kama_, a sede dos desejos e paixões animais no homem.

Assim, temos _quatro_ "princípios" justificados; os três últimos sendo (1) o "Duplo", que concordamos em chamar de Alma Proteica, ou Plástica; o veículo do (2) _princípio_ vital; e (3) o corpo físico.

Naturalmente, nenhum fisiologista ou biólogo aceitará esses princípios, nem poderá entender deles nada, nem cabeça nem cauda.

E é por isso, talvez, que nenhum deles compreende até hoje as funções do baço, o veículo físico do Duplo Proteico, ou as de um certo órgão no lado direito do homem, a sede dos desejos acima mencionados, nem tampouco sabe algo sobre a glândula pineal, que ele descreve como uma glândula córnea com um pouco de areia dentro, a qual glândula é, na verdade, a própria sede da mais elevada e divina consciência no homem, sua mente onisciente, espiritual e abrangente.

E isso vos mostra ainda mais claramente que não inventamos esses sete princípios, nem são eles novos no mundo da filosofia, como podemos facilmente provar.

=Perguntador=

Mas o que é que reencarna, em vossa crença?

=Teosofista=

O Ego espiritual pensante, o princípio permanente no homem, ou aquilo que é a sede do _Manas_. Não é Atma, nem mesmo Atma-Buddhi, considerado como a _Mônada_ dual, que é o homem _individual_ ou _divino_, mas Manas; pois Atman é o TODO Universal, e se torna o EU-SUPERIOR do homem apenas em conjunção com _Buddhi_, seu veículo, que o liga à individualidade (ou homem divino). Pois é o Buddhi-Manas que é chamado de _corpo causal_ (os 5º e 6º Princípios unidos) e que é _Consciência_, que o conecta com cada personalidade que ele habita na Terra.

Portanto, sendo Alma um termo genérico, há nos homens três _aspectos_ da alma — o terrestre, ou animal; a Alma Humana; e a Alma Espiritual; estes, estritamente falando, são uma só Alma em seus três aspectos.

Agora, do primeiro aspecto, nada permanece após a morte; do segundo (_nous_ ou Manas) apenas sua essência divina _se não for maculada_ sobrevive, enquanto o terceiro, além de ser imortal, torna-se _conscientemente_ divino, pela assimilação do Manas superior.

Mas para tornar isso claro, temos de dizer algumas palavras antes de tudo sobre a Reencarnação.

=Perguntador=

Fará bem, pois é contra essa doutrina que seus inimigos lutam com mais ferocidade.

=Teosofista=

Você quer dizer os espiritualistas? Eu sei; e muitas são as objeções absurdas laboriosamente tecidas por eles nas páginas de _Light_. Tão obtusos e maliciosos são alguns deles, que não param diante de nada.

Um deles encontrou recentemente uma contradição, que ele gravemente discute em uma carta àquele jornal, em duas declarações extraídas das conferências do Sr. Sinnett.

Ele descobre essa grave contradição nestas duas frases: "Retornos prematuros à vida terrena, nos casos em que ocorrem, podem ser devidos a complicações cármicas..."; e "não há _acidente_ no ato supremo da justiça divina que guia a evolução." Um pensador tão profundo certamente veria uma contradição na lei da gravitação se um homem estendesse a mão para impedir que uma pedra que cai esmagasse a cabeça de uma criança!


[25] Em seu sentido genérico, a palavra "racional" significando algo que emana da Sabedoria Eterna.

[26] _Irracional_ no sentido de que, como _pura_ emanação da mente Universal, não pode ter razão individual própria neste plano de matéria, mas como a Lua, que toma emprestada sua luz do Sol e sua vida da Terra, assim _Buddhi_, recebendo sua luz de Sabedoria de Atma, obtém suas qualidades racionais de _Manas_. _Per se_, como algo homogêneo, é desprovida de atributos.

[27] _Vide_ "_Doutrina Secreta_," Vol. II., estâncias.

[28] "_Zohar_," Vol. II., p. 96.

[29] "_Mishna_," "Aboth," Vol. IV., p. 29.

[30] Ver "Doutrina Secreta" para uma explicação mais clara. Vol. I., p. 157.

VIII.

=SOBRE REENCARNAÇÃO OU RENASCIMENTO.=

=O QUE É MEMÓRIA SEGUNDO O ENSINAMENTO TEOSÓFICO?=

=Perguntador=

A coisa mais difícil para você fazer será explicar e dar fundamentos razoáveis para tal crença.

Nenhum Teosofista jamais conseguiu apresentar uma única prova válida que abalasse o meu ceticismo.

Em primeiro lugar, você tem contra essa teoria da reencarnação o fato de que nenhum homem ainda foi encontrado que se lembre de ter vivido, muito menos de quem ele foi, durante sua vida anterior.

=Teosofista=

Vejo que seu argumento tende à mesma objeção antiga: a perda de memória em cada um de nós de nossa encarnação anterior. Você pensa que isso invalida nossa doutrina? Minha resposta é que não invalida, e que, de qualquer forma, tal objeção não pode ser definitiva.

=Perguntador=

Gostaria de ouvir seus argumentos.

=Teosofista=

Eles são curtos e poucos. No entanto, quando você leva em consideração (_a_) a total incapacidade dos melhores psicólogos modernos de explicar ao mundo a natureza da _mente_; e (_b_) sua completa ignorância de suas potencialidades e estados superiores, você tem de admitir que essa objeção se baseia numa conclusão _a priori_ extraída de evidências _primâ facie_ e circunstanciais mais do que qualquer outra coisa.

Agora, o que é "memória" em sua concepção, por favor?

=Perguntador=

Aquilo que é geralmente aceito: a faculdade em nossa mente de lembrar e de reter o conhecimento de pensamentos, ações e eventos anteriores.

=Teosofista=

Por favor, acrescente a isso que há uma grande diferença entre as três formas aceitas de memória. Além da memória em geral, você tem _Lembrança_, _Recordação_ e _Reminiscência_, não tem? Você já pensou sobre a diferença? Memória, lembre-se, é um nome genérico.

=Perguntador=

No entanto, todas essas são apenas sinônimos.

=Teosofista=

De fato, não são — não em filosofia, de modo algum. Memória é simplesmente um poder inato em seres pensantes, e até mesmo em animais, de reproduzir impressões passadas por uma associação de ideias principalmente sugeridas por coisas objetivas ou por alguma ação em nossos órgãos sensoriais externos. Memória é uma faculdade que depende inteiramente do funcionamento mais ou menos saudável e normal de nosso cérebro _físico_; e _lembrança_ e _recordação_ são os atributos e servas dessa memória. Mas _reminiscência_ é uma coisa inteiramente diferente.

“Reminiscência” é definida pelo psicólogo moderno como algo intermediário entre _lembrança_ e _recordação_, ou “um processo consciente de relembrar ocorrências passadas, mas _sem aquela referência plena e variada_ a coisas particulares que caracteriza a _recordação_.” Locke, falando de recordação e lembrança, diz: “Quando uma _ideia novamente_ ocorre sem a operação de um objeto semelhante sobre o sensor externo, é _lembrança_; se for buscada pela mente, e com dor e esforço encontrada e trazida novamente à vista, é _recordação_.” Mas mesmo Locke deixa a _reminiscência_ sem qualquer definição clara, porque ela não é uma faculdade ou atributo de nossa memória _física_, mas uma percepção intuitiva à parte e fora do nosso cérebro físico; uma percepção que, abrangendo como abrange (sendo posta em ação pelo conhecimento sempre presente do nosso Ego espiritual) todas aquelas visões no homem que são consideradas _anormais_ — desde as imagens sugeridas pelo gênio até os _delírios_ da febre e mesmo da loucura — é classificada pela ciência como não tendo _existência_ fora de nossa fantasia.

O Ocultismo e a Teosofia, no entanto, encaram a _reminiscência_ sob uma luz inteiramente diferente.

Para nós, enquanto a _memória_ é física e evanescente e depende das condições fisiológicas do cérebro — uma proposição fundamental para todos os mestres de mnemônica, que têm as pesquisas dos psicólogos científicos modernos a apoiá-los — chamamos à _reminiscência_ a _memória da alma_. E é _essa_ memória que dá a quase todo ser humano a certeza, quer ele a compreenda ou não, de que já viveu antes e de que terá de viver novamente.

De fato, como diz Wordsworth:

“Nosso nascimento é apenas um sono e um esquecimento,             A alma que se ergue conosco, a estrela de nossa vida,           Em outro lugar teve seu ocaso,             E vem de longe.”

=Perguntador=

Se é nesse tipo de memória — poesia e fantasias anormais, por sua própria confissão — que você baseia sua doutrina, então convencerá muito poucos, receio.

=Teosofista=

Eu não “confessei” que era uma fantasia.

Simplesmente disse que fisiologistas e cientistas em geral consideram tais reminiscências como alucinações e fantasias, conclusão _erudita_ à qual são bem-vindos.

Não negamos que tais visões do passado e vislumbres muito recuados nos corredores do tempo sejam anormais, se contrastados com nossa experiência normal da vida diária e com a memória física.

Mas sustentamos, com o Professor W. Knight, que "a ausência de memória de qualquer ação feita em um estado anterior não pode ser um argumento conclusivo contra termos vivido através dela." E todo oponente imparcial deve concordar com o que é dito nas _Conferências sobre Filosofia Platônica_, de Butler—"que o sentimento de extravagância com que ela (a pré-existência) nos afeta tem sua fonte secreta em preconceitos materialistas ou semimaterialistas." Além disso, sustentamos que a memória, como a chamou Olimpiodoro, é simplesmente _fantasia_, e a coisa mais não confiável em nós.[31] Amônio Sacas afirmou que a única faculdade no homem diretamente oposta à prognosticação, ou ao olhar para o futuro, é a _memória_. Além disso, lembre-se de que memória é uma coisa e mente ou _pensamento_ é outra; uma é uma máquina de registrar, um registro que facilmente se desajusta; o outro (os pensamentos) é eterno e imperecível.

Você se recusaria a acreditar na existência de certas coisas ou homens apenas porque seus olhos físicos não os viram? O testemunho coletivo das gerações passadas que o viram não seria uma garantia suficiente de que Júlio César uma vez existiu? Por que o mesmo testemunho dos sentidos psíquicos das massas não deveria ser levado em consideração?

=Perguntador=

Mas você não acha que essas são distinções demasiado sutis para serem aceitas pela maioria dos mortais?

=Teosofista=

Diga antes, pela maioria dos materialistas.

E a eles dizemos: vede; mesmo no curto espaço da existência ordinária, a memória é fraca demais para registrar todos os eventos de uma vida.

Com que frequência mesmo os eventos mais importantes permanecem adormecidos em nossa memória até serem despertados por alguma associação de ideias, ou serem ativados a funcionar e agir por algum outro elo.

Este é especialmente o caso das pessoas de idade avançada, que sempre se encontram sofrendo de fraqueza de recordação.

Quando, portanto, lembramos o que sabemos sobre os princípios físicos e espirituais no homem, não é o fato de nossa memória ter falhado em registrar nossa vida e vidas precedentes que deveria nos surpreender, mas o contrário, caso isso acontecesse.

=POR QUE NÃO NOS LEMBRAMOS DE NOSSAS VIDAS PASSADAS?=

=Perguntador=

Você me deu uma visão panorâmica dos sete princípios; agora, como eles explicam nossa perda completa de qualquer lembrança de ter vivido antes?

=Teosofista=

Muito facilmente.

Visto que esses “princípios” que chamamos de físicos, e nenhum dos quais é negado pela ciência, embora ela os chame por outros nomes,[32] são desintegrados após a morte com seus elementos constituintes, a _memória_ juntamente com seu cérebro, essa memória desaparecida de uma personalidade desaparecida não pode nem lembrar nem registrar nada na subsequente reencarnação do EGO.

Reencarnação significa que esse Ego será dotado de um _novo_ corpo, um _novo_ cérebro e uma _nova_ memória.

Portanto, seria tão absurdo esperar que essa _memória_ se lembre daquilo que nunca registrou quanto seria inútil examinar ao microscópio uma camisa nunca usada por um assassino e procurar nela manchas de sangue que só podem ser encontradas nas roupas que ele vestia.

Não é a camisa limpa que temos de questionar, mas as roupas usadas durante a perpetração do crime; e se estas forem queimadas e destruídas, como você pode alcançá-las?

=Perguntador=

Sim! como você pode obter a certeza de que o crime foi realmente cometido, ou que o “homem da camisa limpa” já viveu antes?

=Teosofista=

Não por processos físicos, com toda certeza; nem confiando no testemunho daquilo que não existe mais.

Mas existe algo como evidência circunstancial, já que nossas sábias leis a aceitam, talvez até mais do que deveriam.

Para se convencer do fato da reencarnação e das vidas passadas, é preciso colocar-se em _rapport_ com o seu Ego permanente real, não com a sua memória evanescente.

=Perguntador=

Mas como podem as pessoas acreditar naquilo que _não conhecem_, nem jamais viram, muito menos colocar-se em _rapport_ com isso?

=Teosofista=

Se as pessoas, e as mais eruditas, acreditam na Gravidade, no Éter, na Força e no que mais a Ciência tem, abstrações e “hipóteses de trabalho” que nunca viram, tocaram, cheiraram, ouviram ou provaram — por que não deveriam outras pessoas acreditar, pelo mesmo princípio, no Ego permanente de cada um, uma “hipótese de trabalho” muito mais lógica e importante do que qualquer outra?

=Perguntador=

O que é, finalmente, esse misterioso princípio eterno? Pode explicar sua natureza de modo a torná-lo compreensível a todos?

=Teosofista=

O EGO que reencarna, o “eu” _individual_ e imortal—não pessoal; o veículo, em suma, da MÔNADA Atma-Búdica, aquilo que é recompensado no Devachan e punido na terra, e aquilo, finalmente, ao qual apenas o reflexo dos _Skandhas_, ou atributos, de cada encarnação se liga.[33]

=Perguntador=

O que você quer dizer com _Skandhas_?

=Teosofista=

Exatamente o que eu disse: “atributos”, entre os quais está a _memória_, que perecem como uma flor, deixando atrás de si apenas um perfume débil.

Aqui está outro parágrafo do “Catecismo Budista”[34] de H. S. Olcott, que trata diretamente do assunto.

Ele aborda a questão da seguinte forma:—“O homem idoso se lembra dos incidentes de sua juventude, apesar de estar física e mentalmente mudado.

Por que, então, a lembrança das vidas passadas não é trazida por nós de nosso último nascimento para o presente nascimento? Porque a memória está incluída nos Skandhas, e tendo os Skandhas mudado com a nova existência, desenvolve-se uma memória, o registro daquela existência particular.

No entanto, o registro ou reflexo de todas as vidas passadas deve sobreviver, pois quando o Príncipe Sidarta se tornou Buda, a sequência completa de Seus nascimentos anteriores foi por Ele vista ... e qualquer um que atinja o estado de _Jhana_ pode assim, retrospectivamente, traçar a linha de suas vidas.” Isso vos prova que, enquanto as qualidades imorredouras da personalidade—tais como amor, bondade, caridade, etc.—se ligam ao Ego imortal, fotografando nele, por assim dizer, uma imagem permanente do aspecto divino do homem que foi, seus Skandhas materiais (aqueles que geram os efeitos cármicos mais marcantes) são tão evanescentes quanto um relâmpago, e não podem impressionar o novo cérebro da nova personalidade; contudo, o fato de não o fazerem não prejudica em nada a identidade do Ego reencarnante.

=Perguntador=

Quer você dizer com isso que o que sobrevive é apenas a memória da Alma, como a chama, sendo essa Alma ou Ego um e o mesmo, enquanto nada da personalidade permanece?

=Teosofista=

Não exatamente; algo de cada personalidade, a menos que esta fosse um _absoluto_ materialista, sem sequer uma fresta em sua natureza por onde um raio espiritual pudesse passar, deve sobreviver, pois deixa sua impressão eterna no Self permanente encarnante ou Ego Espiritual.[35] (Ver sobre _post mortem_ e _post natal_ Consciência.) A personalidade com seus Skandhas está sempre mudando a cada novo nascimento.

É, como foi dito antes, apenas o papel representado pelo ator (o verdadeiro Ego) por uma noite.

É por isso que não preservamos memória no plano físico de nossas vidas passadas, embora o _real_ "Ego" as tenha vivido e as conheça todas.

=Perguntador=

Então como acontece que o homem real ou espiritual não imprime seu novo "eu" pessoal com esse conhecimento?

=Teosofista=

Como é que as criadas em uma pobre casa de fazenda podiam falar hebraico e tocar violino em seu estado de transe ou sonambulismo, e não sabiam nada disso quando em sua condição normal? Porque, como todo psicólogo genuíno da escola antiga, não a sua moderna, lhe dirá, o Ego Espiritual só pode agir quando o Ego pessoal está paralisado.

O "eu" Espiritual no homem é onisciente e tem todo o conhecimento inato em si; enquanto o self pessoal é a criatura de seu ambiente e o escravo da memória física.

Se o primeiro pudesse se manifestar ininterruptamente, e sem impedimento, não haveria mais homens na terra, mas todos seríamos deuses.

=Perguntador=

Ainda assim, deveria haver exceções, e alguns deveriam se lembrar.

=Teosofista=

E assim há.

Mas quem acredita em seu relato? Tais sensitivos são geralmente considerados histéricos alucinados, entusiastas desequilibrados ou charlatães, pelo materialismo moderno.

Que leiam, no entanto, obras sobre este assunto, principalmente "Re-incarnation, a Study of Forgotten Truth" de E. D. Walker, F.T.S., e vejam nela a massa de provas que o hábil autor traz para esta questão controvertida.

Fala-se às pessoas de alma, e algumas perguntam "O que é Alma?" "Você já provou sua existência?" Claro que é inútil argumentar com aqueles que são materialistas.

Mas mesmo a eles eu faria a pergunta: "Vocês conseguem se lembrar do que eram ou faziam quando bebês? Preservaram a menor recordação de sua vida, pensamentos ou ações, ou de que viveram durante os primeiros dezoito meses ou dois anos de sua existência? Então, por que não negar, pelo mesmo princípio, que jamais viveram como crianças?" Quando a tudo isso acrescentamos que o Ego reencarnante, ou _individualidade_, retém durante o período Devachânico apenas a essência da experiência de sua vida terrena passada, ou personalidade, envolvendo toda a experiência física em um estado _em potência_, ou sendo, por assim dizer, traduzida em fórmulas espirituais; quando lembramos ainda que o intervalo entre dois renascimentos se estende, segundo se diz, de dez a quinze séculos, durante os quais a consciência física está total e absolutamente inativa, não tendo órgãos através dos quais atuar e, portanto, _não existindo_, a razão para a ausência de toda lembrança na memória puramente física torna-se evidente.

=Perguntador=

Acabais de dizer que o EGO ESPIRITUAL era onisciente.

Onde está, então, essa vangloriada onisciência durante sua vida Devachânica, como a chamais?

=Teosofista=

Durante esse tempo ela está latente e potencial, porque, antes de tudo, o Ego Espiritual (o composto de Buddhi-Manas) _não_ é o EU Superior, que, sendo uno com a Alma ou Mente Universal, é o único onisciente; e, em segundo lugar, porque Devachan é a continuação idealizada da vida terrena recém-deixada, um período de ajustamento retributivo e uma recompensa por injustiças não merecidas e sofrimentos suportados naquela vida específica.

Ele é onisciente apenas _potencialmente_ em Devachan, e _de fato_ exclusivamente em Nirvana, quando o Ego é fundido na Mente-Alma Universal.

Contudo, ele se torna _quase_ onisciente durante aquelas horas na terra em que certas condições anormais e mudanças fisiológicas no corpo tornam o _Ego_ livre dos grilhões da matéria.

Assim, os exemplos citados acima de sonâmbulos, uma pobre serva falando hebraico, e outro tocando violino, fornecem-vos uma ilustração do caso em questão.

Isto não significa que as explicações desses dois fatos oferecidas pela ciência médica não contenham alguma verdade, pois uma das moças ouvira, anos antes, seu mestre, um clérigo, ler em voz alta obras em hebraico, e a outra ouvira um artista tocar violino em sua fazenda.

Mas nenhuma delas poderia tê-lo feito tão perfeitamente quanto o fizeram, se não tivessem sido animadas por AQUILO que, devido à identidade de sua natureza com a Mente Universal, é onisciente.

Aqui, o princípio superior atuou sobre os Skandhas e os moveu; no outro caso, estando a personalidade paralisada, a individualidade manifestou-se.

Por favor, não confunda os dois.

=SOBRE INDIVIDUALIDADE E PERSONALIDADE.[36]=

=Perguntador=

Mas qual é a diferença entre os dois? Confesso que ainda estou no escuro.

É precisamente essa diferença, então, que não se pode impressionar demais em nossas mentes.

=Teosofista=

Tento fazê-lo; mas, ai de mim, é mais difícil com alguns do que fazê-los sentir reverência por impossibilidades infantis, apenas porque são _ortodoxas_, e porque a ortodoxia é respeitável.

Para compreender bem a ideia, você deve primeiro estudar os conjuntos duais de "princípios"; os _espirituais_, ou aqueles que pertencem ao Ego imperecível; e os _materiais_, ou aqueles princípios que constituem os corpos em constante mudança ou a série de personalidades desse Ego.

Fixemos nomes permanentes a estes, e digamos que:—

I. Atma, o "Eu Superior", não é nem o seu Espírito nem o meu, mas, como a luz do sol, brilha sobre todos.

É o "_princípio divino_" universalmente difundido, e é inseparável de seu único e absoluto _Meta_-Espírito, assim como o raio de sol é inseparável da luz solar.

II. _Buddhi_ (a alma espiritual) é apenas seu veículo.

Nem cada um separadamente, nem os dois coletivamente, são de qualquer utilidade para o corpo do homem, assim como a luz solar e seus raios o são para uma massa de granito enterrada na terra, _a menos que a Díade divina seja assimilada e refletida em_ alguma _consciência_. Nem Atma nem Buddhi são jamais alcançados por Karma, porque o primeiro é o aspecto mais elevado de Karma, _seu agente atuante_ de SI MESMO em um aspecto, e o outro é inconsciente _neste plano_. Essa consciência ou mente é,

III.

_Manas_,[37] a derivação ou produto, em forma refletida, de _Ahamkara_, "a concepção do Eu", ou a individualidade (EGOIDADE).

É, portanto, quando inseparavelmente unido aos dois primeiros, chamado o EGO ESPIRITUAL, e _Taijasi_ (o radiante).

Esta é a verdadeira Individualidade, ou o homem divino.

É este Ego que—tendo originalmente encarnado na forma humana _insensata_, animada por, mas inconsciente (pois não tinha consciência) da, presença em si mesma da mônada dual—fez daquela forma semelhante à humana _um homem real_. É este Ego, esse “Corpo Causal,” que ensombra toda personalidade que o Karma força a encarnar; e é este Ego que é considerado responsável por todos os pecados cometidos através de, e em, cada novo corpo ou personalidade—as máscaras evanescentes que ocultam a verdadeira Individualidade através da longa série de renascimentos.

=Perguntador=

Mas é isto justo? Por que deveria este EGO receber punição como resultado de ações que ele esqueceu?

=Teosofista=

Ele não as esqueceu; ele conhece e recorda suas más ações tão bem quanto você recorda o que fez ontem.

É porque a memória daquele agregado de compostos físicos chamado “corpo” não recorda o que seu predecessor (a personalidade _que foi_) fez, que você imagina que o Ego real as esqueceu? Tão bem seria dizer que é injusto que as botas novas nos pés de um menino, que é açoitado por roubar maçãs, sejam punidas por aquilo que elas nada sabem.

=Perguntador=

Mas não há modos de comunicação entre a consciência ou memória espiritual e a humana?

=Teosofista=

Claro que há; mas eles nunca foram reconhecidos por seus psicólogos modernos científicos.

A que você atribui a intuição, a “voz da consciência,” premonições, reminiscências vagas e indefinidas, etc., etc., se não a tais comunicações? Oxalá a maioria dos homens educados, ao menos, tivesse as finas percepções espirituais de Coleridge, que mostra quão intuitivo ele é em alguns de seus comentários.

Ouça o que ele diz a respeito da probabilidade de que “todos os pensamentos são em si mesmos imperecíveis.” “Se a faculdade inteligente (súbitos ‘revivescimentos’ da memória) fosse tornada mais compreensiva, exigiria apenas uma organização diferente e apropriada, o _corpo celestial_ em vez do _corpo terrestre_, para trazer diante de toda alma humana _a experiência coletiva de toda a sua existência passada_ (_existências_, antes).” E este _corpo celestial_ é nosso EGO Manásico.

=SOBRE A RECOMPENSA E A PUNIÇÃO DO EGO.=

=Perguntador=

Ouvi-o dizer que o _Ego_, seja qual for a vida da pessoa na qual ele se encarnou na Terra, nunca é visitado por punição _post-mortem_.

=Teosofista=

Nunca, salvo em casos muito excepcionais e raros dos quais não falaremos aqui, pois a natureza da "punição" de modo algum se aproxima de qualquer de vossas concepções teológicas de danação.

=Perguntador=

Mas se ele é punido nesta vida pelos delitos cometidos numa anterior, então é este Ego que deveria ser também recompensado, seja aqui, ou quando desencarnado.

=Teosofista=

E assim é. Se não admitimos qualquer punição fora desta terra, é porque o único estado que o Eu Espiritual conhece, no além, é o de bem-aventurança inalterada.

=Perguntador=

O que quereis dizer?

=Teosofista=

Simplesmente isto: _crimes e pecados cometidos num plano de objetividade e num mundo de matéria não podem receber punição num mundo de pura subjetividade_. Não acreditamos em inferno ou paraíso como localidades; nem em fogos infernais objetivos e vermes que nunca morrem, nem em Jerusaléns com ruas pavimentadas de safiras e diamantes.

Aquilo em que acreditamos é num _estado post-mortem_ ou condição mental, tal como nos encontramos durante um sonho vívido.

Acreditamos numa lei imutável de absoluto Amor, Justiça e Misericórdia.

E, acreditando nela, dizemos: "Seja qual for o pecado e os terríveis resultados da transgressão cármica original dos Egos agora encarnados[38], nenhum homem (ou a forma material externa e periódica da Entidade Espiritual) pode ser considerado, com qualquer grau de justiça, responsável pelas consequências do seu nascimento.

Ele não pediu para nascer, nem pode escolher os pais que lhe darão a vida.

Em todos os aspectos, ele é vítima do seu ambiente, filho de circunstâncias sobre as quais não tem controle; e se cada uma das suas transgressões fosse investigada imparcialmente, descobrir-se-ia que em nove de cada dez casos ele foi mais o ofendido do que o ofensor.

A vida é, na melhor das hipóteses, uma peça sem coração, um mar tempestuoso a atravessar, e um fardo pesado muitas vezes difícil demais de suportar.

Os maiores filósofos tentaram em vão sondar e descobrir a sua _razão de ser_, e todos falharam, exceto aqueles que possuíam a chave para ela, a saber, os sábios orientais.

A vida é, como Shakespeare a descreve:—

... mas uma sombra que caminha—um pobre ator, Que se pavoneia e se agita por uma hora no palco, E depois não é mais ouvido.

É um conto Contado por um idiota, cheio de som e fúria, Significando nada....”

Nada em suas partes separadas, mas da maior importância em sua coletividade ou série de vidas.

De qualquer forma, quase toda vida individual é, em seu pleno desenvolvimento, uma tristeza.

E devemos acreditar que pobres, indefesos homens, depois de serem lançados de um lado para outro como um pedaço de madeira podre nas ondas furiosas da vida, se se mostrarem fracos demais para resistir a elas, serão punidos com uma _sempiternidade_ de danação, ou mesmo uma punição temporária? Nunca! Seja um grande ou mediano pecador, bom ou mau, culpado ou inocente, uma vez liberto do fardo da vida física, o cansado e exaurido _Manu_ (“Ego pensante”) conquistou o direito a um período de absoluto descanso e bem-aventurança.

A mesma Lei, infalivelmente sábia e justa, antes que misericordiosa, que inflige ao Ego encarnado a punição Kármica por cada pecado cometido durante a vida precedente na Terra, provê para a Entidade agora desencarnada uma longa concessão de descanso mental, _isto é_, o completo esquecimento de todo evento triste, sim, até do menor pensamento doloroso, que ocorreu em sua última vida como personalidade, deixando na memória da alma apenas a reminiscência daquilo que foi bem-aventurança, ou que conduziu à felicidade.

Plotino, que disse que nosso corpo era o verdadeiro rio do Letes, pois “as almas nele mergulhadas esquecem tudo”, quis dizer mais do que disse.

Pois, assim como nosso corpo terrestre é como o Letes, assim também é nosso _corpo celestial_ no Devachan, e muito mais.

=Perguntador=

Então devo entender que o assassino, o transgressor da lei divina e humana em todas as formas, é deixado impune?

=Teosofista=

Quem disse isso? Nossa filosofia tem uma doutrina de punição tão severa quanto a do mais rígido calvinista, apenas muito mais filosófica e consistente com a justiça absoluta.

Nenhum ato, nem mesmo um pensamento pecaminoso, ficará impune; este último ainda mais severamente do que o primeiro, pois um pensamento é muito mais potente em criar resultados malignos do que até mesmo um ato.[39] Acreditamos em uma lei infalível de Retribuição, chamada KARMA, que se afirma em uma concatenação natural de causas e seus resultados inevitáveis.

=Perguntador=

E como, ou onde, ela atua?

=Teosofista=

Todo trabalhador é digno do seu salário, diz a Sabedoria no Evangelho; toda ação, boa ou má, é um pai prolífico, diz a Sabedoria dos Séculos.

Junte os dois, e encontrará o "porquê". Após permitir à Alma, escapada das angústias da vida pessoal, uma compensação suficiente, sim, centuplicada, o Karma, com seu exército de Skandhas, aguarda no limiar do Devachan, de onde o _Ego_ reemerge para assumir uma nova encarnação.

É neste momento que o destino futuro do Ego, agora em repouso, treme na balança da justa Retribuição, ao _cair_ novamente sob o domínio da lei kármica ativa.

É neste renascimento que está pronto para _ele_, um renascimento selecionado e preparado por esta misteriosa, inexorável, mas na equidade e sabedoria de seus decretos infalível LEI, que os pecados da vida anterior do Ego são punidos.

Apenas não é em um inferno imaginário, com chamas teatrais e ridículos demônios de cauda e chifres, que o Ego é lançado, mas verdadeiramente nesta terra, o plano e a região de seus pecados, onde terá que expiar cada mau pensamento e ação.

Como semeou, assim colherá.

A reencarnação reunirá ao seu redor todos aqueles outros Egos que sofreram, seja direta ou indiretamente, pelas mãos, ou mesmo através da instrumentalidade inconsciente, da _personalidade_ passada. Eles serão lançados por Nemesis no caminho do _novo_ homem, ocultando o _velho_, o EGO eterno, e...

=Perguntador=

Mas onde está a equidade de que falas, já que essas _novas_ "personalidades" não têm consciência de ter pecado ou de terem sido alvo de pecado?

=Teosofista=

A roupa rasgada em tiras das costas do homem que a roubou, por outro homem que foi roubado dela e reconhece sua propriedade, deve ser considerada como tratada com justiça? A nova "personalidade" não é melhor do que uma roupa nova com suas características específicas, cor, forma e qualidades; mas o _homem real_ que a veste é o mesmo culpado de outrora.

É a _individualidade_ que sofre através de sua "personalidade". E é isto, e somente isto, que pode explicar a terrível, ainda que apenas _aparente_, injustiça na distribuição dos quinhões da vida ao homem.

Quando seus filósofos modernos tiverem conseguido nos mostrar uma boa razão pela qual tantos homens aparentemente inocentes e bons nascem apenas para sofrer durante toda uma vida; por que tantos nascem pobres, à beira da inanição, nos cortiços das grandes cidades, abandonados pelo destino e pelos homens; por que, enquanto estes nascem na sarjeta, outros abrem os olhos para a luz em palácios; enquanto um nascimento nobre e a fortuna parecem frequentemente dados aos piores dos homens e apenas raramente aos dignos; enquanto há mendigos cujos _eus_ interiores são pares dos mais elevados e nobres dos homens; quando isto, e muito mais, for satisfatoriamente explicado por vossos filósofos ou teólogos, então somente, mas não antes, tereis o direito de rejeitar a teoria da reencarnação.

Os mais elevados e grandiosos dos poetas perceberam vagamente esta verdade das verdades.

Shelley acreditava nela; Shakespeare deve ter pensado nela ao escrever sobre a inutilidade do nascimento.

Lembrai-vos de suas palavras:

“Por que meu nascimento haveria de reprimir meu espírito ascendente? 
           Não estão todas as criaturas sujeitas ao tempo? 
           Há legiões agora de mendigos na terra, 
           Cuja origem, contudo, brotou de reis, 
           E muitos monarcas agora, cujos pais foram 
           A escória de sua época....”

Alterai a palavra “pais” para “Egos” — e tereis a verdade.


[31] “A fantasia,” diz Olimpiodoro (em _Fédon_ de Platão), “é um impedimento às nossas concepções intelectuais; e, portanto, quando somos agitados pela influência inspiradora da Divindade, se a fantasia intervém, a energia entusiástica cessa: pois o entusiasmo e o êxtase são contrários um ao outro.

Se for perguntado se a alma é capaz de energizar sem a fantasia, respondemos que sua percepção dos universais prova que é capaz.

Ela tem percepções, portanto, independentes da fantasia; ao mesmo tempo, contudo, a fantasia acompanha suas energias, assim como uma tempestade persegue aquele que navega no mar.”

[32] Ou seja, o corpo, a vida, os instintos passionais e animais, e o eidolon astral de cada homem (quer percebido em pensamento ou no olho de nossa mente, quer objetivamente e separado do corpo físico), princípios que chamamos de _Sthula sarira_, _Pranâ_, _Kama rupa_ e _Linga sarira_ (_ver supra_).

[33] Há cinco _Skandhas_ ou atributos nos ensinamentos budistas: "_Rupa_ (forma ou corpo), qualidades materiais; _Vedana_, sensação; _Sanna_, ideias abstratas; _Samkhara_, tendências da mente; _Vinnana_, poderes mentais.

Desses somos formados; por eles temos consciência da existência; e através deles nos comunicamos com o mundo ao nosso redor."

[34] Por H. S. Olcott, Presidente e Fundador da Sociedade Teosófica.

A exatidão do ensinamento é sancionada pelo Rev.

H. Sumangala, Sumo Sacerdote de Sripada e Galle, e Diretor do _Widyodaya Parivena_ (Colégio) em Colombo, por estar em concordância com o Cânon da Igreja Budista do Sul.

[35] Ou o _Espiritual_, em contraposição ao _Eu_ pessoal. O estudante não deve confundir este Ego Espiritual com o "EU SUPERIOR", que é _Atma_, o Deus dentro de nós, inseparável do Espírito Universal.

[36] Mesmo em seu _Catecismo Budista_, o Cel.

Olcott, forçado pela lógica da filosofia esotérica, viu-se obrigado a corrigir os erros de orientalistas anteriores que não faziam tal distinção, e dá ao leitor sua razão para isso. Assim, ele diz: "As aparições sucessivas sobre a terra, ou 'descidas à geração', das partes _tanhaicamente_ coerentes (Skandhas) de um certo ser são uma sucessão de personalidades.

Em cada nascimento, a PERSONALIDADE difere da de um nascimento anterior ou posterior.

O Karma, o DEUS EX MACHINA, mascara (ou devemos dizer reflete?) a si mesmo ora na personalidade de um sábio, ora na de um artesão, e assim por diante ao longo da série de nascimentos.

Mas, embora as personalidades mudem sempre, a única linha de vida na qual elas estão enfiadas, como contas, corre sem interrupção; é sempre _aquela linha particular_, nunca outra.

É, portanto, individual, uma ondulação vital individual, que começou no Nirvana, ou no lado subjetivo da natureza, assim como a ondulação de luz ou calor através do éter começou em sua fonte dinâmica; está percorrendo o lado objetivo da natureza sob o impulso do Karma e a direção criativa de _Tanha_ (o desejo insatisfeito de existência); e conduz através de muitas mudanças cíclicas de volta ao Nirvana.

O Sr. Rhys-Davids chama aquilo que passa de personalidade a personalidade ao longo da cadeia individual de 'caráter' ou 'ação'. Uma vez que 'caráter' não é uma mera abstração metafísica, mas a soma das qualidades mentais e propensões morais de alguém, não ajudaria a dissipar o que o Sr. Rhys-Davids chama de 'o expediente desesperado de um mistério' (_Buddhism_, p. 101) se considerássemos a ondulação da vida como individualidade, e cada uma de suas séries de manifestações natais como uma personalidade separada? O indivíduo perfeito, falando budisticamente, é um Buda, eu diria; pois Buda é apenas a rara flor da humanidade, sem a menor mistura sobrenatural.

E como inúmeras gerações ('quatro _asankheyyas_ e cem mil ciclos', Fausboll e Rhys-Davids, BUDDHIST BIRTH STORIES, p. 13) são necessárias para desenvolver um _homem_ em um Buda, e _a vontade férrea de tornar-se um_ percorre todos os nascimentos sucessivos, o que chamaremos àquilo que assim quer e persevera? Caráter? A individualidade de alguém: uma individualidade apenas parcialmente manifestada em qualquer nascimento, mas construída a partir de fragmentos de todos os nascimentos?” (_Bud. Cat., Appendix_ A. 137.)

[37] MAHAT ou a “Mente Universal” é a fonte de Manas. Este último é Mahat, _isto é_, mente, no homem. Manas também é chamado _Kshetrajna_, “Espírito encarnado”, porque é, de acordo com nossa filosofia, os _Manasa-putras_, ou “Filhos da Mente Universal”, que _criaram_, ou melhor, produziram o homem _pensante_, “_manu_”, ao encarnar na _terceira Raça_ da humanidade em nossa Ronda. É Manas, portanto, que é o verdadeiro _Ego Espiritual_ encarnante e permanente, a INDIVIDUALIDADE, e nossas várias e inúmeras personalidades apenas suas máscaras externas.

[38] É sobre essa transgressão que o cruel e ilógico dogma dos Anjos Caídos foi construído. Está explicado no Vol. II da _Doutrina Secreta_. Todos os nossos “Egos” são entidades pensantes e racionais (_Manasa-putras_) que viveram, seja sob formas humanas ou outras, no _ciclo de vida_ precedente (Manvantara), e cujo Karma era encarnar no _homem_ deste. Foi ensinado nos MISTÉRIOS que, tendo atrasado o cumprimento dessa lei (ou tendo “recusado criar”, como o Hinduísmo diz dos _Kumaras_ e a lenda cristã do Arcanjo Miguel), _isto é_, tendo falhado em encarnar no tempo devido, os corpos predestinados para eles foram contaminados (Vide Estâncias VIII e IX nos “Slokas de Dzyan”, Vol.

II. Doutrina Secreta, pp. 19 e 20), daí o pecado original das formas insensatas e a punição dos _Egos_. O que se quer dizer com os anjos rebeldes sendo lançados no Inferno é simplesmente explicado por esses Espíritos puros ou Egos sendo aprisionados em corpos de matéria impura, carne.

[39] “Em verdade vos digo que qualquer que olhar para uma mulher com intenção lasciva, já cometeu adultério com ela em seu coração.” (Mateus, v., 28.)


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=IX. SOBRE O KAMA-LOKA E O DEVACHAN.=
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=SOBRE O DESTINO DOS “PRINCÍPIOS” INFERIORES.=

=Perguntador=

Você falou de _Kama-loka_; o que é isso?

=Teosofista=

Quando o homem morre, seus três princípios inferiores o deixam para sempre; _i.e._, o corpo, a vida e o veículo desta última, o corpo astral ou o duplo do homem _vivo_.

E então, seus quatro princípios — o princípio central ou médio, a alma animal ou _Kama-rupa_, com o que assimilou do Manas inferior, e a tríade superior — encontram-se no _Kama-loka_. Este último é uma localidade astral, o _limbo_ da teologia escolástica, o _Hades_ dos antigos e, estritamente falando, uma _localidade_ apenas em sentido relativo.

Não tem área definida nem fronteira, mas existe _dentro_ do espaço subjetivo; _i.e._, está além de nossas percepções sensoriais.

Ainda assim existe, e é lá que os _eidolons_ astrais de todos os seres que viveram, incluindo os animais, aguardam sua _segunda morte_. Para os animais, ela chega com a desintegração e o completo desaparecimento de suas partículas _astrais_, até a última.

Para o _eidolon_ humano, ela começa quando a tríade Atma-Buddhi-Manasica é dita “separar-se” de seus princípios inferiores, ou do reflexo da _ex-personalidade_, ao cair no estado Devachânico.

=Perguntador=

E o que acontece depois disso?

=Teosofista=

Então o fantasma _Kama-rupico_, permanecendo privado de seu princípio pensante informador, o _Manas_ superior, e do aspecto inferior deste último, a inteligência animal, não recebendo mais luz da mente superior e não tendo mais um cérebro físico através do qual trabalhar, colapsa.

=Perguntador=

De que maneira?

=Teosofista=

Bem, ele cai no estado do sapo quando certas porções de seu cérebro são removidas pelo vivisseccionista.

Não pode mais pensar, nem mesmo no plano animal mais baixo.

Doravante, não é mais sequer o Manas inferior, pois este “inferior” não é nada sem o “superior”.

=Perguntador=

E é _esta_ não-entidade que encontramos materializando-se em salas de sessão com médiuns?

=Teosofista=

É esta não-entidade.

Uma verdadeira não-entidade, porém, apenas quanto aos poderes de raciocínio ou cogitação, ainda uma _Entidade_, contudo, astral e fluídica, como se mostra em certos casos em que, tendo sido magnética e inconscientemente atraída para um médium, é revivida por um tempo e vive nele por _procuração_, por assim dizer.

Este “espírito”, ou o Kama-rupa, pode ser comparado à _água-viva_, que tem uma aparência gelatinosa etérea enquanto está em seu próprio elemento, ou água (a _AURA específica do médium_), mas que, tão logo é lançada fora dele, dissolve-se na mão ou na areia, especialmente sob a luz do sol.

Na Aura do médium, ela vive uma espécie de vida vicária e raciocina e fala através do cérebro do médium ou dos de outras pessoas presentes.

Mas isso nos levaria longe demais, e para terreno alheio, onde não tenho desejo de invadir.

Fiquemos no assunto da reencarnação.

=Perguntador=

E quanto a esta? Quanto tempo permanece o _Ego_ encarnante no estado devachânico?

=Teosofista=

Isso, somos ensinados, depende do grau de espiritualidade e do mérito ou demérito da última encarnação.

O tempo médio é de dez a quinze séculos, como já lhe disse.

=Perguntador=

Mas por que este Ego não poderia manifestar-se e comunicar-se com os mortais, como querem os espiritualistas? O que há que impeça uma mãe de se comunicar com os filhos que deixou na Terra, um marido com sua esposa, e assim por diante? É uma crença muito consoladora, devo confessar; nem me admiro que aqueles que nela creem sejam tão avessos a abandoná-la.

=Teosofista=

Nem são obrigados a isso, a menos que aconteça preferirem a verdade à ficção, por mais “consoladora” que seja. Nossas doutrinas podem ser incompatíveis com os espiritualistas; contudo, nada do que cremos e ensinamos é metade tão egoísta e cruel quanto o que eles pregam.

=Perguntador=

Não o compreendo.

O que é egoísta?

=Teosofista=

A doutrina deles do retorno dos Espíritos, as verdadeiras “personalidades”, como dizem; e eu lhe direi por quê.

Se o _Devachan_ — chame-o de “paraíso”, se quiser, um “lugar de bem-aventurança e de felicidade suprema”, se é alguma coisa — é tal lugar (ou diga _estado_), a lógica nos diz que nenhuma tristeza ou mesmo uma sombra de dor pode ser ali experimentada.

“Deus enxugará todas as lágrimas dos olhos” daqueles que estão no paraíso, lemos no livro de muitas promessas.

E se os “Espíritos dos mortos” podem retornar e ver tudo o que se passa na terra, e especialmente _em seus lares_, que tipo de bem-aventurança pode estar reservada para eles?

=POR QUE OS TEOSOFISTAS NÃO ACREDITAM NO RETORNO DE “ESPÍRITOS” PUROS.=

=Perguntador=

O que você quer dizer? Por que isso interferiria na bem-aventurança deles?

=Teosofista=

Simplesmente isto; e aqui está um exemplo.

Uma mãe morre, deixando atrás de si seus filhinhos desamparados—órfãos que ela adora—talvez também um amado marido.

Dizemos que seu “_Espírito_” ou _Ego_—essa individualidade que está agora toda impregnada, por todo o período devachânico, com os mais nobres sentimentos mantidos por sua última _personalidade_, _isto é_, amor por seus filhos, piedade por aqueles que sofrem, e assim por diante—dizemos que ele está agora inteiramente separado do “vale de lágrimas”, que sua futura bem-aventurança consiste nessa bendita ignorância de todos os sofrimentos que deixou para trás.

Os espiritualistas dizem, ao contrário, que ele está tão vividamente ciente deles, _e mais do que antes_, pois “os Espíritos veem mais do que os mortais na carne veem”. Dizemos que a bem-aventurança do _Devachanee_ consiste em sua completa convicção de que nunca deixou a terra, e que não existe tal coisa como morte alguma; que a _consciência_ espiritual _pós-morte_ da mãe lhe representará que ela vive cercada por seus filhos e por todos aqueles que amou; que nenhuma lacuna, nenhum elo, faltará para tornar seu estado desencarnado a mais perfeita e absoluta felicidade.

Os espiritualistas negam isso terminantemente.

Segundo sua doutrina, o infeliz homem não é libertado nem mesmo pela morte das tristezas desta vida.

Nem uma gota do cálice de dor e sofrimento deixará de tocar seus lábios; e _nolens volens_, já que agora vê tudo, deverá bebê-lo até as amargas borras.

Assim, a esposa amorosa, que durante sua vida estava pronta para poupar ao marido a tristeza ao preço do sangue de seu coração, está agora condenada a ver, em total desamparo, seu desespero, e a registrar cada lágrima quente que ele derrama por sua perda.

Pior que isso, ela pode ver as lágrimas secarem cedo demais, e outro rosto amado brilhar sobre ele, o pai de seus filhos; encontrar outra mulher ocupando seu lugar em suas afeições; condenada a ouvir seus órfãos darem o santo nome de "mãe" a alguém indiferente a eles, e a ver essas criancinhas negligenciadas, se não maltratadas.

Segundo esta doutrina, a "suave passagem para a vida imortal" torna-se, sem qualquer transição, o caminho para um novo caminho de sofrimento mental! E, no entanto, as colunas do "Banner of Light," o veterano jornal dos espiritualistas americanos, estão repletas de mensagens dos mortos, os "queridos entes partidos," que todos escrevem para dizer quão _felizes_ são! É tal estado de conhecimento compatível com a beatitude? Então "beatitude" significa, nesse caso, a maior das maldições, e a danação ortodoxa deve ser um alívio em comparação com ela!

=Perguntador=

Mas como sua teoria evita isso? Como você pode conciliar a teoria da onisciência da Alma com sua cegueira para aquilo que está acontecendo na Terra?

=Teosofista=

Porque tal é a lei do amor e da misericórdia.

Durante cada período devachânico, o Ego, onisciente como é _per se_, reveste-se, por assim dizer, do _reflexo_ da "personalidade" que foi.

Acabei de lhe dizer que o _florescimento ideal_ de todas as qualidades ou atributos abstratos, portanto imortais e eternos, tais como amor e misericórdia, o amor do bem, do verdadeiro e do belo, que sempre falaram no coração da "personalidade" viva, apegou-se após a morte ao Ego e, portanto, seguiu-o para o Devachan.

Por enquanto, então, o Ego torna-se o reflexo ideal do ser humano que foi quando esteve por último na Terra, e _isso_ não é onisciente.

Se o fosse, nunca estaria no estado que chamamos de Devachan.

=Perguntador=

Quais são suas razões para isso?

=Teosofista=

Se você quer uma resposta nas linhas estritas de nossa filosofia, então direi que é porque tudo é _ilusão_ (_Maya_) fora da verdade eterna, que não tem forma, cor nem limitação.

Aquele que se colocou além do véu de maya — e tais são os mais elevados Adeptos e Iniciados — não pode ter Devachan.

Quanto ao mortal comum, sua beatitude nele é completa.

É um _esquecimento_ absoluto de tudo o que causou dor ou sofrimento na encarnação passada, e até mesmo o esquecimento do fato de que coisas como dor ou sofrimento existem de todo.

O _Devachanee_ vive seu ciclo intermediário entre duas encarnações cercado por tudo o que almejou em vão, e na companhia de todos que amou na Terra.

Alcançou a realização de todos os seus anseios da alma.

E assim vive, ao longo de longos séculos, uma existência de felicidade _imaculada_, que é a recompensa por seus sofrimentos na vida terrena.

Em suma, banha-se em um mar de felicidade ininterrupta, atravessado apenas por eventos de felicidade ainda maior em grau.

=Perguntador=

Mas isso é mais do que simples ilusão; é uma existência de alucinações insanas!

=Teosofista=

Do seu ponto de vista, pode ser; não do ponto de vista da filosofia.

Além disso, não está toda a nossa vida terrestre repleta de tais ilusões? Você nunca conheceu homens e mulheres vivendo por anos em um paraíso de tolos? E se você viesse a saber que o marido de uma esposa, a quem ela adora e acredita ser amada por ele, lhe é infiel, iria você partir seu coração e seu belo sonho, despertando-a rudemente para a realidade? Creio que não.

Digo novamente, tal esquecimento e _alucinação_ — se assim o chama — são apenas uma lei misericordiosa da natureza e estrita justiça.

De qualquer forma, é uma perspectiva muito mais fascinante do que a harpa dourada ortodoxa com um par de asas.

A garantia de que "a alma que vive ascende frequentemente e percorre familiarmente as ruas da Jerusalém celestial, visitando os patriarcas e profetas, saudando os apóstolos e admirando o exército de mártires" pode parecer de caráter mais piedoso para alguns.

No entanto, é uma alucinação de caráter muito mais ilusório, pois as mães amam seus filhos com um amor imortal, todos sabemos, enquanto as personagens mencionadas na "Jerusalém celestial" são ainda de natureza bastante duvidosa.

Mas eu ainda preferiria aceitar a "nova Jerusalém", com suas ruas pavimentadas como as vitrines de uma joalheria, a encontrar consolo na doutrina sem coração dos Espiritualistas.

Só a ideia de que as _almas conscientes e intelectuais_ de nosso pai, mãe, filha ou irmão encontrem sua bem-aventurança em uma "Terra de Verão"—apenas um pouco mais natural, mas tão ridícula quanto a "Nova Jerusalém" em sua descrição—seria suficiente para fazer alguém perder todo o respeito por seus "falecidos". Acreditar que um espírito puro possa sentir-se feliz enquanto condenado a testemunhar os pecados, erros, traições e, acima de tudo, os sofrimentos daqueles de quem está separado pela morte e a quem mais ama, sem poder ajudá-los, seria um pensamento enlouquecedor.

=Perguntador=

Há algo em seu argumento.

Confesso que nunca o vi sob essa luz.

=Teosofista=

Exatamente, e é preciso ser egoísta até a medula e totalmente desprovido do senso de justiça retributiva para ter jamais imaginado tal coisa.

Estamos com aqueles que perdemos em forma material, e muito, muito mais próximos deles agora do que quando estavam vivos.

E isso não é apenas na fantasia do _devachânico_, como alguns podem imaginar, mas na realidade.

Pois o amor divino puro não é meramente a flor de um coração humano, mas tem suas raízes na eternidade.

O amor santo e espiritual é imortal, e o Karma traz, mais cedo ou mais tarde, todos aqueles que se amaram com tal afeição espiritual a encarnar novamente no mesmo grupo familiar.

Repetimos que o amor além do túmulo, ilusão, se assim o chamais, tem uma potência mágica e divina que reage sobre os vivos.

O _Ego_ de uma mãe, repleto de amor pelos filhos imaginários que vê perto de si, vivendo uma vida de felicidade, tão real para _ela_ quanto quando na terra—esse amor será sempre sentido pelos filhos na carne.

Ele se manifestará em seus sonhos e, frequentemente, em vários eventos—em proteções _providenciais_ e escapes, pois o amor é um forte escudo e não é limitado pelo espaço ou pelo tempo.

Assim como com essa "mãe" devachânica, o mesmo se dá com o restante das relações e apegos humanos, exceto os puramente egoístas ou materiais.

A analogia vos sugerirá o resto.

=Perguntador=

Em nenhum caso, então, admitis a possibilidade da comunicação dos vivos com o espírito _desencarnado_?

=Teosofista=

Sim, há um caso, e até duas exceções à regra.

A primeira exceção é durante os poucos dias que se seguem imediatamente à morte de uma pessoa e antes que o _Ego_ passe ao estado devachânico.

Se algum mortal vivo, exceto em alguns casos excepcionais—(quando a intensidade do desejo na pessoa moribunda de retornar por algum propósito forçava a consciência superior _a permanecer desperta_, e portanto era realmente a _individualidade_, o “Espírito” que se comunicava)—obteve algum benefício do retorno do espírito ao plano _objetivo_ é outra questão.

O espírito fica atordoado após a morte e cai muito rapidamente no que chamamos de “_inconsciência pré-devachânica_”. A segunda exceção é encontrada nos _Nirmanakayas_.

=Perguntador=

E quanto a eles? E o que o nome significa para você?

=Teosofista=

É o nome dado àqueles que, embora tenham conquistado o direito ao Nirvana e ao descanso cíclico—(_não_ “Devachan”, pois este é uma ilusão de nossa consciência, um sonho feliz, e aqueles que são aptos para o Nirvana devem ter perdido inteiramente todo desejo ou possibilidade das ilusões do mundo)—renunciaram ao estado nirvânico por compaixão pela humanidade e por aqueles que deixaram na terra.

Tal adepto, ou santo, ou como você queira chamá-lo, acreditando ser um ato egoísta descansar em beatitude enquanto a humanidade geme sob o fardo da miséria produzida pela ignorância, renuncia ao Nirvana e determina permanecer invisível _em espírito_ nesta terra.

Eles não têm corpo material, pois o deixaram para trás; mas, fora isso, permanecem com todos os seus princípios, mesmo _na vida astral_ em nossa esfera.

E tais podem e de fato se comunicam com alguns eleitos, certamente não com _médiuns_ comuns.

=Perguntador=

Fiz-lhe a pergunta sobre os _Nirmanakayas_ porque li em algumas obras alemãs e outras que era o nome dado às aparições ou corpos terrestres assumidos pelos Budas nos ensinamentos budistas do norte.

=Teosofista=

Assim são, apenas os orientalistas confundiram esse corpo terrestre ao entendê-lo como _objetivo_ e _físico_ em vez de puramente astral e subjetivo.

=Perguntador=

E que bem podem fazer na terra?

=Teosofista=

Não muito, no que diz respeito aos indivíduos, pois não têm o direito de interferir no Karma, e só podem aconselhar e inspirar os mortais para o bem geral.

No entanto, realizam mais ações benéficas do que você imagina.

=Perguntador=

A isso a Ciência nunca subscreveria, nem mesmo a psicologia moderna.

Para eles, nenhuma porção de inteligência pode sobreviver ao cérebro físico.

O que você lhes responderia?

=Teosofista=

Eu nem me daria ao trabalho de responder, mas simplesmente diria, nas palavras atribuídas a "M.A. Oxon": "A inteligência é perpetuada após a morte do corpo.

Embora não seja uma questão apenas do cérebro.... É razoável propor a indestrutibilidade do espírito humano a partir do que sabemos" (_Spirit Identity_, p. 69).

=Perguntador=

Mas "M.A. Oxon" é um espiritualista?

=Teosofista=

Exatamente, e o único _verdadeiro_ espiritualista que conheço, embora ainda possamos discordar dele em muitas questões menores.

À parte isso, nenhum espiritualista se aproxima mais das verdades ocultas do que ele.

Como qualquer um de nós, ele fala incessantemente "dos perigos superficiais que assediam o inepto e leviano que se envolve com o oculto, cruzando o limiar sem contar o custo."[40] Nossa única discordância reside na questão da "Identidade do Espírito". Caso contrário, eu, por exemplo, concordo quase inteiramente com ele e aceito as três proposições que ele incorporou em seu discurso de julho de 1884. É este eminente espiritualista, antes, que discorda de nós, não nós dele.

=Perguntador=

Quais são essas proposições?

=Teosofista=

"1. Que há uma vida coincidente com a vida física do corpo e independente dela."

"2. Que, como corolário necessário, essa vida se estende além da vida do corpo" (dizemos que ela se estende por todo o Devachan).

"3. Que há comunicação entre os habitantes desse estado de existência e aqueles do mundo em que agora vivemos."

Tudo depende, você vê, dos aspectos menores e secundários dessas proposições fundamentais.

Tudo depende das visões que temos do Espírito e da Alma, ou da _Individualidade_ e da _Personalidade_. Os espiritualistas confundem os dois "em um só"; nós os separamos e dizemos que, com as exceções acima enumeradas, nenhum _Espírito_ revisitará a Terra, embora a alma animal possa.

Mas voltemos mais uma vez ao nosso assunto direto, os Skandhas.

=Perguntador=

Começo a entender melhor agora.

É o Espírito, por assim dizer, desses Skandhas que são os mais nobilitantes, que, ligando-se ao Ego encarnante, sobrevivem e são adicionados ao estoque de suas experiências angélicas.

E são os atributos ligados aos Skandhas materiais, aos motivos egoístas e pessoais, que, desaparecendo do campo de ação entre duas encarnações, reaparecem na encarnação subsequente como resultados kármicos a serem expiados; e, portanto, o Espírito não deixará o Devachan.

É assim?

=Teosofista=

Muito aproximadamente. Se você acrescentar a isso que a lei de retribuição, ou Karma, recompensando o mais elevado e mais espiritual no Devachan, nunca deixa de recompensá-los novamente na Terra, dando-lhes um desenvolvimento posterior e fornecendo ao Ego um corpo adequado para isso, então você estará bastante correto.

=ALGUMAS PALAVRAS SOBRE OS SKANDHAS.=

=Perguntador=

O que acontece com os outros, os Skandhas inferiores da personalidade, após a morte do corpo? Eles são totalmente destruídos?

=Teosofista=

Eles são e, no entanto, não são — um novo mistério metafísico e oculto para você.

Eles são destruídos como o estoque de trabalho em mãos da personalidade; permanecem como efeitos kármicos, como germes, suspensos na atmosfera do plano terrestre, prontos para ganhar vida, como tantos demônios vingativos, para se ligarem à nova personalidade do Ego quando ele reencarna.

=Perguntador=

Isso realmente ultrapassa minha compreensão e é muito difícil de entender.

=Teosofista=

Não até que você tenha assimilado todos os detalhes.

Pois então você verá que, em lógica, consistência, filosofia profunda, misericórdia divina e equidade, esta doutrina da Reencarnação não tem igual na Terra.

É uma crença em um progresso perpétuo para cada Ego encarnante, ou alma divina, em uma evolução do exterior para o interior, do material para o Espiritual, chegando ao final de cada estágio à unidade absoluta com o Princípio divino.

De força em força, da beleza e perfeição de um plano para a maior beleza e perfeição de outro, com acréscimos de nova glória, de novo conhecimento e poder em cada ciclo, tal é o destino de cada Ego, que assim se torna seu próprio Salvador em cada mundo e encarnação.

=Perguntador=

Mas o Cristianismo ensina o mesmo.

Também prega a progressão.

=Teosofista=

Sim, apenas com o acréscimo de algo mais.

Ele nos fala da _impossibilidade_ de alcançar a Salvação sem a ajuda de um Salvador milagroso e, portanto, condena à perdição todos aqueles que não aceitarem o dogma.

Esta é exatamente a diferença entre a teologia cristã e a Teosofia.

A primeira impõe a crença na Descida do Ego Espiritual no _Eu inferior_; a segunda inculca a necessidade de se esforçar para elevar-se ao estado de Christos, ou Buddhi.

=Perguntador=

Ao ensinar a aniquilação da consciência em caso de fracasso, no entanto, você não acha que isso equivale à aniquilação do _Self_, na opinião dos não metafísicos?

=Teosofista=

Do ponto de vista daqueles que creem na ressurreição do corpo _literalmente_, e insistem que cada osso, cada artéria e átomo de carne será erguido corporalmente no Dia do Juízo — é claro que equivale.

Se você ainda insiste que é a forma perecível e as qualidades finitas que constituem o homem _imortal_, então dificilmente nos entenderemos.

E se você não compreende que, ao limitar a existência de cada Ego a uma única vida na Terra, você faz da Divindade um Indra eternamente embriagado da letra morta purânica, um cruel Moloch, um deus que cria uma confusão inextricável na Terra e ainda assim exige agradecimentos por isso, então quanto mais cedo encerrarmos a conversa, melhor.

=Perguntador=

Mas voltemos, agora que o assunto dos Skandhas está resolvido, à questão da consciência que sobrevive à morte.

Este é o ponto que interessa à maioria das pessoas.

Possuímos mais conhecimento em Devachan do que na vida terrena?

=Teosofista=

Em certo sentido, podemos adquirir mais conhecimento; isto é, podemos desenvolver ainda mais qualquer faculdade que amamos e pela qual nos esforçamos durante a vida, desde que esteja relacionada a coisas abstratas e ideais, como música, pintura, poesia, etc., pois Devachan é meramente uma continuação idealizada e subjetiva da vida terrena.

=Perguntador=

Mas se em Devachan o Espírito está livre da matéria, por que não deveria possuir todo o conhecimento?

=Teosofista=

Porque, como lhe disse, o Ego está, por assim dizer, unido à memória de sua última encarnação.

Assim, se você refletir sobre o que eu disse e reunir todos os fatos, perceberá que o estado devachânico não é um estado de onisciência, mas uma continuação transcendental da vida pessoal que acaba de terminar.

É o descanso da alma das fadigas da vida.

Mas os materialistas científicos afirmam que, após a morte do homem, nada resta; que o corpo humano simplesmente se desintegra em seus elementos componentes; e que o que chamamos de alma é meramente uma autoconsciência temporária, produzida como subproduto da ação orgânica, que se evaporará como vapor.

Não é estranho o estado de espírito deles?

=Teosofista=

De modo algum estranho, que eu veja.

Se eles dizem que a autoconsciência cessa com o corpo, então, no caso deles, simplesmente proferem uma profecia inconsciente, pois, uma vez firmemente convencidos do que afirmam, nenhuma vida consciente após a morte é possível para eles.

Pois _há_ exceções para toda regra.

=SOBRE A CONSCIÊNCIA PÓS-MORTE E PÓS-NATAL.[41]=

=Perguntador=

Mas, se a autoconsciência humana sobrevive à morte como regra, por que deveria haver exceções?

=Teosofista=

Nos princípios fundamentais do mundo espiritual, nenhuma exceção é possível.

Mas há regras para aqueles que veem, e regras para aqueles que preferem permanecer cegos.

=Perguntador=

Exatamente, compreendo.

Isso não passa de uma aberração do cego, que nega a existência do sol porque não o vê. Mas, após a morte, seus olhos espirituais certamente o compelirão a ver.

É isso que você quer dizer?

=Teosofista=

Ele não será compelido, nem verá coisa alguma.

Tendo negado persistentemente durante a vida a continuação da existência após a morte, ele será incapaz de vê-la, porque sua capacidade espiritual, tendo sido atrofiada em vida, não pode se desenvolver após a morte, e ele permanecerá cego.

Ao insistir que ele _deve_ vê-la, você evidentemente quer dizer uma coisa e eu outra.

Você fala do espírito a partir do espírito, ou da chama a partir da chama — de Atma, em suma — e o confunde com a alma humana — Manas.... Você não me compreende; deixe-me tentar esclarecer.

O cerne de sua questão é saber se, no caso de um materialista declarado, a perda completa da autoconsciência e da autopercepção após a morte é possível? Não é assim? Eu respondo: É possível.

Porque, crendo firmemente em nossa Doutrina Esotérica, que se refere ao período _pós-morte_, ou ao intervalo entre duas vidas ou nascimentos, como meramente um estado transitório, digo eu, quer esse intervalo entre dois atos do drama ilusório da vida dure um ano ou um milhão, esse estado _pós-morte_ pode, sem qualquer violação da lei fundamental, revelar-se exatamente o mesmo estado de um homem que está em desmaio profundo.

=Perguntador=

Mas, já que acabastes de dizer que as leis fundamentais do estado após a morte não admitem exceções, como pode ser isso?

=Teosofista=

Tampouco digo que admita uma exceção.

Mas a lei espiritual da continuidade aplica-se apenas às coisas que são verdadeiramente reais.

Para quem leu e compreendeu a Mundakya Upanishad e o Vedanta-Sara, tudo isso se torna muito claro.

Direi mais: basta compreender o que queremos dizer com Buddhi e a dualidade de Manas para obter uma percepção clara de por que o materialista pode falhar em ter uma sobrevivência autoconsciente após a morte.

Uma vez que Manas, em seu aspecto inferior, é a sede da mente terrestre, pode, portanto, dar apenas aquela percepção do Universo que se baseia na evidência dessa mente; não pode dar visão espiritual.

Diz-se na escola oriental que entre Buddhi e Manas (o _Ego_), ou Iswara e Pragna[42], não há, na realidade, mais diferença do que _entre uma floresta e suas árvores, um lago e suas águas_, como ensina a Mundakya.

Uma ou centenas de árvores mortas por perda de vitalidade, ou desenraizadas, são ainda assim incapazes de impedir que a floresta continue sendo uma floresta.

=Perguntador=

Mas, conforme entendo, Buddhi representa neste símile a floresta, e Manas-taijasi[43] as árvores.

E se Buddhi é imortal, como pode aquilo que lhe é semelhante, _i.e._, Manas-taijasi, perder inteiramente sua consciência até o dia de sua nova encarnação? Não posso compreender isso.

=Teosofista=

Não podeis, porque misturais uma representação abstrata do todo com suas mudanças casuais de forma.

Lembrai-vos de que, se se pode dizer de Buddhi-Manas que é incondicionalmente imortal, o mesmo não se pode dizer do Manas inferior, muito menos de Taijasi, que é meramente um atributo.

Nenhum desses dois, nem Manas nem Taijasi, pode existir separado de Buddhi, a alma divina, porque o primeiro (_Manas_) é, em seu aspecto inferior, um atributo qualificativo da personalidade terrestre, e o segundo (_Taijasi_) é idêntico ao primeiro, pois é o mesmo Manas apenas com a luz de Buddhi refletida sobre ele. Por sua vez, Buddhi permaneceria apenas um espírito impessoal sem esse elemento que ela toma emprestado da alma humana, que a condiciona e faz dela, neste Universo ilusório, _como se fosse algo separado_ da alma universal por todo o período do ciclo de encarnação.

Digamos antes que _Buddhi-Manas_ não pode morrer nem perder sua autoconsciência composta na Eternidade, nem a recordação de suas encarnações anteriores, nas quais os dois — _isto é_, a alma espiritual e a alma humana — estiveram intimamente ligados.

Mas não é assim no caso de um materialista, cuja alma humana não só nada recebe da alma divina, mas até se recusa a reconhecer sua existência.

Você dificilmente pode aplicar esse axioma aos atributos e qualificações da alma humana, pois seria como dizer que, porque sua alma divina é imortal, portanto o rubor em sua face também deve ser imortal; ao passo que esse rubor, como Taijasi, é simplesmente um fenômeno transitório.

=Perguntador=

Devo entender que você diz que não devemos misturar em nossas mentes o númeno com o fenômeno, a causa com seu efeito?

=Teosofista=

É isso que digo, e repito que, limitado a Manas ou à alma humana apenas, o esplendor do próprio Taijasi torna-se uma mera questão de tempo; porque tanto a imortalidade quanto a consciência após a morte tornam-se, para a personalidade terrestre do homem, simplesmente atributos condicionados, pois dependem inteiramente de condições e crenças criadas pela própria alma humana durante a vida de seu corpo.

O Karma age incessantemente; colhemos _em nossa vida posterior_ apenas o fruto daquilo que nós mesmos semeamos nesta.

=Perguntador=

Mas se meu Ego pode, após a destruição do meu corpo, mergulhar em um estado de total inconsciência, então onde estaria o castigo pelos pecados da minha vida passada?

=Teosofista=

Nossa filosofia ensina que o castigo kármico alcança o Ego apenas em sua próxima encarnação.

Após a morte, recebe apenas a recompensa pelos sofrimentos imerecidos suportados durante sua encarnação passada.[44] Toda a punição após a morte, mesmo para o materialista, consiste, portanto, na ausência de qualquer recompensa, e na perda total da consciência de sua bem-aventurança e descanso.

Karma é o filho do Ego terrestre, o fruto das ações da árvore que é a personalidade objetiva visível a todos, tanto quanto o fruto de todos os pensamentos e até mesmo motivos do “eu” espiritual; mas Karma é também a mãe terna, que cura as feridas infligidas por ela durante a vida precedente, antes de começar a torturar este Ego infligindo-lhe novas.

Se se pode dizer que não há sofrimento mental ou físico na vida de um mortal que não seja o fruto direto e a consequência de algum pecado em uma existência precedente; por outro lado, como ele não preserva a menor lembrança disso em sua vida atual, e não se sente merecedor de tal punição, e portanto pensa que sofre sem culpa própria, isso por si só é suficiente para dar à alma humana a mais plena consolação, descanso e bem-aventurança em sua existência _pós-morte_.

A morte chega aos nossos eus espirituais sempre como uma libertadora e amiga.

Para o materialista, que, não obstante seu materialismo, não foi um homem mau, o intervalo entre as duas vidas será como o sono ininterrupto e plácido de uma criança, ou inteiramente sem sonhos, ou preenchido por imagens das quais ele não terá percepção definida; enquanto para o mortal comum será um sonho tão vívido quanto a vida, e pleno de bem-aventurança e visões realistas.

=Perguntador=

Então o homem pessoal deve sempre continuar sofrendo _cegamente_ as penalidades kármicas que o Ego incorreu?

=Teosofista=

Não exatamente. No solene momento da morte, todo homem, mesmo quando a morte é súbita, vê toda a sua vida passada desfilar diante de si, em seus mínimos detalhes.

Por um breve instante, o _pessoal_ torna-se uno com o _individual_ e onisciente _Ego_. Mas esse instante é suficiente para mostrar-lhe toda a cadeia de causas que estiveram em operação durante sua vida.

Ele vê e agora compreende a si mesmo como é, sem adornos de lisonja ou autodecepção.

Ele relê sua vida, permanecendo como um espectador olhando de cima para a arena que está deixando; ele sente e conhece a justiça de todo o sofrimento que o alcançou.

=Perguntador=

Isso acontece com todos?

=Teosofista=

Sem exceção alguma.

Homens muito bons e santos veem, somos ensinados, não apenas a vida que estão deixando, mas até várias vidas precedentes nas quais foram produzidas as causas que os tornaram o que foram na vida que ora se encerra.

Eles reconhecem a lei do Karma em toda a sua majestade e justiça.

=Perguntador=

Existe algo correspondente a isso antes do renascimento?

=Teosofista=

Existe. Assim como o homem, no momento da morte, tem uma visão retrospectiva da vida que levou, assim também, no momento em que renasce na terra, o _Ego_, despertando do estado de Devachan, tem uma visão prospectiva da vida que o aguarda, e percebe todas as causas que a ele conduziram. Ele as percebe e vê a futuração, porque é entre Devachan e o renascimento que o _Ego_ recupera sua plena consciência _manásica_, e re-torna por um breve tempo ao deus que era, antes de, em conformidade com a lei kármica, descer pela primeira vez à matéria e encarnar no primeiro homem de carne.

O "fio de ouro" vê todas as suas "pérolas" e não perde nenhuma delas.

=O QUE REALMENTE SE ENTENDE POR ANIQUILAÇÃO.=

=Perguntador=

Ouvi alguns teosofistas falarem de um fio de ouro no qual suas vidas estavam enfiadas.

O que querem dizer com isso?

=Teosofista=

Nos livros sagrados hindus, diz-se que aquilo que sofre encarnação periódica é o _Sutratma_, que significa literalmente a "Alma-Fio". É um sinônimo do Ego reencarnante—Manas unido a _Buddhi_—que absorve as recordações manásicas de todas as nossas vidas precedentes.

É assim chamado porque, como as pérolas em um fio, assim a longa série de vidas humanas está enfiada nesse único fio.

Em alguns Upanishads, esses renascimentos recorrentes são comparados à vida de um mortal que oscila periodicamente entre o sono e a vigília.

=Perguntador=

Isso, devo dizer, não parece muito claro, e direi por quê.

Para o homem que desperta, outro dia começa, mas esse homem é o mesmo em alma e corpo como era no dia anterior; enquanto em cada encarnação ocorre uma mudança completa, não apenas do invólucro externo, do sexo e da personalidade, mas até das capacidades mentais e psíquicas.

A comparação não me parece inteiramente correta.

O homem que desperta do sono recorda-se com bastante clareza do que fez ontem, anteontem, e até mesmo meses e anos atrás.

Mas nenhum de nós tem a menor lembrança de uma vida anterior ou de qualquer fato ou evento relacionado a ela... Posso esquecer de manhã o que sonhei durante a noite, ainda assim sei que dormi e tenho a certeza de que vivi durante o sono; mas que recordação posso ter da minha encarnação passada até o momento da morte? Como reconciliais isso?

=Teosofista=

Algumas pessoas recordam suas encarnações passadas durante a vida; mas essas são Budas e Iniciados.

Isto é o que os Yoguis chamam de Samma-Sambuddha, ou o conhecimento de toda a série das próprias encarnações passadas.

=Perguntador=

Mas nós, mortais comuns, que não alcançamos o Samma-Sambuddha, como devemos compreender essa comparação?

=Teosofista=

Estudando-a e tentando compreender mais corretamente as características e os três tipos de sono.

O sono é uma lei geral e imutável para o homem como para o animal, mas há diferentes tipos de sono e ainda mais diferentes sonhos e visões.

=Perguntador=

Mas isto nos leva a outro assunto.

Voltemos ao materialista que, embora não negue os sonhos, o que dificilmente poderia fazer, nega contudo a imortalidade em geral e a sobrevivência de sua própria individualidade.

=Teosofista=

E o materialista, sem o saber, tem razão.

Aquele que não tem percepção interior e fé na imortalidade de sua alma, nesse homem a alma nunca pode tornar-se Buddhi-taijasi, mas permanecerá simplesmente Manas, e para Manas somente não é possível imortalidade alguma.

Para viver no mundo vindouro uma vida consciente, é preciso antes de tudo acreditar nessa vida durante a existência terrestre.

Sobre esses dois aforismos da Ciência Secreta toda a filosofia acerca da consciência _post-mortem_ e da imortalidade da alma está edificada.

O Ego recebe sempre de acordo com seus méritos.

Após a dissolução do corpo, começa para ele um período de plena consciência desperta, ou um estado de sonhos caóticos, ou um sono inteiramente sem sonhos, indistinguível da aniquilação, e esses são os três tipos de sono.

Se nossos fisiologistas encontram a causa dos sonhos e visões em uma preparação inconsciente durante as horas de vigília, por que não se pode admitir o mesmo para os sonhos _post-mortem_? Repito: _a morte é o sono_. Após a morte, diante dos olhos espirituais da alma, começa uma representação segundo um programa aprendido e muito frequentemente composto inconscientemente por nós mesmos: a realização prática de crenças _corretas_ ou de ilusões que foram criadas por nós mesmos.

O metodista será metodista, o muçulmano será muçulmano, pelo menos por algum tempo—em um perfeito paraíso de tolos, criado e feito por cada homem.

Estes são os frutos _post-mortem_ da árvore da vida.

Naturalmente, nossa crença ou descrença no fato da imortalidade consciente é incapaz de influenciar a realidade incondicionada do próprio fato, uma vez que ele existe; mas a crença ou descrença nessa imortalidade como propriedade de entidades independentes ou separadas não pode deixar de dar cor a esse fato em sua aplicação a cada uma dessas entidades.

Agora você começa a entender?

=Perguntador=

Creio que sim. O materialista, descrendo de tudo o que não pode ser provado a ele por seus cinco sentidos, ou por raciocínio científico, baseado exclusivamente nos dados fornecidos por esses sentidos, apesar de sua inadequação, e rejeitando toda manifestação espiritual, aceita a vida como a única existência consciente.

Portanto, segundo suas crenças, assim lhes será feito.

Eles perderão seu Ego pessoal e mergulharão em um sono sem sonhos até um novo despertar.

É assim?

=Teosofista=

Quase isso. Lembre-se do ensinamento praticamente universal dos dois tipos de existência consciente: a terrestre e a espiritual.

Esta última deve ser considerada real pelo próprio fato de ser habitada pela Mônada eterna, imutável e imortal; enquanto o Ego encarnante se veste com novas vestes inteiramente diferentes das de suas encarnações anteriores, e nas quais tudo, exceto seu protótipo espiritual, está condenado a uma mudança tão radical que não deixa vestígio algum.

=Perguntador=

Como assim? Pode meu "eu" consciente terrestre perecer não apenas por um tempo, como a consciência do materialista, mas tão inteiramente a ponto de não deixar vestígio algum?

=Teosofista=

De acordo com o ensinamento, ele deve assim perecer e em sua plenitude, tudo exceto o princípio que, tendo-se unido à Mônada, tornou-se por isso uma essência puramente espiritual e indestrutível, una com ela na Eternidade.

Mas no caso de um materialista convicto, em cujo “eu” pessoal nenhum Buddhi jamais se refletiu, como pode este último levar consigo para a Eternidade uma partícula dessa personalidade terrestre? O vosso “eu” espiritual é imortal; mas do vosso eu atual ele pode levar para a Eternidade apenas aquilo que se tornou digno de imortalidade, ou seja, somente o aroma da flor que foi ceifada pela morte.

=Perguntador=

Bem, e a flor, o “eu” terrestre?

=Teosofista=

A flor, como todas as flores passadas e futuras que floresceram e terão de florescer no ramo-mãe, o _Sutratma_, todas filhas de uma mesma raiz ou Buddhi—retornará ao pó.

O vosso “eu” atual, como vós mesmo sabeis, não é o corpo agora sentado diante de mim, nem tampouco é o que eu chamaria de Manas-Sutratma, mas Sutratma-Buddhi.

=Perguntador=

Mas isso não me explica, de modo algum, por que chamais a vida após a morte de imortal, infinita e real, e a vida terrestre de simples fantasma ou ilusão; já que mesmo essa vida _póstuma_ tem limites, por mais amplos que possam ser em relação aos da vida terrestre.

=Teosofista=

Sem dúvida.

O Ego espiritual do homem move-se na eternidade como um pêndulo entre as horas do nascimento e da morte.

Mas se essas horas, marcando os períodos da vida terrestre e da vida espiritual, são limitadas em sua duração, e se o próprio número de tais estágios na Eternidade entre o sono e o despertar, a ilusão e a realidade, tem seu começo e seu fim, por outro lado, o peregrino espiritual é eterno.

Portanto, as horas de sua vida _póstuma_, quando, desencarnado, ele se encontra face a face com a verdade e não com os miragens de suas existências terrestres transitórias, durante o período dessa peregrinação que chamamos “o ciclo de renascimentos”—são a única realidade em nossa concepção.

Tais intervalos, não obstante sua limitação, não impedem o Ego, enquanto se aperfeiçoa continuamente, de seguir inabalavelmente, embora gradual e lentamente, o caminho para sua última transformação, quando esse Ego, tendo alcançado seu objetivo, torna-se um ser divino.

Estes intervalos e estágios contribuem para esse resultado final, em vez de dificultá-lo; e sem tais intervalos limitados, o Ego divino jamais poderia alcançar sua meta última.

Já vos dei uma vez uma ilustração familiar, comparando o _Ego_, ou a _individualidade_, a um ator, e suas numerosas e variadas encarnações aos papéis que ele representa.

Chamareis a esses papéis ou a seus figurinos de individualidade do próprio ator? Como esse ator, o Ego é forçado a representar, durante o ciclo de necessidade, até o próprio limiar do _Paranirvana_, muitos papéis que lhe podem ser desagradáveis. Mas assim como a abelha colhe seu mel de cada flor, deixando o resto como alimento para os vermes terrestres, assim também faz nossa individualidade espiritual, quer a chamemos de Sutratma ou Ego.

Colhendo de cada personalidade terrestre, na qual o Karma a força a encarnar, apenas o néctar das qualidades espirituais e da autoconsciência, ela une tudo isso em um todo e emerge de sua crisálida como o glorificado Dhyan Chohan.

Tanto pior para aquelas personalidades terrestres das quais ela nada pôde colher.

Tais personalidades certamente não podem sobreviver conscientemente à sua existência terrestre.

=Perguntador=

Assim, então, parece que, para a personalidade terrestre, a imortalidade é ainda condicional.

É, então, a própria imortalidade _não_ incondicional?

=Teosofista=

De modo algum.

Mas a imortalidade não pode tocar o _não-existente_: pois tudo o que existe como SAT, ou emana de SAT, imortalidade e Eternidade são absolutos.

A matéria é o polo oposto do espírito, e, no entanto, os dois são um.

A essência de tudo isso, _i.e._, Espírito, Força e Matéria, ou os três em um, é tão interminável quanto sem começo; mas a forma adquirida por essa unidade tríplice durante suas encarnações, sua externalidade, é certamente apenas a ilusão de nossas concepções pessoais.

Por isso chamamos apenas a Nirvana e a vida Universal de realidade, enquanto relegamos a vida terrestre, incluindo sua personalidade terrestre, e mesmo sua existência devachânica, ao reino fantasmagórico da ilusão.

=Perguntador=

Mas, nesse caso, por que chamar o sono de realidade e o despertar de ilusão?

=Teosofista=

É simplesmente uma comparação feita para facilitar a compreensão do assunto, e, do ponto de vista das concepções terrestres, é bastante correta.

=Perguntador=

E ainda assim não consigo entender, se a vida futura se baseia na justiça e na retribuição merecida por todos os nossos sofrimentos terrestres, como, no caso dos materialistas, muitos dos quais são homens realmente honestos e caridosos, deveria restar de sua personalidade nada além do refugo de uma flor murcha.

=Teosofista=

Ninguém jamais disse tal coisa.

Nenhum materialista, por mais descrente que seja, pode morrer para sempre na plenitude de sua individualidade espiritual.

O que foi dito é que a consciência pode desaparecer, total ou parcialmente, no caso de um materialista, de modo que nenhum resquício consciente de sua personalidade sobreviva.

=Perguntador=

Mas certamente isso é aniquilação?

=Teosofista=

Certamente não.

Pode-se dormir um sono morto e perder várias estações durante uma longa viagem de trem, sem a menor lembrança ou consciência, e despertar em outra estação e continuar a viagem por inúmeros outros pontos de parada até o fim da jornada ou a meta ser alcançada.

Três tipos de sono foram mencionados a você: o sem sonhos, o caótico e aquele que é tão real que, para o homem adormecido, seus sonhos se tornam realidades plenas.

Se você acredita no último, por que não pode acreditar no primeiro? De acordo com a vida após a morte em que um homem acreditou e esperou, tal é a vida que ele terá.

Aquele que não esperava vida futura terá um vazio absoluto, equivalendo à aniquilação, no intervalo entre os dois renascimentos.

Isso é exatamente a execução do programa de que falamos, um programa criado pelos próprios materialistas.

Mas há vários tipos de materialistas, como você diz.

Um Egoísta perverso e maldoso, que nunca derramou uma lágrima por ninguém além de si mesmo, acrescentando assim total indiferença ao mundo inteiro à sua descrença, deve, no limiar da morte, abandonar sua personalidade para sempre.

Essa personalidade, não tendo gavinhas de simpatia pelo mundo ao redor e, portanto, nada a que se agarrar ao Sutratma, segue-se que, com o último suspiro, toda conexão entre os dois é rompida.

Não havendo Devachan para tal materialista, o Sutratma reencarnará quase imediatamente.

Mas aqueles materialistas que erraram em nada além de sua descrença dormirão além de apenas uma estação.

E chegará o tempo em que esse ex-materialista se perceberá na Eternidade e talvez se arrependa de ter perdido até mesmo um dia, uma estação, da vida eterna.

=Perguntador=

Ainda assim, não seria mais correto dizer que a morte é o nascimento para uma nova vida, ou um retorno mais uma vez à eternidade?

=Teosofista=

Pode ser, se você quiser.

Apenas lembre-se de que os nascimentos diferem, e que há nascimentos de seres "natimortos", que são _falhas_ da natureza.

Além disso, com suas ideias ocidentais fixas sobre a vida material, as palavras "viver" e "ser" são bastante inaplicáveis ao estado puramente subjetivo da existência _pós-morte_.

É justamente porque, exceto em alguns filósofos que não são lidos pela maioria, e que eles próprios são confusos demais para apresentar um quadro distinto disso, é justamente porque suas ideias ocidentais sobre vida e morte finalmente se tornaram tão estreitas que, por um lado, levaram ao materialismo crasso e, por outro, à concepção ainda mais material da outra vida, que os espiritualistas formularam em sua Summer-land.

Lá, as almas dos homens comem, bebem, casam-se e vivem em um paraíso tão sensual quanto o de Maomé, mas ainda menos filosófico.

Nem as concepções médias dos cristãos não instruídos são melhores, sendo, se possível, ainda mais materiais.

Entre anjos truncados, trombetas de latão, harpas de ouro e fogos infernais materiais, o céu cristão parece uma cena de fada em uma pantomima de Natal.

É por causa dessas concepções estreitas que você encontra tanta dificuldade em compreender.

É justamente porque a vida da alma desencarnada, embora possua toda a vivacidade da realidade, como em certos sonhos, é desprovida de toda forma grosseiramente objetiva da vida terrestre, que os filósofos orientais a compararam com visões durante o sono.

=PALAVRAS DEFINIDAS PARA COISAS DEFINIDAS.=

=Perguntador=

Você não acha que é porque não há termos definidos e fixos para indicar cada "Princípio" no homem, que tal confusão de ideias surge em nossas mentes com respeito às funções respectivas desses "Princípios"?

=Teosofista=

Eu mesmo pensei nisso.

Todo o problema surgiu disto: começamos nossas exposições e discussões sobre os "Princípios" usando seus nomes em sânscrito, em vez de cunhar imediatamente, para uso dos Teosofistas, seus equivalentes em inglês.

Devemos tentar remediar isso agora.

Você fará bem, pois isso pode evitar mais confusão; nenhum dois escritores teosóficos, parece-me, até agora concordaram em chamar o mesmo “Princípio” pelo mesmo nome.

=Teosofista=

A confusão é mais aparente do que real, no entanto.

Ouvi alguns de nossos teosofistas expressarem surpresa e criticarem vários ensaios que falam desses “princípios”; mas, quando examinados, não havia neles erro pior do que o de usar a palavra “Alma” para abranger os três princípios sem especificar as distinções.

O primeiro, como positivamente o mais claro de nossos escritores teosóficos, o Sr. A. P. Sinnett, tem algumas passagens abrangentes e admiravelmente escritas sobre o “Eu Superior”.[45] Sua ideia real também foi mal compreendida por alguns, devido ao seu uso da palavra “Alma” em um sentido geral.

Contudo, aqui estão algumas passagens que lhe mostrarão quão clara e abrangente é tudo o que ele escreve sobre o assunto:—

... “A alma humana, uma vez lançada nas correntes da evolução como uma individualidade humana,[46] passa por períodos alternados de existência física e relativamente espiritual.

Ela passa de um plano, ou estrato, ou condição da natureza para outro sob a orientação de suas afinidades cármicas; vivendo nas encarnações a vida que seu Karma preordenou; modificando seu progresso dentro das limitações das circunstâncias, e,—desenvolvendo novo Karma pelo seu uso ou abuso das oportunidades,—retorna à existência espiritual (Devachan) após cada vida física,—através da região intermediária de Kamaloca—para descanso e refrigério e para a gradual absorção em sua essência, como tanto progresso cósmico, da experiência da vida adquirida ‘na terra’ ou durante a existência física.”

Esta visão do assunto terá, além disso, sugerido muitas inferências colaterais a quem quer que pense sobre o tema; por exemplo, que a transferência de consciência do estágio Kamaloca para o estágio Devachânico dessa progressão seria necessariamente gradual[47]; que, na verdade, nenhuma linha rígida e fixa separa as variedades de condições espirituais; que mesmo os planos espiritual e físico, como as faculdades psíquicas em pessoas vivas demonstram, não estão tão irremediavelmente isolados um do outro quanto as teorias materialistas sugeririam; que todos os estados da natureza estão ao nosso redor simultaneamente e apelam a diferentes faculdades perceptivas; e assim por diante.... É claro que, durante a existência física, pessoas que possuem faculdades psíquicas permanecem em conexão com os planos de consciência superfísica; e, embora a maioria das pessoas possa não ser dotada de tais faculdades, todos nós, como os fenômenos do sono, até mesmo, e especialmente ... os do sonambulismo ou mesmerismo, demonstram, somos capazes de entrar em condições de consciência com as quais os cinco sentidos físicos nada têm a ver.

Nós — as almas dentro de nós — não estamos, por assim dizer, inteiramente à deriva no oceano da matéria.

Claramente retemos algum interesse ou direitos sobreviventes na margem da qual, por um tempo, nos afastamos flutuando.

O processo de encarnação, portanto, não é totalmente descrito quando falamos de uma existência _alternada_ nos planos físico e espiritual, e assim imaginamos a alma como uma entidade completa que desliza inteiramente de um estado de existência para o outro.

As definições mais corretas do processo provavelmente representariam a encarnação como ocorrendo neste plano físico da natureza por razão de um efluxo emanado da alma.

O reino espiritual seria, o tempo todo, o habitat próprio da Alma, que nunca o abandonaria por completo; _e aquela porção não-materializável da Alma que permanece permanentemente no plano espiritual pode, talvez, ser apropriadamente_ chamada de EU SUPERIOR.”

Este “Eu Superior” é ATMA e, naturalmente, é “não-materializável”, como o Sr. Sinnett diz.

Ainda mais, ele nunca pode ser “objetivo” sob quaisquer circunstâncias, mesmo para a mais elevada percepção espiritual.

Pois _Atman_, ou o “Self Superior”, é realmente Brahma, o ABSOLUTO, e indistinguível dele. Nas horas de _Samadhi_, a consciência espiritual superior do Iniciado é inteiramente absorvida na essência UNA, que é Atman, e, portanto, sendo uno com o todo, nada pode haver de objetivo para ela. Agora, alguns de nossos Teosofistas adquiriram o hábito de usar as palavras “Self” e “Ego” como sinônimos, associando o termo “Self” apenas ao “Self” individual superior, ou mesmo pessoal, do homem, ou _Ego_, ao passo que esse termo jamais deveria ser aplicado senão _ao Self universal uno_. Daí a confusão.

Falando de Manas, o “corpo causal”, podemos chamá-lo—quando o conectamos com a radiação Búdica—de “EGO SUPERIOR”, nunca de “Self Superior”. Pois mesmo Buddhi, a “Alma Espiritual”, não é o SELF, mas apenas o veículo do SELF.

Todos os outros “_Selves_”—tais como o self “individual” e o self “pessoal”—jamais deveriam ser falados ou escritos sem seus adjetivos qualificativos e característicos.

Assim, neste excelente ensaio sobre o “Self Superior”, esse termo é aplicado ao _sexto princípio_ ou _Buddhi_ (naturalmente em conjunção com Manas, pois sem tal união não haveria princípio ou elemento _pensante_ na alma espiritual); e, em consequência, deu origem a exatamente tais mal-entendidos.

A afirmação de que “uma criança não adquire seu _sexto_ princípio—ou não se torna um ser moralmente responsável, capaz de gerar Karma—até os sete anos de idade” prova o que ali se entende por SELF SUPERIOR.

Portanto, o hábil autor é plenamente justificado ao explicar que, depois que o “Self Superior” passou para o ser humano e saturou a personalidade—apenas em algumas das organizações mais sutis—com sua consciência, “pessoas com faculdades psíquicas podem de fato perceber esse Self Superior através de seus sentidos mais refinados, de tempos em tempos”. Mas também aqueles que limitam o termo “Self Superior” ao Princípio Divino Universal são “justificados” em mal interpretá-lo.

Pois, quando lemos, sem estarmos preparados para essa mudança de termos metafísicos,[48] que, embora “se manifeste plenamente no plano físico ... o Eu Superior permanece ainda um Ego espiritual consciente no plano correspondente da Natureza” — somos propensos a ver no “Eu Superior” dessa frase o “Atma”, e no Ego espiritual o “Manas”, ou antes Buddhi-Manas, e imediatamente a criticar tudo como incorreto.

Para evitar daqui em diante tais deturpações, proponho traduzir literalmente dos termos ocultos orientais seus equivalentes em inglês, e oferecê-los para uso futuro.

{ Atma, o raio inseparável do Self Universal   O EU SUPERIOR  { e ÚNICO.

É o Deus _acima_, mais     SELF é     { do que _dentro_ de nós. Feliz o homem que consegue                 { saturar seu _Ego interior_ com ele!

O EGO       { a alma espiritual ou _Buddhi_, em estreita união     _divino_    { com _Manas_, o princípio mental, sem      ESPIRITUAL é { o qual não é Ego algum, mas apenas o                 { _Veículo_ Átmico.

{ _Manas_, o “Quinto” Princípio, assim chamado,                 {  independentemente de Buddhi.

O Princípio Mental    O “Ego”    { é apenas o Ego espiritual quando fundido    interior ou    { _em um_ com Buddhi,—não se supondo que     superior é    { nenhum materialista tenha _tal_ Ego, por mais                 { que sejam suas capacidades intelectuais.

É                 { a _Individualidade_ permanente ou o “Ego                 { Reencarnante”.

{ o homem físico em conjunção com seu                 { _Self_ inferior, _i.e._, instintos animais, paixões,    O “Ego”    { desejos, etc.

É chamado a “falsa personalidade”,    inferior, ou   { e consiste no _Manas inferior_ combinado     “Ego”     { com Kama-rupa, e operando                 { através do corpo físico e seu fantasma                 { ou “duplo”.

O “Princípio” restante, “_Pranâ_”, ou “Vida”, é, estritamente falando, a força radiante ou Energia de Atma — como a Vida Universal e o SELF ÚNICO —, seu aspecto inferior ou antes (em seus efeitos) mais físico, por se manifestar.

Pranâ ou Vida permeia todo o ser do Universo objetivo; e é chamado um “princípio” apenas porque é um fator indispensável e o _deus ex machinâ_ do homem vivo.

=Perguntador=

Essa divisão, sendo tão simplificada em suas combinações, atenderá melhor, creio.

A outra é demasiado metafísica.

=Teosofista=

Se tanto os de fora quanto os teosofistas concordassem com isso, certamente tornaria as coisas muito mais compreensíveis.


[40] "Algumas coisas que _sei_ sobre o Espiritualismo e algumas que _não_ sei."

[41] Algumas partes deste capítulo e do anterior foram publicadas em _Lucifer_ sob a forma de um "Diálogo sobre os Mistérios da Vida Após a Morte", no número de janeiro de 1889. O artigo não foi assinado, como se tivesse sido escrito pela editora, mas saiu da pena do autor do presente volume.

[42] Iswara é a consciência coletiva da divindade manifestada, Brahma, _isto é_, a consciência coletiva da Hoste de Dhyan Chohans (_vide_ DOUTRINA SECRETA); e Pragna é a sua sabedoria individual.

[43] _Taijasi_ significa o radiante em consequência de sua união com Buddhi; _isto é_, Manas, a alma humana, iluminada pelo resplendor da alma divina.

Portanto, Manas-taijasi pode ser descrito como mente radiante; a razão _humana_ iluminada pela luz do espírito; e Buddhi-Manas é a revelação do intelecto divino _mais_ o intelecto humano e a autoconsciência.

[44] Alguns teosofistas objetaram a esta frase, mas as palavras são do Mestre, e o significado atribuído à palavra "não merecido" é o acima exposto.

No panfleto nº 6 da T.P.S., uma frase, criticada posteriormente em LUCIFER, foi usada com a intenção de transmitir a mesma ideia.

Na forma, porém, era desajeitada e passível da crítica que lhe foi dirigida; mas a ideia essencial era que os homens frequentemente sofrem os efeitos das ações praticadas por outros, efeitos que, portanto, não pertencem estritamente ao seu próprio Karma — e por esses sofrimentos eles, naturalmente, merecem compensação.

[45] _Vide_ Transações da LOJA DE LONDRES _da Soc. Teos._, nº 7, out., 1885.

[46] O "Ego reencarnante", ou "Alma Humana", como ele o chamava, o _Corpo Causal_ dos hindus.

[47] A duração dessa "transferência" depende, contudo, do grau de espiritualidade na ex-personalidade do Ego desencarnado.

Para aqueles cujas vidas foram muito espirituais, essa transferência, embora gradual, é muito rápida.

O tempo torna-se mais longo para os de inclinação materialista.

[48] "Mudança de _termos metafísicos_" aplica-se aqui apenas à mudança de seus equivalentes traduzidos das expressões orientais; pois até hoje nunca existiram tais termos em inglês, tendo cada teosofista que cunhar seus próprios termos para expressar seu pensamento.

Já é mais que tempo, então, de se estabelecer uma nomenclatura definitiva.


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=X. SOBRE A NATUREZA DO NOSSO PRINCÍPIO PENSANTE.=
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=O MISTÉRIO DO EGO.=

=Perguntador=

Percebo na citação que você trouxe há pouco do _Catecismo Budista_ uma discrepância que gostaria de ouvir explicada.

Está dito ali que os Skandhas — incluindo a memória — mudam a cada nova encarnação.

E, no entanto, afirma-se que a reflexão das vidas passadas, que, nos é dito, são inteiramente compostas de Skandhas, "deve sobreviver". No momento presente, não estou totalmente claro em minha mente sobre o que exatamente sobrevive, e gostaria que fosse explicado.

O que é? É apenas essa "reflexão", ou esses Skandhas, ou sempre esse mesmo Ego, o Manas?

=Teosofista=

Acabei de explicar que o Princípio reencarnante, ou aquilo que chamamos de homem _divino_, é indestrutível ao longo do ciclo de vida: indestrutível como uma _Entidade_ pensante, e mesmo como uma forma etérea.

A "reflexão" é apenas a _lembrança_ espiritualizada, durante o período devachânico, da _ex-personalidade_, Sr. A. ou Sra.

B.—com a qual o _Ego_ se identifica durante esse período.

Uma vez que este último é apenas a continuação da vida terrena, por assim dizer, o próprio ápice e auge, em uma série ininterrupta, dos poucos momentos felizes naquela existência agora passada, o _Ego_ tem de se identificar com a consciência _pessoal_ dessa vida, se algo dela deve permanecer.

=Perguntador=

Isso significa que o _Ego_, apesar de sua natureza divina, passa cada um desses períodos entre duas encarnações em um estado de obscurecimento mental, ou insanidade temporária.

=Teosofista=

Você pode considerar como quiser.

Acreditando que, fora da ÚNICA Realidade, nada é melhor do que uma ilusão passageira — o Universo inteiro incluído — não vemos isso como insanidade, mas como uma sequência ou desenvolvimento muito natural da vida terrestre.

O que é a vida? Um feixe das mais variadas experiências, de ideias, emoções e opiniões que mudam diariamente.

Em nossa juventude, somos frequentemente entusiasticamente devotados a um ideal, a algum herói ou heroína que tentamos seguir e reviver; alguns anos depois, quando o frescor de nossos sentimentos juvenis se desvaneceu e se acalmou, somos os primeiros a rir de nossas fantasias.

E, no entanto, houve um dia em que havíamos identificado tão completamente a nossa própria personalidade com a do ideal em nossa mente — especialmente se fosse a de um ser vivo — que a primeira se fundia e se perdia inteiramente na última.

Pode-se dizer de um homem de cinquenta anos que ele é o mesmo ser que era aos vinte? O homem _interior_ é o mesmo; a personalidade exterior viva está completamente transformada e mudada.

Chamaria também a essas mudanças nos estados mentais humanos de insanidade?

=Perguntador=

Como _você_ as nomearia, e especialmente como explicaria a permanência de uma e a evanescência da outra?

=Teosofista=

Temos nossa própria doutrina pronta, e para nós ela não oferece dificuldade alguma.

A chave está na dupla consciência de nossa mente e também na natureza dual do “princípio” mental. Há uma consciência espiritual, a mente Manásica iluminada pela luz de Buddhi, aquela que percebe subjetivamente as abstrações; e a consciência sensitiva (a luz _Manásica_ inferior), inseparável de nosso cérebro físico e de nossos sentidos.

Esta última consciência é mantida em sujeição pelo cérebro e pelos sentidos físicos e, sendo por sua vez igualmente dependente deles, deve naturalmente desvanecer-se e finalmente morrer com o desaparecimento do cérebro e dos sentidos físicos.

É somente o primeiro tipo de consciência, cuja raiz reside na eternidade, que sobrevive e vive para sempre, podendo, portanto, ser considerado imortal.

Todo o resto pertence a ilusões passageiras.

=Perguntador=

O que você realmente entende por ilusão neste caso?

=Teosofista=

Está muito bem descrito no ensaio recentemente mencionado sobre “O Eu Superior”. Diz seu autor:

“A teoria que estamos considerando (a troca de ideias entre o _Ego Superior_ e o eu inferior) harmoniza-se muito bem com o tratamento deste mundo em que vivemos como um mundo fenomenal de ilusão, sendo os planos espirituais da natureza, por outro lado, o mundo noumenal ou plano da realidade.

Aquela região da natureza na qual, por assim dizer, a alma permanente está enraizada é mais real do que aquela em que suas flores transitórias aparecem por um breve espaço para murchar e cair em pedaços, enquanto a planta recupera energia para lançar uma nova flor.”

Supondo que apenas flores fossem perceptíveis aos sentidos comuns, e suas raízes existissem em um estado da Natureza intangível e invisível para nós, filósofos em tal mundo que adivinhassem que existiam tais coisas como raízes em outro plano de existência diriam, provavelmente, das flores: Estas não são as plantas reais; não têm importância relativa, meramente fenômenos ilusórios do momento.

É isto que quero dizer.

O mundo em que desabrocham as flores transitórias e evanescentes das vidas pessoais não é o mundo real e permanente; mas aquele em que encontramos a raiz da consciência, essa raiz que está além da ilusão e habita na eternidade.

=Perguntador=

O que quereis dizer com a raiz habitando na eternidade?

=Teosofista=

Quero dizer com essa raiz a entidade pensante, o Ego que encarna, quer o consideremos como um “Anjo”, “Espírito” ou uma Força.

Daquilo que cai sob nossas percepções sensoriais, somente o que cresce diretamente de, ou está ligado a essa raiz invisível acima, pode participar de sua vida imortal.

Portanto, todo pensamento nobre, ideia e aspiração da personalidade que ela informa, procedendo e alimentando-se dessa raiz, deve tornar-se permanente.

Quanto à consciência física, como é uma qualidade do “princípio” senciente, porém inferior (Kama-rupa ou instinto animal, iluminado pelo reflexo manásico inferior), ou a Alma humana — ela deve desaparecer.

O que exibe atividade, enquanto o corpo está adormecido ou paralisado, é a consciência superior, registrando nossa memória apenas fraca e imprecisamente — porque automaticamente — tais experiências, e muitas vezes falhando em ser sequer levemente impressionada por elas.

=Perguntador=

Mas como é que MANAS, embora o chameis de _Nous_, um “Deus”, é tão fraco durante suas encarnações, a ponto de ser realmente conquistado e acorrentado por seu corpo?

=Teosofista=

Poderia eu retorquir com a mesma pergunta e indagar: “Como é que ele, a quem considerais ‘o Deus dos Deuses’ e o único Deus vivo, _é tão fraco_ a ponto de permitir que o mal (ou o Diabo) leve a melhor sobre _ele_, tanto quanto sobre todas as suas criaturas, quer permaneça no Céu, quer durante o tempo em que esteve encarnado nesta terra?” Certamente respondereis novamente: “Isto é um Mistério; e nos é proibido perscrutar os mistérios de Deus.” Não nos sendo proibido fazê-lo por nossa filosofia religiosa, respondo à vossa pergunta que, a menos que um Deus desça como _Avatar_, nenhum princípio divino pode deixar de ser tolhido e paralisado pela matéria animal turbulenta.

A heterogeneidade sempre levará vantagem sobre a homogeneidade, neste plano de ilusões, e quanto mais próxima uma essência estiver de seu princípio-raiz, a Homogeneidade Primordial, mais difícil será para esta última afirmar-se na terra.

Os poderes espirituais e divinos jazem adormecidos em todo Ser humano; e quanto mais amplo o alcance de sua visão espiritual, mais poderoso será o Deus dentro dele.

Mas como poucos homens podem sentir esse Deus, e uma vez que, como regra geral, a divindade está sempre atada e limitada em nosso pensamento por concepções anteriores, aquelas ideias que nos são inculcadas desde a infância, portanto, é tão difícil para vós compreenderdes nossa filosofia.

=Perguntador=

E é este nosso Ego que é o nosso Deus?

=Teosofista=

De modo algum; “_Um_ Deus” não é a divindade universal, mas apenas uma centelha do único oceano do Fogo Divino.

Nosso Deus _dentro_ de nós, ou “nosso Pai em Segredo”, é o que chamamos de “EU SUPERIOR”, _Atma_. Nosso Ego encarnante foi um Deus em sua origem, como o foram todas as emanações primevas do Princípio Único Desconhecido.

Mas desde sua “queda na Matéria”, tendo que encarnar ao longo do ciclo, em sucessão, do primeiro ao último, não é mais um deus livre e feliz, mas um pobre peregrino a caminho de reconquistar aquilo que perdeu.

Posso responder-vos mais plenamente repetindo o que é dito sobre o HOMEM INTERIOR em ÍSIS SEM VÉU (Vol. II. 593):—

“Desde a mais remota antiguidade _a humanidade_ como um todo _sempre esteve convencida da existência de uma entidade espiritual pessoal dentro do homem físico pessoal_. Essa entidade interior era mais ou menos divina, conforme sua proximidade da _coroa_. Quanto mais íntima a união, mais sereno o destino do homem, menos perigosas as condições externas.”

Essa crença não é nem fanatismo nem superstição, apenas um sentimento instintivo, sempre presente, da proximidade de outro mundo espiritual e invisível, que, embora seja subjetivo aos sentidos do homem exterior, é perfeitamente objetivo ao ego interior.

Além disso, eles acreditavam que _existem condições externas e internas que afetam a determinação de nossa vontade sobre nossas ações_. Eles rejeitavam o fatalismo, pois o fatalismo implica um curso cego de algum poder ainda mais cego.

Mas eles acreditavam no _destino_ ou _Karma_, que do nascimento à morte todo homem tece fio por fio ao seu redor, como uma aranha tece sua teia; e esse destino é guiado por aquela presença denominada por alguns de anjo da guarda, ou nosso mais íntimo homem interior astral, que é demasiadas vezes o gênio do mal do homem de carne ou da _personalidade_. Ambos conduzem o HOMEM, mas um deles deve prevalecer; e desde o próprio início da contenda invisível, a severa e implacável _lei de compensação e retribuição_ intervém e segue seu curso, acompanhando fielmente as flutuações do conflito.

Quando o último fio é tecido, e o homem está aparentemente envolto na rede de sua própria feitura, então ele se encontra completamente sob o império desse destino _autocriado_.

Ele então ou o fixa como a concha inerte contra a rocha imóvel, ou como uma pluma o carrega em um redemoinho levantado por suas próprias ações.”

Tal é o destino do HOMEM — o verdadeiro Ego, não o Autômato, a _concha_ que leva esse nome.

Cabe a ele tornar-se o conquistador sobre a matéria.

=A NATUREZA COMPLEXA DE MANAS.=

=Perguntador=

Mas você queria me dizer algo sobre a natureza essencial de Manas, e sobre a relação em que os Skandhas do homem físico se encontram com ela?

=Teosofista=

É essa natureza, misteriosa, proteica, além de qualquer apreensão, e quase etérea em suas correlações com os outros princípios, que é mais difícil de realizar, e ainda mais de explicar.

Manas é um “princípio” e, no entanto, é uma “Entidade” e individualidade ou Ego.

Ele é um “Deus” e, no entanto, está condenado a um ciclo interminável de encarnações, por cada uma das quais é tornado responsável, e por cada uma das quais tem de sofrer.

Tudo isso parece tão contraditório quanto desconcertante; no entanto, há centenas de pessoas, mesmo na Europa, que compreendem tudo isso perfeitamente, pois apreendem o Ego não apenas em sua integridade, mas em seus muitos aspectos.

Finalmente, se eu quisesse me fazer compreensível, devo começar pelo princípio e dar-lhe a genealogia desse Ego em poucas linhas.

=Perguntador=

Diga.

=Teosofista=

Tente imaginar um “Espírito”, um Ser celestial, quer o chamemos por um nome ou outro, divino em sua natureza essencial, mas não puro o suficiente para ser _um com o_ TUDO, e que, para alcançar isso, precisa purificar sua natureza a ponto de finalmente atingir essa meta.

Ele só pode fazê-lo passando _individualmente_ e _pessoalmente_, _isto é_, espiritual e fisicamente, por cada experiência e sentimento que exista no Universo múltiplo ou diferenciado.

Portanto, após ter adquirido tal experiência nos reinos inferiores, e tendo ascendido cada vez mais alto a cada degrau da escada do ser, ele deve passar por cada experiência nos planos humanos.

Em sua essência mesma, ele é PENSAMENTO e é, portanto, chamado em sua pluralidade de _Manasa putra_, “os Filhos da (Universal) mente”. Esse “Pensamento” _individualizado_ é o que nós, teosofistas, chamamos de EGO humano _real_, a Entidade pensante aprisionada num invólucro de carne e ossos.

Esta é certamente uma Entidade Espiritual, não _Matéria_, e tais Entidades são os EGOS encarnantes que informam o agregado de matéria animal chamado humanidade, e cujos nomes são _Manasa_ ou “Mentes”. Mas uma vez aprisionados, ou encarnados, sua essência torna-se dual: isto é, os _raios_ da eterna Mente divina, considerados como entidades individuais, assumem um atributo duplo, que é (_a_) sua característica _essencial_ inerente, a mente que aspira ao céu (Manas _superior_) e (_b_) a qualidade humana de pensar, ou cogitação animal, racionalizada devido à superioridade do cérebro humano, o Manas inferior tendente a Kama.

Um gravita em direção a Buddhi; o outro, tendendo para baixo, em direção ao assento das paixões e desejos animais.

Estes últimos não têm lugar em Devachan, nem podem associar-se à tríade divina que ascende como UM em bem-aventurança mental.

No entanto, é o Ego, a Entidade Manásica, que é considerado responsável por todos os pecados dos atributos inferiores, assim como um pai é responsável pelas transgressões de seu filho, enquanto este permanecer irresponsável.

=Perguntador=

Essa “criança” é a “personalidade”?

=Teosofista=

É. Portanto, quando se afirma que a “personalidade” morre com o corpo, não se afirma tudo.

O corpo, que era apenas o símbolo objetivo do Sr. A. ou da Sra. B., desvanece-se com todos os seus Skandhas materiais, que são as expressões visíveis disso.

Mas tudo o que constituiu durante a vida o _feixe espiritual_ de experiências, as mais nobres aspirações, afetos imorredouros e a natureza _altruísta_ do Sr. A. ou da Sra. B. permanece durante o período devachânico ligado ao EGO, que se identifica com a porção espiritual daquela Entidade terrestre, agora desaparecida da vista.

O ATOR está tão imbuído do _papel_ que acabou de representar que sonha com ele durante toda a noite devachânica, _visão_ que continua até que soe a hora de retornar ao palco da vida para representar outra parte.

=Perguntador=

Mas como é que esta doutrina, que você diz ser tão antiga quanto os homens pensantes, não encontrou lugar, por exemplo, na teologia cristã?

=Teosofista=

Você está enganado, encontrou; apenas a teologia a desfigurou a ponto de ficar irreconhecível, como fez com muitas outras doutrinas.

A teologia chama o EGO de Anjo que Deus nos dá no momento do nosso nascimento, _para cuidar de nossa Alma_. Em vez de considerar esse “Anjo” responsável pelas transgressões da pobre e indefesa “Alma”, é esta última que, segundo a lógica teológica, é punida por todos os pecados tanto da carne quanto da mente! É a Alma, o _sopro_ imaterial de Deus e sua _suposta criação_, que, por um malabarismo intelectual dos mais surpreendentes, está condenada a queimar em um inferno material sem nunca ser consumida,[49] enquanto o “Anjo” escapa impune depois de dobrar suas brancas asas e molhá-las com algumas lágrimas. Sim, estes são nossos “Espíritos ministradores”, os “mensageiros de misericórdia” que são enviados, diz-nos o Bispo Mant—

“.... para cumprir o Bem para os herdeiros da Salvação, por nós eles ainda Se entristecem quando pecamos, alegram-se quando nos arrependemos;”

No entanto, torna-se evidente que se todos os Bispos do mundo fossem convidados a definir de uma vez por todas o que querem dizer por _Alma_ e suas funções, seriam tão incapazes de fazê-lo quanto de nos mostrar qualquer sombra de lógica na crença ortodoxa!

=A DOUTRINA É ENSINADA NO EVANGELHO DE SÃO JOÃO.=

=Perguntador=

A isso, os adeptos dessa crença poderiam responder que, mesmo que o dogma ortodoxo prometa ao pecador impenitente e ao materialista um mau momento em um Inferno um tanto realista, por outro lado dá-lhes uma chance de arrependimento até o último minuto.

Nem ensinam a aniquilação, ou a perda da personalidade, que é o mesmo.

=Teosofista=

Se a Igreja não ensina nada disso, por outro lado, Jesus o faz; e isso é algo para aqueles, pelo menos, que colocam Cristo acima do Cristianismo.

=Perguntador=

Cristo ensina algo desse tipo?

=Teosofista=

Ele o faz; e todo Ocultista bem informado e até mesmo Cabalista lhe dirá isso. Cristo, ou o quarto Evangelho, de qualquer modo, ensina a reencarnação e também a aniquilação da personalidade, se você apenas esquecer a letra morta e se ater ao Espírito esotérico.

Lembre-se dos versículos 1 e 2 do capítulo xv de São João.

Sobre o que fala a parábola, senão da _tríade superior_ no homem? _Atma_ é o Viticultor—o Ego Espiritual ou _Buddhi_ (Christos) é a Videira, enquanto a alma animal e vital, a _personalidade_, é o “ramo”. “Eu sou a videira _verdadeira_, e meu Pai é o Viticultor. Todo ramo em mim que não dá fruto, ele o remove.... Assim como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira; tampouco vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a Videira—vós sois os ramos. Se alguém não permanece em mim, é lançado fora como ramo, e _seca_, e é lançado no fogo e queimado.”

Agora explicamos isso desta maneira. Não acreditando nos fogos do inferno que a teologia descobre como subjacentes à ameaça aos _ramos_, dizemos que o “Viticultor” significa Atma, o Símbolo do Princípio infinito e impessoal,[50] enquanto a Videira representa a Alma Espiritual, _Christos_, e cada “ramo” representa uma nova encarnação.

=Perguntador=

Mas que provas você tem para apoiar uma interpretação tão arbitrária?

=Teosofista=

A simbologia universal é uma garantia de sua correção e de que não é arbitrária. Hermas diz de “Deus” que ele “plantou a Vinha”, _isto é_, criou a humanidade.

Na _Cabala_, é mostrado que o Ancião dos Anciões, ou o “Rosto Longo”, planta uma vinha, esta última tipificando a humanidade; e uma videira, significando Vida.

O Espírito do “_Rei_ Messias” é, portanto, mostrado como lavando suas vestes em _o vinho_ do alto, desde a criação do mundo.[51] E o Rei _Messias_ é o EGO purificado _por lavar suas vestes_ (_isto é_, suas personalidades no renascimento), no _vinho do_ alto, ou BUDDHI.

Adão, ou A-Dam, é “sangue”. A Vida da carne está no sangue (nephesh—alma), _Levítico_ xvii.

E Adão-Kadmon é o Unigênito.

Noé também planta uma vinha—o viveiro alegórico da futura humanidade.

Como consequência da adoção da mesma alegoria, encontramo-la reproduzida no _Códice_ Nazareno. Sete vinhas são procriadas—as quais sete vinhas são as nossas Sete Raças com seus sete Salvadores ou _Budas_—que brotam de Iukabar Zivo, e Ferho (ou Parcha) Raba as rega.[52] Quando os abençoados ascenderem entre as criaturas de Luz, verão Iavar-Xivo, _Senhor da_ VIDA, e a PRIMEIRA VINHA.[53] Essas metáforas cabalísticas são assim naturalmente repetidas no _Evangelho segundo São João_ (xv., 1).

Não esqueçamos que no sistema humano—mesmo de acordo com aquelas filosofias que ignoram a nossa divisão setenária—o EGO ou _homem pensante_ é chamado o _Logos_, ou o Filho da Alma e do Espírito.

“Manas é o Filho adotivo do Rei —— e da Rainha ——” (equivalentes esotéricos para Atma e Budhi), diz uma obra oculta.

Ele é o “homem-deus” de Platão, que se crucifica no _Espaço_ (ou na duração do ciclo de vida) para a redenção da MATÉRIA.

Isso ele faz encarnando repetidamente, conduzindo assim a humanidade adiante para a perfeição, e abrindo assim espaço para que formas inferiores se desenvolvam em superiores.

Nem por uma vida ele cessa de progredir a si mesmo e ajudar toda a natureza física a progredir; mesmo o ocasional, muito raro evento de perder uma de suas personalidades, no caso de esta ser inteiramente desprovida de mesmo uma centelha de espiritualidade, ajuda no seu progresso individual.

=Perguntador= Mas certamente, se o _Ego_ é considerado responsável pelas transgressões de suas personalidades, ele também tem de responder pela perda, ou melhor, pela aniquilação completa de uma delas.

=Teosofista= De modo algum, a menos que não tenha feito nada para evitar esse destino terrível.

Mas se, apesar de todos os seus esforços, a sua voz, _a da nossa consciência_, não conseguiu penetrar através da muralha da matéria, então a obtusidade desta, proveniente da natureza imperfeita do material, é classificada entre as outras falhas da natureza.

O Ego é suficientemente punido pela perda do Devachan, e especialmente por ter de encarnar quase imediatamente.

=Perguntador=

Essa doutrina da possibilidade de perder a própria alma—ou personalidade, como a chama?—militava contra as teorias ideais tanto dos cristãos quanto dos espiritualistas, embora Swedenborg a adote até certo ponto, no que ele chama de _morte espiritual_. Eles nunca a aceitarão.

=Teosofista=

Isso de modo algum pode alterar um fato da natureza, se for um fato, ou impedir que tal coisa ocasionalmente ocorra.

O universo e tudo o que nele existe, moral, mental, físico, psíquico ou espiritual, é construído sobre uma lei perfeita de equilíbrio e harmonia.

Como foi dito antes (_vide Ísis sem Véu_), a força centrípeta não poderia se manifestar sem a centrífuga nas revoluções harmônicas das esferas, e todas as formas e seu progresso são os produtos dessa força dual na natureza.

Agora, o Espírito (ou _Buddhi_) é a energia espiritual centrífuga, e a alma (_Manas_) a centrípeta; e para produzir um resultado, elas têm de estar em perfeita união e harmonia.

Quebre ou danifique o movimento centrípeto da alma terrena que tende para o centro que a atrai; detenha seu progresso obstruindo-a com um peso de matéria maior do que ela pode suportar, ou do que é adequado ao estado devachânico, e a harmonia do todo será destruída.

A vida pessoal, ou talvez antes seu reflexo ideal, só pode ser continuada se sustentada pela força dupla, isto é, pela íntima união de _Buddhi_ e _Manas_ em cada renascimento ou vida pessoal.

O menor desvio da harmonia a danifica; e quando ela é destruída além de toda redenção, as duas forças se separam no momento da morte.

Durante um breve intervalo, a forma _pessoal_ (chamada indiferentemente de _Kama rupa_ e _Mayavi rupa_), cuja eflorescência espiritual, ligando-se ao Ego, o segue para o Devachan e dá à _individualidade_ permanente sua coloração _pessoal_ (_pro tem._, por assim dizer), é levada a permanecer no _Kama-loka_ e a ser gradualmente aniquilada.

Pois é após a morte do totalmente depravado, do não espiritual e do perverso além da redenção, que chega o momento crítico e supremo.

Se durante a vida o esforço último e desesperado do EU INTERIOR (_Manas_), para unir algo da personalidade a si mesmo e ao alto e cintilante raio do divino Buddhi, é frustrado; se esse raio é permitido ser cada vez mais excluído pela crosta cada vez mais espessa do cérebro físico, o EGO Espiritual ou Manas, uma vez liberto do corpo, permanece inteiramente separado da relíquia etérea da personalidade; e esta última, ou _Kama rupa_, seguindo suas atrações terrenas, é atraída para e permanece no Hades, que chamamos de _Kama-loka_. Estes são "os ramos secos" mencionados por Jesus como sendo cortados da _Videira_. A aniquilação, no entanto, nunca é instantânea, e pode exigir séculos às vezes para sua consumação.

Mas ali a personalidade permanece junto com os _vestígios_ de outros Egos pessoais mais afortunados, e torna-se com eles uma _casca_ e um _Elementar_. Como dito em _Ísis_, são essas duas classes de "Espíritos", as _cascas_ e os _Elementares_, que são as principais "Estrelas" no grande palco espiritual das "materializações". E podeis ter certeza disso, não são eles que encarnam; e, portanto, tão poucos desses "queridos falecidos" sabem algo sobre reencarnação, enganando assim os Espiritualistas.

=Perguntador=

Mas não é o autor de "_Ísis sem Véu_" acusado de ter pregado contra a reencarnação?

=Teosofista=

Por aqueles que entenderam mal o que foi dito, sim.

Na época em que essa obra foi escrita, a reencarnação não era crida por nenhum Espiritualista, seja inglês ou americano, e o que ali é dito sobre _reencarnação_ foi dirigido contra os Espíritas franceses, cuja teoria é tão antifilosófica e absurda quanto o ensinamento oriental é lógico e evidente por si mesmo em sua verdade.

Os Reencarnacionistas da Escola de Allan Kardec creem em uma reencarnação arbitrária e imediata.

Para eles, o pai morto pode encarnar em sua própria filha ainda não nascida, e assim por diante. Eles não têm nem Devachan, nem Karma, nem qualquer filosofia que justifique ou prove a necessidade de renascimentos consecutivos.

Mas como pode o autor de “Ísis” argumentar contra a reencarnação _cármica_, em longos intervalos que variam entre 1.000 e 1.500 anos, quando é a crença fundamental tanto de budistas quanto de hindus?

=Perguntador=

Então você rejeita as teorias tanto dos espiritistas quanto dos espiritualistas, em sua totalidade?

=Teosofista=

Não em sua totalidade, mas apenas no que diz respeito às suas respectivas crenças fundamentais.

Ambos se baseiam no que seus “Espíritos” lhes dizem; e ambos discordam tanto entre si quanto nós, teosofistas, discordamos de ambos.

A verdade é una; e quando ouvimos os espectros franceses pregando a reencarnação, e os espectros ingleses negando e denunciando a doutrina, dizemos que ou os “Espíritos” franceses ou os ingleses não sabem do que estão falando.

Acreditamos, com os espiritualistas e os espiritistas, na existência de “Espíritos”, ou Seres invisíveis dotados de mais ou menos inteligência.

Mas, enquanto em nossos ensinamentos suas espécies e _gêneros_ são inúmeros, nossos oponentes não admitem outros senão “Espíritos” humanos desencarnados, que, segundo nosso conhecimento, são em sua maioria CASCAS kamalóquicas.

=Perguntador=

Você parece muito amargo contra os Espíritos.

Já que você me deu suas opiniões e suas razões para não acreditar na materialização e na comunicação direta em _séances_ com os espíritos desencarnados—ou os “espíritos dos mortos”—você se importaria de me esclarecer mais um fato? Por que alguns teosofistas nunca se cansam de dizer quão perigoso é o intercâmbio com espíritos e a mediunidade? Eles têm alguma razão particular para isso?

=Teosofista=

Devemos supor que sim. Eu sei que tenho.

Devido à minha familiaridade por mais de meio século com essas “influências” invisíveis, porém tangíveis e inegáveis demais, desde os Elementais conscientes, as _cascas_ semiconscientes, até os espectros totalmente insensatos e indefiníveis de todos os tipos, reivindico certo direito às minhas opiniões.

=Perguntador=

Pode dar um exemplo ou exemplos para mostrar por que essas práticas devem ser consideradas perigosas?

=Teosofista=

Isso exigiria mais tempo do que posso lhe dar.

Toda causa deve ser julgada pelos efeitos que produz.

Revise a história do Espiritualismo nos últimos cinquenta anos, desde seu reaparecimento neste século na América—e julgue por si mesmo se ele fez mais bem ou mal aos seus adeptos.

Rogo que me compreenda. Não falo contra o Espiritualismo real, mas contra o movimento moderno que segue sob esse nome, e a chamada filosofia inventada para explicar seus fenômenos.

=Perguntador=

Você não acredita de forma alguma nos fenômenos deles?

=Teosofista=

É porque acredito neles com razão de sobra, e (salvo alguns casos de fraude deliberada) sei que são tão verdadeiros quanto o fato de você e eu vivermos, que todo o meu ser se revolta contra eles.

Mais uma vez, falo apenas dos fenômenos físicos, não dos mentais ou mesmo psíquicos.

Semelhante atrai semelhante.

Há vários homens e mulheres de elevado caráter, puros e bons, que conheço pessoalmente, que passaram anos de suas vidas sob a orientação direta e até mesmo proteção de “Espíritos” elevados, sejam desencarnados ou planetários.

Mas _essas_ Inteligências não são do tipo dos John Kings e dos Ernests que figuram nas salas de _sessões_.

Essas Inteligências guiam e controlam os mortais apenas em casos raros e excepcionais, para os quais são atraídas e magneticamente impelidas pelo passado cármico do indivíduo.

Não basta sentar-se “para desenvolvimento” a fim de atraí-las.

Isso apenas abre a porta para uma multidão de “espíritos”, bons, maus e indiferentes, aos quais o médium se torna escravo por toda a vida.

É contra essa mediunidade promíscua e o intercâmbio com duendes que levanto minha voz, não contra o misticismo espiritual.

Este é enobrecedor e santo; aquele é da mesma natureza dos fenômenos de dois séculos atrás, pelos quais tantas bruxas e feiticeiros foram feitos sofrer.

Leia Glanvil e outros autores sobre o assunto da feitiçaria, e encontrará registrados ali os paralelos da maioria, se não de todos, os fenômenos físicos do “Espiritualismo” do século XIX.

=Perguntador=

Quer sugerir que é tudo feitiçaria e nada mais?

=Teosofista=

O que quero dizer é que, consciente ou inconscientemente, todo esse trato com os mortos é _necromancia_, e uma prática perigosíssima.

Por eras antes de Moisés, tal evocação dos mortos era considerada por todas as nações inteligentes como pecaminosa e cruel, na medida em que perturba o descanso das almas e interfere em seu desenvolvimento evolutivo para estados superiores.

A sabedoria coletiva de todos os séculos passados sempre se fez ouvir em alta voz denunciando tais práticas.

Finalmente, digo o que nunca cessei de repetir oralmente e por escrito durante quinze anos: enquanto alguns dos chamados "espíritos" não sabem do que estão falando, repetindo meramente—como papagaios—o que encontram nos cérebros dos médiuns e de outras pessoas, outros são extremamente perigosos e só podem levar ao mal.

Estes são dois fatos evidentes por si mesmos.

Entrai nos círculos espíritas da escola de Allan Kardec, e encontrareis "espíritos" afirmando a reencarnação e falando como católicos romanos natos.

Voltai-vos aos "queridos falecidos" na Inglaterra e na América, e os ouvireis negando a reencarnação por tudo e por nada, denunciando aqueles que a ensinam e apegando-se às visões protestantes.

Vossos melhores, vossos mais poderosos médiuns, todos sofreram na saúde do corpo e da mente.

Pensai no triste fim de Charles Foster, que morreu num asilo, um louco furioso; de Slade, um epilético; de Eglinton—o melhor médium atualmente na Inglaterra—sujeito ao mesmo mal.

Olhai para trás, para a vida de D. D. Home, um homem cuja mente estava imersa em fel e amargura, que nunca teve uma boa palavra a dizer de qualquer pessoa que suspeitasse possuir poderes psíquicos, e que caluniou todos os outros médiuns até o amargo fim.

Este Calvino do Espiritismo sofreu durante anos de uma terrível doença na coluna, provocada pelo seu intercâmbio com os "espíritos", e morreu um completo destroço.

Pensai novamente no triste destino do pobre Washington Irving Bishop.

Eu o conheci em Nova York, quando ele tinha catorze anos, e ele era inegavelmente um médium.

É verdade que o pobre homem levou vantagem sobre seus "espíritos" e os batizou de "ação muscular inconsciente", para grande _gaudium_ de todas as corporações de tolos altamente eruditos e científicos, e para o reabastecimento do próprio bolso.

Mas _de mortuis nil nisi bonum_; o seu fim foi triste.

Ele havia ocultado rigorosamente seus ataques epiléticos—o primeiro e mais forte sintoma de mediunidade genuína—e quem sabe se ele estava morto ou em transe quando o exame _post-mortem_ foi realizado? Seus parentes insistem que ele estava vivo, se é que devemos acreditar nos telegramas da Reuter.

Finalmente, contemplai os médiuns veteranos, os fundadores e principais impulsionadores do espiritismo moderno—as irmãs Fox.

Após mais de quarenta anos de intercâmbio com os “Anjos”, estes os levaram a se tornarem bêbados incuráveis, que agora denunciam, em conferências públicas, sua própria obra e filosofia de toda uma vida como uma fraude.

Que tipo de espíritos devem ser aqueles que os incitaram, pergunto-lhes?

=Perguntador=

Mas a sua inferência está correta?

=Teosofista=

O que você inferiria se os melhores alunos de uma determinada escola de canto fracassassem por gargantas inflamadas de tanto esforço? Que o método seguido era ruim.

Portanto, considero a inferência igualmente justa com relação ao Espiritualismo, quando vemos seus melhores médiuns caírem presas de tal destino.

Só podemos dizer: — Que aqueles interessados na questão julguem a árvore do Espiritualismo por seus frutos e meditem sobre a lição.

Nós, teosofistas, sempre consideramos os espiritualistas como irmãos, tendo a mesma tendência mística que nós, mas eles sempre nos consideraram inimigos.

Nós, estando de posse de uma filosofia mais antiga, tentamos ajudá-los e alertá-los; mas eles nos retribuíram difamando e caluniando a nós e aos nossos motivos de todas as maneiras possíveis.

No entanto, os melhores espiritualistas ingleses dizem exatamente o que dizemos, sempre que tratam de sua crença seriamente.

Ouçam “M.A. Oxon.” confessando essa verdade: “Os espiritualistas estão demasiadamente inclinados a se ater exclusivamente à intervenção de espíritos externos neste nosso mundo, _e a ignorar os poderes do Espírito encarnado_.” [54] Por que, então, nos vilipendiar e abusar de nós, por dizermos precisamente o mesmo? De agora em diante, não teremos mais nada a ver com o Espiritualismo.

E agora voltemos à Reencarnação.


[49] Sendo de “natureza _semelhante ao amianto_,” segundo a expressão eloquente e ardente de um moderno Tertuliano inglês.

[50] Durante os _Mistérios_, é o Hierofante, o “Pai,” quem plantava a Videira.

Cada símbolo tem Sete Chaves. O revelador do _Pleroma_ era sempre chamado de “Pai.”

[51] _Zohar_ XL., 10.

[52] _Codex Nazarœus_, Vol.

III., pp. 60, 61.

[53] Ibid., Vol.

II., p. 281.

[54] _Second Sight_, “Introdução.”


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=XI. SOBRE OS MISTÉRIOS DA REENCARNAÇÃO.=
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=RENASCIMENTOS PERIÓDICOS.=

=Perguntador=

Quer dizer, então, que todos já vivemos na Terra antes, em muitas encarnações passadas, e continuaremos a viver assim?

=Teosofista=

Sim. O ciclo de vida, ou melhor, o ciclo da vida consciente, começa com a separação do homem-animal mortal em sexos, e terminará com o fim da última geração de homens, na sétima volta e sétima raça da humanidade.

Considerando que estamos apenas na quarta volta e quinta raça, sua duração é mais facilmente imaginada do que expressa.

=Perguntador=

E continuamos a encarnar em novas _personalidades_ o tempo todo?

=Teosofista=

Certamente que sim; porque este ciclo de vida ou período de encarnação pode ser melhor comparado à vida humana.

Assim como cada uma dessas vidas é composta de dias de atividade separados por noites de sono ou de inação, da mesma forma, no ciclo de encarnação, uma vida ativa é seguida por um descanso devachânico.

=Perguntador=

E é essa sucessão de nascimentos que é geralmente definida como reencarnação?

=Teosofista=

Exatamente. É somente através desses nascimentos que o progresso perpétuo dos inúmeros milhões de Egos em direção à perfeição final e ao descanso final (tão longo quanto foi o período de atividade) pode ser alcançado.

=Perguntador=

E o que regula a duração, ou as qualidades especiais, dessas encarnações?

=Teosofista=

O Karma, a lei universal da justiça retributiva.

=Perguntador=

É uma lei inteligente?

=Teosofista=

Para o Materialista, que chama a lei da periodicidade que regula a ordenação dos vários corpos, e todas as outras leis da natureza, de forças cegas e leis mecânicas, sem dúvida o Karma seria uma lei do acaso e nada mais.

Para nós, nenhum adjetivo ou qualificação poderia descrever aquilo que é impessoal e não é uma entidade, mas uma lei operativa universal.

Se você me perguntar sobre a inteligência causal nela, devo responder que não sei.

Mas se você me pedir para definir seus efeitos e dizer o que são em nossa crença, posso dizer que a experiência de milhares de eras nos mostrou que eles são _equidade_, _sabedoria_ e _inteligência_ absolutas e infalíveis. Pois o Karma, em seus efeitos, é um corretor infalível da injustiça humana e de todas as falhas da natureza; um severo ajustador de erros; uma lei retributiva que recompensa e pune com igual imparcialidade.

É, no sentido mais estrito, "não faz acepção de pessoas", embora, por outro lado, não possa ser aplacado nem desviado por orações.

Esta é uma crença comum a hindus e budistas, que ambos acreditam no Karma.

=Perguntador=

Neste ponto, os dogmas cristãos contradizem ambos, e duvido que qualquer cristão aceite o ensinamento.

=Teosofista=

Não; e Inman deu a razão para isso há muitos anos.

Como ele coloca, enquanto "os cristãos aceitarão qualquer absurdo, se promulgado pela Igreja como questão de fé ... os budistas sustentam que nada que seja contradito pela razão sólida pode ser uma verdadeira doutrina de Buda." Eles não acreditam em qualquer perdão por seus pecados, exceto após uma punição adequada e justa para cada ação ou pensamento maligno em uma encarnação futura, e uma compensação proporcional às partes prejudicadas.

=Perguntador=

Onde isso está declarado?

=Teosofista=

Na maioria de suas obras sagradas.

Na "_Roda da Lei_" (p. 57) você pode encontrar o seguinte princípio teosófico:—"Os budistas acreditam que cada ato, palavra ou pensamento tem sua consequência, que aparecerá mais cedo ou mais tarde no estado presente ou futuro.

Atos malignos produzirão consequências malignas, atos bons produzirão consequências boas: prosperidade neste mundo, ou nascimento no céu (Devachan)... no estado futuro."

=Perguntador=

Os cristãos acreditam na mesma coisa, não acreditam?

=Teosofista=

Oh, não; eles acreditam no perdão e na remissão de todos os pecados.

Eles são prometidos que se apenas acreditarem no sangue de Cristo (uma vítima _inocente_!), no sangue oferecido por Ele para a expiação dos pecados de toda a humanidade, isso expiará cada pecado mortal.

E nós não acreditamos nem na expiação vicária, nem na possibilidade da remissão do menor pecado por qualquer deus, nem mesmo por um "Absoluto _pessoal_" ou "Infinito", se tal coisa pudesse ter qualquer existência.

No que acreditamos é na justiça estrita e imparcial.

Nossa ideia do desconhecido Deus Universal, representado por Karma, é que é um Poder que não pode falhar, e pode, portanto, não ter nem ira nem misericórdia, apenas Equidade absoluta, que deixa cada causa, grande ou pequena, produzir seus efeitos inevitáveis.

O dito de Jesus: "Com a medida com que medirdes vos medirão a vós" (Mat. vii., 2), nem por expressão nem por implicação aponta para qualquer esperança de misericórdia futura ou salvação por procuração.

É por isso que, reconhecendo como reconhecemos em nossa filosofia a justiça desta afirmação, não podemos recomendar com demasiada ênfase a misericórdia, a caridade e o perdão das ofensas mútuas.

_Não resistais ao mal_ e _retribuí o bem pelo mal_ são preceitos budistas, e foram primeiramente pregados em vista da implacabilidade da lei kármica.

Para o homem tomar a lei em suas próprias mãos é, de qualquer forma, uma presunção sacrílega.

A lei humana pode usar medidas restritivas, não punitivas; mas um homem que, crendo no Karma, ainda assim se vinga e se recusa a perdoar qualquer injúria, deixando assim de retribuir o bem pelo mal, é um criminoso e apenas fere a si mesmo.

Como o Karma certamente punirá o homem que o prejudicou, ao buscar infligir uma punição adicional ao seu inimigo, ele que, em vez de deixar essa punição à grande Lei, acrescenta a ela a sua própria parcela, apenas gera com isso uma causa para a futura recompensa do seu próprio inimigo e uma futura punição para si mesmo.

O Regulador infalível afeta em cada encarnação a qualidade da sua sucessora; e a soma do mérito ou demérito nas precedentes a determina.

=Perguntador=

Devemos então inferir o passado de um homem a partir do seu presente?

=Teosofista=

Apenas o suficiente para acreditar que a sua vida presente é o que justamente deveria ser, para expiar os pecados da vida passada.

É claro — excetuando-se videntes e grandes adeptos — não podemos, como mortais comuns, saber quais foram esses pecados.

Pela nossa escassez de dados, é impossível para nós até mesmo determinar o que a juventude de um velho deve ter sido; nem podemos, por razões semelhantes, tirar conclusões finais meramente a partir do que vemos na vida de algum homem, quanto ao que a sua vida passada possa ter sido.

=O QUE É KARMA?=

=Perguntador=

Mas o que é Karma?

=Teosofista=

Como eu disse, consideramo-lo como a _Lei Suprema_ do Universo, a fonte, origem e manancial de todas as outras leis que existem em toda a Natureza.

Karma é a lei infalível que ajusta o efeito à causa, nos planos físico, mental e espiritual do ser.

Como nenhuma causa permanece sem o seu devido efeito, do maior ao menor, de uma perturbação cósmica até o movimento da sua mão, e como o semelhante produz o semelhante, _Karma_ é essa lei invisível e desconhecida _que ajusta sábia, inteligente e equitativamente_ cada efeito à sua causa, rastreando esta última até o seu produtor.

Embora em si mesma _incognoscível_, a sua ação é perceptível.

=Perguntador=

Então é o "Absoluto", o "Incognoscível" novamente, e não tem muito valor como explicação dos problemas da vida?

=Teosofista=

Pelo contrário.

Pois, embora não saibamos o que é o Karma _per se_, e em sua essência, _sabemos_ _como_ ele funciona, e podemos definir e descrever seu modo de ação com precisão.

Apenas _não_ conhecemos sua _Causa_ última, assim como a filosofia moderna admite universalmente que a _causa_ última de qualquer coisa é “incognoscível”.

=Perguntador=

E o que tem a Teosofia a dizer quanto à solução das necessidades mais práticas da humanidade? Qual é a explicação que ela oferece em referência ao terrível sofrimento e à extrema necessidade prevalecentes entre as chamadas “classes inferiores”?

=Teosofista=

Para ser direto, de acordo com nosso ensinamento, todos esses grandes males sociais, a distinção de classes na Sociedade, e dos sexos nos assuntos da vida, a distribuição desigual do capital e do trabalho — tudo isso se deve ao que denominamos, de forma concisa mas verdadeira, KARMA.

=Perguntador=

Mas, certamente, todos esses males que parecem recair sobre as massas de maneira um tanto indiscriminada não são, na verdade, um Karma merecido e INDIVIDUAL?

=Teosofista=

Não, eles não podem ser definidos tão estritamente em seus efeitos a ponto de mostrar que cada ambiente individual, e as condições particulares de vida em que cada pessoa se encontra, nada mais são do que o Karma retributivo que o indivíduo gerou numa vida anterior.

Não devemos perder de vista o fato de que cada átomo está sujeito à lei geral que governa todo o corpo ao qual pertence, e aqui chegamos à trilha mais ampla da lei cármica.

Não percebeis que o agregado do Karma individual se torna o da nação à qual esses indivíduos pertencem, e, além disso, que a soma total do Karma Nacional é a do Mundo! Os males de que falais não são peculiares ao indivíduo ou mesmo à Nação; eles são mais ou menos universais; e é sobre essa ampla linha de interdependência humana que a lei do Karma encontra sua legítima e equitativa expressão.

=Perguntador=

Compreendo, então, que a lei do Karma não é necessariamente uma lei individual?

=Teosofista=

É exatamente isso que quero dizer.

É impossível que o Karma pudesse reajustar o equilíbrio de forças na vida e no progresso do mundo, a menos que tivesse uma linha de ação ampla e geral.

É considerado uma verdade entre os teosofistas que a interdependência da Humanidade é a causa do que se chama Karma Distributivo, e é esta lei que oferece a solução para a grande questão do sofrimento coletivo e seu alívio.

É uma lei oculta, além disso, que nenhum homem pode elevar-se acima de suas falhas individuais, sem erguer, por pouco que seja, todo o corpo do qual ele é parte integrante.

Da mesma forma, ninguém pode pecar, nem sofrer os efeitos do pecado, sozinho.

Na realidade, não existe tal coisa como "Separatividade"; e a aproximação mais próxima desse estado egoísta, que as leis da vida permitem, está na intenção ou motivo.

=Perguntador=

E não existem meios pelos quais o Karma distributivo ou nacional possa ser concentrado ou reunido, por assim dizer, e trazido ao seu cumprimento natural e legítimo sem todo esse sofrimento prolongado?

=Teosofista=

Como regra geral, e dentro de certos limites que definem a era a que pertencemos, a lei do Karma não pode ser apressada ou retardada em seu cumprimento.

Mas disto estou certo: o ponto de possibilidade em qualquer dessas direções nunca foi ainda tocado.

Ouça a seguinte narrativa de uma fase do sofrimento nacional, e então pergunte a si mesmo se, admitindo o poder atuante do Karma individual, relativo e distributivo, esses males não são capazes de extensa modificação e alívio geral.

O que estou prestes a ler para você é da pena de uma Salvadora Nacional, alguém que, tendo vencido o Eu, e sendo livre para escolher, elegeu servir à Humanidade, suportando pelo menos tanto quanto os ombros de uma mulher podem possivelmente carregar do Karma Nacional.

Isto é o que ela diz:—

"Sim, a Natureza sempre fala, não acha? Só que às vezes fazemos         tanto barulho que abafamos a sua voz.

É por isso que é tão         repousante sair da cidade e aninhar-se por um tempo nos braços         da Mãe.

Estou pensando na noite em Hampstead Heath quando         vimos o sol se pôr; mas oh! sobre quanto sofrimento e         miséria aquele sol se pusera! Uma senhora trouxe-me ontem         um grande cesto de flores silvestres.

Pensei que alguns da         minha família do East-end tinham mais direito a ele do que eu, e         então levei-o esta manhã a uma escola muito pobre em         Whitechapel."

Você devia ter visto os rostinhos pálidos se iluminarem! Depois fui pagar alguns jantares numa pequena casa de pasto para algumas crianças.

Era numa rua de fundo, estreita, cheia de gente que se acotovelava; fedor indescritível, de peixe, carne e outros comestíveis, tudo a exalar num sol que, em Whitechapel, corrompe em vez de purificar.

A casa de pasto era a quintessência de todos os cheiros.

Tortas de carne indescritíveis a 1d., pedaços repugnantes de "comida" e nuvens de moscas, um verdadeiro altar de Belzebu! Por toda parte, bebês à caça de sobras, um deles, com rosto de anjo, recolhendo caroços de cereja como uma forma leve e nutritiva de dieta.

Vim para o oeste com todos os nervos estremecidos e abalados, perguntando-me se algo pode ser feito com algumas partes de Londres além de engoli-las num terremoto e começar seus habitantes de novo, após um mergulho em algum Letes purificador, do qual nenhuma memória pudesse emergir! E então pensei em Hampstead Heath, e — meditei.

Se por algum sacrifício alguém pudesse conquistar o poder de salvar essas pessoas, o custo não valeria a pena contar; mas, veja, ELES precisam ser mudados — e como isso pode ser realizado? Na condição em que agora se encontram, não se beneficiariam de qualquer ambiente em que pudessem ser colocados; e, no entanto, em seu ambiente atual, devem continuar a apodrecer.

Parte-me o coração, esta miséria interminável e sem esperança, e a degradação brutal que é ao mesmo tempo seu fruto e sua raiz.

É como a figueira-de-bengala; cada galho enraíza-se e lança novos brotos.

Que diferença entre esses sentimentos e a cena pacífica de Hampstead! e, no entanto, nós, que somos irmãos e irmãs dessas pobres criaturas, só temos o direito de usar os campos de Hampstead Heath para ganhar forças a fim de salvar os Whitechapels." (_Assinado por um nome respeitado demais e conhecido demais para ser dado a escarnecedores._)

=Perguntador=

Essa é uma carta triste, mas bela, e creio que apresenta com dolorosa conspicuidade os terríveis funcionamentos do que você chamou de "Karma Relativo e Distributivo". Mas, ai de mim! parece não haver esperança imediata de alívio, a não ser um terremoto, ou algum engolfamento geral assim!

=Teosofista=

Que direito temos de pensar assim enquanto metade da humanidade está em condições de efetuar um alívio imediato das privações sofridas por seus semelhantes? Quando cada indivíduo tiver contribuído para o bem geral com o que puder de dinheiro, de trabalho e de pensamento nobilitante, então, e somente então, será estabelecido o equilíbrio do Karma Nacional, e até lá não temos direito nem razão alguma para dizer que há mais vida na Terra do que a Natureza pode sustentar.

Está reservado às almas heroicas, os Salvadores de nossa Raça e Nação, descobrir a causa dessa pressão desigual do Karma retributivo e, por um esforço supremo, reajustar o equilíbrio de forças e salvar o povo de um abismo moral mil vezes mais desastroso e permanentemente maligno do que a catástrofe física semelhante, na qual pareceis ver a única saída possível para essa miséria acumulada.

=Perguntador=

Bem, então dizei-me de modo geral como descreveis essa lei do Karma?

=Teosofista=

Descrevemos o Karma como essa Lei de readaptação que sempre tende a restaurar o equilíbrio perturbado no mundo físico e a harmonia rompida no mundo moral.

Dizemos que o Karma não age sempre desta ou daquela maneira particular; mas que ele sempre _age_ de modo a restaurar a Harmonia e preservar o equilíbrio, em virtude do qual o Universo existe.

=Perguntador=

Dai-me uma ilustração.

=Teosofista=

Mais adiante vos darei uma ilustração completa.

Pensai agora em um lago.

Uma pedra cai na água e cria ondas perturbadoras.

Essas ondas oscilam para frente e para trás até que, por fim, devido à operação do que os físicos chamam de lei da dissipação de energia, elas são levadas ao repouso, e a água retorna à sua condição de calma tranquilidade.

Da mesma forma, _toda_ ação, em todos os planos, produz perturbação na harmonia equilibrada do Universo, e as vibrações assim produzidas continuarão a rolar para frente e para trás, se sua área for limitada, até que o equilíbrio seja restaurado.

Mas, como cada uma dessas perturbações parte de algum ponto particular, é claro que o equilíbrio e a harmonia só podem ser restaurados pela reconvergência _para esse mesmo ponto_ de todas as forças que foram postas em movimento a partir dele. E aqui você tem a prova de que as consequências das ações, pensamentos, etc., de um homem devem todas reagir sobre _ele mesmo_ com a mesma força com que foram postas em movimento.

=Perguntador=

Mas não vejo nada de caráter moral nessa lei.

Parece-me a simples lei física de que ação e reação são iguais e opostas.

=Teosofista=

Não me surpreende ouvi-lo dizer isso.

Os europeus adquiriram tanto o hábito arraigado de considerar o certo e o errado, o bem e o mal, como questões de um código arbitrário de leis estabelecido pelos homens, ou imposto a eles por um Deus pessoal.

Nós, teosofistas, no entanto, dizemos que "Bem" e "Harmonia", e "Mal" e "Desarmonia" são sinônimos.

Além disso, sustentamos que toda dor e sofrimento são resultados da falta de Harmonia, e que a única e terrível causa da perturbação da Harmonia é o egoísmo, sob uma forma ou outra.

Portanto, o Karma devolve a cada homem as _consequências reais_ de suas próprias ações, sem qualquer consideração por seu caráter moral; mas, como ele recebe o que lhe é devido por _todas_, é óbvio que será levado a expiar todos os sofrimentos que causou, assim como colherá em alegria e contentamento os frutos de toda a felicidade e harmonia que ajudou a produzir.

Não posso fazer melhor do que citar, em seu benefício, certas passagens de livros e artigos escritos por nossos teosofistas — aqueles que têm uma ideia correta do Karma.

=Perguntador=

Gostaria que o fizesse, pois sua literatura parece ser muito escassa sobre esse assunto?

=Teosofista=

Porque é _o_ mais difícil de todos os nossos princípios.

Há pouco tempo, apareceu a seguinte objeção de uma pena cristã:—

"Concedendo que o ensinamento em relação à Teosofia esteja correto,         e que 'o homem deve ser seu próprio salvador, deve vencer a si mesmo e         conquistar o mal que está em sua natureza dual, para obter a         emancipação de sua alma', o que o homem deve fazer depois de ter         sido despertado e convertido, até certo ponto, do mal ou da         perversidade? Como ele obterá emancipação, ou perdão, ou a         eliminação do mal ou da perversidade que já cometeu?"

A isso, o Sr. J. H. Connelly responde muito pertinentemente que ninguém pode esperar "fazer o motor teosófico funcionar nos trilhos teológicos". Como ele afirma:—

"A possibilidade de fugir à responsabilidade individual não está entre os conceitos da Teosofia.

Nesta fé não existe tal coisa como perdoar, ou 'apagar o mal ou a maldade já praticados', senão pela punição adequada do transgressor e pela restauração da harmonia no universo que foi perturbada pelo seu ato injusto.

O mal foi dele, e embora outros devam sofrer as suas consequências, a expiação não pode ser feita por ninguém senão por ele mesmo.

"A condição contemplada ... na qual um homem tenha sido 'despertado e convertido em certa medida do mal ou da maldade', é aquela em que um homem tenha percebido que os seus atos são maus e merecedores de punição.

Nessa percepção, um senso de responsabilidade pessoal é inevitável, e justamente na proporção da extensão do seu despertar ou 'conversão' deve ser o senso dessa terrível responsabilidade.

Enquanto ela pesa fortemente sobre ele, é o momento em que é instado a aceitar a doutrina da expiação vicária.

"Dizem-lhe que também deve se arrepender, mas nada é mais fácil do que isso.

É uma fraqueza amável da natureza humana que somos bastante propensos a lamentar o mal que fizemos quando nossa atenção é chamada, e ou sofremos com ele nós mesmos ou desfrutamos dos seus frutos.

Possivelmente, uma análise cuidadosa do sentimento nos mostraria que aquilo que lamentamos é antes a necessidade que parecia exigir o mal como meio de alcançar os nossos fins egoístas do que o mal em si.

"Por mais atraente que essa perspectiva de lançar o nosso fardo de pecados 'aos pés da cruz' possa ser para a mente comum, ela não se recomenda ao estudante teosófico.

Ele não compreende por que o pecador, ao obter conhecimento do seu mal, pode com isso merecer qualquer perdão ou o apagamento da sua maldade passada; ou por que o arrependimento e a vida reta futura lhe conferem o direito a uma suspensão, em seu favor, da lei universal da relação entre causa e efeito.

Os resultados dos seus atos maus continuam a existir; o sofrimento causado a outros pela sua maldade não é apagado."

O estudante teosófico inclui em seu problema o resultado da maldade sobre o inocente.

Ele considera não apenas o culpado, mas também suas vítimas.

“O mal é uma infração das leis de harmonia que regem o universo, e a penalidade por ele deve recair sobre o próprio violador dessa lei.

Cristo proferiu a advertência: ‘Não peques mais, para que não te sobrevenha coisa pior’, e São Paulo disse: ‘Operai a vossa própria salvação.

O que o homem semear, isso também colherá.’ Essa, aliás, é uma bela representação metafórica da sentença dos Puranas, muito anterior a ele — de que ‘todo homem colhe as consequências de seus próprios atos’.

“Este é o princípio da lei do Karma ensinado pela Teosofia.

Sinnett, em seu ‘Budismo Esotérico’, traduziu Karma como ‘a lei da causalidade ética’. ‘A lei da retribuição’, como a Sra.

Blavatsky traduz seu significado, é melhor.

É o poder que

Justo, embora misterioso, nos conduz infalivelmente Por caminhos não marcados, da culpa ao castigo.

“Mas é mais do que isso.

Recompensa o mérito tão infalível e amplamente quanto pune o demérito.

É o resultado de cada ato, de pensamento, palavra e ação, e por ele os homens moldam a si mesmos, suas vidas e acontecimentos.

A filosofia oriental rejeita a ideia de uma alma recém-criada para cada bebê que nasce.

Ela acredita em um número limitado de mônadas, evoluindo e tornando-se cada vez mais perfeitas por meio da assimilação de muitas personalidades sucessivas.

Essas personalidades são o produto do Karma, e é pelo Karma e pela reencarnação que a mônada humana, com o tempo, retorna à sua fonte — a divindade absoluta.”

E. D. Walker, em sua obra “Reencarnação”, oferece a seguinte explicação:—

“Em suma, a doutrina do Karma é que nós nos tornamos o que somos por ações anteriores e estamos construindo nossa eternidade futura por ações presentes.

Não há destino além daquele que nós mesmos determinamos.”

Não há salvação ou condenação, exceto aquilo que nós mesmos provocamos.... Porque não oferece refúgio para ações culposas e exige uma virilidade genuína, é menos bem-vinda às naturezas fracas do que os fáceis preceitos religiosos de expiação vicária, intercessão, perdão e conversões no leito de morte.... No domínio da justiça eterna, a ofensa e o castigo estão inseparavelmente ligados como o mesmo evento, porque não há distinção real entre a ação e seu resultado.... É o Karma, ou nossos atos antigos, que nos atrai de volta à vida terrena.

A morada do espírito muda de acordo com o seu Karma, e esse Karma proíbe qualquer permanência prolongada em uma condição, porque _ele_ está sempre mudando.

Enquanto a ação for governada por motivos materiais e egoístas, por igual tempo o efeito dessa ação deve manifestar-se em renascimentos físicos.

Somente o homem perfeitamente altruísta pode escapar à gravitação da vida material.

Poucos alcançaram isso, mas é a meta da humanidade.”

E então o escritor cita a _Doutrina Secreta_:

“Aqueles que creem no Karma têm de crer no destino, que, do nascimento à morte, cada homem está tecendo, fio a fio, ao redor de si mesmo, como uma aranha faz sua teia, e esse destino é guiado seja pela voz celeste do protótipo invisível fora de nós, seja pelo nosso mais íntimo homem astral ou interior, que é demasiadas vezes o gênio do mal da entidade encarnada chamada homem.

Ambos conduzem o homem exterior, mas um deles deve prevalecer; e desde o próprio início da contenda invisível, a lei severa e implacável da compensação intervém e segue seu curso, acompanhando fielmente as flutuações.

Quando o último fio é tecido, e o homem se vê aparentemente envolto na rede de sua própria tessitura, então se encontra completamente sob o império desse destino autoconstruído.... Um Ocultista ou um filósofo não falará da bondade ou crueldade da Providência; mas, identificando-a com o Karma-Nêmesis, ensinará que, não obstante, ela guarda o bem e vela por ele nesta como nas vidas futuras; e que pune o malfeitor—sim, até seu sétimo renascimento—enquanto, em suma, o efeito de ele ter perturbado até mesmo o menor átomo no mundo infinito da harmonia não tenha sido finalmente reajustado.

Pois o único decreto do Karma—um decreto eterno e imutável—é a harmonia absoluta no mundo da matéria, assim como no mundo do espírito.

Não é, portanto, o Karma que recompensa ou pune, mas somos nós que nos recompensamos ou punimos a nós mesmos, conforme trabalhamos com, através e ao longo da natureza, obedecendo às leis das quais essa harmonia depende, ou—as violamos.

Nem seriam insondáveis os caminhos do Karma se os homens trabalhassem em união e harmonia, em vez de desunião e discórdia.

Pois nossa ignorância desses caminhos—que uma parte da humanidade chama de caminhos da Providência, obscuros e intrincados; enquanto outra vê neles a ação de um fatalismo cego; e uma terceira, mero acaso, sem deuses nem demônios a guiá-los—certamente desapareceria se apenas atribuíssemos todos eles à sua causa correta.... Ficamos perplexos diante do mistério de nossa própria criação e dos enigmas da vida que não queremos resolver, e então acusamos a grande Esfinge de nos devorar. Mas, em verdade, não há um acidente em nossas vidas, nem um dia malfadado, ou uma infelicidade, que não pudesse ser rastreado até nossas próprias ações nesta ou em outra vida.... A lei do Karma está inextricavelmente entrelaçada com a da reencarnação.... É somente essa doutrina que pode nos explicar o misterioso problema do bem e do mal, e reconciliar o homem com a terrível e aparente injustiça da vida.

Nada além dessa certeza pode aquietar nosso sentido de justiça revoltado.

Pois, quando alguém não familiarizado com a nobre doutrina olha ao redor e observa as desigualdades de nascimento e fortuna, de intelecto e capacidades; quando se vê honra prestada a tolos e devassos, sobre quem a fortuna derramou seus favores por mero privilégio de nascimento, e seu vizinho mais próximo, com todo o seu intelecto e nobres virtudes — muito mais merecedor em todos os aspectos — perecendo por necessidade e por falta de compaixão — quando se vê tudo isso e se tem de desviar o olhar, impotente para aliviar o sofrimento imerecido, com os ouvidos zumbindo e o coração dolorido com os gritos de dor ao redor — somente esse bendito conhecimento do Karma impede que se amaldiçoe a vida e os homens, bem como seu suposto Criador.... Essa lei, seja consciente ou inconsciente, não predestina nada e ninguém.

Ela existe desde e na eternidade verdadeiramente, pois é a própria eternidade; e como tal, uma vez que nenhum ato pode ser coigual à eternidade, não se pode dizer que ela age, pois ela é a própria ação.

Não é a onda que afoga o homem, mas a ação pessoal do infeliz que deliberadamente se coloca sob a ação impessoal das leis que regem o movimento do oceano.

O Karma não cria nada, nem projeta.

É o homem que planta e cria causas, e a lei kármica ajusta os efeitos, cujo ajuste não é um ato, mas harmonia universal, tendendo sempre a retomar sua posição original, como um galho que, dobrado com força excessiva, rebate com vigor correspondente.

Se acontecer de deslocar o braço que tentou dobrá-lo para fora de sua posição natural, diremos que foi o galho que quebrou nosso braço ou que nossa própria tolice nos trouxe a desgraça? O Karma jamais procurou destruir a liberdade intelectual e individual, como o deus inventado pelos monoteístas.

Ele não envolveu seus decretos em trevas propositalmente para confundir o homem, nem punirá aquele que ousa perscrutar seus mistérios.

Ao contrário, aquele que desvenda, através do estudo e da meditação, seus intrincados caminhos, e lança luz sobre essas vias obscuras, em cujos meandros tantos homens perecem devido à sua ignorância do labirinto da vida, está trabalhando para o bem de seus semelhantes.

Karma é uma lei absoluta e eterna no mundo da manifestação; e como só pode haver um Absoluto, como uma Causa Eterna, sempre presente, os crentes em Karma não podem ser considerados ateus ou materialistas, muito menos fatalistas, pois Karma é uno com o Incognoscível, do qual é um aspecto, em seus efeitos no mundo fenomênico.”

Outra hábil escritora teosófica diz (_Propósito da Teosofia_, da Sra. P. Sinnett):—

“Todo indivíduo está fazendo Karma, bom ou mau, em cada ação e pensamento de sua rotina diária, e está ao mesmo tempo trabalhando nesta vida o Karma produzido pelos atos e desejos da última.

Quando vemos pessoas afligidas por doenças congênitas, pode-se supor com segurança que essas doenças são os resultados inevitáveis de causas iniciadas por elas mesmas em um nascimento anterior.

Pode-se argumentar que, como essas aflições são hereditárias, elas não podem ter nada a ver com uma encarnação passada; mas deve-se lembrar que o Ego, o homem real, a individualidade, não tem origem espiritual na ascendência pela qual é reencarnado, mas é atraído pelas afinidades que seu modo de vida anterior reuniu ao seu redor para a corrente que o carrega, quando chega o momento do renascimento, para o lar mais adequado ao desenvolvimento dessas tendências.... Esta doutrina do Karma, quando devidamente compreendida, é bem calculada para guiar e auxiliar aqueles que percebem sua verdade a um modo de vida mais elevado e melhor, pois não se deve esquecer que não apenas nossas ações, mas também nossos pensamentos são certamente seguidos por uma multidão de circunstâncias que influenciarão para o bem ou para o mal o nosso próprio futuro e, o que é ainda mais importante, o futuro de muitos de nossos semelhantes.

Se pecados de omissão e comissão pudessem em qualquer caso ser apenas autorreferentes, o efeito sobre o Karma do pecador seria uma questão de consequência menor.

O fato de que cada pensamento e ato ao longo da vida carrega consigo, para o bem ou para o mal, uma influência correspondente sobre outros membros da família humana torna um senso estrito de justiça, moralidade e altruísmo tão necessário para a felicidade ou progresso futuros.

Um crime uma vez cometido, um pensamento maligno emitido da mente, são irremediavelmente passados — nenhum arrependimento pode apagar seus resultados no futuro.

O arrependimento, se sincero, impedirá o homem de repetir erros; não pode salvá-lo a ele ou a outros dos efeitos daqueles já produzidos, que o alcançarão infalivelmente, seja nesta vida ou no próximo renascimento.”

O Sr. J. H. Connelly prossegue—

“Os crentes em uma religião baseada em tal doutrina estão dispostos a que ela seja comparada com uma em que o destino do homem para a eternidade é determinado pelos acidentes de uma única e breve existência terrena, durante a qual ele é animado pela promessa de que ‘como a árvore cai, assim ficará’; em que sua mais brilhante esperança, quando desperta para o conhecimento de sua maldade, é a doutrina da expiação vicária, e em que até mesmo essa é prejudicada, segundo a Confissão de Fé Presbiteriana.

“Pelo decreto de Deus, para a manifestação de sua glória, alguns homens e anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna.

“Esses anjos e homens assim predestinados e preordenados são designados de maneira particular e imutável; e seu número é tão certo e definido que não pode ser aumentado nem diminuído.

... Assim como Deus designou os eleitos para a glória.... Nenhum outro é redimido por Cristo, efetivamente chamado, justificado, adotado, santificado e salvo, senão somente os eleitos.

“Quanto ao restante da humanidade, Deus se agradou, segundo o conselho insondável de sua própria vontade, pela qual ele estende ou retém a misericórdia como lhe apraz, para a glória de seu poder soberano sobre suas criaturas, de passar por cima deles e ordená-los à desonra e à ira por seus pecados, para o louvor de sua justiça gloriosa.”

Isto é o que o defensor capaz diz.

Nem podemos fazer melhor do que encerrar o assunto como ele o faz, com uma citação de um poema magnífico.

Como ele diz:—

“A beleza requintada da exposição de Edwin Arnold sobre o Karma em ‘A Luz da Ásia’ tenta a sua reprodução aqui, mas é longa demais para citação integral.

Aqui está uma parte dela:—

Karma — todo esse total de uma alma, Que é as coisas que fez, os pensamentos que teve, O “eu” que teceu com trama de tempo invisível Cruzada na urdidura invisível dos atos.

Antes do começo e sem fim, Como o espaço eterno e tão seguro quanto a certeza, Está fixado um Poder divino que move para o bem, Somente suas leis perduram.

Não será desprezado por ninguém; Quem o frustra perde, e quem o serve ganha: O bem oculto ele paga com paz e bem-aventurança, O mal oculto com dores.

Ele vê em toda parte e marca tudo; Faze o bem — ele recompensa! Faze um erro — A retribuição igual deve ser feita, Ainda que o Dharma tarde muito.

Não conhece ira nem perdão; perfeitamente verdadeiro, Suas medidas medem, sua balança infalível pesa; Os tempos são como nada, amanhã ele julgará Ou após muitos dias.

Tal é a lei que move para a retidão, Que ninguém, por fim, pode desviar ou deter; O coração dela é amor, o fim dela É paz e doce consumação.

Obedece.

E agora aconselho-vos a comparar nossas visões teosóficas sobre o Karma, a lei da Retribuição, e dizei se não são ambas mais filosóficas e justas do que este dogma cruel e idiota que faz de “Deus” um demônio insensato; a doutrina, a saber, de que “somente os eleitos” serão salvos, e o resto condenado à perdição eterna!

=Perguntador=

Sim, vejo o que quereis dizer em geral; mas desejaria que pudésseis dar algum exemplo concreto da ação do Karma?

=Teosofista=

Isso não posso fazer. Só podemos sentir certeza, como disse antes, de que nossas vidas e circunstâncias atuais são os resultados diretos de nossos próprios atos e pensamentos em vidas passadas.

Mas nós, que não somos Videntes ou Iniciados, não podemos saber nada sobre os detalhes do funcionamento da lei do Karma.

=Perguntador=

Pode alguém, mesmo um Adepto ou Vidente, acompanhar esse processo kármico de reajuste em detalhe?

=Teosofista=

Certamente: “Aqueles que _sabem_” podem fazê-lo pelo exercício de poderes que estão latentes até mesmo em todos os homens.

=QUEM SÃO AQUELES QUE SABEM?=

=Perguntador=

Isso se aplica igualmente a nós mesmos como aos outros?

=Teosofista=

Igualmente.

Como acabei de dizer, a mesma visão limitada existe para todos, exceto para aqueles que alcançaram na presente encarnação o ápice da visão espiritual e da clarividência.

Só podemos perceber que, se as coisas conosco devessem ter sido diferentes, teriam sido diferentes; que somos o que fizemos de nós mesmos, e temos apenas o que ganhamos para nós mesmos.

=Perguntador=

Receio que tal concepção apenas nos amargurasse.

=Teosofista=

Creio que é precisamente o contrário.

É a descrença na justa lei da retribuição que é mais suscetível de despertar todo sentimento combativo no homem.

Uma criança, tanto quanto um homem, ressente-se de um castigo, ou mesmo de uma repreensão que acredita imerecida, muito mais do que de um castigo mais severo, se sente que o mereceu.

A crença no Karma é a mais alta razão para a reconciliação com a própria sorte nesta vida, e o mais forte incentivo para o esforço de melhorar o renascimento seguinte.

Ambas as coisas, de fato, seriam destruídas se supuséssemos que nossa sorte fosse resultado de qualquer coisa que não a estrita _Lei_, ou que o destino estivesse em outras mãos que não as nossas.

=Perguntador=

Acabais de afirmar que este sistema de Reencarnação sob a lei kármica se recomenda à razão, à justiça e ao senso moral.

Mas, se assim é, não se dá isso a um certo sacrifício das qualidades mais suaves de simpatia e piedade, e portanto a um endurecimento dos instintos mais finos da natureza humana?

=Teosofista=

Apenas aparentemente, não realmente.

Nenhum homem pode receber mais ou menos do que merece sem uma correspondente injustiça ou parcialidade para com outros; e uma lei que pudesse ser evitada pela compaixão traria mais miséria do que salvaria, mais irritação e maldições do que agradecimentos.

Lembrai também que não administramos a lei, se criamos causas para seus efeitos; ela se administra a si mesma; e ainda, que a mais copiosa provisão para a manifestação da _justa_ compaixão e misericórdia se mostra no estado de Devachan.

=Perguntador=

Falais dos Adeptos como sendo uma exceção à regra de nossa ignorância geral.

Eles realmente sabem mais do que nós sobre a Reencarnação e os estados posteriores?

=Teosofista=

Sabem, de fato.

Pelo treinamento de faculdades que todos possuímos, mas que somente eles desenvolveram à perfeição, eles entraram em espírito nestes vários planos e estados que temos discutido.

Por longas eras, uma geração de Adeptos após outra tem estudado os mistérios do ser, da vida, da morte e do renascimento, e todos ensinaram, por sua vez, alguns dos fatos assim aprendidos.

=Perguntador=

E a produção de Adeptos é o objetivo da Teosofia?

=Teosofista=

A Teosofia considera a humanidade como uma emanação da divindade em seu caminho de retorno a ela.

Em um ponto avançado do caminho, o adeptado é alcançado por aqueles que dedicaram várias encarnações à sua realização.

Pois, lembre-se bem, nenhum homem jamais alcançou o adeptado nas Ciências Secretas em uma única vida; mas muitas encarnações são necessárias para isso após a formação de um propósito consciente e o início do treinamento necessário.

Muitos podem ser os homens e mulheres bem no meio de nossa Sociedade que começaram este trabalho árduo rumo à iluminação há várias encarnações, e que, no entanto, devido às ilusões pessoais da vida presente, ou ignoram o fato, ou estão a caminho de perder toda chance nesta existência de progredir ainda mais.

Eles sentem uma atração irresistível pelo ocultismo e pela Vida Superior, e ainda assim são demasiado pessoais e obstinados, demasiado apaixonados pelos atrativos enganosos da vida mundana e pelos prazeres efêmeros do mundo, para abandoná-los; e assim perdem sua chance no nascimento atual.

Mas, para os homens comuns, para os deveres práticos da vida diária, um resultado tão distante é inadequado como objetivo e bastante ineficaz como motivação.

=Perguntador=

Qual, então, pode ser seu objetivo ou propósito distinto ao se juntarem à Sociedade Teosófica?

=Teosofista=

Muitos estão interessados em nossas doutrinas e sentem instintivamente que são mais verdadeiras do que as de qualquer religião dogmática.

Outros formaram uma resolução fixa de alcançar o mais alto ideal do dever humano.

A DIFERENÇA ENTRE FÉ E CONHECIMENTO; OU, FÉ CEGA E FÉ RACIOCINADA.

=Perguntador=

Você diz que eles aceitam e acreditam nas doutrinas da Teosofia.

Mas, como não pertencem àqueles Adeptos que você acabou de mencionar, então devem aceitar seus ensinamentos por fé cega. Em que isso difere daquela das religiões convencionais?

=Teosofista=

Assim como difere em quase todos os outros pontos, também difere neste.

O que você chama de "fé", e que é fé cega, na realidade, e com relação aos dogmas das religiões cristãs, torna-se conosco "conhecimento", a sequência lógica de coisas que conhecemos, sobre fatos na natureza.

Suas doutrinas baseiam-se em interpretação, portanto, no testemunho de _segunda mão_ de Videntes; as nossas, no testemunho invariável e imutável de Videntes.

A teologia cristã comum, por exemplo, sustenta que o homem é uma criatura de Deus, composta de três partes—corpo, alma e espírito—todas essenciais à sua integridade, e todas, seja na forma grosseira da existência física terrena, seja na forma etérea da experiência pós-ressurreição, necessárias para constituí-lo assim para sempre, tendo cada homem, portanto, uma existência permanente separada dos outros homens e do Divino.

A Teosofia, por outro lado, sustenta que o homem, sendo uma emanação da Desconhecida, porém sempre presente e infinita Essência Divina, seu corpo e tudo o mais é impermanente, portanto, uma ilusão; somente o Espírito nele é a substância duradoura, e mesmo esse perde sua individualidade separada no momento de sua completa reunião com o _Espírito Universal_.

=Perguntador=

Se perdermos até mesmo nossa individualidade, então isso se torna simplesmente aniquilação.

=Teosofista=

Eu digo que _não_, pois falo de individualidade _separada_, não de individualidade universal.

Esta última torna-se como uma parte transformada no todo; a _gota de orvalho_ não é evaporada, mas se torna o mar.

O homem físico é _aniquilado_ quando de feto se torna um velho? Que espécie de orgulho satânico seria o nosso se colocássemos nossa consciência e individualidade infinitesimalmente pequenas acima da consciência e individualidade universais e infinitas!

=Perguntador=

Segue-se, então, que _de fato_ não há homem, mas tudo é Espírito?

=Teosofista=

Você está enganado.

Segue-se que a união do Espírito com a matéria é apenas temporária; ou, para colocá-lo mais claramente, já que Espírito e matéria são um, sendo os dois polos opostos da substância _universal_ manifestada—que o Espírito perde seu direito ao nome enquanto a menor partícula e átomo de sua substância manifestante ainda se agarra a qualquer forma, resultado da diferenciação.

Acreditar de outra forma é _fé cega_.

=Perguntador=

Assim, é no _conhecimento_, não na _fé_, que você afirma que o princípio permanente, o Espírito, simplesmente faz um trânsito através da matéria?

=Teosofista=

Eu o colocaria de outra forma e diria—afirmamos que a aparência do princípio permanente e uno, o Espírito, _como matéria_ é transitória e, portanto, nada mais que uma ilusão.

=Perguntador=

Muito bem; e isso, dado a conhecer com base no conhecimento, não na fé?

=Teosofista=

Exatamente. Mas, como vejo muito bem aonde você quer chegar, posso muito bem lhe dizer que consideramos a _fé_, tal como você a defende, uma doença mental, e a fé real, _i.e._, a _pistis_ dos gregos, como "_crença baseada no conhecimento_", seja este fornecido pela evidência dos sentidos físicos ou _espirituais_.

=Perguntador=

O que você quer dizer?

=Teosofista=

Quero dizer que, se é a diferença entre as duas que você deseja saber, então posso lhe dizer que entre _fé por autoridade_ e _fé na própria intuição espiritual_ há uma diferença muito grande.

=Perguntador=

Qual é?

=Teosofista=

Uma é credulidade humana e _superstição_; a outra, crença humana e _intuição_. Como diz o Professor Alexander Wilder em sua "Introdução aos _Mistérios de Elêusis_": "É a ignorância que leva à profanação.

Os homens ridicularizam o que não compreendem devidamente.... A corrente subterrânea deste mundo está direcionada a um único objetivo; e dentro da credulidade humana ... há um poder quase infinito, uma fé santa capaz de apreender as verdades supremas de toda a existência." Aqueles que limitam essa "credulidade" apenas aos dogmas autoritativos humanos jamais sondarão esse poder, nem sequer o perceberão em suas naturezas.

Eles permanecem presos ao plano externo e são incapazes de trazer à ação a essência que o governa; pois, para fazê-lo, precisam reivindicar seu direito ao julgamento privado, e isso eles nunca _ousam_ fazer.

=Perguntador=

E é essa "intuição" que o força a rejeitar Deus como um Pai pessoal, Governante e Regente do Universo?

=Teosofista=

Precisamente.

Acreditamos em um Princípio eternamente incognoscível, porque somente a aberração cega pode fazer alguém sustentar que o Universo, o homem pensante e todas as maravilhas contidas até mesmo no mundo da matéria poderiam ter surgido sem alguns _poderes inteligentes_ para realizar a disposição extraordinariamente sábia de todas as suas partes.

A Natureza pode errar, e frequentemente erra, em seus detalhes e nas manifestações externas de seus materiais, nunca em suas causas internas e resultados.

Os antigos pagãos sustentavam, sobre essa questão, visões muito mais filosóficas do que os filósofos modernos, sejam eles Agnósticos, Materialistas ou Cristãos; e nenhum escritor pagão jamais avançou a proposição de que crueldade e misericórdia não são sentimentos finitos e, portanto, podem ser feitos atributos de um deus _infinito_.

Seus deuses, portanto, eram todos finitos.

O autor siamês da _Roda da Lei_ expressa a mesma ideia sobre o vosso deus pessoal que nós; ele diz (p. 25):

"Um budista poderia acreditar na existência de um deus; sublime acima de todas as qualidades e atributos humanos — um deus perfeito, acima do amor, do ódio e do ciúme, repousando calmamente numa quietude que nada poderia perturbar, e de tal deus ele não falaria com menosprezo, não por desejo de agradá-lo ou medo de ofendê-lo, mas por veneração natural; porém, ele não pode compreender um deus com os atributos e qualidades dos homens, um deus que ama e odeia, e demonstra ira; uma Divindade que, seja descrita por Missionários Cristãos, por Maometanos ou Brâmanes,[55] ou Judeus, fica abaixo de seu padrão até mesmo de um homem bom comum."

=Perguntador=

Fé por fé, não é a fé do cristão que acredita, em sua impotência e humildade humanas, que há um Pai misericordioso no Céu que o protegerá da tentação, o ajudará na vida e lhe perdoará as transgressões, melhor do que a fé fria e orgulhosa, quase fatalista, dos budistas, vedantinos e teosofistas?

=Teosofista=

Persistam em chamar nossa crença de "fé", se quiserem.

Mas, uma vez que estamos novamente nesta questão recorrente, pergunto por minha vez: fé por fé, não é aquela baseada em lógica e razão estritas melhor do que a que se baseia simplesmente em autoridade humana ou — culto ao herói? Nossa "fé" tem toda a força lógica do truísmo aritmético de que 2 e 2 produzirão 4. Vossa fé é como a lógica de alguma mulher emocional, de quem Tourgenyeff disse que para elas 2 e 2 geralmente eram 5, e uma vela de sebo de brinde.

A vossa é uma fé, além disso, que não apenas colide com toda concepção imaginável de justiça e lógica, mas que, se analisada, leva o homem à sua perdição moral, impede o progresso da humanidade e, positivamente fazendo do poder, direito — transforma cada segundo homem num Caim para seu irmão Abel.

=Perguntador=

A que vos referis?

=DEUS TEM O DIREITO DE PERDOAR?=

=Teosofista=

À Doutrina da Expiação; refiro-me a esse dogma perigoso no qual acreditais, e que nos ensina que, por mais enormes que sejam nossos crimes contra as leis de Deus e dos homens, basta crermos no auto-sacrifício de Jesus para a salvação da humanidade, e seu sangue lavará toda mancha.

Há vinte anos que prego contra isso, e posso agora chamar vossa atenção para um parágrafo de _Ísis sem Véu_, escrito em 1875. Isto é o que o Cristianismo ensina, e o que combatemos:—

“A misericórdia de Deus é ilimitada e insondável.

É impossível conceber um pecado humano tão danado que o preço pago antecipadamente pela redenção do pecador não o apagasse, ainda que fosse mil vezes pior.

E além disso, nunca é tarde demais para se arrepender.

Embora o ofensor espere até o último minuto da última hora do último dia de sua vida mortal, antes que seus lábios pálidos profiram a confissão de fé, ele pode ir para o Paraíso; o ladrão moribundo o fez, e assim podem todos os outros igualmente vis.

Estas são as suposições da Igreja e do Clero; suposições atiradas às cabeças de vossos compatriotas pelos pregadores favoritos da Inglaterra, bem em plena ‘luz do século XIX’”, esta era a mais paradoxal de todas.

Ora, a que isso conduz?

=Perguntador=

Não torna o Cristão mais feliz do que o Budista ou o Brâmane?

=Teosofista=

Não; não o homem educado, de qualquer modo, pois a maioria destes há muito perdeu virtualmente toda crença nesse dogma cruel.

Mas conduz aqueles que ainda creem nele mais _facilmente ao limiar de todo crime concebível_ do que qualquer outro que eu conheça. Permiti-me citar-vos _Ísis_ mais uma vez (_vide_ Vol. II., pp. 542 e 543)—

“Se sairmos do pequeno círculo do credo e considerarmos o universo como um todo equilibrado pelo ajuste exquisito das partes, como toda lógica sólida, como o mais tênue lampejo de senso de Justiça se revolta contra essa Expiação Vicária! Se o criminoso pecasse apenas contra si mesmo, e não prejudicasse ninguém além de si mesmo; se pelo sincero arrependimento pudesse causar a obliteração dos eventos passados, não apenas da memória do homem, mas também desse registro imperecível, que nenhuma divindade — nem mesmo os Supremos, do Supremo — pode fazer desaparecer, então esse dogma poderia não ser incompreensível.”

Mas sustentar que alguém possa prejudicar o seu semelhante, matar, perturbar o equilíbrio da sociedade e a ordem natural das coisas, e então—por covardia, esperança ou compulsão, não importa—ser perdoado por crer que o derramamento de um sangue lava o outro sangue derramado—isto é absurdo! Podem os _resultados_ de um crime ser obliterados ainda que o próprio crime seja perdoado? Os efeitos de uma causa nunca se limitam às fronteiras da causa, nem podem os resultados do crime ser confinados ao ofensor e à sua vítima.

Toda ação boa, assim como má, tem seus efeitos, tão palpavelmente quanto a pedra lançada em águas calmas.

A comparação é trivial, mas é a melhor já concebida, então usemo-la. Os círculos ondulantes são maiores e mais rápidos conforme o objeto perturbador é maior ou menor, mas a menor pedrinha, ou melhor, o mais minúsculo fragmento, produz suas ondulações.

E essa perturbação não é apenas visível e na superfície.

Abaixo, invisível, em todas as direções—para fora e para baixo—gota empurra gota até que as margens e o fundo sejam tocados pela força.

Mais ainda, o ar acima da água é agitado, e essa perturbação passa, como nos dizem os físicos, de estrato a estrato para o espaço, para sempre; um impulso foi dado à matéria, e isso nunca se perde, nunca pode ser recuperado!...

"Assim é com o crime, e assim com o seu oposto.

A ação pode ser instantânea, os efeitos são eternos.

Quando, depois que a pedra é lançada no lago, pudermos recuperá-la para a mão, fazer recuar as ondulações, obliterar a força despendida, restaurar as ondas etéricas ao seu estado anterior de não-existência, e apagar todo vestígio do ato de arremessar o projétil, de modo que o registro do Tempo não mostre que isso jamais aconteceu, então, _então_ poderemos pacientemente ouvir os cristãos argumentarem a favor da eficácia dessa Expiação,"

e—deixar de acreditar na Lei do Carma.

Como as coisas estão agora, convocamos o mundo inteiro a decidir qual de nossas duas doutrinas é a mais apreciativa da justiça divina, e qual é mais razoável, mesmo com base no simples testemunho e lógica humanos.

=Perguntador=

No entanto, milhões acreditam no dogma cristão e são felizes.

=Teosofista=

Sentimentalismo puro dominando suas faculdades de pensamento, o que nenhum verdadeiro filantropo ou altruísta jamais aceitará.

Não é sequer um sonho de egoísmo, mas um pesadelo do intelecto humano.

Vejam aonde isso conduz, e digam-me o nome daquele país pagão onde os crimes são mais facilmente cometidos ou mais numerosos do que nas terras cristãs.

Vejam os longos e horripilantes registros anuais de crimes cometidos nos países europeus; e contemplai a protestante e bíblica América.

Lá, as _conversões_ efetuadas nas prisões são mais numerosas do que aquelas realizadas pelos _revivals_ públicos e pela pregação.

Vejam como se apresenta o balanço contábil da justiça cristã (!); Assassinos de mãos ensanguentadas, impelidos pelos demônios da luxúria, vingança, cupidez, fanatismo, ou mera sede brutal de sangue, que matam suas vítimas, na maioria dos casos, sem lhes dar tempo de se arrepender ou invocar Jesus.

Estes, talvez, morreram pecadores e, naturalmente — de modo consistente com a lógica teológica — encontraram a recompensa de suas ofensas maiores ou menores.

Mas o assassino, alcançado pela justiça humana, é aprisionado, chorado por sentimentalistas, com quem se ora e a quem se ora, pronuncia as palavras encantadas da conversão, e vai ao cadafalso como um filho remido de Jesus! Exceto pelo assassinato, não teriam orado com ele, não teria sido remido, perdoado.

Claramente este homem fez bem em assassinar, pois assim alcançou a felicidade eterna! E quanto à vítima e sua família, parentes, dependentes, relações sociais; não há justiça que os recompense? Devem eles sofrer neste mundo e no próximo, enquanto aquele que os prejudicou se assenta ao lado do "ladrão santo" do Calvário, e é para sempre abençoado? Sobre esta questão o clero guarda um silêncio prudente.

(_Isis Unveiled._) E agora sabeis por que os Teosofistas — cuja crença e esperança fundamentais são a justiça para todos, no Céu como na Terra, e no Karma — rejeitam este dogma.

=Perguntador=

O destino final do homem, então, não é um Céu presidido por Deus, mas a transformação gradual da matéria em seu elemento primordial, o Espírito?

=Teosofista=

É para esse objetivo final que tudo tende na natureza.

=Perguntador=

Não consideram alguns de vós essa associação ou "queda do espírito na matéria" como um mal, e o renascimento como uma tristeza?

=Teosofista=

Alguns consideram, e por isso se esforçam por encurtar seu período de provação na Terra.

Não é, contudo, um mal absoluto, pois assegura a experiência sobre a qual ascendemos ao conhecimento e à sabedoria.

Quero dizer aquela experiência que _ensina_ que as necessidades de nossa natureza espiritual jamais podem ser satisfeitas por outra coisa senão a felicidade espiritual.

Enquanto estamos no corpo, estamos sujeitos à dor, ao sofrimento e a todos os incidentes decepcionantes que ocorrem durante a vida.

Portanto, e para amenizar isso, finalmente adquirimos conhecimento, o qual, por si só, pode nos proporcionar alívio e esperança de um futuro melhor.


[55] Refere-se aqui aos brâmanes sectários.

O Parabrahm dos Vedantins é a Divindade que aceitamos e na qual acreditamos.

XII.

=O QUE É TEOSOFIA PRÁTICA?=

=DEVER.=

=Perguntador=

Por que, então, a necessidade de renascimentos, já que todos, igualmente, falham em assegurar uma paz permanente?

=Teosofista=

Porque a meta final não pode ser alcançada de nenhuma outra forma senão através das experiências da vida, e porque a maior parte delas consiste em dor e sofrimento.

É somente através destes que podemos aprender. Alegrias e prazeres não nos ensinam nada; são evanescentes e só podem trazer, a longo prazo, saciedade.

Além disso, nosso constante fracasso em encontrar qualquer satisfação permanente na vida que atenda às necessidades de nossa natureza superior nos mostra claramente que essas necessidades só podem ser atendidas em seu próprio plano, a saber — o espiritual.

=Perguntador=

O resultado natural disso é um desejo de abandonar a vida por um meio ou outro?

=Teosofista=

Se você quer dizer com tal desejo "suicídio", então digo, decididamente, não.

Tal resultado jamais pode ser "natural", mas é sempre devido a uma doença mórbida do cérebro, ou a visões materialistas muito decididas e fortes.

É o pior dos crimes e terrível em seus resultados.

Mas se por desejo você quer dizer simplesmente aspiração a alcançar a existência espiritual, não um desejo de deixar a Terra, então eu o chamaria de um desejo muito natural, de fato.

Caso contrário, a morte voluntária seria um abandono de nosso posto atual e dos deveres que nos incumbem, bem como uma tentativa de esquivar-se das responsabilidades kármicas, e assim envolveria a criação de novo Karma.

=Perguntador=

Mas se as ações no plano material são insatisfatórias, por que os deveres, que são tais ações, seriam imperativos?

=Teosofista=

Primeiramente, porque nossa filosofia nos ensina que o objetivo de cumprirmos nossos deveres para com todos os homens e para conosco em último lugar não é a obtenção da felicidade pessoal, mas a felicidade dos outros; o cumprimento do que é certo por amor ao que é certo, não pelo que isso possa nos trazer. A felicidade, ou antes, o contentamento, pode de fato seguir o cumprimento do dever, mas não é e não deve ser o motivo para ele.

=Perguntador=

O que você entende precisamente por "dever" na Teosofia? Não podem ser os deveres cristãos pregados por Jesus e seus Apóstolos, já que vocês não reconhecem nenhum deles?

=Teosofista=

Você está mais uma vez enganado.

O que vocês chamam de "deveres cristãos" foi inculcado por todo grande reformador moral e religioso séculos antes da era cristã.

Tudo o que era grandioso, generoso, heroico, em tempos antigos, não era apenas falado e pregado dos púlpitos como em nossa época, mas _praticado_ às vezes por nações inteiras.

A história da reforma budista está repleta dos atos mais nobres e heroicamente altruístas.

"Sede todos de um mesmo sentimento, tendo compaixão uns dos outros; amai como irmãos, sede piedosos, sede corteses; não retribuindo mal por mal, ou injúria por injúria; mas, ao contrário, bendizendo" foi praticamente levado a cabo pelos seguidores de Buda, vários séculos antes de Pedro.

A Ética do Cristianismo é grandiosa, sem dúvida; mas, como é inegável, não é nova, e originou-se como deveres "pagãos".

=Perguntador=

E como você definiria esses deveres, ou o "dever", em geral, conforme você entende o termo?

=Teosofista=

Dever é aquilo que é _devido_ à Humanidade, aos nossos semelhantes, vizinhos, família, e especialmente o que devemos a todos aqueles que são mais pobres e mais indefesos do que nós mesmos.

Esta é uma dívida que, se deixada sem pagamento durante a vida, nos deixa espiritualmente insolventes e moralmente falidos em nossa próxima encarnação.

A Teosofia é a quintessência do _dever_.

=Perguntador=

Assim também é o Cristianismo, quando corretamente compreendido e praticado.

=Teosofista=

Sem dúvida é; mas, então, se não fosse uma _religião de lábios_ na prática, a Teosofia teria pouco a fazer entre os cristãos.

Infelizmente, é apenas essa ética de lábios.

Aqueles que praticam seu dever para com todos, e pelo próprio dever em si, são poucos; e mais raros ainda são aqueles que cumprem esse dever, permanecendo contentes com a satisfação de sua própria consciência secreta.

É—

“... a voz pública           De louvor que honra a virtude e a recompensa,”

que está sempre no topo das mentes dos filantropos “mundialmente renomados”.

A ética moderna é bela de se ler e de se ouvir discutir; mas o que são palavras a menos que convertidas em ações? Finalmente: se me perguntais como entendemos o dever teosófico na prática e em vista do Karma, posso responder-vos que nosso dever é beber sem murmurar até a última gota, seja qual for o conteúdo que a taça da vida possa ter reservado para nós, colher as rosas da vida apenas pela fragrância que possam derramar sobre _outros_, e estarmos nós mesmos contentes apenas com os espinhos, se essa fragrância não puder ser desfrutada sem privar alguém dela.

=Perguntador=

Tudo isso é muito vago.

O que fazeis a mais do que os cristãos fazem?

=Teosofista=

Não é o que nós, membros da Sociedade Teosófica, fazemos — embora alguns de nós se esforcem ao máximo — mas o quanto mais longe a Teosofia conduz ao bem do que o cristianismo moderno.

Digo—_ação_, ação imposta, em vez de mera intenção e conversa.

Um homem pode ser o que quiser, o mais mundano, egoísta e duro de coração dos homens, até mesmo um canalha empedernido, e isso não o impedirá de se chamar cristão, nem de que outros o considerem assim.

Mas nenhum teosofista tem o direito a esse nome, a menos que esteja completamente imbuído da exatidão do truísmo de Carlyle: “O fim do homem é uma _ação_ e não um _pensamento_, ainda que fosse o mais nobre”—e a menos que estabeleça e modele sua vida diária sobre essa verdade.

A profissão de uma verdade ainda não é a sua efetivação; e quanto mais bela e grandiosa ela soa, quanto mais alto se fala de virtude ou dever em vez de praticá-los, mais fortemente isso sempre lembrará o fruto do Mar Morto.

A _hipocrisia_ é o mais repugnante de todos os vícios; e a _hipocrisia_ é a característica mais proeminente do maior país protestante deste século—a Inglaterra.

=Perguntador=

O que considerais devido à humanidade em geral?

=Teosofista=

Pleno reconhecimento de direitos e privilégios iguais para todos, e sem distinção de raça, cor, posição social ou nascimento.

=Perguntador=

Quando consideraríeis tal devido como não concedido?

=Teosofista=

Quando houver a menor invasão do direito de outrem—seja esse outrem um homem ou uma nação; quando houver qualquer falha em mostrar-lhe a mesma justiça, bondade, consideração ou misericórdia que desejamos para nós mesmos.

Todo o atual sistema político está construído sobre o esquecimento de tais direitos, e a mais feroz afirmação do egoísmo nacional.

Os franceses dizem: “Tal mestre, tal homem”; deveriam acrescentar, “Tal política nacional, tal cidadão.”

=Perguntador=

O senhor participa de alguma forma da política?

=Teosofista=

Como Sociedade, cuidadosamente a evitamos, pelas razões expostas abaixo.

Buscar realizar reformas políticas antes de termos efetuado uma reforma na _natureza humana, é como pôr vinho novo em odres velhos_. Faça os homens sentirem e reconhecerem em seus corações mais íntimos qual é o seu verdadeiro e real dever para com todos os homens, e todo antigo abuso de poder, toda lei iníqua na política nacional, baseada no egoísmo humano, social ou político, desaparecerá por si mesma.

Insensato é o jardineiro que procura limpar seu canteiro de plantas venenosas cortando-as da superfície do solo, em vez de arrancá-las pelas raízes.

Nenhuma reforma política duradoura pode jamais ser alcançada com os mesmos homens egoístas à frente dos negócios, como antigamente.

=AS RELAÇÕES DA S.T. COM AS REFORMAS POLÍTICAS.=

=Perguntador=

A Sociedade Teosófica não é, então, uma organização política?

=Teosofista=

Certamente que não.

Ela é internacional no mais alto sentido, na medida em que seus membros compreendem homens e mulheres de todas as raças, credos e formas de pensamento, que trabalham juntos por um único objetivo, a melhoria da humanidade; mas, como sociedade, ela absolutamente não toma parte em qualquer política nacional ou partidária.

=Perguntador=

Por quê?

=Teosofista=

Exatamente pelas razões que mencionei.

Além disso, a ação política deve necessariamente variar com as circunstâncias do tempo e com as idiossincrasias dos indivíduos.

Embora, pela própria natureza de sua posição como Teosofistas, os membros da S.T. estejam de acordo sobre os princípios da Teosofia, ou não pertenceriam à sociedade de modo algum, não se segue daí que concordem em todos os outros assuntos.

Como sociedade, só podem agir em conjunto em questões que são comuns a todos — isto é, na própria Teosofia; como indivíduos, cada um fica perfeitamente livre para seguir sua linha particular de pensamento e ação política, desde que isso não entre em conflito com os princípios teosóficos, ou prejudique a Sociedade Teosófica.

=Perguntador=

Mas certamente a S.T. não se mantém totalmente alheia às questões sociais que agora estão tão rapidamente vindo à tona?

=Teosofista=

Os próprios princípios da S.T. são uma prova de que ela não se mantém — ou, antes, de que a maioria de seus membros não se mantém — tão alheia a isso.

Se a humanidade só pode ser desenvolvida mental e espiritualmente mediante a aplicação, antes de tudo, das leis fisiológicas mais sólidas e mais científicas, é dever inescapável de todos os que se esforçam por esse desenvolvimento fazer o máximo para que tais leis sejam geralmente observadas.

Todos os teosofistas estão apenas demasiadamente cientes de que, especialmente nos países ocidentais, a condição social de grandes massas do povo torna impossível que seus corpos ou seus espíritos sejam devidamente treinados, de modo que o desenvolvimento de ambos é por isso interrompido.

Como esse treinamento e desenvolvimento é um dos objetivos expressos da Teosofia, a S.T. está em total simpatia e harmonia com todos os esforços verdadeiros nessa direção.

=Perguntador=

Mas o que você quer dizer com "esforços verdadeiros"? Cada reformador social tem sua própria panaceia, e cada um acredita que a sua é a única coisa que pode melhorar e salvar a humanidade?

=Teosofista=

Perfeitamente verdadeiro, e esta é a razão real pela qual tão pouco trabalho social satisfatório é realizado.

Na maioria dessas panaceias não há princípio verdadeiramente orientador, e certamente não há um único princípio que as conecte todas.

Tempo e energia valiosos são assim desperdiçados; pois os homens, em vez de cooperarem, lutam uns contra os outros, muitas vezes, teme-se, por causa da fama e da recompensa, em vez da grande causa que professam ter no coração, e que deveria ser suprema em suas vidas.

=Perguntador=

Como, então, os princípios teosóficos deveriam ser aplicados para que a cooperação social seja promovida e os verdadeiros esforços para a melhoria social sejam levados adiante?

=Teosofista=

Deixe-me lembrá-lo brevemente quais são esses princípios — Unidade Universal e Causalidade; Solidariedade Humana; a Lei do Karma; Reencarnação.

Estes são os quatro elos da corrente dourada que deveria unir a humanidade em uma única família, uma única Fraternidade universal.

=Perguntador=

Como?

=Teosofista=

No estado atual da sociedade, especialmente nos chamados países civilizados, somos continuamente confrontados com o fato de que grandes números de pessoas sofrem de miséria, pobreza e doença.

Sua condição física é lastimável, e suas faculdades mentais e espirituais estão muitas vezes quase adormecidas.

Por outro lado, muitas pessoas no extremo oposto da escala social levam vidas de indiferença descuidada, luxo material e indulgência egoísta.

Nenhuma dessas formas de existência é mero acaso.

Ambas são efeitos das condições que cercam aqueles que a elas estão sujeitos, e a negligência do dever social de um lado está intimamente ligada ao desenvolvimento atrofiado e estagnado do outro.

Na sociologia, como em todos os ramos da verdadeira ciência, a lei da causalidade universal prevalece.

Mas essa causalidade implica necessariamente, como seu resultado lógico, essa solidariedade humana sobre a qual a Teosofia tanto insiste.

Se a ação de um reage sobre a vida de todos, e esta é a verdadeira ideia científica, então é somente por todos os homens se tornarem irmãos e todas as mulheres irmãs, e por todos praticarem em suas vidas diárias a verdadeira fraternidade e a verdadeira sororidade, que a real solidariedade humana, que está na raiz da elevação da raça, poderá algum dia ser alcançada.

É essa ação e interação, essa verdadeira fraternidade e sororidade, na qual cada um viverá por todos e todos por cada um, que é um dos princípios teosóficos fundamentais que todo Teosofista deveria estar obrigado não apenas a ensinar, mas a pôr em prática em sua vida individual.

=Perguntador=

Tudo isso é muito bom como princípio geral, mas como você o aplicaria de maneira concreta?

=Teosofista=

Observe por um momento o que você chamaria de fatos concretos da sociedade humana.

Contraste as vidas não apenas das massas do povo, mas também de muitos daqueles que são chamados de classes média e alta, com o que elas poderiam ser sob condições mais saudáveis e nobres, onde justiça, bondade e amor fossem predominantes, em vez do egoísmo, da indiferença e da brutalidade que agora, com demasiada frequência, parecem reinar supremos.

Todas as coisas boas e más na humanidade têm suas raízes no caráter humano, e esse caráter é, e tem sido, condicionado pela cadeia interminável de causa e efeito.

Mas esse condicionamento se aplica ao futuro tanto quanto ao presente e ao passado.

O egoísmo, a indiferença e a brutalidade jamais poderão ser o estado normal da raça — acreditar nisso seria desesperar da humanidade — e isso nenhum Teosofista pode fazer.

O progresso pode ser alcançado, e somente alcançado, pelo desenvolvimento das qualidades mais nobres.

Agora, a verdadeira evolução nos ensina que, ao alterarmos o ambiente do organismo, podemos alterar e melhorar o organismo; e, no sentido mais estrito, isso é verdadeiro no que diz respeito ao homem.

Todo teosofista, portanto, está obrigado a fazer o seu máximo para ajudar, por todos os meios ao seu alcance, todo esforço social sábio e bem considerado que tenha por objeto a melhoria da condição dos pobres.

Tais esforços devem ser feitos com vistas à sua emancipação social definitiva, ou ao desenvolvimento do senso de dever naqueles que, hoje, tantas vezes o negligenciam em quase todas as relações da vida.

=Perguntador=

Concordo.

Mas quem deve decidir se os esforços sociais são sábios ou insensatos?

=Teosofista=

Nenhuma pessoa e nenhuma sociedade pode estabelecer uma regra rígida e inflexível a esse respeito.

Muito deve necessariamente ser deixado ao critério individual.

Um teste geral pode, no entanto, ser dado.

A ação proposta tenderá a promover aquela verdadeira fraternidade que é o objetivo da Teosofia realizar? Nenhum teosofista real terá muita dificuldade em aplicar tal teste; uma vez convencido disso, seu dever estará na direção de formar a opinião pública.

E isso só pode ser alcançado inculcando aquelas concepções mais elevadas e nobres dos deveres públicos e privados que estão na raiz de todo melhoramento espiritual e material.

Em todo caso concebível, ele próprio deve ser um centro de ação espiritual, e dele e de sua própria vida diária individual devem irradiar aquelas forças espirituais superiores que, sozinhas, podem regenerar seus semelhantes.

=Perguntador=

Mas por que ele deveria fazer isso? Não estão ele e todos, como ensinais, condicionados pelo seu Karma, e não deve o Karma necessariamente se desenrolar em certas linhas?

=Teosofista=

É essa própria lei do Karma que dá força a tudo o que eu disse.

O indivíduo não pode separar-se da raça, nem a raça do indivíduo.

A lei do Karma aplica-se igualmente a todos, embora nem todos sejam igualmente desenvolvidos.

Ao ajudar no desenvolvimento dos outros, o teosofista acredita que não está apenas ajudando-os a cumprir o seu Karma, mas que também está, no sentido mais estrito, cumprindo o seu próprio.

É o desenvolvimento da humanidade, do qual tanto ele quanto eles são partes integrantes, que ele tem sempre em vista, e ele sabe que qualquer falha de sua parte em responder ao que há de mais elevado em si mesmo retarda não apenas a si mesmo, mas a todos, em sua marcha progressiva.

Por suas ações, ele pode tornar mais difícil ou mais fácil para a humanidade atingir o próximo plano superior de existência.

=Perguntador=

Como isso se relaciona com o quarto dos princípios que você mencionou, a saber, Reencarnação?

=Teosofista=

A conexão é íntima.

Se nossas vidas presentes dependem do desenvolvimento de certos princípios que são um crescimento a partir dos germes deixados por uma existência anterior, a lei se aplica igualmente ao futuro.

Uma vez compreendida a ideia de que a causalidade universal não é apenas presente, mas passada, presente e futura, cada ação em nosso plano atual cai natural e facilmente em seu devido lugar, e é vista em sua verdadeira relação conosco e com os outros.

Cada ação mesquinha e egoísta nos leva para trás e não para frente, enquanto cada pensamento nobre e cada ato altruísta são degraus para os planos de existência mais elevados e gloriosos.

Se esta vida fosse tudo, então, em muitos aspectos, ela seria de fato pobre e mesquinha; mas considerada como uma preparação para a próxima esfera de existência, pode ser usada como o portão dourado através do qual podemos passar, não egoisticamente e sozinhos, mas em companhia de nossos semelhantes, para os palácios que se encontram além.

=SOBRE O AUTO-SACRIFÍCIO.=

=Perguntador=

É a justiça igual para todos e o amor a toda criatura o mais alto padrão da Teosofia?

=Teosofista=

Não; há um padrão ainda muito mais elevado.

=Perguntador=

O que pode ser?

=Teosofista=

Dar aos outros _mais_ do que a si mesmo — o _auto-sacrifício_. Tal foi o padrão e a medida abundante que marcou tão proeminentemente os maiores Mestres e Instrutores da Humanidade — _por exemplo_, Gautama Buda na História, e Jesus de Nazaré como nos Evangelhos.

Somente essa característica foi suficiente para assegurar-lhes a perpétua reverência e gratidão das gerações de homens que vêm depois deles.

Dizemos, no entanto, que o auto-sacrifício deve ser realizado com discernimento; e tal abandono de si mesmo, se feito sem justiça, ou cegamente, sem considerar os resultados subsequentes, pode muitas vezes provar não apenas vão, mas prejudicial.

Uma das regras fundamentais da Teosofia é a justiça para consigo mesmo — visto como uma unidade da humanidade coletiva, não como uma justiça pessoal egoísta, nem mais nem menos do que para com os outros; a menos que, de fato, pelo sacrifício do _único_ eu possamos beneficiar a muitos.

=Perguntador=

Poderia tornar sua ideia mais clara dando um exemplo?

=Teosofista=

Há muitos exemplos para ilustrá-la na história.

O auto-sacrifício para o bem prático, a fim de salvar muitas ou várias pessoas, a Teosofia considera muito superior à abnegação por uma ideia sectária, como a de "salvar os pagãos da _danação_", por exemplo.

Em nossa opinião, o Padre Damião, o jovem de trinta anos que ofereceu toda a sua vida em sacrifício para o benefício e alívio dos sofrimentos dos leprosos em Molokai, e que foi viver por dezoito anos sozinho com eles, para finalmente contrair a doença repugnante e morrer, _não morreu em vão_. Ele trouxe alívio e felicidade relativa a milhares de miseráveis.

Ele lhes trouxe consolação, mental e física.

Ele lançou um raio de luz na noite negra e sombria de uma existência, cuja desesperança é sem paralelo nos registros do sofrimento humano.

Ele foi um _verdadeiro teosofista_, e sua memória viverá para sempre em nossos anais.

Aos nossos olhos, este pobre padre belga está imensamente acima de — por exemplo — todos aqueles tolos sinceros, mas vaidosos, os missionários que sacrificaram suas vidas nas Ilhas dos Mares do Sul ou na China.

Que bem eles fizeram? Eles foram, em um caso, para aqueles que ainda não estão maduros para qualquer verdade; e, no outro, para uma nação cujos sistemas de filosofia religiosa são tão grandiosos quanto quaisquer outros, se apenas os homens que os possuem vivessem de acordo com o padrão de Confúcio e de seus outros sábios.

E eles morreram vítimas de canibais e selvagens irresponsáveis, e do fanatismo e ódio populares.

Ao passo que, indo para os bairros pobres de Whitechapel ou alguma outra localidade daquelas que estagnam bem sob o sol escaldante da nossa civilização, cheios de selvagens cristãos e lepra mental, eles poderiam ter feito um bem real e preservado suas vidas para uma causa melhor e mais digna.

=Perguntador=

Mas os cristãos não pensam assim?

=Teosofista=

É claro que não, porque agem com base em uma crença errônea.

Eles pensam que, ao batizar o corpo de um selvagem irresponsável, salvam sua alma da danação.

Uma igreja esquece seus mártires; a outra beatifica e ergue estátuas a homens como Labro, que sacrificou seu corpo por quarenta anos apenas para beneficiar os vermes que ele gerava.

Se tivéssemos os meios para tal, ergueríamos uma estátua ao Padre Damião, o verdadeiro santo prático, e perpetuaríamos sua memória para sempre como um exemplar vivo do heroísmo teosófico e da misericórdia e abnegação à maneira de Buda e de Cristo.

=Perguntador=

Então considerais o autossacrifício um dever?

=Teosofista=

Consideramo-lo; e o explicamos mostrando que o altruísmo é parte integrante do autodesenvolvimento.

Mas temos de discernir.

Um homem não tem o direito de deixar-se morrer de fome para que outro homem tenha alimento, a menos que a vida desse homem seja obviamente mais útil à maioria do que a sua própria vida.

Mas é seu dever sacrificar o próprio conforto e trabalhar pelos outros, se estes não podem trabalhar por si mesmos.

É seu dever dar tudo aquilo que é inteiramente seu e que não pode beneficiar ninguém além de si mesmo, se ele egoisticamente o retém dos outros.

A Teosofia ensina a abnegação, mas não ensina o autossacrifício imprudente e inútil, tampouco justifica o fanatismo.

=Perguntador=

Mas como podemos alcançar tão elevado estado?

=Teosofista=

Pela aplicação esclarecida de nossos preceitos à prática.

Pelo uso de nossa razão superior, intuição espiritual e senso moral, e seguindo os ditames do que chamamos "a voz silenciosa e suave" de nossa consciência, que é a do nosso EGO, e que fala em nós mais alto do que os terremotos e os trovões de Jeová, nos quais "o Senhor não está."

=Perguntador=

Se tais são nossos deveres para com a humanidade em geral, o que entendeis por nossos deveres para com nosso círculo imediato?

=Teosofista=

Exatamente os mesmos, acrescidos daqueles que surgem de obrigações especiais relativas aos laços familiares.

=Perguntador=

Então não é verdade, como se diz, que tão logo um homem entra na Sociedade Teosófica ele começa a ser gradualmente separado de sua esposa, filhos e deveres familiares?

=Teosofista=

É uma calúnia infundada, como tantas outras.

O primeiro dos deveres teosóficos é cumprir o dever para com _todos_ os homens, e especialmente para com aqueles para com os quais se tem _responsabilidades específicas_, seja porque as assumimos voluntariamente, como os laços matrimoniais, seja porque o destino nos aliou a eles; refiro-me àqueles que devemos aos pais ou parentes próximos.

=Perguntador=

E qual pode ser o dever de um Teosofista para consigo mesmo?

=Teosofista= — Controlar e conquistar, _através do Eu Superior, o eu inferior_. Purificar-se interna e moralmente; não temer ninguém, nem nada, exceto o tribunal da sua própria consciência. Nunca fazer as coisas pela metade; _isto é_, se ele pensa que é a coisa certa a fazer, que o faça aberta e corajosamente, e se errado, que nunca toque nisso. É dever de um Teosofista aliviar seu fardo pensando no sábio aforismo de Epicteto, que diz: “Não vos desvieis do vosso dever _por qualquer reflexão ociosa que o mundo tolo possa fazer sobre vós_, pois suas censuras não estão em vosso poder e, consequentemente, não deveriam ser parte de vossa preocupação.”

=Perguntador= — Mas suponha que um membro da sua Sociedade alegue incapacidade de praticar o altruísmo em relação a outras pessoas, sob o fundamento de que “a caridade começa em casa”; insistindo que está ocupado demais, ou é pobre demais, para beneficiar a humanidade ou mesmo qualquer uma de suas unidades — quais são as suas regras em tal caso?

=Teosofista= — Nenhum homem tem o direito de dizer que não pode fazer nada pelos outros, sob qualquer pretexto que seja. “Fazendo o dever apropriado no lugar apropriado, um homem pode tornar o mundo seu devedor”, diz um escritor inglês. Um copo de água fria dado a tempo a um viajante sedento é um dever mais nobre e mais valioso do que uma dúzia de jantares dados, fora de época, a homens que podem pagar por eles. Nenhum homem que não tenha isso dentro de si jamais se tornará um _Teosofista_; mas ele pode permanecer membro da nossa Sociedade mesmo assim. Não temos regras pelas quais possamos forçar qualquer homem a se tornar um Teosofista prático, se ele não deseja sê-lo.

=Perguntador= — Então por que ele entra na Sociedade de todo?

=Teosofista= — Isso é melhor conhecido por quem o faz. Pois, aqui novamente, não temos o direito de pré-julgar uma pessoa, nem mesmo se a voz de toda uma comunidade for contra ela, e posso lhe dizer por quê. Em nossos dias, _vox populi_ (no que diz respeito à voz dos educados, pelo menos) não é mais _vox dei_, mas sempre a do preconceito, de motivos egoístas, e frequentemente simplesmente a da impopularidade. Nosso dever é semear sementes amplamente para o futuro e ver que são boas; não parar para perguntar _por que_ devemos fazê-lo, e como e por que somos obrigados a perder nosso tempo, já que aqueles que colherão a colheita nos dias vindouros nunca seremos nós mesmos.

=SOBRE A CARIDADE.=

=Perguntador=


Como vocês, teosofistas, encaram o dever cristão da caridade?

=Teosofista=

Que caridade você quer dizer? Caridade de espírito, ou caridade prática no plano físico?

=Perguntador=

Quero dizer caridade prática, pois sua ideia de fraternidade universal incluiria, naturalmente, a caridade de espírito.

=Teosofista=

Então você tem em mente a execução prática dos mandamentos dados por Jesus no Sermão da Montanha?

=Perguntador=

Precisamente.

=Teosofista=

Então por que chamá-los de "cristãos"? Porque, embora vosso Salvador os tenha pregado e praticado, a última coisa em que os cristãos de hoje pensam é em colocá-los em prática em suas vidas.

=Perguntador=

E, no entanto, muitos são os que passam a vida distribuindo caridade?

=Teosofista=

Sim, do excedente de suas grandes fortunas. Mas aponte-me aquele cristão, entre os mais filantrópicos, que daria ao ladrão tiritante e faminto, que lhe roubasse o casaco, também a capa; ou que oferecesse a face direita a quem lhe esbofeteasse a esquerda, sem jamais pensar em se ressentir!

=Perguntador=

Ah, mas você deve lembrar que esses preceitos não devem ser tomados ao pé da letra. Os tempos e as circunstâncias mudaram desde os dias de Cristo. Além disso, Ele falava em parábolas.

=Teosofista=

Então por que vossas Igrejas não ensinam que a doutrina da danação e do fogo do inferno também deve ser entendida como uma _parábola_? Por que alguns de vossos pregadores mais populares, embora virtualmente permitindo que essas "parábolas" sejam entendidas como vocês as interpretam, insistem no sentido literal dos fogos do Inferno e nas torturas _físicas_ de uma alma "semelhante ao amianto"? Se uma é uma "parábola", então a outra também é. Se o fogo do Inferno é uma verdade literal, então os mandamentos de Cristo no Sermão da Montanha devem ser obedecidos à risca. E eu lhe digo que muitos que não creem na Divindade de Cristo — como o Conde Leo Tolstoi e mais de um teosofista — cumprem esses nobres preceitos, porque universais, literalmente; e muitos outros homens e mulheres bons assim o fariam, não estivessem eles mais do que certos de que tal modo de vida muito provavelmente os levaria a um manicômio — tão _cristãs são vossas leis_!

=Perguntador=

Mas certamente todos sabem que milhões e milhões são gastos anualmente em caridades privadas e públicas?

=Teosofista=

Oh, sim; metade disso gruda nas mãos por onde passa antes de chegar aos necessitados; enquanto uma boa porção ou o restante cai nas mãos de mendigos profissionais, aqueles que são preguiçosos demais para trabalhar, não fazendo assim nenhum bem àqueles que estão verdadeiramente na miséria e no sofrimento.

Você não ouviu que o primeiro resultado do grande fluxo de caridade para o East-end de Londres foi elevar os aluguéis em _Whitechapel_ em cerca de 20 por cento?

=Perguntador=

O que você faria, então?

=Teosofista=

Agir individualmente e não coletivamente; seguir os preceitos budistas do Norte: "Nunca coloque comida na boca do faminto pela mão de outro"; "Nunca deixe que a sombra do teu próximo (_uma terceira pessoa_) se interponha entre ti e o objeto da tua generosidade"; "Nunca dê ao Sol tempo de secar uma lágrima antes que a tenhas enxugado." Ainda: "Nunca dê dinheiro ao necessitado, nem comida ao sacerdote que mendiga à tua porta, _através dos teus servos_, para que o teu dinheiro não diminua a gratidão, e a tua comida não se transforme em fel."

=Perguntador=

Mas como isso pode ser aplicado na prática?

=Teosofista=

As ideias teosóficas de caridade significam _esforço pessoal_ pelos outros; _misericórdia_ e bondade _pessoais_; _interesse pessoal_ no bem-estar daqueles que sofrem; _simpatia pessoal_, previsão e assistência em seus problemas ou necessidades.

Nós, teosofistas, não acreditamos em dar dinheiro (N.B., se o tivéssemos) através das mãos ou organizações de outras pessoas.

Acreditamos em dar ao dinheiro um poder e uma eficácia mil vezes maiores por meio do nosso contato pessoal e da nossa simpatia com aqueles que dele necessitam. Acreditamos em aliviar a fome da alma, tanto quanto, se não mais do que, o vazio do estômago; pois a gratidão faz mais bem ao homem que a sente do que àquele por quem ela é sentida.

Onde está a gratidão que seus "milhões de libras" deveriam ter suscitado, ou os bons sentimentos por eles provocados? Ela se mostra no ódio dos pobres do East-End pelos ricos? no crescimento do partido da anarquia e da desordem? ou naqueles milhares de infelizes moças trabalhadoras, vítimas do sistema de "sweating", impelidas diariamente a completar seu sustento indo para as ruas? Será que seus velhos e velhas desamparados vos agradecem pelos asilos; ou vossos pobres pelas habitações insalubres e venenosas nas quais lhes é permitido gerar novas gerações de crianças doentes, escrofulosas e raquíticas, apenas para encher os bolsos dos insaciáveis Shylocks que possuem as casas? Por isso, cada soberano de todos esses "milhões", contribuídos por pessoas boas e pretensamente caridosas, cai como uma maldição ardente, em vez de uma bênção, sobre os pobres que deveria aliviar.

Chamamos a isso _gerar Karma nacional_, e terríveis serão seus resultados no dia do acerto de contas.

=TEOSOFIA PARA AS MASSAS.=

=Perguntador=

E pensais que a Teosofia, intervindo, ajudaria a remover esses males, sob as condições práticas e adversas de nossa vida moderna?

=Teosofista=

Se tivéssemos mais dinheiro, e se a maioria dos Teosofistas não tivesse de trabalhar para ganhar o pão de cada dia, creio firmemente que poderíamos.

=Perguntador=

Como? Esperais que vossas doutrinas possam algum dia apoderar-se das massas incultas, quando são tão abstrusas e difíceis que pessoas bem educadas mal conseguem compreendê-las?

=Teosofista=

Esqueceis uma coisa: que a vossa tão decantada educação moderna é precisamente o que torna difícil para vós compreender a Teosofia.

Vossa mente está tão cheia de sutilezas intelectuais e preconceitos que vossa intuição natural e vossa percepção da verdade não podem atuar.

Não se requer metafísica nem educação para fazer um homem compreender as amplas verdades do Karma e da Reencarnação.

Olhai para os milhões de budistas e hindus pobres e incultos, para quem o Karma e a reencarnação são realidades sólidas, simplesmente porque suas mentes nunca foram tolhidas e distorcidas por serem forçadas a um sulco antinatural.

Eles nunca tiveram o inato senso humano de justiça pervertido por lhes dizerem para acreditar que seus pecados seriam perdoados porque outro homem havia sido morto por amor a eles.

E os budistas, notem bem, vivem de acordo com suas crenças sem murmurar contra o Karma, ou o que consideram um justo castigo, enquanto a população cristã nem vive à altura de seu ideal moral, nem aceita sua sorte com contentamento.

Daí o murmúrio e a insatisfação, e a intensidade da luta pela existência nas terras ocidentais.

=Perguntador=

Mas esse contentamento, que você tanto elogia, eliminaria todo motivo de esforço e levaria o progresso a uma paralisação.

=Teosofista=

E nós, teosofistas, dizemos que o vosso alardeado progresso e civilização não passam de um bando de fogos-fátuos, tremeluzindo sobre um pântano que exala um miasma venenoso e mortal.

Isso, porque vemos o egoísmo, o crime, a imoralidade e todos os males imagináveis lançando-se sobre a infeliz humanidade a partir dessa caixa de Pandora que vocês chamam de era de progresso, e aumentando _pari passu_ com o crescimento da vossa civilização material.

A esse preço, melhor a inércia e a inatividade dos países budistas, que surgiram apenas como consequência de séculos de escravidão política.

=Perguntador=

Então toda essa metafísica e misticismo com que vocês tanto se ocupam não tem importância?

=Teosofista=

Para as massas, que precisam apenas de orientação e apoio práticos, não têm muita importância; mas para os educados, os líderes naturais das massas, aqueles cujos modos de pensamento e ação serão, mais cedo ou mais tarde, adotados por essas massas, são da maior importância.

É somente por meio da filosofia que um homem inteligente e educado pode evitar o suicídio intelectual de acreditar por fé cega; e é somente assimilando a estrita continuidade e coerência lógica das doutrinas orientais, se não esotéricas, que ele pode perceber sua verdade.

A convicção gera entusiasmo, e “Entusiasmo”, diz Bulwer Lytton, “é o gênio da sinceridade, e a verdade não alcança vitórias sem ele”; enquanto Emerson observa com toda a verdade que “todo grande e imponente movimento nos anais do mundo é o triunfo do entusiasmo.” E o que é mais capaz de produzir tal sentimento do que uma filosofia tão grandiosa, tão consistente, tão lógica e tão abrangente quanto as nossas Doutrinas Orientais?

=Perguntador=

E, no entanto, seus inimigos são muito numerosos, e a cada dia a Teosofia adquire novos opositores.

=Teosofista=

E é precisamente isso que prova sua excelência e valor intrínsecos.

As pessoas odeiam apenas aquilo que temem, e ninguém se dá ao trabalho de derrubar aquilo que nem ameaça nem se eleva acima da mediocridade.

=Perguntador=

Espera você transmitir esse entusiasmo, um dia, às massas?

=Teosofista=

Por que não? já que a história nos diz que as massas adotaram o Budismo com entusiasmo, enquanto, como foi dito antes, o efeito prático sobre elas dessa filosofia de ética ainda se mostra pela pequenez da porcentagem de crimes entre as populações budistas, em comparação com qualquer outra religião.

O ponto principal é desenraizar essa fonte mais fértil de todo crime e imoralidade — a crença de que é possível escapar das consequências de suas próprias ações.

Uma vez que lhes ensinem essa maior de todas as leis, o _Karma_ e a _Reencarnação_, além de sentirem em si mesmos a verdadeira dignidade da natureza humana, eles se afastarão do mal e o evitarão como evitariam um perigo físico.

=COMO OS MEMBROS PODEM AJUDAR A SOCIEDADE.=

=Perguntador=

Como espera que os membros de sua Sociedade ajudem no trabalho?

=Teosofista=

Primeiro, estudando e compreendendo as doutrinas teosóficas, para que possam ensinar outros, especialmente os jovens.

Segundo, aproveitando toda oportunidade de conversar com outros e explicar-lhes o que é a Teosofia e o que ela não é; removendo equívocos e despertando interesse pelo assunto.

Terceiro, auxiliando na circulação de nossa literatura, comprando livros quando tiverem meios, emprestando-os e doando-os, e induzindo seus amigos a fazerem o mesmo. Quarto, defendendo a Sociedade das injustas calúnias lançadas contra ela, por todos os meios legítimos ao seu alcance.

Quinto, e o mais importante de todos, pelo exemplo de suas próprias vidas.

=Perguntador=

Mas toda essa literatura, à cuja divulgação você atribui tanta importância, não me parece de muita utilidade prática para ajudar a humanidade.

Isso não é caridade prática.

=Teosofista=

Pensamos de outro modo.

Sustentamos que um bom livro que dá às pessoas alimento para o pensamento, que fortalece e clareia suas mentes, e lhes permite apreender verdades que sentiram vagamente mas não puderam formular — sustentamos que tal livro faz um bem real e substancial.

Quanto ao que você chama de obras práticas de caridade, para beneficiar os corpos de nossos semelhantes, fazemos o pouco que podemos; mas, como já lhe disse, a maioria de nós é pobre, enquanto a própria Sociedade não tem sequer dinheiro para pagar uma equipe de trabalhadores.

Todos nós que labutamos por ela, doamos nosso trabalho gratuitamente e, na maioria dos casos, também dinheiro.

Os poucos que têm meios de praticar o que geralmente se chama de ações caridosas seguem os preceitos budistas e fazem seu trabalho eles mesmos, não por procuração nem subscrevendo publicamente fundos de caridade.

O que o teosofista tem de fazer acima de tudo é esquecer sua personalidade.

=O QUE UM TEOSOFISTA NÃO DEVE FAZER.=

=Perguntador=

Têm quaisquer leis ou cláusulas proibitivas para teosofistas em vossa Sociedade?

=Teosofista=

Muitas, mas, ai de nós! nenhuma delas é aplicada.

Elas expressam o ideal de nossa organização — mas a aplicação prática de tais coisas somos compelidos a deixar ao critério dos próprios membros.

Infelizmente, o estado das mentes humanas no presente século é tal que, a menos que permitamos que essas cláusulas permaneçam, por assim dizer, obsoletas, nenhum homem ou mulher ousaria arriscar-se a ingressar na Sociedade Teosófica.

É precisamente por isso que me sinto forçado a dar tanta ênfase à diferença entre a Teosofia verdadeira e seu veículo de luta árdua e bem-intencionado, mas ainda assim indigno, a Sociedade Teosófica.

=Perguntador=

Posso saber quais são esses recifes perigosos no mar aberto da Teosofia?

=Teosofista=

Bem pode você chamá-los de recifes, pois mais de um M.T.S. (Membro da Sociedade Teosófica), aliás sincero e bem-intencionado, viu sua canoa teosófica despedaçar-se neles! E, no entanto, evitar certas coisas parece ser a coisa mais fácil do mundo. Por exemplo, aqui está uma série de tais negativas, protegendo os deveres teosóficos positivos: —

Nenhum teosofista deve permanecer em silêncio quando ouvir relatos maldosos ou calúnias espalhadas sobre a Sociedade, ou sobre pessoas inocentes, sejam elas seus colegas ou estranhos.

=Perguntador=

Mas suponha que o que se ouve seja a verdade, ou possa ser verdade sem que a pessoa o saiba?

=Teosofista=

Então você deve exigir boas provas da afirmação e ouvir ambos os lados imparcialmente antes de permitir que a acusação permaneça sem contestação.

Você não tem o direito de acreditar no mal, até obter prova inegável da correção da declaração.

=Perguntador=

E o que você deveria fazer então?

=Teosofista=

Compadecer-se e ser tolerante, caridade e longanimidade devem estar sempre presentes para nos levar a desculpar nossos irmãos pecadores e a proferir a sentença mais branda possível sobre aqueles que erram.

Um Teosofista nunca deve esquecer o que é devido às falhas e fraquezas da natureza humana.

=Perguntador=

Deve ele perdoar inteiramente em tais casos?

=Teosofista=

Em todo caso, especialmente aquele contra quem se pecou.

=Perguntador=

Mas se, ao fazê-lo, ele arrisca prejudicar a si mesmo ou permitir que outros sejam prejudicados? O que deve fazer então?

=Teosofista=

Seu dever; aquilo que sua consciência e natureza superior lhe sugerem; mas somente após madura deliberação.

A justiça consiste em não causar dano a nenhum ser vivo; mas a justiça também nos ordena nunca permitir que o dano seja feito a muitos, ou mesmo a uma única pessoa inocente, deixando o culpado seguir sem repreensão.

=Perguntador=

Quais são as outras cláusulas negativas?

=Teosofista=

Nenhum Teosofista deve se contentar com uma vida ociosa ou frívola, não fazendo nenhum bem real a si mesmo e menos ainda aos outros.

Ele deve trabalhar em benefício dos poucos que precisam de sua ajuda, se não puder labutar pela Humanidade, e assim trabalhar pelo avanço da causa Teosófica.

=Perguntador=

Isso exige uma natureza excepcional e seria bastante difícil para algumas pessoas.

=Teosofista=

Então é melhor que permaneçam fora da S. T. em vez de navegar sob falsas bandeiras.

Ninguém é obrigado a dar mais do que pode, seja em devoção, tempo, trabalho ou dinheiro.

=Perguntador=

O que vem a seguir?

=Teosofista=

Nenhum membro ativo deve dar valor excessivo ao seu progresso pessoal ou proficiência nos estudos Teosóficos; mas deve estar preparado, antes, para fazer tanto trabalho altruísta quanto estiver em seu poder.

Ele não deve deixar todo o pesado fardo e responsabilidade do movimento Teosófico sobre os ombros dos poucos trabalhadores devotados.

Cada membro deve sentir como seu dever assumir a parte que puder no trabalho comum e ajudá-lo por todos os meios ao seu alcance.

=Perguntador=

Isso é apenas justo.

O que vem a seguir?

=Teosofista=

Nenhum Teosofista deve colocar sua vaidade pessoal ou seus sentimentos acima dos de sua Sociedade como um corpo.

Aquele que sacrifica esta última, ou a reputação de outras pessoas, no altar de sua vaidade pessoal, benefício mundano ou orgulho, não deve ser autorizado a permanecer como membro.

Um membro canceroso adoece o corpo inteiro.

É dever de todo membro ensinar aos outros e pregar a Teosofia?

=Teosofista=

É dever, de fato.

Nenhum companheiro tem o direito de permanecer ocioso, com a desculpa de que sabe pouco demais para ensinar.

Pois ele pode sempre ter certeza de que encontrará outros que sabem ainda menos do que ele.

E também é somente quando um homem começa a tentar ensinar aos outros que ele descobre a própria ignorância e tenta removê-la. Mas esta é uma cláusula menor.

=Perguntador=

O que considera, então, ser o principal desses deveres teosóficos negativos?

=Teosofista=

Estar sempre preparado para reconhecer e confessar as próprias faltas.

Antes pecar por elogio exagerado do que por pouca apreciação dos esforços do próximo.

Nunca difamar ou caluniar outra pessoa.

Sempre dizer abertamente e diretamente em sua face qualquer coisa que tenha contra ele.

Nunca se fazer eco de qualquer coisa que ouça contra outro, nem alimentar vingança contra aqueles que porventura o prejudiquem.

=Perguntador=

Mas muitas vezes é perigoso dizer às pessoas a verdade em suas faces.

Não acha? Conheço um de seus membros que ficou amargamente ofendido, deixou a Sociedade e tornou-se seu maior inimigo, apenas porque lhe foram ditas algumas verdades desagradáveis em sua face, e ele foi culpado por elas.

=Teosofista=

De tais, tivemos muitos.

Nenhum membro, seja proeminente ou insignificante, jamais nos deixou sem se tornar nosso amargo inimigo.

=Perguntador=

Como explica isso?

=Teosofista=

É simplesmente isto.

Tendo sido, na maioria dos casos, intensamente devotado à Sociedade no início, e tendo derramado sobre ela os mais exagerados elogios, a única desculpa possível que tal reincidente pode dar para seu comportamento subsequente e sua miopia passada é _posar como vítima inocente e enganada_, assim lançando a culpa de seus próprios ombros sobre os da Sociedade em geral, e de seus líderes em especial.

Tais pessoas lembram a antiga fábula sobre o homem de rosto distorcido, que quebrou seu espelho sob o pretexto de que ele refletia sua fisionomia tortuosamente.

=Perguntador=

Mas o que faz essas pessoas se voltarem contra a Sociedade?

=Teosofista=

Vaidade ferida de alguma forma ou outra, em quase todos os casos.

Geralmente, porque seus ditos e conselhos não são aceitos como finais e autoritativos; ou então, porque são daqueles que preferem reinar no Inferno a servir no Céu.

Porque, em suma, não suportam ficar em segundo lugar para ninguém em coisa alguma.

Assim, por exemplo, um membro — um verdadeiro “Senhor Oráculo” — criticou e quase difamou todos os membros da S.T. tanto perante os de fora quanto perante os teosofistas, sob o pretexto de que eram _todos não teosóficos_, culpando-os precisamente por aquilo que ele próprio fazia o tempo todo.

Por fim, deixou a Sociedade, dando como razão uma profunda convicção de que éramos todos (os Fundadores especialmente) — FRAUDES! Outro, após intrigar de todas as maneiras possíveis para ser colocado à frente de uma grande Seção da Sociedade, ao descobrir que os membros não o aceitavam, voltou-se contra os Fundadores da S.T. e tornou-se seu mais amargo inimigo, denunciando um deles sempre que podia, simplesmente porque este não podia e não queria _impô-lo_ aos Membros.

Isto era simplesmente um caso de vaidade ferida de modo ultrajante.

Ainda outro queria, e virtualmente praticava, _magia negra_ — _i.e._, influência psicológica pessoal indevida sobre certos Fellows, enquanto fingia devoção e todas as virtudes teosóficas.

Quando isso foi interrompido, o Membro rompeu com a Teosofia e agora calunia e mente contra os mesmos infelizes líderes da maneira mais virulenta, esforçando-se por dissolver a sociedade enegrecendo a reputação daqueles que o digno “Fellow” não conseguiu enganar.

=Perguntador=

O que faríeis com tais personagens?

=Teosofista=

Deixai-os ao seu Karma.

Porque uma pessoa faz o mal, não é razão para que outros o façam.

=Perguntador=

Mas, para voltar à calúnia, onde está a linha de demarcação entre a maledicência e a crítica justa a ser traçada? Não é dever de alguém advertir seus amigos e vizinhos contra aqueles que se sabe serem companhias perigosas?

=Teosofista=

Se, ao permitir que sigam sem controle, outras pessoas possam ser por isso prejudicadas, é certamente nosso dever obviar o perigo advertindo-os em particular.

Mas verdadeira ou falsa, nenhuma acusação contra outra pessoa deveria jamais ser divulgada.

Se verdadeira, e a falta não prejudica ninguém senão o pecador, então deixai-o ao seu Karma.

Se falsa, então tereis evitado acrescentar à injustiça do mundo.

Portanto, permanecei em silêncio sobre tais coisas com todos os que não estejam diretamente envolvidos.

Mas se sua discrição e silêncio forem capazes de ferir ou colocar em perigo outros, então acrescento: _Diga a verdade a qualquer custo_, e diga, com Annesly, "Consulte o dever, não os acontecimentos". Há casos em que somos forçados a exclamar: "Pereça a discrição, em vez de permitir que ela interfira com o dever."

=Perguntador=

Parece-me que, se você seguir essas máximas, provavelmente colherá uma bela colheita de problemas!

=Teosofista=

E assim o fazemos. Temos de admitir que agora estamos expostos à mesma zombaria que os primeiros cristãos sofreram.

"Vede como estes teosofistas se amam uns aos outros!" pode agora ser dito de nós sem sombra de injustiça.

=Perguntador=

Admitindo você mesmo que há pelo menos tanta, senão mais, maledicência, calúnia e disputa na S.T. quanto nas Igrejas Cristãs, sem falar nas Sociedades Científicas — Que tipo de Irmandade é essa? Posso perguntar.

=Teosofista=

Um exemplar muito pobre, de fato, como está atualmente, e, até que seja cuidadosamente peneirada e reorganizada, _nada_ melhor do que todas as outras.

Lembre-se, porém, de que a natureza humana é a mesma _dentro_ da Sociedade Teosófica como _fora_ dela. Seus membros não são santos: são, na melhor das hipóteses, pecadores tentando fazer melhor, e sujeitos a recair devido à fraqueza pessoal.

Acrescente a isso que nossa "Irmandade" não é um corpo "reconhecido" ou estabelecido, e se encontra, por assim dizer, fora do âmbito da jurisdição.

Além disso, está em condição caótica, e tão injustamente _impopular quanto nenhum outro corpo_. Que admira, então, que aqueles membros que falham em realizar seu ideal se voltem, após deixar a Sociedade, em busca de proteção simpática para nossos inimigos, e derramem toda a sua bile e amargura em seus ouvidos demasiado dispostos! Sabendo que encontrarão apoio, simpatia e pronta credibilidade para toda acusação, por mais absurda que seja, que lhes apraza lançar contra a Sociedade Teosófica, eles se apressam a fazê-lo, e desabafam sua ira contra o espelho inocente, que refletia fielmente demais seus rostos.

_As pessoas nunca perdoam aqueles a quem fizeram mal._ O senso de bondade recebida, e por eles retribuída com ingratidão, os leva a um frenesi de autojustificação diante do mundo e de suas próprias consciências.

O primeiro está mais do que pronto para acreditar em qualquer coisa dita contra uma sociedade que odeia.

A última — mas não direi mais, temendo já ter dito demais.

=Perguntador=

A sua posição não me parece muito invejável.

=Teosofista=

Não é.

Mas você não acha que deve haver algo muito nobre, muito elevado, muito verdadeiro por trás da Sociedade e de sua filosofia, quando os líderes e os fundadores do movimento ainda continuam a trabalhar por ela com todas as suas forças? Eles sacrificam por ela todo o conforto, toda a prosperidade mundana e o sucesso, até mesmo o seu bom nome e reputação — sim, até a sua honra — para receber em troca incessante e contínua difamação, perseguição implacável, calúnia incansável, constante ingratidão e incompreensão de seus melhores esforços, golpes e bofetadas de todos os lados — quando, simplesmente abandonando o seu trabalho, eles se veriam imediatamente livres de toda responsabilidade, protegidos de qualquer ataque posterior.

=Perguntador=

Confesso que tal perseverança me parece muito espantosa, e eu me perguntava por que vocês faziam tudo isso.

=Teosofista=

Acredite, não é por autogratificação; somente na esperança de treinar alguns indivíduos para dar continuidade ao nosso trabalho pela humanidade, segundo o seu programa original, quando os Fundadores já não estiverem mais entre nós.

Eles já encontraram algumas poucas almas nobres e devotadas para substituí-los.

As gerações vindouras, graças a esses poucos, encontrarão o caminho para a paz um pouco menos espinhoso, e a senda um pouco mais alargada, e assim todo esse sofrimento terá produzido bons resultados, e o seu autossacrifício não terá sido em vão.

Atualmente, o principal e fundamental objetivo da Sociedade é semear germes nos corações dos homens, que com o tempo possam brotar e, sob circunstâncias mais propícias, conduzir a uma reforma saudável, propiciadora de mais felicidade _às massas_ do que elas têm desfrutado até agora.

XIII.

=SOBRE OS EQUÍVOCOS ACERCA DA SOCIEDADE TEOSÓFICA.=

=TEOSOFIA E ASCETISMO.=

=Perguntador=

Ouvi pessoas dizerem que as vossas regras exigem que todos os membros sejam vegetarianos, celibatários e ascetas rígidos; mas você ainda não me disse nada disso.

Pode dizer a verdade de uma vez por todas sobre isso?

=Teosofista=

A verdade é que as nossas regras não exigem nada disso.

A Sociedade Teosófica nem sequer espera, muito menos exige de _qualquer_ um de seus membros que sejam ascetas de qualquer forma, exceto — se você chama _isso_ de ascetismo — que tentem beneficiar outras pessoas e sejam altruístas em suas próprias vidas.

=Perguntador=

Mas ainda assim muitos de seus membros são vegetarianos estritos e declaram abertamente sua intenção de permanecerem solteiros.

Isso também ocorre com frequência naqueles que assumem papel de destaque em conexão com o trabalho de sua Sociedade.

=Teosofista=

Isso é natural, porque a maioria de nossos trabalhadores verdadeiramente dedicados são membros da Seção Interna da Sociedade, da qual lhe falei antes.

=Perguntador=

Oh! Então vocês exigem práticas ascéticas nessa Seção Interna?

=Teosofista=

Não; não as _exigimos_ nem as _prescrevemos_ mesmo ali; mas vejo que é melhor lhe dar uma explicação de nossas visões sobre o assunto do ascetismo em geral, e então você compreenderá sobre o vegetarianismo e assim por diante.

=Perguntador=

Por favor, prossiga.

=Teosofista=

Como já lhe disse, a maioria das pessoas que se tornam estudantes verdadeiramente sérios de Teosofia e trabalhadores ativos em nossa Sociedade deseja fazer mais do que estudar teoricamente as verdades que ensinamos.

Elas desejam _conhecer_ a verdade por sua própria experiência pessoal direta e estudar o Ocultismo com o objetivo de adquirir a sabedoria e o poder que sentem necessitar para ajudar os outros, de forma eficaz e criteriosa, em vez de cega e ao acaso.

Portanto, mais cedo ou mais tarde, elas se juntam à Seção Interna.

=Perguntador=

Mas você disse que "práticas ascéticas" não são obrigatórias nem mesmo nessa Seção Interna?

=Teosofista=

Não são; mas a primeira coisa que os membros aprendem ali é uma concepção verdadeira da relação do corpo, ou invólucro físico, com o homem interior, o verdadeiro homem.

A relação e a interação mútua entre esses dois aspectos da natureza humana são explicadas e demonstradas a eles, de modo que logo se imbuem da importância suprema do homem interior sobre o invólucro ou corpo exterior.

Eles aprendem que o ascetismo cego e não inteligente é mera tolice; que condutas como a de São Labro, da qual falei antes, ou a dos faquires indianos e ascetas das selvas, que cortam, queimam e maceram seus corpos da maneira mais cruel e horrível, são simplesmente autotortura para fins egoístas, _isto é_, para desenvolver a força de vontade, mas são perfeitamente inúteis para o propósito de auxiliar o verdadeiro desenvolvimento espiritual, ou teosófico.

=Perguntador=

Entendo, vocês consideram apenas o ascetismo _moral_ como necessário.

É como um meio para um fim, sendo esse fim o perfeito equilíbrio da natureza _interior_ do homem e a obtenção do domínio completo sobre o corpo, com todas as suas paixões e desejos?

=Teosofista=

Exatamente. Mas esses meios devem ser usados de forma inteligente e sábia, não cega e tola; como um atleta que treina e se prepara para uma grande competição, não como o avarento que se mata de fome até adoecer para gratificar sua paixão por ouro.

=Perguntador=

Agora compreendo sua ideia geral; mas vejamos como você a aplica na prática.

Que tal o vegetarianismo, por exemplo?

=Teosofista=

Um dos grandes cientistas alemães demonstrou que todo tipo de tecido animal, por mais que você o cozinhe, ainda retém certas características marcantes do animal ao qual pertenceu, características essas que podem ser reconhecidas.

E, além disso, todos sabem pelo gosto que carne está comendo.

Vamos um passo adiante e provamos que, quando a carne dos animais é assimilada pelo homem como alimento, ela lhe transmite, fisiologicamente, algumas das características do animal de onde veio.

Além disso, a ciência oculta ensina e prova isso aos seus estudantes por demonstração ocular, mostrando também que esse efeito de "embrutecimento" ou "animalização" no homem é maior com a carne dos animais maiores, menor com as aves, ainda menor com peixes e outros animais de sangue frio, e mínimo quando ele se alimenta apenas de vegetais.

=Perguntador=

Então seria melhor não comer nada?

=Teosofista=

Se ele pudesse viver sem comer, certamente seria.

Mas, como as coisas estão, ele precisa comer para viver, e por isso aconselhamos os estudantes realmente sérios a comerem alimentos que menos obstruam e pesem em seus cérebros e corpos, e que tenham o menor efeito em dificultar e retardar o desenvolvimento de sua intuição, de suas faculdades e poderes internos.

=Perguntador=

Então vocês não adotam todos os argumentos que os vegetarianos em geral costumam usar?

=Teosofista=

Certamente não.

Alguns de seus argumentos são muito fracos e frequentemente baseados em suposições completamente falsas.

Mas, por outro lado, muitas das coisas que dizem são bastante verdadeiras.

Por exemplo, acreditamos que muitas doenças, e especialmente a grande predisposição a doenças que se tornou uma característica tão marcante em nosso tempo, se deve em grande parte ao consumo de carne, e especialmente de carnes enlatadas.

Mas levaria muito tempo para examinar a fundo essa questão do vegetarianismo em seus méritos; portanto, por favor, passemos a outra coisa.

=Perguntador=

Mais uma pergunta.

O que devem fazer os membros da Seção Interna com relação à alimentação quando estão doentes?

=Teosofista=

Seguir o melhor conselho prático que puderem obter, é claro.

Você ainda não compreendeu que nunca impomos obrigações rígidas e inflexíveis nesse aspecto? Lembre-se de uma vez por todas que, em todas essas questões, adotamos uma visão racional, e nunca fanática, das coisas.

Se por doença ou hábito antigo um homem não pode passar sem carne, então, por todos os meios, que a coma. Não é crime; apenas retardará um pouco seu progresso; pois, afinal de contas, as ações e funções puramente corporais são de importância muito menor do que aquilo que o homem _pensa_ e _sente_, quais desejos ele encoraja em sua mente e permite que criem raízes e cresçam ali.

=Perguntador=

Então, com relação ao uso de vinho e bebidas alcoólicas, suponho que vocês não aconselham as pessoas a bebê-los?

=Teosofista=

Eles são piores para o crescimento moral e espiritual do que a carne, pois o álcool em todas as suas formas tem uma influência direta, marcante e muito deletéria sobre a condição psíquica do homem.

O consumo de vinho e bebidas alcoólicas é apenas menos destrutivo para o desenvolvimento dos poderes internos do que o uso habitual de haxixe, ópio e drogas semelhantes.

=TEOSOFIA E CASAMENTO.=

=Perguntador=

Agora, outra pergunta; deve um homem casar-se ou permanecer celibatário?

=Teosofista=

Depende do tipo de homem a que você se refere.

Se você se refere àquele que pretende viver _no_ mundo, alguém que, mesmo sendo um bom e sincero teosofista, e um ardente trabalhador por nossa causa, ainda tem laços e desejos que o prendem ao mundo, que, em suma, não sente que terminou para sempre com o que os homens chamam de vida, e que deseja uma coisa e somente uma coisa — conhecer a verdade e ser capaz de ajudar os outros — então, para tal pessoa, digo que não há razão para que não se case, se quiser correr os riscos dessa loteria em que há muito mais brancos do que prêmios.

Certamente você não pode nos considerar tão absurdos e fanáticos a ponto de pregar contra o casamento por completo? Pelo contrário, exceto em alguns poucos casos excepcionais de ocultismo prático, o casamento é o único remédio contra a imoralidade.

=Perguntador=

Mas por que não se pode adquirir esse conhecimento e poder vivendo uma vida conjugal?

=Teosofista=

Meu caro senhor, não posso entrar em questões fisiológicas com o senhor; mas posso dar-lhe uma resposta óbvia e, creio eu, suficiente, que lhe explicará as razões morais que apresentamos para isso. Pode um homem servir a dois senhores? Não! Então é igualmente impossível para ele dividir sua atenção entre a busca do Ocultismo e uma esposa.

Se ele tentar, certamente falhará em fazer qualquer um dos dois adequadamente; e, permita-me lembrá-lo, o Ocultismo prático é um estudo sério e perigoso demais para um homem empreender, a menos que esteja com a mais absoluta seriedade, e pronto para sacrificar _tudo, a si mesmo em primeiro lugar_, para alcançar seu objetivo.

Mas isso não se aplica aos membros de nossa Seção Interna.

Refiro-me apenas àqueles que estão determinados a trilhar esse caminho de discipulado que conduz à meta mais elevada.

A maioria, senão todos, daqueles que se juntam à nossa Seção Interna são apenas iniciantes, preparando-se nesta vida para entrar de fato nesse caminho em vidas futuras.

=TEOSOFIA E EDUCAÇÃO.=

=Perguntador=

Um de seus argumentos mais fortes contra a inadequação das formas existentes de religião no Ocidente, como também, até certo ponto, contra a filosofia materialista que agora é tão popular, mas que vocês parecem considerar uma abominação da desolação, é a grande quantidade de miséria e sofrimento que inegavelmente existe, especialmente em nossas grandes cidades.

Mas certamente vocês devem reconhecer quanto tem sido, e está sendo, feito para remediar esse estado de coisas pela difusão da educação e pela disseminação da inteligência.

=Teosofista=

As gerações futuras dificilmente lhes agradecerão por tal "disseminação de inteligência", nem sua educação atual fará muito bem às pobres massas famintas.

=Perguntador=

Ah! Mas vocês devem nos dar tempo.

Faz apenas alguns anos que começamos a educar o povo.

=Teosofista=

E o que, pergunto eu, a sua religião cristã tem feito desde o século XV, uma vez que vocês admitem que a educação das massas não foi tentada até agora — exatamente o trabalho, se é que algum houve, que uma igreja e um povo _cristãos_, _isto é_, seguidores de Cristo, deveriam realizar?

=Perguntador=

Bem, vocês podem estar certos; mas agora—

=Teosofista=

Deixe-nos apenas considerar essa questão da educação de um ponto de vista amplo, e eu lhe provarei que vocês estão fazendo mal, não bem, com muitas de suas melhorias tão alardeadas.

As escolas para as crianças mais pobres, embora muito menos úteis do que deveriam ser, são boas em contraste com o ambiente vil a que estão condenadas pela vossa Sociedade moderna.

A _infusão_ de um pouco de Teosofia prática ajudaria cem vezes mais na vida as pobres massas sofredoras do que toda essa infusão de inteligência (inútil).

=Perguntador=

Mas, realmente——

=Teosofista=

Deixe-me terminar, por favor.

Você abriu um assunto sobre o qual nós, teosofistas, sentimos profundamente, e preciso dizer o que penso.

Concordo plenamente que há uma grande vantagem para uma criança pequena criada nos cortiços, tendo o esgoto como parquinho e vivendo em meio à contínua grosseria de gestos e palavras, em ser colocada diariamente em uma sala de aula clara e limpa, decorada com quadros e muitas vezes alegre com flores.

Ali ela é ensinada a ser limpa, gentil, ordenada; ali aprende a cantar e a brincar; tem brinquedos que despertam sua inteligência; aprende a usar os dedos com destreza; é tratada com um sorriso em vez de uma carranca; é gentilmente repreendida ou persuadida em vez de amaldiçoada.

Tudo isso humaniza as crianças, desperta seus cérebros e as torna suscetíveis a influências intelectuais e morais.

As escolas não são tudo o que poderiam e deveriam ser; mas, comparadas aos lares, são paraísos; e lentamente estão reagindo sobre os lares.

Mas, embora isso seja verdade para muitas das escolas públicas, o vosso sistema merece o pior que se possa dizer dele.

=Perguntador=

Assim seja; continue.

=Teosofista=

Qual é o _verdadeiro_ objetivo da educação moderna? É cultivar e desenvolver a mente na direção certa; ensinar as pessoas deserdadas e infelizes a suportar com fortaleza o fardo da vida (a elas destinado pelo Karma); fortalecer sua vontade; inculcar nelas o amor ao próximo e o sentimento de interdependência mútua e fraternidade; e assim treinar e formar o caráter para a vida prática? Nem um pouco disso. E, no entanto, esses são inegavelmente os objetivos de toda educação verdadeira.

Ninguém nega isso; todos os vossos educadores admitem e falam muito alto sobre o assunto.

Mas qual é o resultado prático de sua ação? Todo jovem e rapaz, e até mesmo todos os da geração mais jovem de mestres-escolas, responderão: "O objetivo da educação moderna é passar em exames", um sistema que não visa desenvolver a emulação sadia, mas gerar e cultivar ciúme, inveja, quase ódio, nos jovens uns pelos outros, e assim treiná-los para uma vida de egoísmo feroz e luta por honrarias e vantagens, em vez de sentimentos bondosos.

=Perguntador=

Devo admitir que você tem razão nisso.

=Teosofista=

E o que são esses exames — o terror da meninice e da juventude modernas? São simplesmente um método de classificação pelo qual os resultados de seu ensino escolar são tabulados.

Em outras palavras, formam a aplicação prática dos métodos científicos modernos ao _genus homo, qua_ intelecção.

Ora, a "ciência" ensina que o intelecto é um resultado da interação mecânica da matéria cerebral; portanto, é apenas lógico que a educação moderna seja quase inteiramente mecânica — uma espécie de máquina automática para a fabricação de intelecto em grande escala.

Muito pouca experiência com exames é suficiente para mostrar que a educação que eles produzem é simplesmente um treinamento da memória física e, mais cedo ou mais tarde, todas as suas escolas afundarão a esse nível.

Quanto a qualquer cultivo real e sólido do poder de pensar e raciocinar, é simplesmente impossível enquanto tudo tiver de ser julgado pelos resultados testados por exames competitivos.

Além disso, o treinamento escolar é da mais extrema importância na formação do caráter, especialmente em seu aspecto moral.

Ora, do início ao fim, seu sistema moderno baseia-se nas chamadas revelações científicas: "A luta pela existência" e a "sobrevivência do mais apto". Durante toda a sua vida inicial, cada homem tem essas ideias inculcadas por exemplo prático e experiência, bem como por ensino direto, até que se torna impossível erradicar de sua mente a ideia de que o "eu", o eu inferior, pessoal e animal, é o fim último e o propósito central da vida.

Aqui você tem a grande fonte de toda a miséria, crime e egoísmo impiedoso posteriores, que você admite tanto quanto eu. O egoísmo, como foi dito repetidas vezes, é a maldição da humanidade e o pai prolífico de todos os males e crimes desta vida; e são as suas escolas que constituem os viveiros de tal egoísmo.

=Perguntador=

Isso é muito bonito em termos gerais, mas eu gostaria de alguns fatos, e também de aprender como isso pode ser remediado.

=Teosofista=

Muito bem, tentarei satisfazê-lo.

Há três grandes divisões de estabelecimentos escolares: escolas internas, de classe média e públicas, subindo na escala desde as mais grosseiramente comerciais até as classicistas idealistas, com muitas permutações e combinações.

O comercial prático gera o lado moderno, e o clássico antigo e ortodoxo reflete sua pesada respeitabilidade até mesmo nos estabelecimentos de professores-alunos do conselho escolar.

Aqui vemos claramente o comercial científico e material suplantando o clássico ortodoxo e efetado.

Tampouco a razão é difícil de encontrar.

Os objetivos deste ramo da educação são, então, libras, xelins e pence, o _summum bonum_ do século XIX.

Assim, as energias geradas pelas moléculas cerebrais de seus adeptos estão todas concentradas em um único ponto e são, portanto, até certo ponto, um exército organizado de intelectos _educados_ e especulativos da minoria de homens, treinados contra as hostes das massas ignorantes e simplórias, condenadas a serem vampirizadas, vividas e oprimidas por seus irmãos intelectualmente mais fortes.

Tal treinamento não é apenas _antiteosófico_, é simplesmente ANTI-CRISTÃO.

Resultado: O resultado direto deste ramo da educação é uma inundação do mercado com máquinas de fazer dinheiro, com homens-animais egoístas e sem coração, que foram cuidadosamente treinados para se aproveitar de seus semelhantes e tirar vantagem da ignorância de seus irmãos mais fracos!

=Perguntador=

Bem, mas você não pode afirmar isso de nossas grandes escolas públicas, de qualquer forma?

=Teosofista=

Não exatamente, é verdade.

Mas embora a _forma_ seja diferente, o espírito animador é o mesmo: _antiteosófico_ e _anticristão_, quer Eton e Harrow produzam cientistas ou divinos e teólogos.

=Perguntador=

Certamente você não quer chamar Eton e Harrow de "comerciais"?

=Teosofista=

Não. É claro que o sistema clássico é acima de tudo _respeitável_, e nos dias de hoje é produtivo de algum bem.

Ele ainda permanece o favorito em nossas grandes escolas públicas, onde não apenas uma educação intelectual, mas também social é obtida.

É, portanto, de primordial importância que os meninos obtusos de pais aristocráticos e abastados frequentem tais escolas para encontrar o restante da jovem vida das classes de "sangue" e dinheiro.

Mas, infelizmente, há uma enorme competição até mesmo para o ingresso; pois as classes endinheiradas estão aumentando, e meninos pobres, porém inteligentes, buscam entrar nas escolas públicas por meio das ricas bolsas de estudo, tanto nas próprias escolas quanto delas para as Universidades.

=Perguntador=

Segundo essa visão, os "obtusos" mais ricos têm de trabalhar ainda mais do que seus colegas mais pobres?

=Teosofista=

Assim é. Mas, por estranho que pareça, os fiéis do culto da "Sobrevivência do mais apto" não praticam seu credo; pois todo o seu esforço é fazer com que os naturalmente inaptos suplantem os aptos.

Assim, por meio de subornos de grandes somas de dinheiro, eles atraem os melhores professores de seus alunos naturais para mecanizar sua prole naturalmente inapta em profissões que eles inutilmente superlotam.

=Perguntador=

E a que você atribui tudo isso?

=Teosofista=

Tudo isso se deve à perniciosidade de um sistema que produz mercadorias sob encomenda, independentemente das propensões naturais e dos talentos do jovem.

O pobre pequeno candidato a esse paraíso progressista do aprendizado chega quase diretamente do berçário à esteira de uma escola preparatória para filhos de cavalheiros.

Aqui ele é imediatamente agarrado pelos operários da fábrica matério-intelectual, e abarrotado de Latim, Francês e Acidente Grego, Datas e Tabelas, de modo que, se tiver algum gênio natural, ele é rapidamente espremido para fora dele pelos rolos do que Carlyle tão bem chamou de "vocábulos mortos".

=Perguntador=

Mas certamente ele aprende algo além de "vocábulos mortos", e muito daquilo que pode conduzi-lo diretamente à _Teosofia_, se não inteiramente à Sociedade Teosófica?

=Teosofista=

Não muito.

Pois de história, ele alcançará apenas conhecimento suficiente de sua própria nação em particular para revesti-lo com uma armadura de aço de preconceito contra todos os outros povos, e ser encharcado nos pântanos fétidos do ódio nacional cronificado e da sede de sangue; e certamente, você não chamaria isso de—_Teosofia_?

=Perguntador=

Quais são suas objeções adicionais?

=Teosofista=

Some-se a isso um conhecimento superficial de fatos bíblicos selecionados, assim chamados, do estudo dos quais todo intelecto é eliminado.

É simplesmente uma lição de memória, o "porquê" do professor sendo um "porquê" de circunstâncias e não de razão.

=Perguntador=

Sim; mas já o ouvi congratular-se pelo número cada vez maior de Agnósticos e Ateus em nossos dias, de modo que parece que mesmo pessoas treinadas no sistema que você tanto critica _aprendem_ a pensar e raciocinar por si mesmas.

=Teosofista=

Sim; mas isso se deve antes a uma reação saudável contra esse sistema do que a ele. Preferimos imensamente mais em nossa Sociedade Agnósticos, e até mesmo Ateus declarados, a fanáticos de qualquer religião.

A mente de um Agnóstico está sempre aberta à verdade; enquanto o fanático é cegado por ela como o sol cega uma coruja.

Os melhores—_isto é_, os mais amantes da verdade, filantrópicos e honestos—de nossos Membros foram, e são, Agnósticos e Ateus (descrentes em um Deus _pessoal_). Mas não há rapazes e moças de pensamento _livre_, e geralmente a educação precoce deixa sua marca na forma de uma mente limitada e distorcida.

Um sistema de educação adequado e sadio deveria produzir a mente mais vigorosa e liberal, estritamente treinada no pensamento lógico e preciso, e não na fé cega.

Como pode esperar bons resultados, enquanto perverte a faculdade de raciocínio de suas crianças ao ordenar-lhes que acreditem nos milagres da Bíblia no domingo, enquanto nos outros seis dias da semana lhes ensina que tais coisas são cientificamente impossíveis?

=Perguntador=

O que você faria, então?

=Teosofista=

Se tivéssemos dinheiro, fundaríamos escolas que formariam algo mais do que candidatos à fome que sabem ler e escrever.

As crianças deveriam, acima de tudo, ser ensinadas a confiar em si mesmas, ao amor por todos os homens, ao altruísmo, à caridade mútua e, mais do que qualquer outra coisa, a pensar e raciocinar por si mesmas.

Reduziríamos o trabalho puramente mecânico da memória a um mínimo absoluto e dedicaríamos o tempo ao desenvolvimento e treinamento dos sentidos internos, faculdades e capacidades latentes.

Procuraríamos tratar cada criança como uma unidade e educá-la de modo a produzir o desdobramento mais harmonioso e equilibrado de seus poderes, a fim de que suas aptidões especiais encontrassem seu pleno desenvolvimento natural.

Devemos almejar criar homens e mulheres _livres_, livres intelectualmente, livres moralmente, sem preconceitos em todos os aspectos e, acima de tudo, _altruístas_. E acreditamos que muito, senão tudo, disso poderia ser obtido por uma educação _adequada e verdadeiramente teosófica_.

POR QUE, ENTÃO, HÁ TANTO PRECONCEITO CONTRA A S.T.?

=Perguntador=

Se a Teosofia é mesmo metade do que você diz, por que deveria existir tamanha aversão terrível contra ela? Isso é um problema ainda maior do que qualquer outro.

=Teosofista=

É; mas lembre-se de quantos adversários poderosos despertamos desde a formação de nossa Sociedade.

Como acabei de dizer, se o movimento teosófico fosse uma dessas inúmeras modas modernas, tão inofensivas no fim quanto são efêmeras, seria simplesmente ridicularizado — como o é agora por aqueles que ainda não compreendem seu verdadeiro propósito — e deixado em total paz.

Mas não é nada disso.

Intrinsecamente, a Teosofia é o movimento mais sério desta era; e, além disso, um que ameaça a própria vida da maioria das imposturas consagradas pelo tempo, preconceitos e males sociais da atualidade — aqueles males que engordam e fazem felizes os dez do topo e seus imitadores e bajuladores, as dezenas abastadas das classes médias, enquanto esmagam e matam de fome os milhões de pobres.

Pense nisso, e você entenderá facilmente a razão de uma perseguição tão implacável por parte daqueles outros que, mais observadores e perspicazes, veem a verdadeira natureza da Teosofia e, portanto, a temem.

=Perguntador=

Quer dizer que é porque alguns compreenderam aonde a Teosofia leva que eles tentam esmagar o movimento? Mas, se a Teosofia conduz apenas ao bem, certamente você não pode estar preparado para proferir uma acusação tão terrível de perfídia, crueldade e traição, mesmo contra esses poucos?

=Teosofista=

Estou preparado, ao contrário.

Não chamo os inimigos com os quais tivemos de lutar durante os primeiros nove ou dez anos de existência da Sociedade de poderosos ou "perigosos"; mas apenas aqueles que se levantaram contra nós nos últimos três ou quatro anos.

E estes não falam, escrevem nem pregam contra a Teosofia, mas trabalham em silêncio e por trás das costas dos tolos fantoches que atuam como suas _marionetes_ visíveis. Contudo, se _invisíveis_ para a maioria dos membros de nossa Sociedade, são bem conhecidos dos verdadeiros "Fundadores" e protetores de nossa Sociedade.

Mas eles devem permanecer, por certas razões, sem nome por enquanto.

=Perguntador=

E são eles conhecidos de muitos de vós, ou apenas de vós mesmo?

=Teosofista=

Nunca disse que _eu_ os conhecia.

Posso ou não conhecê-los — mas sei _deles_, e isso é suficiente; e _desafio-os a fazerem o seu pior_. Eles podem causar grande dano e lançar confusão em nossas fileiras, especialmente entre os fracos de coração, e aqueles que só podem julgar pelas aparências.

_Eles não esmagarão a Sociedade_, façam o que fizerem.

À parte desses inimigos verdadeiramente perigosos — "perigosos", contudo, apenas para aqueles teosofistas que são indignos do nome, e cujo lugar é antes _fora_ do que _dentro_ da S.T. — o número de nossos opositores é mais que considerável.

=Perguntador=

Podeis nomear estes, ao menos, se não falardes dos outros?

=Teosofista=

Claro que posso.

Temos de lutar contra (1) o ódio dos espiritualistas, americanos, ingleses e franceses; (2) a oposição constante do clero de todas as denominações; (3) especialmente o ódio implacável e a perseguição dos missionários na Índia; (4) isso levou ao famoso e infame ataque à nossa Sociedade Teosófica pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas, um ataque que foi instigado por uma conspiração regular organizada pelos missionários na Índia.

Por último, devemos contar com a deserção de vários membros proeminentes (?), por razões que já expliquei, todos os quais contribuíram ao máximo para aumentar o preconceito contra nós.

=Perguntador=

Não podeis dar-me mais detalhes sobre estes, para que eu saiba o que responder quando perguntado — uma breve história da Sociedade, em suma; e por que o mundo acredita em tudo isso?

=Teosofista=

A razão é simples.

A maioria dos estranhos não sabia absolutamente nada sobre a própria Sociedade, seus motivos, objetivos ou crenças.

Desde o seu início, o mundo viu na Teosofia nada além de certos fenômenos maravilhosos, nos quais dois terços dos não espiritualistas não acreditam.

Muito em breve a Sociedade passou a ser considerada um corpo que fingia possuir poderes "milagrosos".

O mundo nunca percebeu que a Sociedade ensinava absoluta descrença em _milagre_ ou mesmo na possibilidade de tal; que na Sociedade havia apenas algumas poucas pessoas que possuíam tais poderes psíquicos e poucas que se importavam com eles.

Tampouco compreendeu que os fenômenos nunca eram produzidos publicamente, mas apenas privadamente, para amigos, e meramente dados como um acessório, para provar por demonstração direta que tais coisas podiam ser produzidas sem quartos escuros, espíritos, médiuns, ou qualquer dos aparatos usuais.

Infelizmente, essa concepção errônea foi grandemente fortalecida e exagerada pelo primeiro livro sobre o assunto que despertou muita atenção na Europa — o “_Mundo Oculto_” do Sr. Sinnett. Se essa obra fez muito para trazer a Sociedade à proeminência, atraiu ainda mais opróbrio, zombaria e deturpação sobre os infelizes heróis e heroína da mesma.

Disso o autor foi mais que avisado no _Mundo Oculto_, mas não deu atenção à _profecia_ — pois tal era, embora semivelada.

=Perguntador=

Por quê, e desde quando, os espiritualistas vos odeiam?

=Teosofista=

Desde o primeiro dia da existência da Sociedade.

Assim que o fato se tornou conhecido de que, como corpo, a S.T. não acreditava em comunicações com os espíritos dos mortos, mas considerava os chamados “espíritos” como, na maioria das vezes, reflexos astrais de personalidades desencarnadas, cascas, etc., os espiritualistas conceberam um ódio violento contra nós e especialmente contra os Fundadores.

Esse ódio encontrou expressão em todos os tipos de calúnia, observações pessoais pouco caridosas e absurdas deturpações dos ensinamentos teosóficos em todos os órgãos espiritualistas americanos.

Por anos fomos perseguidos, denunciados e abusados.

Isso começou em 1875 e continua até o presente dia.

Em 1879, a sede da S.T. foi transferida de Nova York para Bombaim, Índia, e então permanentemente para Madras.

Quando o primeiro ramo de nossa Sociedade, a S.T. Britânica, foi fundado em Londres, os espiritualistas ingleses vieram em armas contra nós, como os americanos haviam feito; e os espíritas franceses seguiram o exemplo.

=Perguntador=

Mas por que o clero deveria ser hostil a vós, quando, afinal, a principal tendência das doutrinas teosóficas é oposta ao Materialismo, o grande inimigo de todas as formas de religião em nossos dias?

=Teosofista=

O Clero opôs-se a nós com base no princípio geral de que "Quem não está comigo está contra mim". Como a Teosofia não concorda com nenhuma Seita ou Credo em particular, é considerada inimiga de todos igualmente, porque ensina que todos estão, mais ou menos, enganados.

Os missionários na Índia nos odiavam e tentaram nos esmagar porque viam a flor da juventude indiana educada e os brâmanes, que são quase inacessíveis para eles, unindo-se à Sociedade em grande número.

E, no entanto, à parte desse ódio geral de classe, a S.T. conta em suas fileiras muitos clérigos, e até mesmo um ou dois bispos.

=Perguntador=

E o que levou a S.P.R. a entrar em campo contra vocês? Vocês estavam ambos seguindo a mesma linha de estudo, em alguns aspectos, e vários dos Pesquisadores Psíquicos pertenciam à sua sociedade.

=Teosofista=

Em primeiro lugar, éramos muito bons amigos dos líderes da S.P.R.; mas quando o ataque aos fenômenos apareceu na _Christian College Magazine_, apoiado pelas pretensas revelações de um criado, a S.P.R. descobriu que havia se comprometido ao publicar em seus "Proceedings" muitos dos fenômenos que ocorreram em conexão com a S.T. A ambição deles é posar como um corpo _autoritativo_ e _estritamente científico_; de modo que tiveram que escolher entre manter essa posição jogando a S.T. ao mar e até tentando destruí-la, e verem-se fundidos, na opinião dos saduceus do _grand monde_, com os "crédulos" teosofistas e espiritualistas.

Não havia saída para eles, não havia duas escolhas, e eles escolheram nos jogar ao mar.

Era uma questão de necessidade terrível para eles.

Mas tão duramente pressionados estavam para encontrar qualquer motivo aparentemente razoável para a vida de devoção e trabalho incessante levada pelos dois Fundadores, e para a completa ausência de qualquer lucro pecuniário ou outra vantagem para eles, que nossos inimigos foram obrigados a recorrer à três vezes absurda, eminentemente ridícula, e agora famosa "teoria do espião russo", para explicar essa devoção.

Mas o velho ditado, "O sangue do mártir é a semente da Igreja", provou-se mais uma vez correto.

Após o primeiro choque desse ataque, a S.T. dobrou e triplicou seus números, mas a má impressão produzida ainda permanece.

Um autor francês tinha razão ao dizer: "_Calomniez, calomniez toujours et encore, il en restera toujours quelque chose._" Portanto, é que preconceitos injustos são correntes, e que tudo relacionado à S.T., e especialmente aos seus Fundadores, é tão falsamente distorcido, porque baseado apenas em boatos maliciosos.

=Perguntador=

No entanto, nos 14 anos em que a Sociedade existe, vocês devem ter tido tempo e oportunidade suficientes para se mostrarem e mostrarem seu trabalho sob sua verdadeira luz?

=Teosofista=

Como, ou quando, nos foi dada tal oportunidade? Nossos membros mais proeminentes tinham aversão a qualquer coisa que parecesse justificação pública de si mesmos.

Sua política sempre foi: "Temos que superar isso"; e "O que importa o que os jornais dizem, ou o que as pessoas pensam?" A Sociedade era pobre demais para enviar palestrantes públicos, e portanto as exposições de nossas visões e doutrinas foram confinadas a algumas obras teosóficas que tiveram sucesso, mas que as pessoas frequentemente entendiam mal, ou só conheciam por ouvir dizer.

Nossos periódicos foram, e ainda são, boicotados; nossas obras literárias ignoradas; e até hoje ninguém parece sequer ter certeza se os teosofistas são uma espécie de adoradores de Serpente-e-Diabo, ou simplesmente "Budistas Esotéricos"—seja o que isso significar.

Era inútil para nós continuarmos negando, dia após dia e ano após ano, todo tipo de histórias inconcebíveis e absurdas sobre nós; pois, mal uma era descartada, outra, ainda mais absurda e maliciosa, nascia das cinzas da primeira.

Infelizmente, a natureza humana é constituída de tal forma que qualquer bem dito sobre uma pessoa é imediatamente esquecido e nunca repetido.

Mas basta alguém proferir uma calúnia, ou iniciar uma história—por mais absurda, falsa ou incrível que seja, se apenas estiver conectada a algum personagem impopular—para que ela tenha sucesso e seja prontamente aceita como um fato histórico.

Como a “CALÚNIA” de _Dom Basílio_, o rumor surge, a princípio, como uma brisa suave e gentil que mal agita a grama sob seus pés, e surge não se sabe de onde; então, no mais curto espaço de tempo, transforma-se em um vento forte, começa a soprar como uma tempestade e, imediatamente, torna-se um furacão rugidor! Uma calúnia entre notícias é o que um polvo é entre os peixes; ela suga a mente, agarra-se à nossa memória, que dela se alimenta, deixando marcas indeléveis mesmo depois de a calúnia ter sido corporalmente destruída.

Uma mentira caluniosa é a única chave-mestra que abre qualquer cérebro, seja ele qual for.

É certo que receberá boas-vindas e hospitalidade em toda mente humana, da mais elevada à mais baixa, se houver apenas um pouco de preconceito, e não importa de quão vil origem e motivo tenha partido.

=Perguntador=

Não acha sua afirmação demasiado abrangente? O inglês nunca foi excessivamente propenso a acreditar em tudo o que se diz, e nossa nação é proverbialmente conhecida por seu amor ao jogo limpo. Uma mentira não tem pernas para se sustentar por muito tempo, e—

=Teosofista=

O inglês está tão pronto para acreditar no mal quanto um homem de qualquer outra nação; pois é a natureza humana, e não uma característica nacional.

Quanto às mentiras, se não têm pernas para se sustentar, segundo o provérbio, têm asas extremamente rápidas; e podem, e de fato voam, mais longe e mais amplamente do que qualquer outro tipo de notícia, na Inglaterra como em qualquer outro lugar.

Lembre-se de que mentiras e calúnias são o único tipo de literatura que podemos sempre obter gratuitamente, e sem pagar qualquer assinatura.

Podemos fazer a experiência, se quiser.

Você, que está tão interessado em assuntos teosóficos e ouviu tanto sobre nós, quer me fazer perguntas sobre tantos desses rumores e “ditos por ouvir dizer” quantos puder imaginar? Eu lhe responderei a verdade, e nada além da verdade, sujeita à mais estrita verificação.

=Perguntador=

Antes de mudarmos de assunto, deixe-nos ter toda a verdade sobre este.

Agora, alguns escritores chamaram seus ensinamentos de “imorais e perniciosos”; outros, com base no fato de que muitos supostos “autoridades” e orientalistas encontram nas religiões indianas nada além de adoração ao sexo em suas múltiplas formas, acusam-nos de ensinar nada melhor do que o culto fálico.

Dizem que, uma vez que a Teosofia moderna está tão intimamente aliada ao pensamento oriental, e particularmente indiano, ela não pode estar livre dessa mácula.

Ocasionalmente, chegam até a acusar os teosofistas europeus de reviver as práticas associadas a esse culto.

Que tal isso?

=Teosofista=

Já ouvi e li sobre isso antes, e respondo que nenhuma calúnia mais totalmente infundada e mentirosa jamais foi inventada e divulgada.

“Pessoas tolas só podem ver sonhos tolos”, diz um provérbio russo.

Faz o sangue ferver ouvir tais acusações vis feitas sem o menor fundamento, e com base em meras inferências.

Pergunte às centenas de honrados homens e mulheres ingleses que são membros da Sociedade Teosófica há anos se algum preceito _imoral_ ou doutrina _perniciosa_ já lhes foi ensinado.

Abra a _Doutrina Secreta_, e você encontrará página após página denunciando os judeus e outras nações precisamente por causa dessa devoção aos ritos fálicos, devida à interpretação literal do simbolismo da natureza e às concepções grosseiramente materialistas de seu dualismo em todos os credos _exotéricos_.

Tal deturpação incessante e maliciosa de nossos ensinamentos e crenças é realmente vergonhosa.

=Perguntador=

Mas você não pode negar que o elemento fálico _existe_ nas religiões do Oriente?

=Teosofista=

Nem nego isso; apenas sustento que isso não prova mais do que sua presença no Cristianismo, a religião do Ocidente.

Leia os _Rosacruzes_, de Hargrave Jennings, se quiser se certificar disso. No Oriente, o simbolismo fálico é, talvez, mais cru, porque mais fiel à natureza, ou antes diria, mais _ingênuo_ e sincero do que no Ocidente.

Mas não é mais licencioso, nem sugere à mente oriental as mesmas ideias grosseiras e rudes que à ocidental, com, talvez, uma ou duas exceções, como a vergonhosa seita conhecida como “Maharajah”, ou seita _Vallabhachârya_.

=Perguntador=

Um escritor no periódico _Agnóstico_ — um de seus acusadores — acaba de insinuar que os seguidores dessa seita vergonhosa são teosofistas e “reivindicam verdadeira percepção teosófica”.

=Teosofista=

Ele escreveu uma falsidade, e isso é tudo.

Nunca houve, nem há atualmente, um único Vallabhachârya em nossa Sociedade.

Quanto a eles terem, ou reivindicarem, percepção teosófica, isso é outra mentira, baseada em ignorância crassa sobre as seitas indianas.

Seu “Maharajah” apenas reivindica o direito ao dinheiro, às esposas e às filhas de seus tolos seguidores, e nada mais.

Esta seita é desprezada por todos os outros hindus.

Mas você encontrará todo o assunto tratado extensamente na _Doutrina Secreta_, à qual devo novamente remetê-lo para explicações detalhadas.

Para concluir, a própria alma da Teosofia é totalmente contrária ao culto fálico; e sua seção oculta ou esotérica ainda mais do que os ensinamentos exotéricos.

Nunca houve uma declaração mais mentirosa do que a acima.

E agora faça-me outras perguntas.

=A SOCIEDADE TEOSÓFICA É UM EMPREENDIMENTO PARA GANHAR DINHEIRO?=

=Perguntador=

Concordo.

Bem, algum dos Fundadores, Coronel H. S. Olcott ou H. P. Blavatsky, alguma vez ganhou dinheiro, lucro, ou obteve qualquer benefício mundano da S.T., como alguns jornais dizem?

=Teosofista=

Nem um centavo.

Os jornais mentem.

Pelo contrário, ambos deram tudo o que tinham e literalmente se empobreceram.

Quanto a "benefícios mundanos", pense nas calúnias e difamações a que foram submetidos, e então faça a pergunta!

=Perguntador=

No entanto, li em muitos órgãos missionários que as taxas de inscrição e assinaturas cobriam muito mais do que todas as despesas; e um deles disse que os Fundadores estavam ganhando vinte mil libras por ano!

=Teosofista=

Isso é uma mentira, como muitas outras.

Nas contas publicadas de janeiro de 1889, você encontrará uma declaração exata de _todo_ o dinheiro já recebido de qualquer fonte desde 1879. O total recebido de todas as fontes (taxas de inscrição, doações, etc., etc.) durante esses dez anos é inferior a seis mil libras, e disso uma grande parte foi contribuída pelos próprios Fundadores com os rendimentos de seus recursos privados e de seu trabalho literário.

Tudo isso foi aberta e oficialmente admitido, até mesmo por nossos inimigos, a Sociedade de Pesquisas Psíquicas.

E agora ambos os Fundadores estão sem dinheiro; um, velho demais e doente para trabalhar como fazia antes, incapaz de reservar tempo para trabalho literário externo para ajudar a Sociedade financeiramente, só pode escrever para a causa teosófica; o outro continua trabalhando por ela como antes, e recebe tão poucos agradecimentos por isso.

=Perguntador=

Mas certamente eles precisam de dinheiro para viver?

=Teosofista=

De modo algum.

Enquanto tiverem comida e moradia, mesmo que devam isso à devoção de alguns amigos, precisam de pouco mais.

=Perguntador=

Mas não poderia Madame Blavatsky, especialmente, ganhar mais do que o suficiente para viver com seus escritos?

=Teosofista=

Quando na Índia, ela recebia, em média, cerca de mil rúpias por ano por artigos contribuídos a jornais russos e outros, mas doava tudo à Sociedade.

=Perguntador=

Artigos políticos?

=Teosofista=

Nunca.

Tudo o que ela escreveu durante os sete anos de sua permanência na Índia está impresso.

Trata apenas das religiões, etnologia e costumes da Índia, e da Teosofia—nunca de política, da qual ela nada sabe e pouco se importa.

Além disso, há dois anos ela recusou vários contratos que somavam cerca de 1.200 rublos em ouro por mês; pois não podia aceitá-los sem abandonar seu trabalho pela Sociedade, que exigia todo o seu tempo e força.

Ela tem documentos para provar isso.

=Perguntador=

Mas por que não poderiam tanto ela quanto o Coronel Olcott fazer como outros—notadamente muitos teosofistas—fazem; seguir suas respectivas profissões e dedicar o excedente de seu tempo ao trabalho da Sociedade?

=Teosofista=

Porque servindo a dois senhores, ou o trabalho profissional ou o filantrópico teria que sofrer.

Todo verdadeiro teosofista é moralmente obrigado a sacrificar o pessoal ao impessoal, seu próprio bem _presente_ ao benefício _futuro_ de outras pessoas.

Se os Fundadores não dão o exemplo, quem dará?

=Perguntador=

E há muitos que o seguem?

=Teosofista=

Sou obrigado a responder-lhe a verdade.

Na Europa, cerca de meia dúzia no total, em mais desse número de Ramos.

=Perguntador=

Então não é verdade que a Sociedade Teosófica possui um grande capital ou dotação própria?

=Teosofista=

É falso, pois ela não tem nenhum.

Agora que a taxa de entrada de 1 e a pequena anuidade foram abolidas, é até uma questão duvidosa se o pessoal na sede na Índia não será em breve morto de fome.

=Perguntador=

Então por que não levantar subscrições?

=Teosofista=

Não somos o Exército da Salvação; _não podemos_ e _nunca_ pedimos esmolas; nem nunca seguimos o exemplo das Igrejas e seitas e "fizemos coletas". O que é ocasionalmente enviado para o sustento da Sociedade, as pequenas somas contribuídas por alguns Membros devotados, são todas doações voluntárias.

=Perguntador=

Mas ouvi falar de grandes somas de dinheiro dadas à Mme.

Blavatsky.

Foi dito há quatro anos que ela recebeu 5.000 de um rico e jovem "Fellow", que foi se juntar a eles na Índia, e 10.000 de outro cavalheiro americano, rico e conhecido, um de seus membros que morreu na Europa há quatro anos.

=Teosofista=

Diga àqueles que lhe contaram isso que eles próprios proferem, ou repetem, uma grosseira falsidade.

_Nunca_ "Madame Blavatsky" _pediu ou recebeu_ UM CENTAVO dos dois cavalheiros acima mencionados, nem nada parecido de qualquer outra pessoa, desde que a Sociedade Teosófica foi fundada.

Que qualquer homem vivo tente comprovar esta calúnia, e será mais fácil para ele provar que o Banco da Inglaterra está falido do que provar que a dita "Fundadora" jamais obteve qualquer dinheiro com a Teosofia.

Estas duas calúnias foram iniciadas por duas damas de alta linhagem, pertencentes à aristocracia londrina, e foram imediatamente rastreadas e refutadas.

São os corpos mortos, as carcaças de duas invenções, que, após terem sido sepultadas no mar do esquecimento, são mais uma vez erguidas à superfície das águas estagnadas da difamação.

=Perguntador=

Então me contaram sobre vários _legados_ deixados à S.T. Um — cerca de 8.000 — foi deixado a ela por um inglês excêntrico, que nem sequer pertencia à Sociedade.

O outro — 3.000 ou 4.000 — foi testado por um F.T.S. australiano. Isso é verdade?

=Teosofista=

Ouvi falar do primeiro; e também sei que, quer tenha sido legalmente deixado ou não, a S.T. nunca se beneficiou dele, nem os Fundadores foram oficialmente notificados disso. Pois, como nossa Sociedade não era então uma entidade com carta constitutiva, e portanto não tinha existência legal, o Juiz do Tribunal de Sucessões, conforme nos foi dito, não deu atenção a tal legado e transferiu a quantia para os herdeiros.

Isso quanto ao primeiro.

Quanto ao segundo, é bastante verdadeiro.

O testador era um de nossos dedicados Fellows, e legou tudo o que tinha à S.T. Mas quando o Presidente, Coronel Olcott, veio a examinar o assunto, descobriu que o testador tinha filhos que ele havia deserdado por razões familiares.

Portanto, ele convocou um conselho, e foi decidido que o legado deveria ser recusado, e os valores passados aos herdeiros legais.

A Sociedade Teosófica seria infiel ao seu nome se lucrasse com dinheiro ao qual outros têm direito virtualmente, pelo menos segundo os princípios teosóficos, se não legalmente.

=Perguntador=

Novamente, e digo isto com base na autoridade do vosso próprio Jornal, o _Theosophist_, há um Rajá da Índia que doou à Sociedade 25.000 rúpias.

Não lhe agradeceram pela sua grande generosidade no _Theosophist_ de janeiro de 1888?

=Teosofista=

Agradecemos, nestas palavras: "Que os agradecimentos da Convenção sejam transmitidos a S. A. o Marajá ... pela sua _prometida dádiva magnânima_ de 25.000 Rúpias para o Fundo da Sociedade." Os agradecimentos foram devidamente transmitidos, mas o dinheiro ainda é uma "promessa" e nunca chegou à Sede.

=Perguntador=

Mas certamente, se o Marajá prometeu e recebeu agradecimentos pela sua dádiva pública e impressa, ele cumprirá a sua palavra?

=Teosofista=

Pode ser, embora a promessa tenha 18 meses.

Falo do presente e não do futuro.

=Perguntador=

Então como propõem continuar?

=Teosofista=

Enquanto a S.T. tiver alguns membros devotados dispostos a trabalhar por ela sem recompensa nem agradecimentos, enquanto alguns bons Teosofistas a apoiarem com doações ocasionais, enquanto isso ela existirá, e nada poderá esmagá-la.

=Perguntador=

Ouvi muitos Teosofistas falarem de um "poder por detrás da Sociedade" e de certos "Mahatmas", mencionados também nas obras do Sr. Sinnett, que se diz terem fundado a Sociedade, para a vigiar e proteger.

=Teosofista=

Podeis rir, mas é assim.

=O QUADRO DE TRABALHO DA S.T.=

=Perguntador=

Esses homens, ouvi dizer, são grandes Adeptos, Alquimistas, e o que mais.

Se, então, podem transformar chumbo em ouro e ganhar quanto dinheiro quiserem, além de fazerem todo o tipo de milagres à vontade, como relatado no "Mundo Oculto" do Sr. Sinnett, por que não vos arranjam dinheiro e não sustentam os Fundadores e a Sociedade com conforto?

=Teosofista=

Porque eles não fundaram um "clube de milagres". Porque a Sociedade se destina a ajudar os homens a desenvolver os poderes latentes neles através dos seus próprios esforços e mérito.

Porque, quer produzam ou não fenómenos, eles não são _falsificadores de moeda_; nem lançariam uma tentação adicional e muito forte no caminho dos membros e candidatos: _A Teosofia não se compra_. Até agora, nos últimos 14 anos, nenhum membro trabalhador recebeu jamais pagamento ou salário, quer dos Mestres, quer da Sociedade.

=Perguntador=

Então nenhum dos vossos trabalhadores é pago?

=Teosofista=

Até agora, nenhum.

Mas como todos precisam comer, beber e vestir-se, todos aqueles que não possuem meios próprios e dedicam todo o seu tempo ao trabalho da sociedade são providos do necessário à vida na Sede em Madras, Índia, embora essas "necessidades" sejam bem humildes, na verdade! (Ver Regras no final.) Mas agora que o trabalho da Sociedade aumentou tanto e continua aumentando (N.B., _devido a calúnias_) na Europa, precisamos de mais mãos trabalhadoras.

Esperamos ter alguns membros que doravante serão remunerados—se a palavra _pode_ ser usada nos casos em questão.

Pois cada um desses Membros, que se preparam para dedicar _todo_ o seu tempo à Sociedade, estão abandonando bons cargos oficiais com excelentes perspectivas, para trabalhar por nós por _menos da metade de seu salário anterior_.

=Perguntador=

E quem fornecerá os fundos para isso?

=Teosofista=

Alguns de nossos Membros que são um pouco mais ricos que os demais.

O homem que especulasse ou lucrasse com a Teosofia seria indigno de permanecer em nossas fileiras.

=Perguntador=

Mas certamente vocês devem ganhar dinheiro com seus livros, revistas e outras publicações?

=Teosofista=

O _Theosophist_ de Madras, sozinho entre as revistas, dá lucro, e este tem sido regularmente revertido para a Sociedade, ano após ano, como mostram as contas publicadas.

_Lucifer_ está lenta mas firmemente engolindo dinheiro, nunca tendo sequer pago as despesas—graças ao boicote dos piedosos livreiros e bancas de estação.

O _Lotus_, na França—iniciado com os meios privados e não muito amplos de um Teosofista, que a ele dedicou todo o seu tempo e trabalho—deixou de existir, devido às mesmas causas, infelizmente! Nem o _Path_ de Nova York cobre suas despesas, enquanto a _Revue Théosophique_ de Paris acaba de ser lançada, também com os meios privados de uma senhora membro.

Além disso, sempre que alguma das obras publicadas pela Theosophical Publishing Company em Londres der lucro, os rendimentos serão dedicados ao serviço da Sociedade.

=Perguntador=

E agora, por favor, conte-me tudo o que puder sobre os Mahatmas.

Tantas coisas absurdas e contraditórias são ditas sobre eles, que não se sabe o que acreditar, e todo tipo de histórias ridículas se tornam correntes.

=Teosofista=

Bem pode chamá-las de "ridículas"!

XIV.

=OS "MAHATMAS TEOSÓFICOS."=

=SÃO ELES "ESPÍRITOS DE LUZ" OU "DUENDES MALDITOS"?=

=Perguntador=

Quem são eles, afinal, aqueles a quem vocês chamam de "Mestres"? Alguns dizem que são "Espíritos" ou algum outro tipo de seres sobrenaturais, enquanto outros os chamam de "mitos".

=Teosofista=

Eles não são nem uma coisa nem outra.

Certa vez, ouvi um leigo dizer a outro que eles eram uma espécie de _sereias machos_, seja lá o que essa criatura possa ser. Mas se vocês ouvirem o que as pessoas dizem, nunca terão uma concepção verdadeira deles.

Em primeiro lugar, eles são _homens vivos_, nascidos como nós nascemos e condenados a morrer como qualquer outro mortal.

=Perguntador=

Sim, mas há rumores de que alguns deles têm mil anos de idade.

Isso é verdade?

=Teosofista=

Tão verdadeiro quanto o crescimento milagroso de cabelo na cabeça do Shagpat de Meredith.

Verdadeiramente, como o "Idêntico", nenhuma barbearia teosófica conseguiu até agora cortá-lo. Quanto mais os negamos, mais tentamos corrigir as pessoas, mais absurdas se tornam as invenções.

Já ouvi falar de Matusalém, que viveu 969 anos; mas, não sendo obrigado a acreditar nisso, ri da afirmação, e por isso fui imediatamente considerado por muitos como um herege blasfemo.

=Perguntador=

Seriamente, porém, eles vivem mais do que a idade comum dos homens?

=Teosofista=

O que vocês chamam de idade comum? Lembro-me de ler no _Lancet_ sobre um mexicano que tinha quase 190 anos; mas nunca ouvi falar de um homem mortal, leigo ou Adepto, que pudesse viver nem metade dos anos concedidos a Matusalém.

Alguns Adeptos excedem, e muito, o que vocês chamariam de idade comum; no entanto, não há nada de milagroso nisso, e pouquíssimos deles se importam em viver muito tempo.

=Perguntador=

Mas o que a palavra "Mahatma" realmente significa?

=Teosofista=

Simplesmente uma "grande alma", grande pela elevação moral e pela realização intelectual.

Se o título de grande é dado a um soldado bêbado como Alexandre, por que não deveríamos chamar de "Grandes" aqueles que alcançaram conquistas muito maiores nos segredos da Natureza do que Alexandre jamais alcançou no campo de batalha? Além disso, o termo é indiano e muito antigo.

=Perguntador=

E por que vocês os chamam de "Mestres"?

=Teosofista=

Nós os chamamos de "Mestres" porque são nossos professores; e porque deles derivamos todas as verdades teosóficas, por mais inadequadas que alguns de nós as tenham expressado, e outros compreendido.

Eles são homens de grande saber, que chamamos de Iniciados, e de santidade de vida ainda maior.

=Perguntador=

Mas não é egoísmo isolarem-se assim?

=Teosofista=

Onde está o egoísmo? Não prova o destino da Sociedade Teosófica suficientemente que o mundo não está pronto para reconhecê-los nem para se beneficiar de seus ensinamentos? De que serviria o Professor Clerk Maxwell para instruir uma classe de meninos na tabuada? Além disso, eles se isolam apenas do Ocidente.

Em seu próprio país, eles circulam publicamente como qualquer outra pessoa.

=Perguntador=

Vocês não lhes atribuem poderes sobrenaturais?

=Teosofista=

Não acreditamos em nada sobrenatural, como já lhe disse.

Se Edison tivesse vivido e inventado seu fonógrafo duzentos anos atrás, muito provavelmente teria sido queimado junto com ele, e tudo teria sido atribuído ao diabo. Os poderes que eles exercem são simplesmente o desenvolvimento de potências latentes em todo homem e mulher, cuja existência até a ciência oficial começa a reconhecer.

=Perguntador=

É verdade que esses homens _inspiram_ alguns de seus escritores, e que muitas, se não todas, as suas obras teosóficas foram escritas sob o ditado deles?

=Teosofista=

Algumas foram.

Há passagens inteiramente ditadas por eles e _verbatim_, mas na maioria dos casos eles apenas inspiram as ideias e deixam a forma literária para os escritores.

=Perguntador=

Mas isso em si é milagroso; é, na verdade, um _milagre_. Como podem fazer isso?

=Teosofista=

Meu caro senhor, está sob um grande equívoco, e é a própria ciência que refutará seus argumentos em um futuro não distante.

Por que haveria de ser um "milagre", como o senhor o chama? Supõe-se que um milagre signifique alguma operação sobrenatural, enquanto na realidade não há nada acima ou além da NATUREZA e das leis da Natureza.

Entre as muitas formas de "milagre" que já caíram sob o reconhecimento científico moderno, está o Hipnotismo, e uma fase de seu poder é conhecida como "Sugestão", uma forma de transferência de pensamento, que tem sido usada com sucesso no combate a doenças físicas específicas, etc.

Não está longe o tempo em que o Mundo da Ciência será forçado a reconhecer que existe tanta interação entre uma mente e outra, não importa a distância, quanto entre um corpo e outro em contato mais próximo.

Quando duas mentes estão simpaticamente relacionadas, e os instrumentos através dos quais funcionam estão afinados para responder magnética e eletricamente uma à outra, nada impedirá a transmissão de pensamentos de uma para a outra, à vontade; pois, uma vez que a mente não é de natureza tangível, e a distância não pode dividi-la do objeto de sua contemplação, segue-se que a única diferença que pode existir entre duas mentes é uma diferença de ESTADO.

Portanto, se este último obstáculo for superado, onde está o “milagre” da _transmissão de pensamento_, a qualquer distância?

=Perguntador=

Mas admitirá que o Hipnotismo não faz nada tão milagroso ou maravilhoso quanto isso?

=Teosofista=

Pelo contrário, é um fato bem estabelecido que um Hipnotizador pode afetar o cérebro de seu sujeito a ponto de produzir uma expressão de seus próprios pensamentos, e até mesmo suas palavras, através do organismo de seu sujeito; e embora os fenômenos ligados a este método de transmissão real de pensamento sejam ainda poucos em número, ninguém, presumo, se disporá a dizer até onde sua ação pode se estender no futuro, quando as leis que regem sua produção forem mais cientificamente estabelecidas.

E assim, se tais resultados podem ser produzidos pelo conhecimento dos meros rudimentos do Hipnotismo, o que pode impedir o Adepto em poderes Psíquicos e Espirituais de produzir resultados que, com seu atual conhecimento limitado de suas leis, você tende a chamar de “milagrosos”?

=Perguntador=

Então por que nossos médicos não experimentam e tentam ver se não poderiam fazer o mesmo?[56]

=Teosofista=

Porque, em primeiro lugar, eles não são Adeptos com um entendimento completo dos segredos e leis dos reinos psíquico e espiritual, mas materialistas, com medo de sair do estreito sulco da matéria; e, em segundo lugar, porque _devem falhar_ no presente, e de fato até que sejam levados a reconhecer que tais poderes são alcançáveis.

=Perguntador=

E eles poderiam ser ensinados?

=Teosofista=

Não, a menos que fossem primeiramente preparados, tendo a escória materialista que acumularam em seus cérebros varrida até o último átomo.

=Perguntador=

Isto é muito interessante.

Diga-me, os Adeptos assim inspiraram ou ditaram a muitos de seus Teosofistas?

=Teosofista=

Não, pelo contrário, a muito poucos.

Tais operações exigem condições especiais.

Um Adepto inescrupuloso, porém habilidoso, da Irmandade Negra (“Irmãos da Sombra”, e Dugpas, como os chamamos) tem dificuldades muito menores sob as quais laborar.

Pois, não tendo leis de ordem espiritual que restrinjam suas ações, tal “feiticeiro” Dugpa obterá, da maneira mais descerimoniosa, controle sobre qualquer mente, subjugando-a inteiramente aos seus poderes malignos.

Mas nossos Mestres jamais farão isso.

Eles não têm o direito, exceto caindo na Magia Negra, de obter domínio pleno sobre o Ego imortal de alguém, e podem, portanto, agir apenas sobre a natureza física e psíquica do sujeito, deixando assim o livre-arbítrio deste totalmente intocado.

Por isso, a menos que uma pessoa tenha sido trazida a uma relação psíquica com os Mestres, e seja assistida em virtude de sua plena fé e devoção aos seus Instrutores, estes últimos, ao transmitirem seus pensamentos a alguém com quem essas condições não são cumpridas, encontram grandes dificuldades em penetrar no caos nebuloso da esfera dessa pessoa.

Mas este não é o lugar para tratar de um assunto dessa natureza.

Basta dizer que, se o poder existe, então há Inteligências (encarnadas ou desencarnadas) que guiam esse poder, e instrumentos vivos e conscientes por meio dos quais ele é transmitido e pelos quais é recebido.

Temos apenas que nos acautelar contra a magia _negra_.

=Perguntador=

Mas o que você realmente quer dizer com “magia negra”?

=Teosofista=

Simplesmente _abuso dos poderes psíquicos_, ou de qualquer _segredo da natureza_; o fato de aplicar a fins egoístas e pecaminosos os poderes do Ocultismo.

Um hipnotizador que, valendo-se de seus poderes de “sugestão”, força um sujeito a roubar ou matar, seria chamado de _mago negro_ por nós. O famoso “sistema rejuvenescedor” do Dr. Brown-Sequard, de Paris, através de uma repugnante _injeção animal_ no sangue humano — uma descoberta que todos os jornais médicos da Europa agora discutem —, se verdadeiro, é _magia negra inconsciente_.

=Perguntador=

Mas isso é crença medieval em bruxaria e feitiçaria! Até a própria Lei deixou de acreditar em tais coisas?

=Teosofista=

Tanto pior para a lei, pois foi levada, por tal falta de discernimento, a cometer mais de um erro judiciário e crime.

É apenas o termo que o assusta, com seu anel “supersticioso”. Não puniria a lei um abuso dos poderes hipnóticos, como acabei de mencionar? Não; ela já o puniu na França e na Alemanha; no entanto, negaria indignadamente que aplicou punição a um crime de evidente _feitiçaria_. Não se pode acreditar na eficácia e realidade dos _poderes de sugestão_ por médicos e mesmeristas (ou hipnotizadores), e então recusar-se a acreditar nos mesmos poderes quando usados com motivos malignos.

E se o fizer, então acredita em _Feitiçaria_. Não se pode acreditar no bem e desacreditar no mal, aceitar dinheiro genuíno e recusar-se a admitir a existência de moeda falsa.

Nada pode existir sem seu contraste, e nenhum dia, nenhuma luz, nenhum bem poderia ter qualquer representação como tal em sua consciência, se não houvesse noite, escuridão nem mal para contrabalançá-los e contrastá-los.

=Perguntador=

De fato, conheci homens que, embora acreditassem plenamente naquilo que chamais de grandes poderes psíquicos, ou mágicos, riam da mera menção de Bruxaria e Feitiçaria.

=Teosofista=

O que isso prova? Simplesmente que são ilógicos.

Tanto pior para eles, novamente.

E nós, sabendo como sabemos da existência de Adeptos bons e santos, acreditamos tão plenamente na existência de Adeptos maus e profanos, ou—Dugpas.

=Perguntador=

Mas se os Mestres existem, por que não se apresentam diante de todos os homens e refutam de uma vez por todas as muitas acusações que são feitas contra a Sra.

Blavatsky e a Sociedade?

=Teosofista=

Que acusações?

=Perguntador=

Que _eles_ não existem, e que ela os inventou.

Que são homens de palha, “Mahatmas de musselina e bexigas.” Não prejudica isso sua reputação?

=Teosofista=

De que maneira tal acusação pode prejudicá-la na realidade? Ela alguma vez ganhou dinheiro com sua suposta existência, ou obteve benefício, ou fama, disso? Respondo que ela só ganhou insultos, abusos e calúnias, que teriam sido muito dolorosos se ela não tivesse aprendido há muito tempo a permanecer perfeitamente indiferente a tais falsas acusações.

Pois o que isso significa, afinal? Ora, um _elogio implícito_, que, se os tolos, seus acusadores, não fossem levados por seu ódio cego, teriam pensado duas vezes antes de proferir.

Dizer que ela inventou os Mestres equivale a isto: Ela deve ter inventado toda a filosofia que já foi transmitida na literatura teosófica.

Ela deve ser a autora das cartas das quais foi escrito "Budismo Esotérico"; a única inventora de cada doutrina encontrada na "Doutrina Secreta", que, se o mundo fosse justo, seria reconhecida como supridora de muitos dos elos perdidos da ciência, como será descoberto daqui a cem anos.

Ao dizerem o que dizem, também lhe atribuem o mérito de ser muito mais inteligente do que centenas de homens (muitos _muito_ inteligentes e não poucos homens de ciência) que acreditam no que ela diz — na medida em que ela deve tê-los enganado a todos! Se falam a verdade, então ela deve ser vários Mahatmas reunidos em um só, como uma caixa de bonecas russas; pois entre as chamadas "cartas dos Mahatmas" há muitas em estilos totalmente diferentes e distintos, todas as quais seus acusadores declaram que ela escreveu.

=Perguntador=

É exatamente o que eles dizem.

Mas não é muito doloroso para ela ser publicamente denunciada como "a mais consumada impostora da época, cujo nome merece passar à posteridade", como é feito no Relatório da "Sociedade de Pesquisas Psíquicas"?

=Teosofista=

Poderia ser doloroso se fosse verdade, ou se viesse de pessoas menos rabidamente materialistas e preconceituosas.

Como está, pessoalmente ela trata todo o assunto com desprezo, enquanto os Mahatmas simplesmente riem disso. Em verdade, é o maior elogio que lhe poderiam ter feito.

Digo-o novamente.

=Perguntador=

Mas seus inimigos afirmam ter provado o seu caso.

=Teosofista=

Sim, é fácil fazer tal afirmação quando você se constituiu juiz, júri e promotor ao mesmo tempo, como eles fizeram.

Mas quem, exceto seus seguidores diretos e nossos inimigos, acredita nisso?

=Perguntador=

Mas eles enviaram um representante à Índia para investigar o assunto, não enviaram?

=Teosofista=

Enviaram, e sua conclusão final repousa inteiramente sobre as declarações não verificadas e afirmações não confirmadas deste jovem cavalheiro.

Um advogado que leu seu relatório de ponta a ponta disse a um amigo meu que em toda a sua experiência nunca tinha visto "um documento tão _ridículo_ e auto-condenatório". Descobriu-se que estava cheio de suposições e "hipóteses de _trabalho_" que mutuamente se destroem.

É esta uma acusação séria?

=Perguntador=

No entanto, causou grande dano à Sociedade.

Por que, então, ela não reivindicou sua própria reputação, ao menos, perante um Tribunal de Justiça?

=Teosofista=

Primeiro, porque como teosofista, é seu dever ignorar todos os insultos pessoais.

Segundo, porque nem a Sociedade nem a Sra. Blavatsky tinham dinheiro para gastar em tal processo judicial.

E, por último, porque teria sido ridículo para ambas traírem seus princípios, por causa de um ataque feito contra elas por um bando de velhos carneiros britânicos estúpidos, que foram levados a investir contra elas por um cordeirinho excessivamente brincalhão da Austrália.

=Perguntador=

Isso é elogioso.

Mas você não acha que teria feito um bem real à causa da Teosofia, se ela tivesse refutado autoritariamente toda a coisa de uma vez por todas?

=Teosofista=

Talvez.

Mas você acredita que algum júri ou juiz inglês teria jamais admitido a realidade dos fenômenos psíquicos, mesmo que inteiramente imparcial de antemão? E quando você lembra que eles já teriam sido postos contra nós pelo susto do "Espião Russo", a acusação de _Ateísmo e infidelidade_, e todas as outras calúnias que foram espalhadas contra nós, você não pode deixar de ver que tal tentativa de obter justiça em um Tribunal de Justiça teria sido pior que infrutífera! Tudo isso os Pesquisadores Psíquicos sabiam bem, e eles tiraram uma vantagem baixa e mesquinha de sua posição para se erguerem acima de nossas cabeças e se salvarem às nossas custas.

=Perguntador=

A S.P.R. agora nega completamente a existência dos Mahatmas.

Eles dizem que do início ao fim foram um romance que Madame Blavatsky teceu de seu próprio cérebro?

=Teosofista=

Bem, ela poderia ter feito muitas coisas menos inteligentes do que isso.

De qualquer forma, não temos a menor objeção a essa teoria.

Como ela sempre diz agora, ela quase prefere que as pessoas não acreditem nos Mestres.

Ela declara abertamente que preferiria que as pessoas pensassem seriamente que a única Mahatmalândia é a massa cinzenta de seu cérebro, e que, em suma, ela os evoluiu das profundezas de sua própria consciência interior, do que ver seus nomes e grande ideal tão infamemente profanados como estão atualmente.

No início, ela costumava protestar indignadamente contra quaisquer dúvidas quanto à existência deles.

Agora ela nunca sai do seu caminho para provar ou refutar isso. Que as pessoas pensem o que quiserem.

=Perguntador=

Mas, é claro, esses Mestres _existem_?

=Teosofista=

Afirmamos _que existem_. No entanto, isso não ajuda muito.

Muitas pessoas, até mesmo alguns teósofos e ex-teósofos, dizem que nunca tiveram qualquer prova de sua existência.

Muito bem; então Mme.

Blavatsky responde com esta alternativa: — Se ela os inventou, então também inventou sua filosofia e o conhecimento prático que alguns poucos adquiriram; e, se assim for, que importa se eles existem ou não, já que ela mesma está aqui, e _sua própria existência_, de qualquer forma, dificilmente pode ser negada? Se o conhecimento que se supõe ter sido transmitido por eles é intrinsecamente bom, e é aceito como tal por muitas pessoas de inteligência acima da média, por que deveria haver tamanho _alvoroço_ em torno dessa questão? O fato de ela ser uma impostora _nunca foi provado_, e permanecerá sempre _sub judice_; ao passo que é um fato certo e inegável que, por quem quer que tenha sido inventada, a filosofia pregada pelos "Mestres" é uma das mais grandiosas e benéficas filosofias, uma vez que seja devidamente compreendida.

Assim, os difamadores, embora movidos pelos sentimentos mais baixos e mesquinhos — os de ódio, vingança, malícia, vaidade ferida ou ambição decepcionada —, parecem completamente inconscientes de que estão prestando o maior tributo às suas faculdades intelectuais.

Assim seja, se os pobres tolos assim o querem. Realmente, Mme.

Blavatsky não tem a menor objeção a ser representada por seus inimigos como um _tríplice_ Adepto, e um "Mahatma" por acréscimo.

É apenas sua relutância em se apresentar aos próprios olhos como um corvo desfilando com penas de pavão que a obriga, até hoje, a insistir na verdade.

=Perguntador=

Mas, se vocês têm homens tão sábios e bons para guiar a Sociedade, como é que tantos erros foram cometidos?

=Teosofista=

Os Mestres _não_ guiam a Sociedade, nem mesmo os Fundadores; e ninguém jamais afirmou que o fizessem: eles apenas a vigiam e protegem. Isso é amplamente comprovado pelo fato de que nenhum erro conseguiu debilitá-la, e nenhum escândalo interno, nem os ataques mais danosos externos, conseguiram derrubá-la. Os Mestres olham para o futuro, não para o presente, e cada erro é tanto mais sabedoria acumulada para os dias vindouros.

Aquele outro “Mestre” que enviou o homem dos cinco talentos não lhe disse como multiplicá-los, nem impediu o servo tolo de enterrar seu único talento na terra.

Cada um deve adquirir sabedoria por sua própria experiência e méritos.

As Igrejas Cristãs, que reivindicam um “Mestre” muito superior, o próprio Espírito Santo, sempre foram e ainda são culpadas não apenas de “erros”, mas de uma série de crimes sangrentos ao longo dos tempos.

No entanto, nenhum cristão negaria, apesar disso, sua crença nesse “Mestre”, suponho? embora sua existência seja muito mais _hipotética_ do que a dos Mahatmas; pois ninguém jamais viu o Espírito Santo, e _sua_ orientação da Igreja, além disso, é claramente contradita pela própria história eclesiástica deles.

_Errare humanum est._ Voltemos ao nosso assunto.

=O ABUSO DE NOMES E TERMOS SAGRADOS.=

=Perguntador=

Então, o que ouvi, a saber, que muitos de seus escritores teosóficos afirmam ter sido inspirados por esses Mestres, ou tê-los visto e conversado com eles, não é verdade?

=Teosofista=

Pode ser ou não verdade.

Como posso saber? O ônus da prova recai sobre eles.

Alguns deles, poucos—muito poucos, na verdade—distintamente ou _mentiram_ ou estavam alucinados ao se vangloriar de tal inspiração; outros foram verdadeiramente inspirados por grandes Adeptos.

A árvore é conhecida pelos seus frutos; e assim como todos os teosofistas devem ser julgados por seus atos e não pelo que escrevem ou dizem, também _todos_ os livros teosóficos devem ser aceitos por seus méritos, e não de acordo com qualquer pretensão de autoridade que possam apresentar.

=Perguntador=

Mas a Sra. Blavatsky aplicaria isso às suas próprias obras—a _Doutrina Secreta_, por exemplo?

=Teosofista=

Certamente; ela diz expressamente no PREFÁCIO que transmite as doutrinas que aprendeu com os Mestres, mas não reivindica inspiração alguma para o que escreveu recentemente.

Quanto aos nossos melhores teosofistas, eles também prefeririam, neste caso, que os nomes dos Mestres nunca tivessem sido misturados com nossos livros de qualquer forma.

Com poucas exceções, a maioria dessas obras não é apenas imperfeita, mas positivamente errônea e enganosa.

Grandes são as profanações às quais os nomes de dois dos Mestres foram submetidos.

Quase não há médium que não tenha afirmado tê-los visto.

Toda sociedade fraudulenta e enganosa, com fins comerciais, agora afirma ser guiada e dirigida por "Mestres", muitas vezes supostamente muito superiores aos nossos! Muitos e graves são os pecados daqueles que avançaram tais alegações, movidos seja pelo desejo de lucro, vaidade ou mediunidade irresponsável.

Muitas pessoas foram espoliadas de seu dinheiro por tais sociedades, que se oferecem para vender os segredos do poder, do conhecimento e da verdade espiritual por ouro sem valor.

Pior de tudo, os nomes sagrados do Ocultismo e seus santos guardiões foram arrastados para essa lama imunda, poluídos por serem associados a motivos sórdidos e práticas imorais, enquanto milhares de homens foram impedidos do caminho da verdade e da luz através do descrédito e da má reputação que tais farsas, golpes e fraudes trouxeram sobre todo o assunto.

Digo novamente, todo Teosofista sincero lamenta hoje, do fundo de seu coração, que esses nomes e coisas sagradas tenham alguma vez sido mencionados perante o público, e fervorosamente deseja que tivessem sido mantidos em segredo dentro de um pequeno círculo de amigos confiáveis e devotados.

=Perguntador=

Os nomes certamente ocorrem com muita frequência hoje em dia, e nunca me lembro de ter ouvido falar de tais pessoas como "Mestres" até bem recentemente.

=Teosofista=

Assim é; e se tivéssemos agido segundo o sábio princípio do silêncio, em vez de nos precipitarmos para a notoriedade e publicarmos tudo o que sabíamos e ouvíamos, tal profanação nunca teria ocorrido.

Eis que, apenas catorze anos atrás, antes de a Sociedade Teosófica ser fundada, toda a conversa era sobre "Espíritos". Eles estavam em toda parte, na boca de todos; e ninguém, por qualquer chance, sequer sonhava em falar sobre "Adeptos", "Mahatmas" ou "Mestres" vivos. Quase não se ouvia nem mesmo o nome dos Rosacruzes, enquanto a existência de algo como "Ocultismo" era suspeitada apenas por muito poucos.

Agora tudo isso mudou.

Nós, teosofistas, fomos, infelizmente, os primeiros a falar dessas coisas, a tornar conhecido o fato da existência, no Oriente, de "Adeptos" e "Mestres" e do conhecimento oculto; e agora o nome se tornou propriedade comum.

É sobre nós, agora, que o Karma, as consequências da resultante profanação de nomes e coisas sagradas, recaiu.

Tudo o que você encontra hoje sobre tais assuntos na literatura corrente — e não é pouco — tudo remonta ao impulso dado nessa direção pela Sociedade Teosófica e seus Fundadores.

Nossos inimigos lucram até hoje com nosso erro.

O livro mais recente dirigido contra nossos ensinamentos é alegadamente escrito _por um Adepto de vinte anos de prática_. Ora, isso é uma _mentira palpável_. Conhecemos o amanuense e seus _inspiradores_ (pois ele é demasiado ignorante para ter escrito qualquer coisa do tipo). Esses “inspiradores” são pessoas vivas, vingativas e sem escrúpulos na proporção de seus poderes intelectuais; e esses Adeptos _falsos_ não são um, mas vários.

O ciclo de “Adeptos”, usados como marretas para quebrar as cabeças teosóficas, começou há doze anos, com o “Louis” de _Art Magic_ e _Ghost-Land_, da Sra. Emma Hardinge Britten, e agora termina com o “Adepto” e “Autor” de _The Light of Egypt_, uma obra escrita por espiritualistas contra a Teosofia e seus ensinamentos.

Mas é inútil lamentar o que está feito, e só podemos sofrer na esperança de que nossas indiscrições tenham tornado um pouco mais fácil para outros encontrar o caminho até esses Mestres, cujos nomes são agora tomados em vão em toda parte, e sob cuja cobertura tantas iniquidades já foram perpetradas.

=Perguntador=

Você rejeita “Louis” como um Adepto?

=Teosofista=

Não denunciamos ninguém, deixando essa nobre tarefa para nossos inimigos. A autora espiritualista de _Art Magic_, etc., pode ou não ter conhecido tal Adepto — e ao dizer isso, digo muito menos do que essa senhora disse e escreveu sobre nós e sobre a Teosofia nos últimos anos — isso é problema dela. Somente quando, em uma solene cena de visão mística, um suposto “Adepto” vê “espíritos” presumivelmente em Greenwich, Inglaterra, através do telescópio de Lord Rosse, que foi construído em, e nunca removido de, Parsonstown, Irlanda,[57] posso bem ser permitido a me admirar da ignorância desse “Adepto” em questões de ciência. Isso supera todos os erros e enganos cometidos às vezes pelos _chelas_ de nossos Mestres! E é esse “Adepto” que é usado agora para destruir os ensinamentos de nossos Mestres!

=Perguntador=

Compreendo perfeitamente seu sentimento nesse assunto, e acho-o apenas natural.

E agora, em vista de tudo o que você disse e explicou para mim, há um assunto sobre o qual gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

=Teosofista=

Se eu puder respondê-las, o farei.

O que é isso?


[56] Tais como, por exemplo, o Prof. Bernheim e o Dr. C. Lloyd Tuckey, da Inglaterra; os Professores Beaunis e Liégeois, de Nancy; Delbœuf, de Liège; Burot e Bourru, de Rochefort; Fontain e Sigard, de Bordeaux; Forel, de Zurique; e os Drs. Despine, de Marselha; Van Renterghem e Van Eeden, de Amsterdã; Wetterstrand, de Estocolmo; Schrenck-Notzing, de Leipzig, e muitos outros médicos e escritores eminentes.

[57] Ver "Ghost Land", Parte I, p. 133, _et seq._


═════════
=CONCLUSÃO.=
═════════

=O FUTURO DA SOCIEDADE TEOSÓFICA.=

=Perguntador=

Diga-me, o que você espera para a Teosofia no futuro?

=Teosofista=

Se você fala da TEOSOFIA, respondo que, assim como ela existiu eternamente através dos infinitos ciclos sobre ciclos do Passado, assim também existirá sempre através das infinitudes do Futuro, porque Teosofia é sinônimo de VERDADE ETERNA.

=Perguntador=

Perdoe-me; eu quis perguntar-lhe antes sobre as perspectivas da Sociedade Teosófica.

=Teosofista=

Seu futuro dependerá quase inteiramente do grau de altruísmo, seriedade, devoção e, por último, mas não menos importante, da quantidade de conhecimento e sabedoria possuída por aqueles membros sobre os quais recairá a tarefa de dar continuidade ao trabalho e de dirigir a Sociedade após a morte dos Fundadores.

=Perguntador=

Compreendo perfeitamente a importância de serem altruístas e devotados, mas não entendo bem como o _conhecimento_ deles pode ser um fator tão vital na questão quanto essas outras qualidades. Certamente a literatura que já existe, e à qual constantes acréscimos ainda estão sendo feitos, deveria ser suficiente?

=Teosofista=

Não me refiro ao conhecimento técnico da doutrina esotérica, embora isso seja muito importante; falei antes da grande necessidade que nossos sucessores na direção da Sociedade terão de um julgamento imparcial e claro. Toda tentativa como a Sociedade Teosófica até agora terminou em fracasso, porque, mais cedo ou mais tarde, degenerou em uma seita, estabeleceu dogmas rígidos e próprios, e assim perdeu por graus imperceptíveis aquela vitalidade que somente a verdade viva pode transmitir.

Você deve lembrar que todos os nossos membros foram criados e nascidos em algum credo ou religião, que todos são, mais ou menos, de sua geração, tanto física quanto mentalmente, e, consequentemente, que seu julgamento está muito propenso a ser distorcido e inconscientemente influenciado por algumas ou todas essas influências.

Se, então, eles não puderem ser libertados de tal viés inerente, ou ao menos ensinados a reconhecê-lo instantaneamente e assim evitar serem levados por ele, o resultado só pode ser que a Sociedade vá à deriva para algum banco de areia do pensamento ou outro, e ali permaneça como uma carcaça encalhada para apodrecer e morrer.

=Perguntador=

Mas se esse perigo for evitado?

=Teosofista=

Então a Sociedade viverá até e através do século XX.

Ela gradualmente fermentará e permeará a grande massa de pessoas pensantes e inteligentes com suas ideias de mente ampla e nobres sobre Religião, Dever e Filantropia.

Lenta mas seguramente, ela romperá os grilhões de ferro dos credos e dogmas, dos preconceitos sociais e de casta; ela derrubará as antipatias e barreiras raciais e nacionais, e abrirá o caminho para a realização prática da Fraternidade de todos os homens.

Através de seu ensino, através da filosofia que ela tornou acessível e inteligível para a mente moderna, o Ocidente aprenderá a compreender e apreciar o Oriente em seu verdadeiro valor.

Além disso, o desenvolvimento dos poderes e faculdades psíquicos, cujos sintomas premonitórios já são visíveis na América, prosseguirá de maneira saudável e normal.

A humanidade será salva dos terríveis perigos, tanto mentais quanto corporais, que são inevitáveis quando esse desdobramento ocorre, como ameaça ocorrer, em um viveiro de egoísmo e de todas as paixões malignas.

O crescimento mental e psíquico do homem prosseguirá em harmonia com seu aperfeiçoamento moral, enquanto seu ambiente material refletirá a paz e a boa vontade fraternal que reinarão em sua mente, em vez da discórdia e da luta que estão por toda parte aparentes ao nosso redor hoje.

=Perguntador=

Um quadro verdadeiramente encantador! Mas diga-me, você realmente espera que tudo isso seja realizado em um único século curto?

=Teosofista=

Dificilmente.

Mas devo dizer-lhe que durante o último quarto de cada cem anos, uma tentativa é feita por aqueles "Mestres", de quem falei, para ajudar no progresso espiritual da Humanidade de uma maneira marcada e definida.

Ao aproximar-se o fim de cada século, invariavelmente se verá que um derramamento ou agitação de espiritualidade — ou chame-o de misticismo, se preferir — ocorreu.

Uma ou mais pessoas surgiram no mundo como seus agentes, e uma quantidade maior ou menor de conhecimento e ensinamentos ocultos foi divulgada.

Se assim o desejar, pode rastrear esses movimentos, século após século, até onde nossos registros históricos detalhados se estendem.

=Perguntador=

Mas como isso se relaciona com o futuro da Sociedade Teosófica?

=Teosofista=

Se a tentativa atual, na forma de nossa Sociedade, obtiver mais sucesso do que suas predecessoras, então ela existirá como um corpo organizado, vivo e saudável quando chegar o momento do esforço do século XX.

A condição geral das mentes e corações dos homens terá sido melhorada e purificada pela difusão de seus ensinamentos e, como já disse, seus preconceitos e ilusões dogmáticas terão sido, pelo menos em certa medida, removidos.

Não só isso, mas além de uma literatura vasta e acessível pronta nas mãos dos homens, o próximo impulso encontrará um corpo numeroso e _unido_ de pessoas prontas para acolher o novo portador da tocha da Verdade.

Ele encontrará as mentes dos homens preparadas para sua mensagem, uma linguagem pronta para ele na qual revestir as novas verdades que traz, uma organização aguardando sua chegada, que removerá os obstáculos e dificuldades meramente mecânicos e materiais de seu caminho.

Pense em quanto alguém, a quem tal oportunidade é dada, poderia realizar.

Meça isso por comparação com o que a Sociedade Teosófica realmente _tem_ alcançado nos últimos catorze anos, sem _nenhuma_ dessas vantagens e cercada por inúmeros obstáculos que não dificultariam o novo líder.

Considere tudo isso e então me diga se sou demasiado otimista ao afirmar que, se a Sociedade Teosófica sobreviver e permanecer fiel à sua missão, aos seus impulsos originais, pelos próximos cem anos — diga-me, repito, se vou longe demais ao asseverar que a terra será um céu no século XXI em comparação com o que é agora!

FIM.

A United Lodge of Theosophists

DECLARAÇÃO

A política desta Loja é a devoção independente à causa da Teosofia, sem professar apego a qualquer organização teosófica.

É leal aos grandes Fundadores do Movimento Teosófico, mas não se ocupa de dissensões ou diferenças de opinião individual.

O trabalho que tem em mãos e o fim que mantém em vista são absorventes demais e elevados demais para lhe deixar tempo ou inclinação para participar de questões secundárias.

Esse trabalho e esse fim são a disseminação dos Princípios Fundamentais da filosofia da Teosofia e a exemplificação na prática desses princípios, por meio de uma realização mais verdadeira do EU; uma convicção mais profunda da Fraternidade Universal.

Ela sustenta que a inabalável _Base para União_ entre Teosofistas, onde quer e como quer que estejam situados, é "_similaridade de objetivo, propósito e ensino_", e portanto não tem Constituição, Regulamentos nem Diretores, sendo o único vínculo entre seus Associados essa _base_. E ela visa disseminar essa ideia entre Teosofistas no fomento da Unidade.

Ela considera como Teosofistas todos os que estão engajados no verdadeiro serviço da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, condição ou organização, e

Ela acolhe em sua associação todos aqueles que estão de acordo com seus propósitos declarados e que desejam habilitar-se, pelo estudo e de outra forma, a estarem mais aptos a ajudar e ensinar outros.

"_O verdadeiro Teosofista não pertence a nenhum culto ou seita, mas pertence a cada um e a todos._"

                            

Estando em sintonia com os propósitos desta Loja, conforme estabelecidos em sua "Declaração", eu, por meio deste, registro meu desejo de ser inscrito como Associado; ficando entendido que tal associação não exige de mim nenhuma obrigação além daquela que eu mesmo determinar.

O que precede é o Formulário assinado pelos Associados da Loja Unida de Teosofistas.

Convites são feitos a todas as pessoas às quais este Movimento possa apelar.

Cartões para assinatura serão enviados mediante solicitação, e toda assistência possível será fornecida aos Associados em seus estudos e em esforços para formar Lojas locais.

Não há contribuições de qualquer tipo, e nenhuma formalidade a ser cumprida.

_A correspondência deve ser endereçada ao_             Registrador Geral, Loja Unida de Teosofistas                         LOS ANGELES, CALIFÓRNIA           504 Metropolitan Building, Broadway na Quinta Rua

"_Divulgar Amplamente os Ensinamentos da Teosofia, conforme Registrados nos Escritos de H. P. Blavatsky e Wm. Q. Judge._"

=TEOSOFIA=

_Uma Revista dedicada ao Movimento Teosófico, à Fraternidade da Humanidade, ao Estudo da Ciência e Filosofia Oculta, e à Literatura Ariana._

TEOSOFIA é uma Revista Mensal dedicada à divulgação da Teosofia tal como foi dada por aqueles que a trouxeram. Fundada em 1912 pela Loja Unida de Teosofistas, a revista está agora na vanguarda das publicações teosóficas e sua circulação se estende a todos os países civilizados.

Os primeiros oito volumes da revista contêm reimpressões dos numerosos artigos originais escritos por H. P. Blavatsky e William Q. Judge, explicando, exemplificando e aplicando a filosofia registrada em seus livros publicados.

Esses preciosos artigos, repletos de instrução oculta, foram publicados pela primeira vez em _The Theosophist_, _Lucifer_ e _The Path_, há muitos anos esgotados, de modo que seu valor incomparável se perdeu e ficou inacessível aos Estudantes da geração atual.

TEOSOFIA os tornou novamente disponíveis.

Além dessas reimpressões, a revista contém muitos artigos originais escritos por Robert Crosbie e outros devotados Discípulos e Estudantes dos Mensageiros do Movimento Teosófico do século XIX.

Não menos importantes entre os conteúdos da revista são os Estudos dos Ensinamentos, os artigos históricos relativos ao Movimento Teosófico, à Sociedade Teosófica-Mãe, e às muitas organizações e sociedades aliadas e relacionadas dos dias atuais.

Todo o conteúdo da revista é universal em escopo e aplicação, imparcial em tratamento e livre de influência sectária ou partidária.

A fim de preservar em todos os momentos a impessoalidade de seu tom, e para que os leitores possam formar seu julgamento a partir do valor inerente percebido nos artigos e não dos nomes a eles assinados, os Editores e Colaboradores permanecem anônimos, não sendo mencionado o nome de nenhuma pessoa viva em conexão com a autoria de qualquer artigo publicado.

VOLUMES ATRASADOS e Números Atrasados podem ser fornecidos a US$ 5,00 por Volume e 50 centavos por Número.

ASSINATURAS podem começar com qualquer Número desejado do Volume corrente.

Preço da assinatura: US$ 2,00 por ano; exemplares avulsos 25 centavos cada.

Envie todas as comunicações e remessas para

=Theosophy, Metropolitan Bldg., Los Angeles, Cal.=

Estudantes interessados em obter uma compreensão clara e correta dos Ensinamentos reais da TEOSOFIA, conforme registrados nos escritos dos Mensageiros do Movimento Teosófico do século XIX ou em escritos recomendados por Eles, devem ter os seguintes livros.

KEY TO THEOSOPHY, _Por_ H. P. BLAVATSKY,                        $2.      Uma Exposição em forma de perguntas e respostas.

O      melhor Manual para estudo diário e referência.

Uma _reimpressão_      literal da Edição Original.

Tipo grande, encadernado de forma durável e      artística em Buckram.

THE OCEAN OF THEOSOPHY, _Por_ WILLIAM Q. JUDGE,                 $1.      Uma apresentação sucinta da filosofia, livre de      expressões técnicas; uma condensação perfeita das      Doutrinas Secretas do Homem e da Natureza.

Tecido.

THE OCCULT WORLD   ESOTERIC BUDDHISM  _Por_ A. P. SINNETT,                 _Cada_, $2.      As duas primeiras apresentações populares dos Ensinamentos      Teosóficos, contendo extratos de Cartas escritas pelo      _Mahatma_ K. H. A partir das matrizes das Edições Americanas      Originais.

Tecido.

ISIS UNVEILED, Dois Volumes, _Por_ H. P. BLAVATSKY,             $10.      Volume I, Ciência; Volume II, Teologia.

Uma reimpressão da Edição Original de 1877. Esta, a      primeira grande obra de H. P. B., contém uma vasta riqueza      de informações e instruções que não podem ser encontradas em      outro lugar.

Tecido.

THE SECRET DOCTRINE, Dois Volumes, _Por_ H. P. BLAVATSKY,       $15.      Volume I, Cosmogênese; Volume II, Antropogênese.

A Edição Original, publicada em 1888, está agora      esgotada.

Esta Edição, publicada em Londres, contém algumas      alterações injustificáveis, mas é no geral precisa e é a      única disponível.

Escrita "_para a instrução      de estudantes de Ocultismo_," é _sui generis_ e      absolutamente inestimável para o verdadeiro estudante dos      mistérios da Vida e do Ser.

Tecido.

ABRIDGMENT OF THE SECRET DOCTRINE, _Por_ KATHERINE HILLARD,     $3.      Uma condensação muito boa dos principais ensinamentos da      "Doutrina Secreta" de Madame Blavatsky, na linguagem da      Autora.

Tecido.

THEOSOPHICAL GLOSSARY, _Por_ H. P. BLAVATSKY,                   $5.      Uma reimpressão da Edição Original, contendo um tratamento      exaustivo e erudito do Sânscrito e de outros termos técnicos      empregados na literatura teosófica.

Tecido.

AQUELES que consideram os Ensinamentos da Teosofia abrangentes, autoexplicativos e uma solução completa para todos os problemas da Vida, do ponto de vista filosófico, lógico e científico, e que desejam seguir o Caminho indicado para realizar em si mesmos e para si mesmos o nobre Ideal de Fraternidade exemplificado pelos MESTRES DE SABEDORIA, são instados a ler, ponderar e assimilar, na medida do possível, os seguintes Tratados sobre a _Doutrina do Coração_:

A VOZ DO SILÊNCIO.

Fragmentos Escolhidos do Livro dos Preceitos Dourados.

Traduzido e anotado por H. P. Blavatsky.

Couro, $1.                                                 Tecido, $1.

O BHAGAVAD-GITA, O Livro da Devoção.

Contendo o Diálogo entre _Krishna_, o Supremo Mestre da Devoção, e _Arjuna_, seu Discípulo.

Traduzido em termos paralelos primorosos para a língua inglesa por William Q. Judge.

Couro, $1.                                                Tecido, $1.

NOTAS SOBRE O BHAGAVAD-GITA.

Comentários de grande utilidade para os estudantes sinceros de hoje.

Os primeiros sete capítulos por W. Q. Judge; o restante por seu amigo e colega Robert Crosbie.

Couro, $1.

AFORISMOS DE YOGA DE PATANJALI.

O _Pensamento_ deste Antigo Mestre, cujos Aforismos têm sido o guia dos Discípulos no Oriente por inúmeros milhares de anos.

Traduzido para termos ingleses com Notas, por William Q. Judge.

Couro, $1.                                                Tecido, $1.

LUZ NO CAMINHO.

Um tratado para uso pessoal daqueles que ignoram a Sabedoria Oriental e que desejam entrar em sua Influência.

Uma reimpressão exata da Edição Original de 1885, juntamente com os Comentários originalmente publicados em _Lucifer_. Escrito por M. C.                                               Couro, $1.                                                Tecido, $1.

CARTAS QUE ME AJUDARAM. Cartas reais, de William Q. Judge, contendo Lições e Orientação de valor pessoal direto para cada Estudante e Discípulo.

Volume I, Tecido, $1.                                     Volume II, Tecido, $1.      Os Dois Volumes Encadernados em Um,             Tecido, $1.

A VOZ DO SILÊNCIO, O BHAGAVAD-GITA E OS AFORISMOS DE IOGA DE PATANJALI, Reunidos em Um Volume, Couro, 3.

PAIS e outros interessados no bem-estar Espiritual e Moral das Crianças e avessos aos dogmas sectários e falsas ideias prevalecentes sob o nome de ensinamentos religiosos, há muito sentem a necessidade de literatura que transmita verdadeiras concepções fundamentais da Natureza, da Vida e do Dever à geração em crescimento.

Como parte de suas atividades fraternais, a Loja Unida de Teosofistas mantém há muito tempo uma _Escola de Teosofia para Crianças_. A esta Escola vêm crianças de todas as idades, Teosofistas e Não-TEOSOFISTAS quanto à ascendência.

Elas são ensinadas as verdades primárias comuns a todas as religiões e filosofias, tratando do Nascimento, da Vida, da Morte, da Lei, da Ação e do Dever.

As Verdades Eternas assim inculcadas promovem uma felicidade e um bem-estar físicos, mentais, morais e espirituais limpos, robustos e salutares.

A experiência assim adquirida na prática real foi incorporada em dois livros, nos quais as lições e instruções consideradas úteis e formadoras do mais alto caráter são clara e distintamente delineadas, com todas as sugestões e direções necessárias para capacitar Pais, Professores e outros a se prepararem para melhor ajudar e guiar as mentes plásticas das Crianças para verdadeiras percepções da Vida e da Ação.

PORQUE—PARA AS CRIANÇAS QUE PERGUNTAM POR QUÊ.

De maneira interessante, compreensível e assimilável, em estilo claro e reverente, este Livro apresenta às Crianças as respostas àquelas questões do Eu que os Pais acham mais difíceis de enfrentar, e oferece uma base comum de entendimento entre Pai e Filho.

Tecido, $1.

AS VERDADES ETERNAS.

Uma Série de Lições sobre verdades e ideias básicas, com gráfico e programa completos, para que seu pleno valor possa ser aproveitado na instrução de Crianças de todas as idades, seja na Escola ou no Lar.

Canções Originais, Cânticos, Música, Alegorias e Contos de Simbolismo, de maneira não apenas a interessar, mas a levar as Lições aos Corações e Mentes dos Aprendizes.

Tecido, $1.

A fim de, ainda, proporcionar o máximo de assistência possível aos Pais e outros interessados na educação adequada das Crianças, a United Lodge of Theosophists mantém um Bureau de Correspondência ao qual podem ser endereçados problemas particulares relacionados à criação de filhos.

As respostas às consultas são, em todos os casos, dadas por Associadas da Loja que são elas próprias Mães e Professoras e que voluntária e alegremente dedicam seu tempo e experiência para beneficiar suas irmãs perplexas.

Não há taxas ou cobranças de qualquer espécie em conexão com este trabalho de amor, e todas as Mães e Professoras são convidadas a dele se beneficiar. Endereço:

=CHILDREN’S SCHOOL OF THEOSOPHY=                         LOS ANGELES, CALIFORNIA           504 Metropolitan Building, Broadway at Fifth Street

NÃO EXISTE trabalho mais importante para o Estudante de Teosofia do que estar em posição de direcionar os inquiridores a canais onde possam informar-se sobre os Princípios fundamentais dos ensinamentos da TEOSOFIA em seus aspectos filosóficos, éticos e científicos.

Os seguintes são recomendados por sua exatidão precisa, sua simplicidade e clareza na apresentação da Religião-Sabedoria.

ECHOES FROM THE ORIENT, _Por_ WILLIAM Q. JUDGE.

Uma Série de Capítulos escritos no mais admirável        estilo, apresentando um esboço da Teosofia e do        Movimento Teosófico, e tratando dos grandes        Assuntos dos Mestres, Karma, Reencarnação e        Evolução.

Encadernado,   $0.                                                       Brochura,     .

CONVERSATIONS ON THEOSOPHY.

Um Panfleto apresentando        os ensinamentos fundamentais da Doutrina Secreta.

Dos escritos de H. P. Blavatsky e William Q.        Judge.

Brochura, tamanho envelope,   .          Em quantidades para fins de propaganda, 50 cópias por   2.

KARMA AND RE-INCARNATION.

Um panfleto grande e        atrativamente encadernado, tamanho envelope, contendo os famosos        _Aforismos sobre Karma_, e um tratamento notavelmente claro e        abrangente dos assuntos de Karma e        Reencarnação.

.          Em quantidades para fins de propaganda,   50 cópias por 4.

CULTURE OF CONCENTRATION, And OF OCCULT POWERS.

Dois Ensaios relacionados de William Q. Judge sobre assuntos        de importância suprema.

.

EXTRATOS DE UMA CARTA QUE ME AJUDOU. Sendo uma declaração do _Evangelho da Esperança e da Responsabilidade_. Esta Carta trouxe consolação e o conforto do entendimento a muitos a respeito do Grande Mistério.

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PENSAMENTOS PARA PENSADORES.

Um Panfleto destinado ao "homem comum", que é frequentemente um filósofo prático de mente aberta e um pensador de primeira linha.

Estes PENSAMENTOS são não dogmáticos, não argumentativos e muito sugestivos.

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Os livros acima mencionados e outros anunciados nas páginas precedentes podem ser obtidos sob encomenda através do seu livreiro local, ou os pedidos podem ser enviados diretamente ao abaixo-assinado.

Convites são feitos para consultas sobre quaisquer Livros e Publicações Teosóficas não especificamente mencionados aqui.

Correspondência e perguntas também são convidadas sobre problemas e assuntos teosóficos de todos os interessados.

_Dirija todos os pedidos e consultas                   e faça todos os pagamentos pagáveis a_

UNITED LODGE OF THEOSOPHISTS

LOS ANGELES, CALIFÓRNIA

Metropolitan Building, Broadway na Quinta Rua
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=NOTAS DO TRANSCRITOR=
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As instruções de formatação desta edição estão reunidas abaixo, ao final do livro.

Sublinhados "_" antes e depois de uma palavra ou frase indicam _itálico_ no texto original.

Sinais de igual "=" antes e depois de uma palavra ou frase indicam =negrito= no texto original.

Pequenas maiúsculas foram convertidas em maiúsculas SÓLIDAS.

Erros tipográficos foram corrigidos silenciosamente, mas outras variações na ortografia e pontuação permanecem inalteradas.

O título na página 188 foi alterado de “ON SELF-RELIANCE” para “ON SELF-SACRIFICE”, para concordar com o Índice e com o assunto da seção.
